Sonetos

Como ator imperfeito que em meio à cena
O seu papel recita,
Ou como o ser violento em fúria plena
A que o excesso de forças debilita;

Também eu, sem confiança em mim, me esqueço
No amor de os ritos próprios recitar,
E na força com que amo me enfraqueço
Rendido ao peso do poder de amar.

Oh! sejam pois meus livros a eloquência,
Áugures mudos do expressivo peito,
Que amor implorem, peçam recompensa,

Mais do que a voz que muito mais tem feito.
Saibas ler o que o mudo amor escreve,
Que o fino amor ouvir com os olhos deve.
William Shakespeare

A Velha Izerguil

"Ouvi estes relatos perto de Akkerman, na Bessarábia, à beira-mar.
Uma noite, terminada a vindima quotidiana, o grupo de moldavos com quem eu trabalhava foi até à praia. A velha Izerguil e eu ficámos, deitados no chão, na sombra espessa das cepas, vendo em silêncio os vultos dos que iam para o lado do mar diluírem-se na névoa profunda da noite.

Caminhavam, cantavam, riam; os homens, morenos, com fartos bigodes pretos e caracóis espessos que lhes caíam para os ombros, com camisas russas e amplas bombachas cossacas; as mulheres e as raparigas alegres e vivas, bronzeadas como eles e de olhos azul-escuros. Tinham os cabelos negros e sedosos, desfeitos, e o vento, morno e suave, brincava fazendo tilintar as moedas neles entrançadas. A brisa soprava numa onda larga e regular, mas às vezes parecia saltar por cima de um obstáculo invisível, lançava uma rajada mais forte e fazia ondular os cabelos das mulheres como crinas fantásticas por cima das cabeças. Isso dava-lhes um ar estranho e fabuloso. E à medida que se iam afastando, a noite e a imaginação tornavam-nas cada vez mais belas.

Alguém tocava violino; uma das raparigas cantava com uma voz suave de contralto e chegava até nós o som dos risos.

O ar estava impregnado com o cheiro áspero da maresia e das emanações gordurosas da terra abundantemente molhada pela chuva que caíra ao princípio da noite. Pelo céu erravam ainda farrapos de nuvens, sumptuosos, de contornos e de cores estranhas, aqui delicados como espirais de fumo cinzento e azul-escuro, além nítidos como blocos rochosos, negros, castanho-escuros ou foscos. Entre eles brilhavam, com uma luz suave, parcelas de céu azul, semeadas de pequenas manchas douradas: as estrelas, tudo aquilo, sons, perfumes, nuvens e homens, era estranhamente belo e triste e parecia o início de um conto maravilhoso. Dir-se-ia que tudo tinha detido o seu crescimento e se deixava morrer; o ruído das vozes extinguia-se ao longe e transformava-se em suspiros tristes.

- Porque não foste com eles? - perguntou a velha Izerguil, apontando com o queixo para o lado da praia.

A idade tinha-a dobrado, os olhos, outrora negros, eram agora embaciados e lacrimejantes. A voz, seca, tinha sons estranhos, quebrados, como se falasse com os ossos.

- Não me apetece! - respondi.
- Hum!... Vocês, os Russos, já nascem velhos. Todos tristes como demónios... As nossas raparigas têm medo de ti... E no entanto és jovem e forte!

A Lua tinha-se levantado no céu. O seu enorme disco, cor de sangue, parecia ter saído das profundidades daquela estepe que tinha, ao longo dos séculos, devorado tanta carne humana e bebido tanto sangue que era decerto isso o que a tornara tão forte e generosa. As sombras rendilhadas da folhagem caíam em cima de nós, cobriam-nos como uma rede. Através da estepe, à nossa esquerda, passaram as sombras das nuvens impregnadas de esplendor azulado da Lua; tinham-se tornado mais transparentes e mais claras.

- Olha, ali vai Larra!
Olhei para o lado que a velha apontava com a mão trémula de dedos torcidos: lá ao fundo passavam sombras numerosas; uma delas, mais escura e mais densa que as outras, corria mais depressa e mais baixo que as irmãs, projectada por um farrapo de nuvem que vogava mais perto da terra e mais rapidamente.

