Meu Anjo

“Meu anjo tem o encanto, a maravilha
Da espontânea canção dos passarinhos;
Tem os seios tão alvos, tão macios
Como o pêlo sedoso dos arminhos.

Triste de noite na janela a vejo
E de seus lábios o gemido escuto
É leve a criatura vaporosa
Como a frouxa fumaça de um charuto.

Parece até que sobre a fronte angélica
Um anjo lhe depôs coroa e nimbo...
Formosa a vejo assim entre meus sonhos
Mais bela no vapor do meu cachimbo.

Como o vinho espanhol, um beijo dela
Entorna ao sangue a luz do paraíso.
Dá morte num desdém, num beijo vida,
E celestes desmaios num sorriso!

Mas quis a minha sina que seu peito
Não batesse por mim nem um minuto,
E que ela fosse leviana e bela
Como a leve fumaça de um charuto!”
Álvares de Azevedo

Sagarana

“O grande êxito de Sagarana, do dr. J. Guimarães Rosa, não deixa de se prender às relações do público ledor com o problema do regionalismo e do nacionalismo literário. Há cerca de trinta anos, quando a literatura regionalista veio para a ribalta, gloriosa, avassaladora, passávamos um momento de extremo federalismo. Na intelligentzia, portanto, o patriotismo se afirmou como reação de unidade nacional. A Pátria, com pê sempre maiúsculo, latejou descompassadamente, e os escritores regionais eram procurados como afirmação nativista. Foi o tempo em que todo jovem promotor ou delegado, despachado para as cidadezinhas do interior, voltava com um volume de contos ou uma novela sertaneja, quase sempre lembrança de cenas, fatos e pessoas cujo pitoresco lhes assanhava a sensibilidade litorânea de nascimento ou educação.

A reviravolta econômica nos grandes Estados, subseqüente à crise de 1929, alterou os termos de equação política, e a descentralização federalista, depois de alguns protestos nem sempre platônicos, foi cedendo passo à nova fase centralizadora, exigida quase pelo desenvolvimento da indústria. Processo cuja aberração foi o Estado Novo, assim como a constituição castilhista tinha sido a aberração do processo anterior.

Para compensar - como às vezes acontece -, a intelligentzia se virou para o bairrismo. Antes, quando a palavra de ordem política e o sentimento geral eram provincianos, foi chique ser nacionalista, e o porta-voz mais característico da tendência foi Olavo Bilac. Agora, que as forças unitárias predominam e já se vai generalizando um certo sentimento de todo - deste todo de repente vivo e existente por meio do rádio e do aeroplano -, agora a moda é ser bairrista, e o porta-voz mais autorizado da tendência é o sr. Gilberto Freyre, pai da voga atual da palavra "província". Todos falam na sua província, nas suas tradições etc etc, embora a maioria prefira fazer como seu Rui da canção, isto é, ela lá e eu aqui. Quando chega ao Rio, o jovem intelectual não mais se esforça por mudar a pronúncia e parecer familiarizado com a cidade; capricha o sotaque e escreve imediatamente sobre a negra velha que (diz ele) o criou, falando dos avós da pequena terra em ue nasceu etc. O maior elogio do dia é "sabor da terra", traduzindo do " francês, já se vê, e a maior ofensa dizer a um escritor que ele não tem raízes.

Natural, em meio semelhante, o alvoroço causado pelo sr. Guimarães Rosa, cujo livro vem cheio de "terra", fazendo arregalar os olhos aos intelectuais que não tiveram a sorte de morar ou nascer no interior (digo, na "província" ) ou aos que, tendo nela nascido, nunca souberam do nome da árvore grande do largo da igreja, coisa bem brasileira. Seguro do seu feito, o sr. Guimarães Rosa despeja nomes de tudo - plantas, bichos, passarinhos, lugares, modas - enrolados em locuções e construções de humilhar os citadinos. "Irra, que é talento demais", como o deputado português, mal comparando.

Mas Sagarana não vale apenas na medida em que nos traz um certo sabor regional, mas na medida em que constrói um certo sabor regional, isto é, em que transcende a região. A província do sr. Guimarães Rosa - no caso, Minas - é menos uma região do Brasil do que uma região da arte, com detalhes e locuções e vocabulário e geografia cosidos de maneira por vezes irreal, tamanha é a concentração com que trabalha o autor. Assim, veremos, numa conversa, os interlocutores gastarem meia dúzia de provérbios e outras tantas parábolas como se alguém falasse no mundo deste jeito. Ou, de outra vez, paisagens tão cheias de plantas, flores e passarinhos cujo nome o autor colecionou, que somos mesmo capazes de pensar que na região do sr. Guimarães Rosa o sistema fito-zoológico obedece ao critério da Arca de Noé. Por isso, sustento, e sustentarei mesmo que provem o meu erro, que Sagarana não é um livro regional como os outros, porque não existe região alguma igual à sua, criada livremente pelo autor com elementos caçados analiticamente e, depois, sintetizados na ecologia belíssima das suas histórias.

Transcendendo o critério regional por meio de uma condensação do material observado (condensação mais forte do que qualquer outra em nossa literatura da "terra"), o sr. Guimarães Rosa como que iluminou, de repente, todo o caminho feito pelos antecessores. Sagarana significa, entre outras coisas, a volta triunfal do regionalismo do Centro. Volta o coroamento. De Bernardo Guimarães a ele, passando por Afonso Arinos, Valdomiro Silveira, Monteiro Lobato, Amadeu de Queirós, Hugo de Carvalho Ramos, assistimos a um longo movimento de tomada de consciência, através da exploração do meio humano e geográfico. É a fase do pitoresco e do narrativo, do regionalismo "entre aspas", se dão licença de citar uma expressão minha em artigo recente. Fase ultrapassada, cujos produtos envelheceram rapidamente, talvez à força de copiados e dessorados pelos minores. Fase, precisamente, em que os escritores trouxeram a região até o leitor, conservando, eles próprios, atitude de sujeito e objeto. O sr. Guimarães Rosa construiu um regionalismo muito mais autêntico e duradouro, porque criou uma experiência total em que o pitoresco e o exótico são animados pela graça de um movimento interior em que se desfazem as relações de sujeito e objeto pára ficar a obra de arte como integração total de experiência.
Sagarana nasceu universal pelo alcance e pela coesão da fatura. A língua parece finalmente ter atingido o ideal da expressão literária regionalista. Densa, vigorosa, foi talhada no veio da linguagem popular e disciplinada dentro das tradições clássicas. Mário de Andrade, se fosse vivo, leria comovido este resultado esplêndido da libertação lingüística, para que ele contribuiu com a libertinagem heróica da sua.

Além das convenções literárias, Sagarana se caracteriza por um soberano desdém das convenções. O sr. Guimarães Rosa - cuja vocação de virtuose é inegável - parece ter querido mostrar a possibilidade de chegar à vitória partindo de uma série de condições que conduzem, geralmente, ao fracasso. Ou melhor: todos os fracassos dos seus predecessores se transformaram, em suas mãos, noutros fatores de vitória.
Para começar, a própria temática, batida e aparentemente esgotada. Em matéria de regionalismo, só aceitamos, de uns vinte anos para cá, o nordestino, transformado, por sua vez e por força do uso, em arrabalde pacífico e já sem surpresas da nossa sensibilidade literária.

Em seguida, o exotismo do léxico, recurso geralmente fácil, abusado pelos escritores gaúchos. Depois, a tendência descritiva, quase de composição escolar, familiar a quem vive em contato com os pequenos jornais do interior e, em literatura, relegada a segundo plano pelas exigências tanto de ação quanto de introspecção do romance moderno. Finalmente, o capricho meio oratório do estilo, que há muito consideramos privativo da subliteratura.
Pois o sr. Guimarães Rosa partiu de todas estas condições, algumas das quais bastaram para fazer naufragar escritores de maior talento, como Monteiro Lobato, ou reduzir ás devidas proporções outros indevidamente valorizados, como o velho Afonso Arinos; não rejeitou nenhuma delas e ~hegou a verdadeiras obras-primas, como são alguns dos contos de Sagarana.

Passando a setor de ordem mais pessoal, talvez possamos dizer que a qualidade básica do autor escapa à crítica, porque só pode ser sugerida por meio de imprecisões como "capacidade de contar", "vigor narrativo" e outras coisas que, tudo exprimindo, nada dizem de positivo. O meu mestre e amigo Giuseppe Ungaretti usaria expressão mais direta, invocando razões de ordem hormonal em calão pitoresco, que eu não me atrevo a trazer para este bem comportado rodapé e que, segundo ele, são as únicas a exprimir a força criadora dos artistas poderosos como é o sr. Guimarães Rosa.

Sagarana se caracteriza pela paixão de contar. O autor chega a condescendência excessiva para com ela, a ponto de quebrar a espinha das suas histórias a fim de dar relevo a narrativas secundárias, terciárias, cujo conjunto resulta mais importante do que a narrativa central. Deixa-se ir ao sabor dos casos, não perdendo vasa para contá-los, acumulando detalhes, minuciando com pachorra, como quem dá a entender que, em arte, o fim não tem a mínima importância, porque o que importa são os meios. Todos os meios e até a ampliação retórica são bons, desde que nos arrebatem da vida, transportando-nos para a vida mais intensa da arte.

Já se vê por aí que o sr. Guimarães Rosa retorna, em grande estilo, à concepção do contista-contador, para o qual a verdade está na narração e na descrição, para o qual as facadas, os casos de amor, os estouros de boiada e os crepúsculos têm valor eterno, acima de quaisquer outros. Por outro lado, como ficou sugerido, a região, deixando de ser, para ele, simples localïzação da história, com funções de pitoresco e anedótico, passa a verdadeira personagem (se assim me posso exprimir), tanta é a persistência e a profundidade com que vém invocados a sua flora, a sua fauna, o seu relevo. Há, mesmo, certos contos, como "São Marcos", em que só ela redime o anedótico e garante o toque literário autêntico. Em "A hora e vez de Augusto Matraga" há uma certa entrada de primavera - verdadeiro Sacre du Printemps - em que a natureza nos comunica sentimento quase inefável, germinal e religioso.