- Não vejo ninguém! - disse eu.
- És mais cego que uma velha como eu. Olha lá para baixo, lá vai ele, escuro, correndo através da estepe.
Olhei mais uma vez e novamente nada mais vi além daquela sombra.
- É uma sombra. Porque lhe dás o nome de Larra?
- Porque é ele. Sim, agora é como uma sombra, já há muito tempo. Vive há milhares de anos, o sol mirrou-lhe o corpo, o sangue e os ossos, transformou-os em pó que o vento dispersou. Eis o que Deus pode fazer dum homem para lhe castigar o orgulho.
- Conta-me como as coisas se passaram - pedi eu, pressentindo um desses belos contos criados nas estepes.
Foi assim que ela me relatou o que segue:

- Desde essa época passaram milhares e milhares de anos. Para além do mar, muito longe, na direcção do sol-nascente, alonga-se a região dum grande rio onde cada folha de árvore e cada folha de erva fornecem ao homem a sombra necessária para se proteger dum sol atroz. Nessa região, a terra é extremamente generosa. Vivia ali uma tribo poderosa cujos homens apascentavam rebanhos, utilizavam na caça às feras a força e a coragem de que dispunham, banqueteavam-se depois da caça, cantavam canções e brincavam com as raparigas.

"Um dia, durante um banquete, uma delas, uma rapariga de cabelos pretos, suave como a noite, foi arrebatada por uma águia que descera do céu. As flechas que os homens dispararam recaíram no solo, lastimosamente. Então partiram em busca da jovem, mas não a encontraram. E depois esqueceram-na, como se esquece tanta coisa da terra."

A velha suspirou e calou-se. A voz estridente parecia o protesto dos séculos esquecidos que as sombras da recordação lhe encarnavam no peito. O mar acompanhava docemente o prólogo duma das antigas lendas que foram talvez criadas nas suas margens.

- Mas, vinte anos depois, ela regressou por si própria, ressequida, esgotada, e com ela vinha um jovem, belo e forte como ela tinha sido vinte anos antes. Quando lhe perguntaram onde tinha estado, contou que a águia a tinha transportado para as montanhas e que, lá no alto, a tinha tornado sua mulher. Aquele era o seu filho, o pai já não existia; quando as forças lhe tinham começado a declinar, tinha-se erguido uma última vez até ao alto do céu, recoIhera as asas e deixara-se tombar sobre as cristas aguçadas da montanha, entregando-se à morte.

"Todos olhavam o filho da águia com admiração e notavam que ele não era melhor do que eles; só os olhos eram frios e altivos como o do rei dos pássaros. Quando lhe falavam, respondia se lhe apetecia ou calava-se; e quando os velhos da tribo se aproximaram falou com eles de igual para igual. Eles ficaram chocados, chamaram-no "flecha desplumada de ponta romba", disseram-lhe que milhares de seus semelhantes e duas vezes mais idosos do que ele os respeitavam e se lhes submetiam. Mas ele olhava-os audaciosamente e respondeu que não havia homens como ele; que o mundo inteiro podia honrá-los mas que ele o não faria. E então eles zangaram-se realmente e disseram:

"- Não há lugar para ele no nosso meio. Que vá para onde lhe apetecer!"
"Ele soltou uma gargalhada e foi para onde lhe apeteceu, para junto de uma bela rapariga que o olhava fixamente; foi ter com ela e tomou-a nos braços. Mas era a filha de um dos Velhos que o tinham repudiado. Embora ele fosse belo, ela afastou-o porque temia o pai. Afastou-o e quis ir embora; mas ele bateu-lhe e, quando ela estava no chão, pôs-lhe o pé no peito com uma tal violência que o sangue lhe jorrou para o céu através dos lábios; a rapariga soltou um suspiro, torceu-se como uma serpente e morreu.

"Todos os que ali estavam ficaram petrificados de espanto: era a primeira vez que viam matar assim uma mulher. Mantiveram-se mudos durante muito tempo, olhando a rapariga que jazia no solo com os olhos abertos e a boca sangrenta, e, ao lado dela, o homem que se erguia sozinho contra todos, orgulhoso, sem baixar a cabeça e como que desafiando o castigo. Quando vieram a si, apoderaram-se dele, amarraram-no e deixaram-no assim, considerando que era demasiado simples matá-lo imediatamente e que isso não os poderia satisfazer."

A noite crescia, tornava-se espessa e enchia-se de ruídos estranhos. As marmotas assobiavam tristemente na estepe; a estridulação cristalina dos grilos estremecia nas folhas das videiras, a folhagem suspirava e murmurava, o disco da lua cheia, há pouco vermelho de sangue, empalidecia, à medida que se afastava da Terra, e a estepe inundava-se cada vez mais amplamente com o seu brilho azulado.