Como padrão de arte objetiva e elaborada, perfeito na suficiência admirável dos meios, gostaria de indicar o conto "Duelo", das maiores peças de atmosfera da nossa atual novelístïca. Uma tensão envolvente, quase alucinante, alimentada sorrateiramente pelo autor com um ominoso vaivém cheio de detalhes geográficos e pequenos casos laterais.

Não é aí, todavia, que devemos procurar a obra-prima do livro mas no citado "Augusto Matraga", onde o autor, deixando de certo modo a objetividade da arte-pela-arte, entra em região quase épica de humanidade e cria um dos grandes tipos da nossa literatura, dentro do conto que será, daqui por diante, cantado entre os dez ou doze mais perfeitos da língua.

Não penso que Sagarana seja um bloco unido, nem que o sr. Guimarães Rosa tenha sabido, sempre, escapar a certo pendor verboso, a certa difusão de escrita e composição. Sei, porém, que, construindo em termos brasileiros certas experiências de uma altura encontrada geralmente apenas nas grandes literaturas estrangeiras, criando uma vivência poderosamente nossa e ao mesmo tempo universal, que valoriza e eleva a nossa arte, escrevendo contos como "Duelo", "Lalino Salãthiel", "O burrinho pedrês" e, sobre todos (muito sobre todos), "Augusto Matraga" - sei que por tudo isso o sr. Guimarães Rosa vai reto para a linha dos nossos grandes escritores.”
Antônio Cândido

Poema Negro

“Para iludir minha desgraça, estudo.
Intimamente sei que não me iludo.
Para onde vou (o mundo inteiro o nota)
Nos meus olhares fúnebres, carrego
A indiferença estúpida de um cego
E o ar indolente de um chinês idiota!

A passagem dos séculos me assombra.
Para onde irá correndo minha sombra
Nesse cavalo de eletricidade?!
Caminho, e a mim pergunto, na vertigem:
- Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?
E parece-me um sonho a realidade.

Em vão com o grito do meu peito impreco!
Dos brados meus ouvindo apenas o eco,
Eu torço os braços numa angústia douda
E muita vez, à meia-noite, rio
Sinistramente, vendo o verme frio
Que há de comer a minha carne toda!

É a Morte - esta carnívora assanhada -
Serpente má de língua envenenada
Que tudo que acha no caminho, come...
- Faminta e atra mulher que, a 1 de janeiro,
Sai para assassinar o mundo inteiro,
E o mundo inteiro não lhe mata a fome!

Nesta sombria análise das cousas,
Corro. Arranco os cadáveres das lousas
E as suas partes podres examino. . .
Mas de repente, ouvindo um grande estrondo,
Na podridão daquele embrulho hediondo
Reconheço assombrado o meu Destino!
Surpreendo-me, sozinho, numa cova.

Então meu desvario se renova...
Como que, abrindo todos os jazigos,
A Morte, em trajos pretos e amarelos,
Levanta contra mim grandes cutelos
E as baionetas dos dragões antigos!

E quando vi que aquilo vinha vindo
Eu fui caindo como um sol caindo
De declínio em declínio; e de declínio
Em declínio, com a gula de uma fera,
Quis ver o que era, e quando vi o que era,
Vi que era pó, vi que era esterquilínio!

Chegou a tua vez, oh! Natureza!
Eu desafio agora essa grandeza,
Perante a qual meus olhos se extasiam...
Eu desafio, desta cova escura,
No histerismo danado da tortura
Todos os monstros que os teus peitos criam.

Tu não és minha mãe, velha nefasta!
Com o teu chicote frio de madrasta
Tu me açoitaste vinte e duas vezes...
Por tua causa apodreci nas cruzes,
Em que pregas os filhos que produzes
Durante os desgraçados nove meses!

Semeadora terrível de defuntos,
Contra a agressão dos teus contrastes juntos
A besta, que em mim dorme, acorda em berros
Acorda, e após gritar a última injúria,
Chocalha os dentes com medonha fúria
Como se fosse o atrito de dois ferros!

Pois bem! Chegou minha hora de vingança.
Tu mataste o meu tempo de criança
E de segunda-feira até domingo,
Amarrado no horror de tua rede,
Deste-me fogo quando eu tinha sede...
Deixa-te estar, canalha, que eu me vingo!

Súbito outra visão negra me espanta!
Estou em Roma. É Sexta-feira Santa.
A treva invade o obscuro orbe terrestre.
No Vaticano, em grupos prosternados,
Com as longas fardas rubras, os soldados
Guardam o corpo do Divino Mestre.

Como as estalactites da caverna,
Cai no silêncio da Cidade Eterna
A água da chuva em largos fios grossos...
De Jesus Cristo resta unicamente
Um esqueleto; e a gente, vendo-o, a gente
Sente vontade de abraçar-lhe os ossos!

Não há ninguém na estrada da Ripetta.
Dentro da Igreja de São Pedro, quieta,
As luzes funerais arquejam fracas...
O vento entoa cânticos de morte.
Roma estremece! Além, num rumor forte,
Recomeça o barulho das matracas.
A desagregação da minha idéia
Aumenta. Como as chagas da morféa
O medo, o desalento e o desconforto
Paralisam-se os círculos motores.
Na Eternidade, os ventos gemedores
Estão dizendo que Jesus é morto!

Não! Jesus não morreu! Vive na serra
Da Borborema, no ar de minha terra,
Na molécula e no átomo... Resume
A espiritualidade da matéria
E ele é que embala o corpo da miséria
E faz da cloaca uma urna de perfume.

Na agonia de tantos pesadelos
Uma dor bruta puxa-me os cabelos,
Desperto. É tão vazia a minha vida!
No pensamento desconexo e falho
Trago as cartas confusas de um baralho
E um pedaço de cera derretida!

Dorme a casa. O céu dorme. A árvore dorme.
Eu, somente eu, com a minha dor enorme
Os olhos ensangüento na vigília!
E observo, enquanto o horror me corta a fala,
O aspecto sepulcral da austera sala
E a impassibilidade da mobília.

Meu coração, corno um cristal, se quebre
O termômetro negue minha febre,
Torne-se gelo o sangue que me abrasa,
E eu me converta na cegonha triste
Que das ruínas duma casa assiste
Ao desmoronamento de outra casa!

Ao terminar este sentido poema
Onde vazei a minha dor suprema
Tenho os olhos em lágrimas imersos...
Rola-me na cabeça o cérebro oco.
Por ventura, meu Deus, estarei louco?!
Daqui por diante não farei mais versos.”
Augusto dos Anjos

A Sociedade

“-Filha minha não casa com filho de carcamano!

A esposa do Conselheiro José Bonifácio de Matos e Arruda disse isso e foi brigar com o italiano das batatas.

Teresa Rita misturou lágrimas com gemidos e entrou no seu quarto batendo a porta.
O Conselheiro José Bonifácio limpou as unhas com o palito, suspirou e saiu de casa abotoando o fraque.

O esperado grito do cláxon fechou o livro de Henri Ardel e trouxe Teresa Rita do escritório para o terraço.

O Lancia passou como quem não quer. Quase parando.

A mão enluvada cumprimentou com o chapéu Borsalino.

Uiiiiia-uiiiiia! Adriano Meli calcou o acelerador. Na primeira esquina fez a curva. Veio voltando. Passou de novo. Continuou. Mais duzentos metros. Outra curva. Sempre na mesma rua. Gostava dela. Era a Rua da Liberdade. Pouco antes do número 259-C sabe: uiiiiia-uiiiiia!

-O que você está fazendo aí no terraço, menina?

-Então nem tomar um pouco de ar eu posso mais?

Lancia Lambda, vermelhinho, resplendente, pompeando na rua. Vestido de Camilo, verde, grudado à pele, serpejando no terraço.

-Entre já para dentro ou eu falo com seu pai quando ele chegar!

-Ah meu Deus, meu Deus, que vida, meu Deus!

Adriano Melli passou outras vezes ainda. Estranhou. Desapontou. Tocou para a Avenida Paulista.

Na orquestra o negro de casaco vermelho afastava o saxofone da beiçorra para gritar:

Dizem que Cristo nasceu em Belém...

Porque os pais não a haviam acompanhado (abençoado furúnculo inflamou o pescoço do Conselheiro José Bonifácio) ela estava achando um suco aquela vesperal do Paulistano. O namorado ainda mais.
Os pares dançarinos maxixavam colados. No meio do salão eram um bolo tremelicante. Dentro do círculo palerma de mamãs, moças feitas e moços enjoados. A orquestra preta tonitroava. Alegria de vozes e sons. Palmas contentes prolongaram o maxixe. O banjo é que ritmava os passos.

-Sua mãe me fez ontem uma desfeita na cidade.

-Não!

-Como não? Sim senhora. Virou a cara quando me viu.

... mas a história se enganou!

As meninas de ancas salientes riam porque os rapazes contavam episódios de farra muito engraçados. O professor da Faculdade de Direito citava Rui Barbosa para um sujeitinho de óculos. Sob a vaia do saxofone: turururu-turururum!

-Meu pai quer fazer um negócio com o seu.

-Ah sim?

Cristo nasceu na Bahia, meu bem...

O sujeitinho de óculos começou a recitar Gustave Le Bon mas a destra espalmada do catedrático o engasgou. Alegria de vozes e sons.

... e o baiano criou!

-Olhe aqui, Bonifácio: se esse carcamano vem pedir a mão da Teresa para o filho, você aponte o olho da rua para ele compreendeu?

-Já sei, mulher, já sei.”
Alcântara Machado/ Do livro Brás, Bexiga e Barra Funda

Solitário

“Como um fantasma que se refugia
Na solidão da natureza morta,
Por trás dos ermos túmulos, um dia,
Eu fui refugiar-me à tua porta!
Fazia frio e o frio que fazia
Não era esse que a carne nos conforta
Cortava assim como em carniçaria
O aço das facas incisivas corta!
Mas tu não vieste ver minha Desgraça!
E eu saí, como quem tudo repele,
- Velho caixão a carregar destroços -
Levando apenas na tumbas carcaça
O pergaminho singular da pele
E o chocalho fatídico dos ossos!”
Augusto dos Anjos

Uma visita ao campo

“Não sendo um "cockney" nato, não tenho quaisquer ilusões sobre o campo. As estradas onduladas e tortuosas, as sebes poeirentas, as valas com os seus cadáveres de cães, ortigas e nuvens de moscas venenosas, os grupos de crianças que trituram qualquer coisa, o camponês boçal e prematuramente envelhecido pelo trabalho, o vagabundo velhaco, os montões de estrume de cheiro nauseabundo, a cadeia de marcos miliários entre duas estalagens ou entre dois cemitérios; por tudo isto eu passo apressado e ansioso de avistar o primeiro poste telegráfico indicando-me estar próximo o comboio salvador. Da estrada do vilarejo à estação do caminho de ferro, vai um salto de cinco séculos, desde a brutal tirania da natureza sobre o Homem até ao domínio organizado deste sobre aquela.

E, contudo, na semana passada, deixei-me persuadir por dois amigos meus, Henry Salt e sua mulher, que não se cansavam de insistir para eu ir passar um "week-end" com eles, nas colinas de Surrey. Salt, um homem de excepcional inteligência em muitos assuntos, é um maníaco pelo campo e possui uma vivenda num buraco chamado Tilford, perto de Farnham, para a qual ele se retira, de tempos a tempos, alimentando-se dos fungos da vizinhança e escrevendo artigos a proclamarem o benefício da dieta e do ar puro. Sem dúvida, o meu amigo nutria a esperança de que Tilford converter-me-ia da rurofobia à rurolatria, e sendo uma companhia agradável para um passeio e uma conversa, consenti, por fim, na experiência, e acedi, mesmo, em ser conduzido ao cume de uma impostura cénica, denominada Hindhead, para dali avistar as planuras da Costa do Sul, a estrada de Portsmouth e, principalmente, o sítio onde três homens foram enforcados por terem assassinado alguém que os induzira a dar um passeio campestre na sua companhia.

Londres estava fresca, limpa e seca quando me dirigi para a estação de Waterloo, apôs ter saído da cama, às sete horas de uma manhã de Domingo. Abrindo um livro, esforcei-me por não olhar para a janela, entre as estações. Depois de termos atravessado um cemitério enorme e um campo imenso, chegámos finalmente, a Farnham. Como é vulgar no campo, chovia a cântaros. Perguntei o caminho para Tilford, e fui informado de que ficava a quatro milhas em linha recta. Como não quisera de forma alguma ofender os sentimentos de Salt, mostrando-lhe a minha suspeita pelo seu paraíso rústico, não trouxera guarda-chuva, e aquele paraíso, é claro, tirava a máxima vantagem de tal omissão. Não sei o que são as planuras da Costa do Sul, mas posso garantir as subidas e descidas das estradas de Surrey. Entre Farnham e Tilford, há, pelo menos, meia dúzia de colinas e nem um só viaduto. Subi as suas vertentes nas pontas dos pés e amassei os calcanhares, ao descê-las, fazendo, a cada passo, um charco de lama pegajosa. À medida que a paisagem se tornava menos hospitaleira, a chuva aumentava a sua violência, reduzindo o meu livro a uma polpa e transferindo o vermelho da capa para o meu já saturado casaco cinzento. Pássaros à prova de água, soltaram de uma vedação, trinados de troça, fazendo-me compreender melhor do que até então, o motivo porque é permitido caçá-los a tiro. Em determinado momento, a estrada passou por um pinheiral, com um gorgeante tapete de musgo húmido, e um aviso proibindo o estacionamento ali, sob pena de punição para os transgressores. Vale bem a pena caminhar trinta milhas, para ter de voltar para trás perante a mesquinhez de um proprietário rural. Já tinha os punhos da camisa colados aos pulsos. Deixando pender os braços, com desconsolo, afim de minorar a desagradável sensação, olhei para as joelheiras das calças e, instantaneamente, as abas do meu chapéu despejaram meio litro de água da chuva tingida de preto. Então não me contive mais e soltei uma daquelas gargalhadas que os condenados ao martírio da roda largavam ao segundo golpe do martelo. Uma milha ou duas mais de marcha forçada por caminhos lamacentos, levou-me aos subúrbios de uma vila, com um rio correndo sobre um leito pedregoso e atravessado por uma ponte construída sob o princípio da arquitectura gótica, isto é: de forma a exigir dos cavalos o máximo esforço, quer a puxar as carroças de um lado, quer a impedir de serem atropelados por elas, quando em sentido contrário, roçam, precipitadamente, uns pelos outros.

Chegara a Tilford, habitada pelo que pude ver, por um único homem e em cujo olhar espantado pude ler, melhor do que o faria num livro, a sua admiração por me ver ali. Após ter ultrapassado uma nova colina, palmilhei uma estrada onde a chuva e o vento desencadearam um último e violento ataque contra mim. Salt está enganado ao pensar que vive em Tilford, pois, de facto, vive muito para além da vila. Eu já estava a ponto de voltar para trás afim de aproveitar o resto da resistência de que ainda dispunha, para regressar a Londres, quando ouvi um grito de Salt "Ele aí vem!", e o meu amigo veio receber-me, satisfeitíssimo, como se eu tivesse surgido fresco e sorridente. Em menos tempo do que leva a descrever, as minhas roupas fumegavam na cozinha e eu, metido num fato pertencente ao cunhado de Salt, um poeta prometedor cuja figura é um tanto ou quanto diferente da minha, enchia o estômago com as últimas descobertas do meu hospedeiro, na fungologia local.

As minhas roupas secaram rapidamente. De tarde, ao envergá-las de novo, observei que embora tivessem encolhido umas duas polegadas, estavam quentes e enxutas. Apesar disso, fartei-me de espirrar e Mrs. Salt, na mais amável das intenções, foi buscar uma garrafa de espírito de cânfora. Não familiarizado com a violenta natureza deste remédio, engoli, descuidado, uma colher de sopa cheia. Senti-me morrer, mas tive a alegria, após ter voltado a respirar, de saber que, certamente, o bacilo da gripe não sobrevivera. Como a chuva já cessara de cair, fomos dar um passeio e seguimos por uma estrada que serpenteava por umas colinas lembrando montões de turfa molhada, sob o céu cinzento. De vez em quando, atravessávamos planaltos onde a lama era substituída por areia movediça e tojo, já secos pelo vento agreste que soprava do mar do Norte. O Lago Frensham, como um enorme depósito de abastecimento público de água, desnudado de maquinaria, jazia a sotavento e a sua superfície enrugava-se de um extremo a outro, a cada aguaceiro. Simpatizei com ele e olhei furtivamente para Salt para ver se a inefável tristeza daquele espectáculo não o envergonhava. Mas o meu amigo já estava habituado a tudo aquilo e quando chegámos a casa, começou a planear um passeio para a manhã seguinte, até Hindhead. Só a simples sugestão de novo passeio trouxe-me um desejo irreprimível de espirrar. Não obstante, neguei-me com firmeza, a tomar mais cânfora, e Mrs. Salt ministrou-me em sua substituição, uma vulgar geleia preta com água a ferver que eu ingeri de boa vontade.

Na manhã seguinte, levantei-me às oito horas, na intenção de ver o nascer do sol e de ouvir o chilrear dos pássaros. Percebi, contudo, que me levantara antes deles, pois não vi o nascer do sol nem ouvi os pássaros, senão quando regressei à metrópole. Salt estava radiante porque o vento soprava do nordeste, o que tornava a chuva impossível. Assim, após o pequeno almoço, pusemo-nos a caminho de Hindhead, através dum nevoeiro que fazia as vacas parecerem mamutes e os espinhaços, a cordilheira dos Alpes. Quando não se avistava um único abrigo, a chuva começou a cair. Salt assegurou-me que não seria nada, pois a chuva não se poderia aguentar contra um vento nordeste. No entanto, tal não aconteceu.

Quando, após termos subido e descido por sítios que Salt denominava atalhos, mas que eram, de facto, leitos de torrentes de lama, chegámos por fim a Hindhead, (que era igual às outras colinas), onde mal nos podíamos distinguir um ao outro e muito menos a Costa do Sul, em virtude do nevoeiro cerrado que fazia. Vi o sítio onde os três homens foram enforcados e não posso negar que senti uma certa satisfação vingativa ao pensar que alguém fora assassinado ali, por induzir semelhantes seus a passeios campestres.

Quando regressámos, Salt estava no auge do entusiasmo. A descoberta de um dia chuvoso com um vento nordeste alegrava-o tanto como a descoberta de um cometa alegraria um astrónomo. Quanto a Mrs. Salt, a conclusão que ela tirou de tudo aquilo, foi que eu devia voltar. A chuva incomodava-a tanto, como se em vez de mulher, fosse um peixe, e não pude deixar de pensar se o seu vestido de passeio não seria na realidade, um fato de banho habilmente confeccionado.