- Então os homens reuniram-se para imaginar um castigo digno do crime. Pensaram esquartejá-lo por meio dos cavalos, mas isso pareceu-lhes pouco; quiseram atravessar-lhe o corpo com uma flecha de cada um, mas puseram também essa solução de parte; propuseram-se queimá-lo, mas o fumo da pira não os deixaria ver os tormentos que sofresse; passaram em revista várias penas mas não encontraram nenhuma que agradasse a todos. E a mãe mantinha-se de joelhos, diante deles, sem encontrar lágrimas ou palavras com que implorasse o perdão. Discutiram longamente e foi então que um velho sábio disse, após longa meditação:

"- Perguntemos-lhe a razão que o levou a fazer isto.
"- Fizeram-lhe a pergunta. E ele disse:
"- Desamarrem-me! Não falarei enquanto estiver ligado!
"Depois de o terem feito, perguntou:
"- Que querem?
"Fê-lo no mesmo tom com que falaria a escravos.
"- Ouviste muito bem... - disse o sábio.
"- Por que razão vos explicaria os meus actos?
"- Para que os possamos compreender. Ouve, orgulhoso: de qualquer modo vais morrer, não é verdade? Deixa-nos compreender o que fizeste. Nós vamos continuar a viver e é-nos útil aumentar os nossos conhecimentos.
"- Muito bem, falarei, embora eu próprio não esteja certo de compreender o que se passou. Matei-a, segundo me parece, porque me repeliu... E eu tinha necessidade dela.

"- Mas ela não era tua! - responderam-lhe eles.
"- E acaso vos servis apenas do que é vosso? Vejo que cada homem tem apenas de seu a sua palavra, os seus braços, as suas pernas... e reina sobre os animais, sobre as mulheres, sobre a Terra... sei lá sobre que mais ainda.
"Responderam-lhe que de tudo o que toma o homem paga com alguma coisa de si mesmo: com a sua inteligência, a sua força, por vezes com a sua vida. E ele retorquiu que se queria manter inteiro.

"Falaram durante muito tempo e, finalmente, os Velhos perceberam que o jovem se considerava o primeiro sobre a Terra, e que não via nada nem ninguém fora de si mesmo. Sentiram-se apavorados quando compreenderam a que solidão ele se tinha condenado. Não possuía tribo, nem mãe, nem rebanho, nem mulher, e não pretendia nada disso.
"Ao apreenderem essa verdade, puseram-se a discutir o castigo. Mas desta vez não falaram durante muito tempo; o sábio deixou-os dar a sua opinião, depois tomou a palavra:

"- Parem! Há um castigo; um castigo terrível; não encontrareis outro semelhante num milhar de anos! O castigo está nele próprio. Soltem-no e deixem-no ir, livre. Esse é o seu castigo.

"Então passou-se algo de grandioso. O trovão reboou pelos céus, apesar de não haver nuvens. As forças celestes confirmavam assim a opinião do sábio. Todos se inclinaram e se separaram. E o jovem - que agora recebera o nome de Larra, que quer dizer banido, condenado - riu alto ao ver partir os homens que o tinham expulso, riu por ficar só, livre como o pai... Mas ele era um homem. Então pôs-se a viver sem lei como o pássaro. Vinha à tribo e roubava gado, raparigas, tudo aquilo de que tinha necessidade. Disparavam contra ele mas as flechas não podiam atravessar-lhe o corpo coberto pela protecção invisível do castigo supremo. Era astucioso, ávido, vigoroso, cruel e nunca defrontava os homens frente a frente. Só o viam de longe. Durante muito tempo, manteve-se assim, solitário, rodando em torno dos homens, muito tempo, dezenas de anos. Mas um dia aproximou-se deles e quando se lançaram contra ele não fez um gesto para se defender.
"Então um dos homens adivinhou o que se passava e gritou:
"- Não lhe toquem! Ele quer morrer!

"Todos se detiveram porque não queriam aligeirar a sorte daquele que lhes tinha feito mal, não desejavam matá-lo. Pararam e escarneceram-no. Ele tremia ao ouvir-lhes o riso e, com as mãos crispadas, procurava incessantemente alguma coisa no peito. Repentinamente, pegou numa pedra e arremessou-a contra eles; evitaram essa e as que se lhe seguiram, mas não retribuíram, e quando, com um grito angustiado, ele tombou no solo, esgotado, afastaram-se um pouco e ficaram a observá-lo. Ele ergueu-se, apanhou um punhal que tinha caído na luta e tentou espetá-lo no peito. A arma quebrou-se como se tivesse chocado contra uma pedra. De novo se deixou tombar e bateu com a cabeça contra o solo durante muito tempo. Mas o solo amolecia debaixo dele e afundava-se com as pancadas.