Ela parecia felicíssima, embora os carneiros balissem tristemente para o céu e uma vaca, a quem eu dei uma palmada amigável nos flancos, estivesse tão saturada em água, que eu fiquei com o braço encharcado até ao sovaco. O tema principal de Mrs. Salt, enquanto estivemos nas colinas, era a doçura do seu cão de guarda, cujos movimentos na direcção do rebanho eram cuidadosamente frustados pelo meu amigo. Antes de chegarmos a casa, as minhas roupas continham três vezes o volume de água do dia anterior. Foram postas novamente a secar e quando voltei a envergá-las, pareciam ter sido emprestadas, numa emergência, por um irmão muito mais novo.

Não preciso de descrever o meu regresso a Farnham, após o jantar. Choveu todo o caminho. Mas, pelo menos, eu aproximava-me de Londres. Mudara de ares e estou certo de que eliminei os seus efeitos dentro de quinze dias. Se a minha experiência puser de sobreaviso algum incauto londrino, tentado a gozar os prazeres vernais nas colinas de Surrey, então nem todo o meu sofrimento terá sido em vão.”
George Bernard Shaw

Canção Louca

“A brava brisa brame
E a noite é fria;
Vem a mim, Sono,
E abraça minha agonia.
Mas arre! O dia prenhe
Preenche já o leste,
E as aves sonoras da aurora
Da terra se escarnecem.
Arre! Para os ares
Da cúpula celeste
Minhas notas partem,
Fartas de pesares.
Elas batem no ouvido da noite,
Molham os olhos do dia
Brincam com tempestades
Enlouquecem a ventania.
Como um demônio na nuvem
Em uivo agudo,
Pela noite eu procuro,
E com a noite me curvo;
Não me serve o leste
Onde o consolo acresce,
Pois a luz agarra meu cérebro
Com dor frenética.”
William Blake / Tradução: Regina de Barros Carvalho

O cego

"Isabel Pervin estava à escuta de dois sons: do som das rodas na estrada, lá fora, e do rumor dos passos do marido, no vestíbulo. O seu amigo mais velho e estimado, um homem que parecia quase indispensável à sua vida, devia chegar naquele anoitecer chuvoso de fins de Novembro. A carripana tinha ido buscá-lo à estação. E o marido, que tinha perdido a vista na Flandres e apresentava na fronte uma cicatriz que o desfigurava, devia entrar em casa, vindo dos barracões.

Fazia agora um ano que regressara a casa, completamente cego. E, contudo, tinham sido muito felizes. A Granja era propriedade de Maurício. Na parte traseira ficava a quinta com edifícios, onde os Wernhams, que viviam desse lado, trabalhavam como quinteiros. Na bonita residência da frente vivia Isabel com o marido. Ambos tinham passado quase inteiramente sós, desde que ele fora ferido. Conversavam, cantavam e liam juntos, numa esplêndida e inefável intimidade. Depois, satisfazendo um velho interesse, ela fazia a crítica de livros para um jornal escocês, e ele ocupava-se bastante da herdade. Embora privado da vista, discutia tudo com Wernham e fazia também muito trabalho por ali - trabalho miúdo, é certo, mas que lhe dava satisfação. Mungia as vacas, transportava para dentro os baldes, movia a desnatadeira e tratava dos porcos e cavalos. A vida era ainda bem cheia e estranhamente serena para o cego, pacificado pela paz quase incompreensível do contacto imediato com as coisas, nas trevas. Na mulher possuía então um mundo completo, rico, real e invisível.

Eram felizes, de uma maneira nova e vaga. E ele nem sequer lamentava a perda da vista, nesses tempos de sombria, palpável alegria. Inflamava-lhe a alma uma suave exultação.

Mas à medida que o tempo se escoava, acontecia por vezes que este precioso encantamento lhes fugia. Algumas vezes, depois de meses desta intensidade, uma sensação de peso se apoderava de Isabel, um cansaço, um terrível ennui, naquela casa silenciosa a que conduzia uma dupla colunada de pinheiros alterosos. Então julgava que ia enlouquecer, pois não podia suportar tal coisa. Outras vezes, acometiam-no devastadores acessos de depressão, que pareciam ir destruir todo o seu ser. Era pior do que a depressão - era um sofrimento sombrio em que toda a sua vida se transformava numa tortura para ele e a sua presença se tornava insuportável para a mulher. A esta, um pavor lhe penetrava até às raízes da alma, quando chegavam estes dias sombrios. Numa espécie de pânico, procurava então consubstanciar-se ainda mais com o marido. E forçava a velha satisfação e alegria espontâ ;nea a continuar. Mas o esforço que isso lhe custava era quase insustentável. Sabia que o não podia aguentar. Sentia que essa tensão lhe iria arrancar gritos, e daria tudo para o evitar. Ansiava por possuir totalmente o marido; dava-lhe uma alegria desordenada tê-lo inteiramente para si. E contudo, quando de novo ele se deixava apoderar por um sofrimento sombrio e maciço, não podia suportá-lo, não podia suportar-se a si própria. Desejava então desaparecer de vez da face da terra, tudo menos viver a tal custo.

Atordoada, procurava então uma saída. Convidava pessoas amigas, procurava dar-lhe qualquer nova ligação com o mundo exterior. Mas de nada valia. Depois de toda a sua alegria e sofrimento, depois do seu sombrio, do seu longo ano de cegueira, solidão e indizível proximidade, as outras pessoas pareciam-lhes, a ambos, superficiais, tagarelas, bastante impertinentes. A tagarelice superficial parecia-lhes balofa. Ele ficava impaciente e irritado, ela cansada. E então recaíam na solidão, pois a preferiam.”
David Herbert Lawrence

Versos Inscritos numa Taça Feita de um Crânio

“Não, não te assustes: não fugiu o meu espírito
Vê em mim um crânio, o único que existe
Do qual, muito ao contrário de uma fronte viva,
Tudo aquilo que flui jamais é triste.
Vivi, amei, bebi, tal como tu; morri;
Que renuncie e terra aos ossos meus
Enche! Não podes injuriarme; tem o verme
Lábios mais repugnantes do que os teus.
Onde outrora brilhou, talvez, minha razão,
Para ajudar os outros brilhe agora e;
Substituto haverá mais nobre que o vinho
Se o nosso cérebro já se perdeu?
Bebe enquanto puderes; quando tu e os teus
Já tiverdes partido, uma outra gente
Possa te redimir da terra que abraçar-te,
E festeje com o morto e a própria rima tente.
E por que não? Se as fontes geram tal tristeza
Através da existência-curto dia-,
Redimidas dos vermes e da argila
Ao menos possam ter alguma serventia.”
Lord Byron

Fotos: Bill Brandt

Francis Bacon (1963)

Paul Schofield (1981)

Alinhar ao centroDylan Thomas (1941)

O rei do rio de ouro

"Como o senhor vento sudoeste se meteu no sistema de lavoura dos irmãos negros

“Numa remota e montanhosa região da Estíria, houve noutros tempos um vale da maior e mais surpreendente fertilidade. Era completamente rodeado de montanhas escarpadas e rochosas cujos picos muito altos estavam sempre cobertos de neve e de onde corriam em constantes cataratas inúmeras torrentes. Uma destas montanhas era tão alta que, quando o sol se punha para tudo o mais - e já em volta dominava a escuridão - ainda os seus raios brilhavam intensamente sobre o rio que se despenhava do seu cume, dando-lhe o aspecto de um chuveiro de ouro. Por esse motivo o povo daqueles sítios chamava-lhe o Rio de Ouro.

Era estranho que nenhuma daquelas torrentes ia cair no vale, mas todas desciam pelos outros lados dos montes e serpenteavam através de vastas planícies e cidades populosas. As nuvens eram impelidas tão constantemente para os picos cobertos de neve e ficavam tanto tempo por sobre aquela concavidade, que, nas épocas das grandes secas e do calor, quando os campos próximos estavam queimados, ainda chovia no valezinho; as suas colheitas eram tão abundantes, e o seu feno tão alto, e as suas maçãs tão vermelhas, e as suas uvas tão roxas, e o seu vinho tão rico, e o seu mel tão doce, que era uma maravilha para quem os possuía e todos o conheciam pelo nome de Vale do Tesouro.

Todo este vale pertencia a três irmãos chamados Schwartz, Hans e Gluck. Schwartz e Hans os dois irmãos mais velhos, eram muito feios, de sobrancelhas salientes, olhos pequenos e baços, sempre semicerrados para que ninguém pudesse ver o que eles pensavam e eles vissem o que pensavam as outras pessoas.

Viviam da lavoura do Vale do Tesouro e eram muito bons lavradores. Matavam tudo o que não compensasse o que comia. Matavam os melros, porque bicavam a fruta; matavam os ouriços para não sugarem as vacas; envenenavam os grilos para não comerem as migalhas na cozinha e matavam as cigarras que costumavam cantar todo o Verão em cima das limas. Faziam trabalhar os criados sem lhes pagar, até que eles se recusavam a isso; então questionavam com eles e mandavam-nos embora sem lhes dar absolutamente nada.

Seria muito estranho se, com uma propriedade daquelas e semelhante sistema de se governarem, não enriquecessem. E enriqueceram.

Em geral arranjavam as coisas para conservar o trigo em seu poder até que ele encarecia e então vendiam-no pelo dobro do que ele valia; tinham montões de ouro no chão da sua casa, mas não constava que tivessem alguma vez dado dinheiro ou alguma côdea, de esmola a alguém. Nunca iam à missa, resmungavam sempre que pagavam as décimas e, numa palavra, eram tão cruéis e tinham tão mau génio que as pessoas que precisavam lidar com eles os tinham alcunhado de Irmãos Negros.

Gluck, o mais novo, era absolutamente diferente dos irmãos, tanto no feitio como no aspecto. Não tinha mais de doze anos, era louro, de olhos azuis, e benevolente para as pessoas e para os animais. Claro que não se dava muito bem com os irmãos, ou, por outra, os irmãos não se davam muito bem com ele. Em geral incumbiam-no do honroso trabalho de virar o espeto, quando havia alguma coisa para assar, o que não era frequente, porque, para fazermos justiça aos irmãos, devemos dizer que eles eram pouco mais generosos consigo próprios do que com as outras pessoas. De outras vezes encarregavam-no de limpar os sapatos, o chão e a louça, apanhando de quando em quando os restos que ficavam nas travessas, como gratificação, e muita pancada para ser educado. As coisas continuaram assim durante bastante tempo, até que, por fim, veio um Verão muito húmido e tudo se transformou nos arredores do vale.

Mal tinham acabado de colher o feno quando as medas foram levadas para o mar por uma inundação; a saraiva despedaçou as vinhas; a geada negra queimou o trigo e só no Vale do Tesouro tudo continuou bem como de costume.”
Charles Dickens

Fotos: Margaret Bourke-White

Bread Line during the Louisville flood, Kentucky (1937)

New York Stock Market (1936)

Prisoners at Buchenwald (1945)

No Meio do Caminho

“No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.”
Carlos Drummond de Andrade

A espora de prata

- “Este caso se deu, começou Alexandre, um dia em que fui visitar meu sogro, na fazenda dele, léguas distantes da nossa. Já contei ao senhor que os arreios do meu cavalo eram de prata.
- De ouro, gritou Cesária.
- Estou falando nos de prata, Cesária, respondeu Alexandre. Havia os de ouro, é certo, mas estes só serviam nas festas. Ordinariamente eu montava numa sela com embutidos de prata. As esporas, as argolas da cabeçada e as fivelas dos loros eram também de prata. E os estritos, aerados, faiscavam como espelhos. Pois sim senhores, eu tinha ido visitar meu sogro, o que fazia uma ou duas vezes por mês. Almocei com ele e passamos o dia conversando em política e negócios. Foi aí que ficou resolvida a minha primeira viagem ao sul, onde me tornei conhecido e ganhei dinheiro. Acho que me referi a uma delas. Adquiri um papagaio...
- Por quinhentos e tantos mil-réis, disse mestre Gaudêncio. Já sabemos. Um papagaio que morreu de fome.
- Isso mesmo, seu Gaudêncio, prosseguiu o narrador, o senhor tem boa memória. Muito bem. Passei o dia com meu sogro, à tarde montamos a cavalo, percorremos a vazante, as plantações e os currais. Justei e comprei cem bois de era, despedi-me do velho e tomei o caminho de casa. Ia principiando a escurecer, mas não escureceu. Enquanto o sol de punha, a lua cheia aparecia, uma lua enorme e vermelha, de cara ruim, dessas que anunciam infelicidade. Um cachorro na beira do caminho uivou desesperado, o focinho para cima, farejando miséria. - "cala a boca, diabo." Bati nele com o bico da bota, esporeei o cavalo e tudo ficou em silêncio. Depois de um golpe curto, ouvi de novo os uivos do animal, uns uivos compridos e agoureiros. Não sou homem que trema à toa, mas aquilo me arrepiou e deu-me um babecum forte no coração. Havia no campo uma tristeza de morte. A lua crescia muito limpa, tinha lambido todas as nuvens, estava com intenção de ocupar metade do céu. E cá embaixo era um sossego que a gemedeira do cachorro tornava medonho. Benzi-me e rezei baixinho uma oração de sustância e disse comigo: - "Está-se preparando uma desgraça neste mundo, minha Nossa Senhora." Afastei-me dali, os gritos de agouro sumiram-se, avizinhei-me da casa pensando em desastres e olhando aquela claridade que tingia os xiquexiques e os mandacarus. De repente, quando mal me precatava, senti uma pancada no pé direito. Puxei a rédea, parei, ouvi um barulho de guizo, virei-me para saber de que se tratava e avistei uma cascavel assanhada, enorme, com dois metros de comprimento.
- Dois metros, seu Alexandre? Inquiriu o cego preto Firmino. Talvez seja muito.
- Espere, seu Firmino, bradou Alexandre zangado. Quem viu a cobra foi o senhor ou fui eu?
- Foi o senhor, confessou o negro.
- Então escute. O senhor, que não vê, quer enxergar mais que os que têm vista. Assim é difícil a gente se entender, seu Firmino. Ouça calado, pelo amor de Deus. Se achar falha na história, fale depois e me xingue de potoqueiro.
- Perdoe, rosnou o preto. É que eu gosto de saber as coisas por miúdo.
- Saberá, seu Firmino, berrou Alexandre. Quem disse que o senhor não saberá? Saberá. Mas não me interrompa, com os diabos. Ora muito bem. A cascavel mexia-se com raiva chocalhando e preparando-se para armar novo bote. Tinha dado o primeiro, de que falei, uma pancada aqui no pé direito. - "Os dentes não me alcançaram porque estou bem calçado", foi o que presumi. Saltei no chão e levantei o chicote, pois ali perto não havia pau nem pedra. A miserável enrolava-se, os olhos redondos pregados em mim e a língua fora da boca. Zás! Desmanchei-lhe a rodilha com uma chicotada. Tentou endireitar-se, estraguei-lhe os planos e com o chicote fui batendo, batendo, até que, desanimada, ela meteu o rabo entre as pernas e botou-se devagarinho para um monte de garranchos de coivara.
- Como é isso, seu Alexandre? Perguntou o cego. A cascavel meteu o rabo entre as pernas? Cascavel não tem pernas.
- Está claro que não tem, respondeu Alexandre. Quando a gente diz que uma criatura mete o rabo entre as pernas, quer dizer que ela se encolhe, capionga, percebe? Foi o que se deu. Não é preciso um bicho ter penas para meter o rabo entre as pernas. Seu Firmino é pessoa de entendimento curto e não compreende isto. A cascavel, que não tinha pernas, meteu o rabo entre as pernas e esgueirou-se para os garranchos e folhas secas que havia junto da estrada. Corri atrás dela e obriguei-a a voltar. Amiudei os golpes, a desgraçada bambeou e nem pediu fogo para o cachimbo. Machuquei-lhe a cabeça com o salto da bota. Estrebuchou, fez o que pôde para arrumar-se em novelo, depois se aquietou e ficou estirada na poeira. Baixei-me e medi o corpo mole: nove palmos e meio espichados. Isto é com o senhor, seu Firmino. Nove palmos e meio, entendeu? Mais de dois metros, pensou eu. Que diz?
- Deve ser isso mesmo, resmungou o negro. Não sei não. Estou escutando. Sempre me dou mal quando faço perguntas. O senhor é que sabe.
- Perfeitamente, concluiu Alexandre. A cobra tinha mais de dois metros. Tirei a vagem da cauda e contei nela dezessete anéis, o que significa dezessete anos, como ninguém ignora. Vejam vossemecês: dezessete anos. Era uma cobra muito velha, muito prática. Se eu não estivesse com os pés bem protegidos, não teria escapado, os senhores não ouviriam este caso. Ó Cesária, veja se arranja dois dedos de cachimbo lá dentro. Eu preciso molhar a palavra. E os nossos amigos estão com o ouvido seco. Vá buscar o cachimbo, Cesária. E procure o chocalho da cascavel, que você guardou.
Cesária levantou0se da esteira e desapareceu. Alexandre enxugou na manga da camisa o rosto suado. Mestre Gaudêncio, curandeiro, seu Libório cantador e Das Dores comentaram baixinho o tamanho e a idade da cobra. Passados alguns minutos, Cesária voltou com uma garrafa e uma xícara.
- Preparei o cachimbo. Aguardente não falta, e as abelhas trabalham de graça. Mas o chocalho sumiu-se. Estava no jirau, misturado com balaios e combucos: provave.”
Graciliano Ramos

Deu no...

Jornal do Brasil

Monólogo de uma Sombra

"Sou uma Sombra! Venho de outras eras,
Do cosmopolitismo das moneras...
Pólipo de recônditas reentrâncias,
Larva de caos telúrico, procedo
Da escuridão do cósmico segredo,
Da substância de todas as substâncias!

A simbiose das coisas me equilibra.
Em minha ignota mônada, ampla, vibra
A alma dos movimentos rotatórios...
E é de mim que decorrem, simultâneas,
A saúde das forças subterrâneas
E a morbidez dos seres ilusórios!

Pairando acima dos mundanos tectos,
Não conheço o acidente da Senectus
- Esta universitária sanguessuga ,
Que produz, sem dispêndio algum de vírus,
O amarelecimento do papirus
E a miséria anatômica da ruga!

Na existência social, possuo uma arma
- O metafisicismo de Abidarma -
E trago, sem bramânicas tesouras,
Como um dorso de azêmola passiva,
A solidariedade subjetiva
De todas as espécies sofredoras.

Com um pouco de saliva quotidiana
Mostro meu nojo à Natureza Humana.
A podridão me serve de Evangelho...
Amo o esterco, os resíduos ruins dos quiosques
E o animal inferior que urra nos bosques
E com certeza meu irmão mais velho!

Tal qual quem para o próprio túmulo olha,
Amarguradamente se me antolha,
À luz do americano plenilúnio,
Na alma crepuscular de minha raça
Como uma vocação para a Desgraça
E um tropismo ancestral para o Infortúnio.

Aí vem sujo, a coçar chagas plebéias,
Trazendo no deserto das idéias
O desespero endêmico do inferno,
Com a cara hirta, tatuada de fuligens
Esse mineiro doido das origens,
Que se chama o Filósofo Moderno!

Quis compreender, quebrando estéreis normas,
A vida fenomênica das Formas,
Que, iguais a fogos passageiros, luzem...
E apenas encontrou na idéia gasta,
O horror dessa mecânica nefasta,
A que todas as cousas se reduzem!

E hão de achá-lo, amanhã, bestas agrestes,
Sobre a esteira sarcófaga das pestes
A mostrar, já nos últimos momentos,
Como quem se submete a uma charqueada,
Ao clarão tropical da luz danada,
espólio dos seus dedos peçonhentos.