"- Ele não pode morrer! - disseram os homens alegremente.
"Partiram, deixando-o só. Ficou deitado, com o rosto voltado para o céu, vendo planar nas alturas, como pequenos pontos negros, as águias poderosas. Havia nos olhos dele uma angústia tão grande que daria para envenenar todo o género humano. Desde aquele dia, mantém-se solitário, à espera de morrer; anda ao acaso, de um lado para outro. Está agora como uma sombra e ficará assim para a eternidade. Não compreende a linguagem dos homens, nem os actos deles, nada... Procura constantemente, vai e vem... Deixou de amar a vida e a morte não lhe sorri. Não tem lugar entre os homens... Vê como um homem foi castigado pelo seu orgulho!"
A velha suspirou, calou-se e deixou pender para o peito a cabeça que abanava de um modo estranho.

Olhei-a e pareceu-me que o sono se apoderava dela. Senti que me inspirava uma intensa piedade. Tinha conduzido o final do seu relato sob um tom exaltado, ameaçador, mas onde, no entanto, havia uma nota assustada e servil.

Na margem elevou-se uma canção, um canto estranho. Primeiro foi um contralto que entoou duas ou três notas, depois uma segunda voz retomou a canção desde o início, a primeira continuando a preceder a segunda... uma terceira, uma quarta, uma quinta voz entraram na canção pela mesma ordem. E subitamente a mesma letra foi retomada, sempre desde o princípio, por um coro de homens.

Cada voz de mulher soava perfeitamente distinta, dir-se-iam outros tantos regatos multicores correndo pelos penhascos, saltitando, murmurantes, vindo desaguar na vaga densa das vozes masculinas que se elevavam para elas com um movimento igual, para se nelas afogarem e se libertarem, abafá-las e erguerem-se de novo, uma após outra, puras e fortes, cada vez mais alto.
O ruído das vagas perdia-se para além das vozes...
II
- Já ouviste dizer que ainda se canta assim, em qualquer parte? - perguntou a velha Izerguil, erguendo a cabeça e sorrindo com a sua boca desdentada.
- Não, nunca!

- Nunca o dirão. Nós gostamos de cantar. Só podem cantar assim belos homens, homens que amem a vida. Nós amamos a vida. Repara, pensas acaso que não se fatigaram durante o dia os que cantam além? Trabalharam do nascer ao pôr do Sol, a Lua ergueu-se e agora eles cantam. Os que não sabem viver teriam ido dormir. Os que amam a vida, vês, cantam.
- Mas a saúde... - comecei eu.

- Há sempre saúde bastante para a vida. A saúde! Se tivesses dinheiro não o gastarias? A saúde vale como o ouro. Sabes o que eu fazia quando era nova? Tecia tapetes do nascer ao pôr do Sol sem praticamente me levantar. Era viva como um raio de sol e era forçada a manter-me sentada, imóvel como uma pedra. Ficava sentada durante tanto tempo que às vezes todos os meus ossos estalavam. E, quando vinha a noite, corria para casa daquele que eu amava para o abraçar. Isso durou três meses, tanto tempo quanto o amor; durante três meses, passei em casa dele todas as minhas noites. E vê até que idade vivi, o sangue foi suficiente. Quantos homens amei! Quantos beijos dei, quantos me foram dados!

Olhei o rosto dela. Os olhos negros mantinham-se embaciados, a recordação não os avivara. O luar iluminava-lhe os lábios secos, gretados, o queixo pontiagudo com pêlos grisalhos e o nariz enrugado, recurvo como um bico de coruja. Em lugar das faces, cavavam-se fossas negras; numa delas repousava uma mecha de cabelos acinzentados que lhe escapara do lenço vermelho que lhe envolvia a cabeça. A pele do rosto, do pescoço e das mãos estava toda sulcada de rugas, e a cada um dos seus movimentos parecia-me que aquela pele seca se ia rasgar, dilacerar, e diante de mim se ergueria um esqueleto nu com olhos apagados e negros.