Tal a finalidade dos estames!
Mas ele viverá, rotos os liames
Dessa estranguladora lei que aperta
Todos os agregados perecíveis,
Nas eterizações indefiníveis
Da energia intra-atômica liberta!

Será calor, causa úbiqua de gozo,
Raio X, magnetismo misterioso,
Quimiotaxia, ondulação aérea,
Fonte de repulsões e de prazeres,
Sonoridade potencial dos seres,
Estrangulada dentro da matéria!

E o que ele foi: clavículas, abdômen,
O coração, a boca, em síntese, o Homem,
- Engrenagem de vísceras vulgares -
Os dedos carregados de peçonha,
Tudo coube na lógica medonha
Dos apodrecimentos musculares!

A desarrumação dos intestinos
Assombra! Vede-a! Os vermes assassinos
Dentro daquela massa que o húmus come,
Numa glutoneria hedionda, brincam,
Como as cadelas que as dentuças trincam
No espasmo fisiológico da fome.

É uma trágica festa emocionante!
A bacteriologia inventariante
Toma conta do corpo que apodrece ...
E até os membros da família engulham,
Vendo as larvas malignas que se embrulham
No cadáver malsão, fazendo um s.

E foi então para isto que esse doudo
Estragou o vibrátil plasma todo,
À guisa de um faquir, pelos cenóbios?! ...
Num suicídio graduado, consumir-se,
E após tantas vigílias, reduzir-se
A herança miserável de micróbios!

Estoutro agora é o sátiro peralta
Que o sensualismo sodomista exalta,
Nutrindo sua infâmia a leite e a trigo.
Como que, em suas células vilíssimas,
Há estratificações requintadíssimas
De uma animalidade sem castigo.

Brancas bacantes bêbedas o beijam.
Suas artérias hírcicas latejam,
Sentindo o odor das carnações abstêmias,
E à noite, vai gozar, ébrio de vício,
No sombrio bazar do meretrício,
O cuspo afrodisíaco das fêmeas.

No horror de sua anômala nevrose,
Toda a sensualidade da simbiose,
Uivando, à noite, em lúbricos arroubos,
Como no babilônico sansara,
Lembra a fome incoercível que escancara
A mucosa carnívora dos lobos.

Sôfrego, o monstro as vítimas aguarda.
Negra paixão congênita, bastarda,
Do seu zooplasma ofídico resulta...
E explode, igual à luz que o ar acomete,
Com a veemência mavórtica do ariete
E os arremessos de uma catapulta.

Mas muitas vezes, quando a noite avança,
Hirto, observa através a tênue trança
Dos filamentos fluídicos de um halo
A destra descarnada de um duende,
Que, tateando nas tênebras, se estende
Dentro da noite má, para agarrá-lo!

Cresce-lhe a intracefálica tortura,
E de su'alma na caverna escura,
Fazendo ultra-epilépticos esforços,
Acorda, com os candieiros apagados,
Numa coreografia de danados,
A família alarmada dos remorsos.

E o despertar de um povo subterrâneo!
É a fauna cavernícola do crânio
- Macbeths da patológica vigília,
Mostrando, em rembrandtescas telas várias,
As incestuosidades sanguinárias
Que ele tem praticado na família.

As alucinações tácteis pululam.
Sente que megatérios o estrangulam...
A asa negra das moscas o horroriza;
E autopsiando a amaríssirna existência
Encontra um cancro assíduo na consciência
E três manchas de sangue na camisa!

Míngua-se o combustível da lanterna
E a consciência do sátiro se inferna,
Reconhecendo, bêbedo de sono,
Na própria ânsia dionísica do gozo,
Essa necessidade de horroroso,
Que é talvez propriedade do carbono!

Ah! Dentro de toda a alma existe a prova
De que a dor como um dartro se renova,
Quando o prazer barbaramente a ataca...
Assim também, observa a ciência crua,
Dentro da elipse ignívoma da lua
A realidade de uma esfera opaca.

Somente a Arte, esculpindo a humana mágoa,
Abranda as rochas rígidas, torna água
Todo o fogo telúrico profundo
E reduz, sem que, entanto, a desintegre,
A condição de uma planície alegre,
A aspereza orográfica do mundo!

Provo desta maneira ao mundo odiento
Pelas grandes razões do sentimento,
Sem os métodos da abstrusa ciência fria
E os trovões gritadores da dialética,
Que a mais alta expressão da dor estética
Consiste essencialmente na alegria.

Continua o martírio das criaturas:
- O homicídio nas vielas mais escuras,
- O ferido que a hostil gleba atra escarva,
- O último solilóquio dos suicidas -
E eu sinto a dor de todas essas vidas
Em minha vida anônima de larva!"

Disse isto a Sombra. E, ouvindo estes vocábulos,
Da luz da lua aos pálidos venábulos,
Na ânsia de um nervosíssimo entusiasmo,
julgava ouvir monótonas corujas,
Executando, entre caveiras sujas,
A orquestra arrepiadura do sarcasmo!

Era a elegia panteísta do Universo,
Na podridão do sangue humano imerso,
Prostituído talvez, em suas bases...
Era a canção da Natureza exausta,
Chorando e rindo na ironia infausta
Da incoerência infernal daquelas frases.

E o turbilhão de tais fonemas acres
Trovejando grandíloquos massacres,
Há-de ferir-me as auditivas portas,
Até que minha efêmera cabeça
Reverta à quietação da treva espessa
E à palidez das fotosferas mortas!”
Augusto dos Anjos

Ordem e Progresso

“Ano Novo jantou juntados redatores e convivas pela administração jornalal de largas vistas e construiu a meu lado um paralelepípedo de carne com óculos sem pé que era o dr. Mandarim Pedroso. Machado Penumbra diretivo nos enfrentava casaca de papo branco e flor.
- É um grego de tendências emotivais! apontou-o com o guardanapo o toutiço vizinhante à chegada do trem da sobremesa. Vai longe! Vou fazê-lo Vice-Presidente do Recreio Pingue-Pongue.

Explicou-me o que era às claras essa chiquíssima sociedade de moças que a sua personalidade centrava como um coreto.

- Uma forja de temperamentos e um ninho de pombas gárrulas. O Sr. precisa entrar para lá, principalmente depois que o seu nome de poeta e jornalista começa a raiar nos galarins da fama. Quer saber, digo-lhe confidencialmente, o Presidente da República saiu de nossas fileiras, o Prefeito de São Paulo também, o Vice-Prefeito idem idem. Já fornecemos à alta administração doze estrelas de primeira grandeza. Santos Dumont é dos nossos.

E súbito, reservado como as senhoras que a gente encontra na sala secreta do museu de Nápoles:
O Sr. possui filhas?

- Sim. Tenho uma de seis anos.
- Ponha-a lá, ponha-a lá, se quiser salvá-la dos perigos contemporâneos. Ah! Lá não se dança o paso doble, meu caro senhor! O paso doble! Devia chamar-se a cópula de salão! Olhe, nós vivemos numa civilização de dancings...
Facas bateram copos semafóricos. Face a nós, Machado Penumbra elevara-se, neto de Lord Byron na Itália.
- É um discurso para amigos, meus senhores! E como esta florida mesa reúne somente rapazes, eu beberei a cupido! A cada presente a esta reunião de saúde e fraternidade, eu junto uma ausente cara, numa argonave de esperanças eternas.
Porque nós, meus colegas, meus amigos, neste vale de emoções, de apogeus e de quedas de Ícaro, vivemos apenas o romance da eterna pesquisa, da eterna procura, da eterna recherche, da eterna mágoa da miragem! mas não fiquemos apenas na visão desse desejo do impossível que a todos nos inquieta e comove. Prossigamos na realização do Inachado, do Irrealizável, do Incrível, alcancemos a promessa lantejoulante do Nada! À mulher, ergo a minha taça de vencido!”
Oswald de Andrade

Renúncia

“Sê o que renuncia
Altamente:
Sem tristeza da tua renúncia!
Sem orgulho da tua renúncia!
Abre a tua alma nas tuas mãos
E abre as tuas mãos sobre o infinito.
E não deixes ficar de ti
Nesse último gesto!”
Cecília Meireles

Alexey Titarenko (Fotografia Conceitual), “Blak & White Magic of St. Petersburg”



“Chamava-se Chico. De quê? Ele mesmo não sabia...
– Gente pobre não tem nome... – costumava dizer.
Tinha sete anos. De dia vendia jornais, de noite apanhava bordoada do irmão mais velho, o Zico, que vivia embriagado.

A mãe havia muitos anos que estava atirada sobre um colchão velho, paralítica, cadavérica, tendo a todas as horas do dia, diante dos olhos baços e sem expressão, o mesmo quadro de misé-ria e desalento: as paredes sórdidas do quarto, donde pendiam molambos, o teto carcomido e cheio de teias de aranha, a janela sem batentes, eterna-mente escancarada, mostrando uma nesga de céu em que nas noites claras se vislumbrava, como uma esmola luminosa, a claridade fugidia de estrelas...

O pai – Chico mal se lembrava disto – morrera por um dia triste de inverno, de peste, e se fora, quase nu, dentro duma carroça velha que ia fazendo tóc-tóc-tóc-tóc. . ., aos solavancos, pela estrada barrenta e sinuosa que ia dar no cemitério.

Chico ouvia sempre dizer que havia lá em cima, no céu, um Deus muito bom e muito severo. que não queria que as crianças dissessem nomes feios nem desobedecessem aos mais velhos. Era um homem muito poderoso, que punha empenho em que todas as cousas na terra andassem direitas e bem feitas.
Surgia, então, na cabecinha do garoto um pro-blema intrincado e insolúvel.

Chico via no mundo (mundo era a cidade em que ele, Chico, morava) gente feliz, rica, alegre; crianças que andavam bem vestidas, que tinham brinquedos surpreendentes e que comiam os doces mais saborosos desta vida. Via, ao mesmo tempo, de Outro lado, os infelizes, os desprotegidos da fortuna, os que rolam pão duro e andavam a ferir os pés descalços no pedregulho das ruas. E o pequeno não podia compreender a razão de tanta desigualdade de sorte no mundo. Como era que Deus, tão bom e tão justo, consentia em que exis-tissem crianças felizes e protegidas, ao mesmo passo que existiam outras, desgraçadas e sós, que, pra ganhar alguns tostões, – magríssimos tostões –, tinham de andar vendendo jornais pelas ruas, à luz adustiva do sol?...

E Chico não compreendia... Não compreendia e ficava pensando, pensando...”

Mas não se detinha por muito tempo em tais cogitações, que adivinhava inúteis. A vida ensinara-o a ser prático. Bem sabia que com sonhos e lucubrações não ganharia o seu salário. Por isso se atirava ao trabalho.
– O'ia o Correio da Manhã! O Correeeeio! E assim ia vivendo...”
Érico Veríssimo

Deu no...

Tanguinho Macabro

“Maricota, sai da chuva
Você vai se resfriar!
Maricota, sai da chuva
Você vai se resfriar!
- Náo me chamo Maricota
Nem me vou arresfriar
Sou uma senhora viúva
Que náo tem onde morar.

- Maricota, sai da chuva
Você pode até morrer!
Maricota, sai da chuva
Você pode até morrer!
- Pior que a morte, seu moço
É ser moça e náo poder
Mais morta que estou náo posso
Tomara mesmo morrer.

- Maricota, vem comigo
Para o meu apartamento!
Maricota, vem comigo
Para o meu apartamento!
- Fico muito agradecida
Pelo generoso intento
E sem ser oferecida
Aceito o oferecimento.

- Maricota, meu benzinho
Tira o véu para eu te ver!
Maricota, meu benzinho
Tira o véu para eu te ver!
- Ah, estou tão envergonhada
Que nem sei o que dizer
Só mesmo a luz apagada
Poderei condescender.

- Maricota, esse perfume
Vem de ti ou de onde vem?
Maricota, esse perfume
Vem de ti ou de onde vem?
- E o odor que se tem na pele
Quando pele não se tem
E o meu cheirinho de angélica
Que eu botei só pro meu bem.

- Maricota, dá-me um beijo
Que eu estou morto de paixão!
Maricota, dá-me um beijo
Que eu estou morto de paixão!
- Satisfarei seu desejo
Com toda a satisfação
Aqui tem, seu moço, um beijo
Dado de bom coração.

- Maricota, os seus dois olhos
São poços de escuridão!
Maricota, os seus dois olhos
São poços de escuridão!
- Não são olhos, são crateras
São crateras de vulcão
Para engolir e etcetera
Os moços que vêm e vão.

- Maricota, o teu nariz
São duas fossas de verdade!
Maricota, o teu nariz
São duas fossas de verdade!
- Não é nariz não, mocinho
E uma grande cavidade
Para sentir o cheirinho
Dessa sua mocidade.

- Maricota, a tua boca
Não tem lábios de beijar!
Maricota, a tua boca
Não tem lábios de beijar!
- Não é boca, meu tesouro
É um sorriso alveolar
São quatro pivôs de ouro
Presos no maxilar.

- Maricota, tuas maminhas
Tuas maminhas onde estão?
Maricota, tuas maminhas
Tuas maminhas onde estão?
- Estão na boca de um homem
E do seu filho varão
Maminhas não eram minhas
Eram coisas de ilusão.

- Maricota, que engraçado
Onde está seu buraquinho?
Maricota, que engraçado
Onde está seu buraquinho?
- Buraco só tenho um
De sete palmos neguinho
Mas é melhor que nenhum
Pra caber meu amorzinho.

- Maricota, estou com medo
Estou com medo de você!
Maricota, estou com medo
Estou com medo de você!
- Não se arreceie, prometo
Que nada tens a perder
Mais vale amar um esqueleto
Que uma mulher, e sofrer.

E a Morte levou o moço
Para o fatal matrimônio
Deu-lhe seu púbis de osso
Sua tíbia e seu perônio
Diz que o corpo decomposto
De manhã foi encontrado
Mas que sorria o seu rosto
Um sorriso enigmático.”
Vinícius de Moraes

Singularidades de uma Rapariga Loura

(Trecho)
“Começou por me dizer que o seu caso era simples - e que se chamava Macário...

Devo contar que conheci este homem numa estalagem do Minho. Era alto e grosso: tinha uma calva larga, luzidia e lisa, com repas brancas que se lhe eriçavam em redor: e os seus olhos pretos, com a pele em roda engelhada e amarelada, e olheiras papudas, tinham uma singular clareza e retidão - por trás dos seus óculos redondos com aros de tartaruga. Tinha a barba rapada, o queixo saliente e resoluto. Trazia uma gravata de cetim negro apertada por trás com uma fivela; um casaco comprido cor de pinhão, com as mangas estreitas e justas e canhões de veludilho. E pela longa abertura do seu colete de seda, onde reluzia um grilhão antigo - saíam as pregas moles de uma camisa bordada.

Era isto em Setembro; já as noites vinham mais cedo com uma friagem fina e seca e uma escuridão aparatosa. Eu tinha descido da diligência, fatigado, esfomeado, tiritando num cobrejão de listras escarlates.

Vinha de atravessar a serra e os seus aspectos pardos e desertos. Eram oito horas da noite. Os céus estavam pesados e sujos. E, ou fosse um certo adormecimento cerebral produzido pelo rolar monótono da diligência, ou fosse a debilidade nervosa da fadiga, ou a influência da paisagem escarpada e chata, sobre côncavo silêncio nocturno, ou a opressão da electricidade que enchia as alturas, o facto é que eu - que sou naturalmente positivo e realista - tinha vindo tiranizado pela imaginação e pelas quimeras. Existe no fundo de cada um de nós, é certo - tão friamente educados que sejamos - um resto de misticismo; e basta às vezes uma paisagem soturna, o velho muro de um cemitério, um ermo ascético, as emolientes brancuras de um luar - para que esse fundo místico suba, se alargue como um nevoeiro, encha a alma, a sensação e a idéia, e fique assim o mais matemático, ou o mais crítico, tão triste, tão visionário, tão idealista - como um velho monge poeta. A mim, o que me lançara na quimera e no sonho fora o aspecto do Mosteiro de Restelo, que eu tinha visto, na claridade suave e outonal da tarde, na sua doce colina. Então, enquanto anoitecia, a diligência rolava continuamente ao trote esgalgado dos seus magros cavalos brancos, e o cocheiro, com o capuz do gabão enterrado na cabeça, ruminava no seu cachimbo - eu pus-me elegiacamente, ridiculamente, a considerar a esterilidade da vida: e desejava ser um monge, estar num convento, tranqüilo, entre arvoredos, ou na murmurosa concavidade de um vale, e enquanto a água da cerca canta sonoramente nas bacias de pedra, ler a "Imitação", e, ouvindo os rouxinóis nos loureirais, ter saudades do Céu. - Não se pode ser mais estúpido. Mas eu estava assim, e atributo a esta disposição visionária a falta de espírito - a sensação - que me fez a história daquele homem dos canhões de veludinho.

A minha curiosidade começou à ceia, quando eu desfazia o peito de uma galinha afogado em arroz branco, com fatias escarlates de paio - e a criada, uma gorda e cheia de sardas, fazia espumar o vinho verde no copo, fazendo-o cair de alto de uma caneca vidrada: o homem estava de fronte de mim, comendo tranquilamente a sua geleia: perguntei-lhe, com a boca cheia, o meu guardanapo de linho de Guimarães suspenso nos dedos - se ele era de Vila Real.

- Vivo lá. Há muitos anos - disse-me ele.

- Terra de mulheres bonitas, segundo me consta - disse eu.

O homem calou-se.

- Hem? - tornei.

O homem contraiu-se num silêncio saliente. Até aí estivera alegre, rindo dilatadamente; loquaz e cheio de bonomia. Mas então imobilizou o seu sorriso fino.
Compreendi que tinha tocado a carne viva de uma lembrança. Havia de certo no destino daquele velho uma "mulher". Aí estava o seu melodrama ou a sua farsa, porque inconscientemente estabeleci-me na ideia de que o "facto", o "caso" daquele homem, devera ser grotesco. e exalar escárnio.
De sorte que lhe disse:

- A mim têm-me afirmado que as mulheres de Vila Real são as mais bonitas do Minho. Para olhos pretos Guimarães, para corpos Santo Aleixo, para tranças os Arcos: é lá que se vêem os cabelos claros cor de trigo.
O homem estava calado, comendo, com os olhos baixos.

- Para cinturas finas Viana, para boas peles Amarante - e para isto tudo Vila Real. Eu
tenho um amigo que veio casar a Vila Real. Talvez conheça. O Peixoto, um alto, de barba loura, bacharel.

- O Peixoto, sim - disse-me ele, olhando gravemente para mim.

- Veio casar a Vila Real como antigamente se ia casar à Andaluzia - questão de arranjar a fina-flor da perfeição.

- À sua saúde.

Eu evidentemente constrangia-o, porque se ergueu, foi à janela com um passo pesado, e eu reparei então nos seus grossos sapatos de casimira com sola forte e atilhos de couro. E saiu.

Quando eu pedi o meu castiçal, a criada trouxe-me um candeeiro de latão lustroso e antigo e disse;

- O senhor está com outro. E no nº3.

Nas estalagens do Minho, às vezes, cada quarto é um dormitório impertinente.

- Vá - disse eu.