Com a sua voz quebrada, recomeçou a contar:
- Vivia com a minha mãe perto de Falmi, mesmo nas margens do Byrlat; tinha quinze anos quando ele apareceu no nosso povoado. Era alto, flexível, alegre, com uns bigodes negros. Estava num barco e gritou-nos pelas janelas com uma voz bem sonora: - Eh, vocês têm vinho... e alguma coisa para comer? - Olhei pela janela, através dos ramos dos freixos: vi o rio azulado sob o clarão do luar, e ele, em pé, com uma camisa branca e um cinturão largo de pontas pendentes, um pé no barco o outro na margem. Viu-me e disse: - Caramba! Que beleza mora aqui!... E eu sem saber nada! - Como se já tivesse conhecido todas as belezas da região antes de mim. Dei-lhe vinho e carne de porco cozida... E quatro dias depois dava-me eu própria, toda inteira... Ele vinha, assobiava suavemente como uma marmota, e eu saltava da janela para o rio como um peixe... A caminho!... Era um pescador do Prut, e, mais tarde, quando a minha mãe descobriu tudo e me bateu, ele tentou persuadir-me, com insistência, a partir com ele para Dobruja, e ainda para mais longe, para a foz do Danúbio. Mas já então não me agradava, ele limitava-se a cantar e a beijar-me, nada mais. Tinha-se tornado aborrecido. Nessa época, passavam por ali, em grupo, os bandoleiros, e havia alguns muito agradáveis... Levavam uma rica vida! Uma rapariga esperava longamente o seu rapaz dos Cárpatos, já o imaginava na prisão ou morto algures numa rixa, quando ele de repente aparecia, sozinho ou com dois ou três camaradas, como se tivesse caído do céu. Trazia-lhe presentes valiosos: para eles era tudo barato. Oferecia banquetes em casa dela, mostrava sentir orgulho nela diante dos camaradas, e a rapariga apreciava isso. Pedi a uma companheira que tinha um desses bandoleiros que me deixasse vê-los. Como se chamava ela? Já me esqueci... Agora começo a esquecer tudo. Já passou muito tempo depois disso, tudo esquece. Ela apresentou-me a um deles. Simpático. Ruivo, completamente ruivo, tanto os bigodes como o cabelo ondulado. E era melancólico, às vezes galanteador, outras vezes rugia e batia-se como uma fera. Uma vez bateu-me na cara e eu saltei como um gato, agarrei-o pelo peito e mordi-o na face. Ficou com uma cova no sitio onde o mordi e gostava que o beijasse ali quando nos amávamos.
- E o pescador, onde foi parar? - perguntei eu.

- O pescador? Bem, continuava lá... tinha acamaradado com os bandoleiros. A princípio repreendia-me e ameaçava-me, dizia que me atiraria à água, mas depois passou-lhe; ligou-se com eles e arranjou outra... Foram enforcados os dois juntos, o pescador e o bandoleiro. Fui assistir. Foi na Dobruja. No caminho do suplício, o pescador estava pálido e chorava, mas o outro fumava o seu cachimbo. Caminhava à vontade e fumava, com as mãos nos bolsos, um bigode caído em cima do ombro, o outro pendente para o peito. Reparou em mim, tirou o cachimbo e gritou-me: "Adeus!"... Chorei-o durante um ano inteiro... Aquilo aconteceu-lhes quando pretendiam voltar para casa, para os Cárpatos. No dia da partida, tinham sido convidados por um romeno, foi em casa dele que os apanharam. Só prenderam dois, mas mataram vários, os outros conseguiram fugir... De resto, o romeno também teve a sua conta, logo a seguir. Queimaram-lhe a quinta, o moinho e o trigo todo. Caiu na miséria.

- Foste tu quem fez isso? - perguntei eu, ao acaso.
- Eles tinham muitos amigos, eu não era a única... Os que eram os seus melhores amigos encarregavam-se do castigo.

Na praia, a canção tinha cessado e, agora, só o rumor das vagas acompanhava a voz da velha. Esse ruído melancólico e tumultuoso era um magnífico acompanhamento para o relato daquela vida agitada. A irradiação azul do luar dissolvia-se cada vez mais na noite cuja suavidade aumentava; os ruídos indecisos da vida atarefada dos seus habitantes invisíveis tornavam-se mais abafados, sob o domínio cada vez mais forte das vagas, porque o vento estava a levantar-se.