O nº 3 era no fundo do corredor. Às portas dos lados os passageiros tinham posto o seu calçado para engraxar: estavam umas grossas botas de montar, enlameadas, com esporas de correia; os sapatos brancos de um caçador, botas de proprietário, de altos canos vermelhos; as botas de um padre, altas, com a sua borla de retrós; os botins cambados de bezerro, de um estudante; e a uma das portas, o nº15, havia umas botinas de mulher, de duraque, pequeninas e finas, e ao lado as pequeninas botas de uma criança, todas coçadas e batidas, e os seus canos de pelica-mor caíam-lhe para os lados com os atacadores desatados. Todos dormiam. Defronte do nº3 estavam os sapatos de casimira com atilhos: e quando abri a porta vi o homem dos canhões de veludilho, que amarrava na cabeça um lenço de seda estava com uma jaqueta curta de ramagens, uma meia de lã, grossa e alta, e os pés metidos nuns chinelos de ourelo.

- O senhor não repare - disse ele.

- À vontade. - E para estabelecer intimidade tirei o casaco.

Não direi os motivos por que ele daí a pouco, já deitado, me disse a sua história. Há um provérbio eslavo da Galícia que diz: "O que não contas à tua mulher, o que não contas ao teu amigo, conta-lo a um estranho, na estalagem." Mas ele teve raivas inesperadas e dominantes para a sua larga e sentida confidência. Foi a respeito do meu amigo, do Peixoto, que fora casar a Vila Real. Vi-o chorar, àquele velho de quase sessenta anos. Talvez a história seja julgada trivial: a mim, que nessa noite estava nervoso e sensível, pareceu-me terrível - mas conto-a apenas como um acidente singular da vida amorosa...
Começou pois por me dizer que o seu caso era simples e que se chamava Macário.
Perguntei-lhe então se era de uma família que eu conhecera, que tinha o apelido de "Macário". E como ele me respondeu que era primo desses, eu tive logo do seu carácter uma ideia simpática, porque os Macários eram uma antiga família, quase uma dinastia de comerciantes, que mantinham com uma severidade religiosa a sua velha tradição de honra e de escrúpulo. Macário disse-me que nesse tempo, em I8z; ou ;g, na sua mocidade, seu tio Francisco tinha, em Lisboa, um armazém de panos, e ele era um dos caixeiros. Depois o tio compenetrara-se de certos instintos inteligentes e do talento prático e aritmético de Macário, e deu-lhe a escrituração. Macário tornou-se o seu "guarda-livros".

Disse-me ele que sendo naturalmente linfático e mesmo tímido, a sua vida tinha nesse tempo uma grande concentração. Um trabalho escrupuloso e fiel, algumas raras merendas no campo, um apuro saliente de fato e de roupas brancas, era todo o interesse da sua vida. A existência, nesse tempo, era caseira e apertada. Uma grande simplicidade social aclarava os costumes: os espíritos eram mais ingênuos, os sentimentos menos complicados.

Jantar alegremente numa horta, debaixo das parreiras, vendo correr a água das regas - chorar com os melodramas que rugiam entre os bastidores do Salitre, alumiados a cera, eram contentamentos que bastavam à burguesia cautelosa. Além disso, os tempos eram confusos e revolucionários: e nada torna o homem recolhido, conchegado à lareira, simples e facilmente feliz - como a guerra. E a paz que, dando os vagares da imaginação, causa as impaciências do desejo.

Macário, aos vinte e dois anos, ainda não tinha - como lhe dizia uma velha tia, que fora querida do desembargador Curvo Semedo, da Arcádia - "sentido Vénus".

Mas por esse tempo veio morar para defronte do armazém dos Macários, para um terceiro andar, uma mulher de quarenta anos, vestida de luto, uma pele branca e baça, o busto bem feito e redondo e um aspecto desejável. Macário tinha a sua carteira no primeiro andar por cima do armazém, ao pé de uma varanda, e dali viu uma manhã aquela mulher com o cabelo preto solto e anelado, um chambre branco e braços nus, chegar-se a uma pequena janela de peitoril, a sacudir um vestido. Macário afirmou-se, e, sem mais intenção, dizia mentalmente aquela mulher, aos vinte anos, devia ter sido uma pessoa cativante e cheia de domínio: por que os seus cabelos violentos e ásperos, o sobrolho espesso, o lábio forte, perfil aquilino e firme, revelam um temperamento activo e imaginações apaixonadas. No entanto, continuou serenamente alinhando as suas cifras. Mas à noite estava sentado fumando à janela do seu quarto, que abria sobre o pátio: era em Julho e a atmosfera estava eléctrica e amorosa: a rabeca de um vizinho gemia uma xácara mourisca, que então sensibilizava, e era de um melodrama; o quarto estava numa penumbra doce e cheia de mistério - Macário, que estava em chinelas, começou a lembrar-se daqueles cabelos negros e fortes e daqueles braços que tinham a cor dos mármores pálidos: espreguiçou-se, rolou morbidamente a cabeça pelas costas da cadeira de vime, como os gatos sensíveis que se esfregam, e decidiu bocejando que a sua vida era monótona. E ao outro dia, ainda impressionado, sentou-se à sua carteira com a janela toda aberta, e olhando o prédio fronteiro, onde viviam aqueles cabelos grandes - começou a aparar vagarosamente a sua pena de rama. Mas ninguém se chegou à janela do peitoril, com caixilhos verdes. Macário estava enfastiado. pesado - e o trabalho foi lento. Pareceu-lhe que havia na rua um sol alegre, e que nos campos as sombras deviam ser mimosas e que se estaria bem vendo o palpitar das borboletas brancas nas madressilvas! E quando fechou a carteira sentiu defronte correr-se a vidraça; eram de certo os cabelos pretos. Mas apareceram uns cabelos louros. Oh! E Macário veio logo salientemente para a varanda aparar um lápis. Era uma rapariga de vinte anos, talvez - fina, fresca, loura como uma vinheta inglesa: a brancura da pele tinha alguma coisa de transparência das velhas porcelanas, e havia no seu perfil uma linha pura., como de uma medalha antiga e os velhos poetas pitorescos ter-lhe-iam chamado - pomba, arminho, neve e ouro.
Macário disse consigo:

- É filha.

A outra vestia de luto, mas esta, a loura tinha um vestido de cassa com pintas azuis, um lenço de cambraia trespassado sobre o peito, as mangas pendidas com rendas, e tudo aquilo era asseado, moço, fresco, flexível e tenro.
Macário, nesse tempo, era louro, com barba curta. O cabelo era anelado e a sua figura devia ter aquele ar seco e nervoso que depois do século XVIII e da revolução foi tão vulgar nas raças plebéias.

A rapariga loura reparou naturalmente em Macário, mas naturalmente desceu a vidraça correndo por trás uma cortina de cassa bordada. Estas pequenas cortinas datam de Goethe e elas têm na vida amorosa um interessante destino: revelam. Levantar-lhe uma ponta e espreitar, franzi-la suavemente, revela um fim; corrê-la, pregar nela uma flor, agitá-la fazendo sentir que por trás um rosto atento se move e espera - são velhas maneiras com que na realidade e na arte começa o romance. A cortina ergueu-se devagarinho e o rosto louro espreitou.”
Eça de Queirós

Bolero, “Maya Plisetskaya” (part 1)

Uma água forte

“Quando Mister Hiram B. Otis, o embaixador americano, adquiriu o Parque Canterville, não faltou quem o advertisse de que cometia uma loucura, porque na habitação apareciam, indubitavelmente, almas do outro mundo. Na verdade, o próprio Lord Canterville, cujo caráter era dos mais exigentes em escrúpulos, supusera seu dever assinalar o fato, chegado o momento de discutirem as condições do negócio.

- Até nós mesmos tínhamos já muito pouca vontade de residir aqui - disse Lord Canterville - desde que a minha tia-avó, a duquesa donatária de Bolton, desmaiou de terror (ela nunca pôde restabelecer-se desse abalo moral) quando as mãos de um esqueleto lhe assentaram nas espáduas, numa ocasião em que se vestia para o jantar. Devo igualmente dizer-lhe, Mr. Otis, que o fantasma tem sido visto por muitos membros ainda vivos da minha família, assim como pelo cura da paróquia, o Reverendo Augustus Dampier, agregado do King's College, em Cambridge. Depois do desgraçado acidente sucedido à duquesa, nenhum dos nossos criados novos quis manter-se a serviço, e Lady Canterville raramente conseguia conciliar o sono durante a noite por causa dos misteriosos ruídos vindos do corredor e da biblioteca.

- Lord Canterville, - respondeu o embaixador - eu sou o comprador da propriedade e do fantasma pelo valor que lhes seja atribuído. Venho de um país moderno em que o povo tem tudo quanto o dinheiro pode obter. Não é certo que a nossa atrevida mocidade revoluciona o Velho Mundo? Não lhes arrebatam as melhores atrizes e prima-donas? Se existisse um fantasma na Europa, dentro em pouco o teríamos lá, estou convicto disso; ele seria exposto num dos nossos museus ou exibido nas ruas.

- Pois muito receio que o fantasma ainda, de fato, exista - disse, sorrindo, Lord Canterville. - Pode ser que haja resistido às propostas dos seus arrojados empresários. É bem conhecido desde há três séculos, precisamente a partir do ano de 1584, e nunca deixa de fazer a sua aparição às vésperas do falecimento de cada pessoa da nossa família.

- Oh! Em todas as famílias o médico faz exatamente o mesmo, Lord Canterville. Vamos, não existe fantasma algum. Não creio que as leis da natureza abram uma exceção em favor da aristocracia inglesa.
- Os senhores, na América, são, não há dúvida, muito naturais - comentou Lord Canterville, sem compreender a última observação de Mr. Otis - e, se lhe é indiferente ter um fantasma portas adentro, estamos entendidos.

Passadas umas semanas, a transação estava concluída, e, já quase ao findar da época, o embaixador e a família foram instalar-se no Parque Canterville.”
Oscar Wilde