- Depois disso, ainda amei um turco. Estive no harém dele, em Escutári. Vivi lá uma semana e não estava mal... Mas aborrecia-me... Só mulheres, sempre mulheres... Havia oito... Todo o dia a comer, a dormir, a dizer disparates. Ou então zangavam-se umas com as outras, cacarejavam como galinhas. O turco já não era muito novo. Tinha os cabelos quase brancos, era muito digno, rico. Falava como um bispo... Tinha olhos negros, olhos firmes que nos olhavam a direito, na alma. Gostava de rezar. Eu tinha-o visto em Bucareste... Andava pelo mercado, de um lado para o outro, como um rei, e olhava com um ar importante, muito importante. Sorri-lhe. Nessa mesma noite, fui raptada na rua e levada a casa dele. Ele vendia sândalo e óleo de palma e tinha vindo a Bucareste fazer compras. Perguntou-me se queria ir com ele para a Turquia e eu respondi que sim. Só disse "Bom!" e eis-me a caminho. O turco era rico e tinha um filho, um rapaz moreno, flexível, com dezasseis anos. Foi com ele que fugi de casa do pai... Fui para a Bulgária, para Lom-Palanka. Lá, houve uma búlgara que me deu uma facada no peito por causa do noivo, ou do marido, já não me lembro bem.

Fiquei muito tempo doente, num convento. Um convento de mulheres. Fui tratada por uma rapariga polaca... o irmão dela, que também era monge, vinha visitá-la, o convento era perto de Artser-Palanka. Ele rastejava diante de mim como um verme... Quando me levantei, parti com ele... para a Polónia.

- Espera aí!... E que aconteceu ao jovem turco?
- O garoto? Tinha morrido. De saudades ou de paixão, não percebi... Tinha mirrado como um arbusto ainda tenro sob o excesso de sol... Secou completamente... Lembro-me dele, deitado, já transparente e azulado como um pedaço de gelo: o amor continuava a arder-lhe no peito. Pedia-me que me inclinasse para ele e o beijasse... Eu amava-o e lembro-me que o beijava ardentemente. Depois ficou pior, praticamente não se mexia. Mantinha-se inerte e pedia-me que me deitasse a seu lado, para o aquecer, com a voz gemida de um mendigo que pede esmola. Eu deitava-me e logo que o fazia ele inflamava-se todo. Um dia acordei, mas ele já estava frio... morto. Chorei-o. Quem sabe? Fui talvez eu quem o matou. Eu tinha nesse momento o dobro da idade dele. E era tão forte, tão ardente... Ele o que era? Um rapazinho!

Suspirou e - era a primeira vez que lhe via fazer aquele gesto - benzeu-se três vezes, murmurando algo com os lábios ressequidos.
- E então... tinhas partido para a Polónia... - lembrei-lhe.
- Sim... com aquele polaco. Era ridículo e sórdido. Quando precisava de mulher, apertava-se contra mim como um gato e a boca soltava-se num mel ardente, mas, quando não me queria, as palavras dele eram como chicotadas. Um dia seguíamos ao longo do rio e disse-me uma palavra que me feriu. Não pude mais, zanguei-me, comecei a ferver como piche. Agarrei-o - ele era muito pequeno -, ergui-o no ar, apertei-lhe as costelas com os braços até que ficou violáceo. Tomei balanço e atirei-o ao rio. Lá ficou a gritar; gritava duma maneira tão ridícula! Olhei-o cá de cima a debater-se na água e fui-me embora. Nunca mais o encontrei. Tive sorte: nunca encontrei segunda vez os homens que amei. São maus encontros, é exactamente como se encontrássemos os mortos.

A velha calou-se, recobrando fôlego. Imaginei os homens que ela ressuscitava. Ali estava o bandoleiro de longos bigodes e cabelo flamejante que seguia para a morte fumando calmamente o seu cachimbo. Tinha decerto olhos azuis e frios que pousavam em todas as coisas o mesmo olhar concentrado e firme. Ao lado dele, o pescador do Prut, de bigodes negros, que chorava e não queria morrer; no rosto violáceo, a angústia que precede a morte velava-lhe os olhos alegres e os bigodes molhados de lágrimas pendiam tristemente nos cantos duma boca torcida. O velho turco de olhar imponente, sem dúvida fatalista e despótico, e, a seu lado, o filho, frágil flor pálida do Levante, envenenada com beijos. E ali estava o polaco vaidoso, galante e cruel, tagarela falso e frio. Não passavam de pálidas sombras e aquela que o beijara estava sentada a meu lado, viva mas mirrada pelo tempo, um corpo vazio de sangue, com um coração sem desejos, com olhos sem chamas, também ela quase uma sombra.
Recomeçou a contar:

- Na Polónia tive dificuldades. Lá vivem homens frios e mentirosos. Eu não lhes conhecia a língua de serpentes. Silvam permanentemente. Que silvam eles? Foi Deus que lhes deu aquela língua de serpentes porque são mentirosos. Eu ia sem saber para onde e via-os, então, reunirem-se para se revoltarem contra vocês, contra os Russos. Cheguei até Bokhnia, e nessa cidade vendi-me a um judeu. Não me tinha comprado para ele, mas para negociar comigo. Eu estava de acordo. Para viver é preciso saber fazer qualquer coisa. Eu não sabia fazer nada e teria de pagar com o meu corpo. Mas pensava que, se arranjasse um pouco de dinheiro, poderia voltar para a minha terra, no Byrlat, e quebraria os grilhões por mais fortes que fossem. Fiquei lá. Recebia a visita de ricos senhores que se banqueteavam em minha casa. Aquilo custava-lhes muito caro. Batiam-se por minha causa, arruinavam-se. Havia um que tentava possuir-me havia muito e um dia fez o seguinte: veio ter comigo e um criado seguia-o com um saco. O ricaço abriu o saco e voltou-o em cima da minha cabeça. As moedas de ouro caíam-me nos cabelos e eu sentia-me alegre a ouvi-las tilintar ao caírem no chão. Mas mesmo assim corri com ele. Tinha um aspecto grosseiro, malfeito, e uma barriga que parecia um almofadão. Era um porco pronto para a matança. Sim, pu-lo fora, apesar de ele me ter dito que tinha vendido todas as suas terras, casas e cavalos para me cobrir de ouro. Eu estava nessa altura apaixonada por um fidalgo muito digno, de rosto retalhado. Havia sido acutilado pelos sabres dos Turcos contra quem tinha combatido pouco antes, ao lado dos Gregos. Aquilo era um homem! Que lhe importavam os Gregos, visto que era polaco? Vou-te dizer: gostava das proezas. E quando um homem gosta das proezas, sabe sempre como as realizar e encontrará sempre lugar para isso. Na vida há sempre lugar para dar largas à intrepidez. E aqueles que não sabem realizá-las, são simplesmente pantomineiros e cobardes, ou então não compreendem a vida, pois se os homens compreendessem a vida todos quereriam deixar nela a sua sombra. E então a vida não devoraria os homens sem deixar rasto... Aquele era um valente! Estava pronto a ir ao fim do mundo para enfrentar fosse o que fosse. Certamente os vossos mataram-no no momento da revolta. E porque foram vocês bater nos Húngaros? Bem, deixemos isso...

Mandando-me calar, a velha Izerguil silenciou subitamente e mergulhou nos seus pensamentos.

- Também conheci um húngaro. Um dia saiu da minha casa, no Inverno, e só na Primavera, quando começou o degelo, o encontraram num campo com a cabeça atravessada por uma bala. Foi assim. Como vês, a peste não perde mais homens que o amor; se se fizessem as contas, verias que é verdade. Onde é que eu ia? Ah, na Polónia! Joguei lá a minha última partida. Encontrei um nobre... Esse é que era belo! Como o Diabo! Eu já estava velha; teria os meus quarenta anos?... Talvez. Era orgulhoso e mimado pelas mulheres. Custou-me caro... sim. Queria-me tomar à primeira, mas não cedi. Nunca tinha sido escrava de ninguém. Já me tinha libertado do judeu, tinha-lhe dado muito dinheiro. Agora habitava em Cracóvia e tinha tudo, ouro, cavalos, criados... Ele vinha ver-me, endemoninhado de orgulho, e queria que eu me atirasse para os braços dele. Zangámo-nos... fiquei mais feia, recordo-me muito bem. As coisas arrastaram-se durante muito tempo, mas por fim atingi o que queria: ele suplicou-me de joelhos. Mas logo que fui dele, abandonou-me. Foi então que compreendi que estava velha. Aquilo não era nada agradável, absolutamente nada. Eu amava aquele demónio... e ele, quando me encontrava, ria. Era vil. Zombava de mim com os outros... eu sabia-o. Tenho de confessar que era bastante amargo, mas ele estava ali, perto, e, pelo menos, eu podia ter o prazer de o ver. Quando partiu para se bater contra vocês, senti-me tão mal! Lutava contra mim mesma, mas não me conseguia dominar. Decidi partir, segui-lo. Ele estava perto de Varsóvia, na floresta.

"Quando cheguei, soube que tinham sido derrotados, e que estava numa aldeia perto, prisioneiro.

"Quer dizer - pensei eu - nunca mais o verei. Mas queria vê-lo e esforcei-me para o conseguir... Disfarcei-me de mendiga, manca, e pus-me a caminho, com o rosto vendado, para a aldeia onde ele estava. Por toda a parte só havia soldados e cossacos... Custou-me caro chegar lá. Soube onde estavam os polacos e vi que era muito difícil chegar até eles. No entanto, era necessário. À noite, deslizei até ao lugar; rastejei num jardim, entre os arbustos, e que vejo: a sentinela, em pé, no meu caminho... Já os ouvia, os polacos a cantar e a falar alto. Entoavam um cântico à Mãe de Deus. E ele cantava no meio deles... o meu Arkadek. Lembrei-me amargamente que dantes rastejavam para mim e agora chegara a minha vez de rastejar como uma cobra à procura dum homem, e talvez também a caminho da morte. Ali estava a sentinela que apurava o ouvido e se inclinava para a frente. Afinal, que arriscava eu? Levantei-me e caminhei para ela. Não tinha faca, tinha apenas as mãos e a língua. Lamentei não ter trazido uma faca. Disse-lhe que esperasse, mas já ele tinha apoiado a baioneta na minha garganta; só tive tempo de murmurar: - Não espetes, espera, ouve-me se tens uma alma. Não te posso dar nada, mas suplico-te... - Ele baixou a espingarda e disse-me em voz baixa: - Vai-te embora, mulher; vai-te embora! Que queres daqui? - Eu disse-lhe que o meu filho estava ali preso. - Tenta compreender, soldado, tu também és filho de alguém, não é verdade? Deixa-me vê-lo, talvez ele morra em breve... e talvez tu morras amanhã e a tua mãe chorará por ti? E será duro morreres sem ter revisto a tua mãe. Também para o meu filho será um mau bocado. Tem pena de ti e dele, e de mim que sou a mãe...
"Falei-lhe durante muito tempo. A chuva caía e molhava-nos. O vento uivava, rugia, açoitava-me ora o peito ora as costas. Eu estava ali e oscilava diante daquele soldado de pedra que me respondia sempre: "Não." De cada vez que eu lhe ouvia aquela fria palavra mais me inflamava o desejo de rever o meu querido Arkadek. Falava e media o soldado com o olhar. Era pequeno, seco e tossia permanentemente. Deixei-me cair de joelhos, abracei-lhe as pernas, continuando a pedir ardentemente, e atirei-o ao chão. Caiu na lama, voltei-lhe rapidamente o rosto para a terra e mergulhei-lhe a cabeça numa poça para o impedir de gritar. Não gritava, debatia-se apenas, tentando fazer-me sair de cima dele. Eu segurava-lhe a cabeça com as duas mãos mergulhando-o na lama cada vez mais profundamente, até que ele abafou... Então precipitei-me para o barracão onde os polacos cantavam e chamei: - Arkadek! - Murmurava o nome dele nas fendas das paredes. Quando me ouviram, deixaram de cantar: os polacos adivinham essas coisas. Via-lhes os olhos em frente dos meus. - Podes sair daí? - Posso, pelo soalho - disse ele. - Então, anda lá. E assim saíram dali quatro: três e o meu Arkadek que me perguntou onde estava a sentinela. - Está ali, no chão! - Saímos devagar, curvados, sob a chuva, enquanto o vento uivava. Apanhámo-nos fora da aldeia e caminhámos durante muito tempo, em silêncio, pela floresta. Íamos depressa; Arkadek levava-me pela mão, a mão dele estava quente e trémula. Oh, sentia-me tão bem com ele que nem falava. Foram os últimos minutos, os melhores minutos da minha vida ardente. Entretanto, tínhamos desembocado num prado e parámos. Todos me agradeceram. Oh, nunca mais acabavam de me contar não sei o quê. Ouvia-os e olhava o meu fidalgo. Que ia ele fazer de mim? E então tomou-me nos braços e disse-me com um ar grave... Já não me lembro o que disse, mas tudo se resumia no seguinte: daqui em diante, reconhecido por lhe ter conseguido a evasão, amar-me-ia. Ajoelhou diante de mim, sorridente, e chamou-me "Minha rainha!" Estás a ver o mentiroso que ele era. Dei-lhe um pontapé e tê-lo-ia esbofeteado se ele não tivesse dado um salto para trás. Ficou diante de mim, ameaçador e pálido. Os outros três mantinham-se ali, pouco acolhedores, calados. Olhei-os... E de repente senti invadir-me uma enorme lassidão, uma preguiça incomparável; disse-lhes: "Vão-se embora!" E eles, os patifes, perguntaram-me: "Voltas lá, para lhes mostrar o nosso caminho?" Estás a ver a baixeza deles? Mas foram embora, mesmo assim, e eu parti também. No dia seguinte, fui apanhada pelos vossos, mas libertada a seguir. Comecei a pensar que era tempo de arranjar um ninho, que já tinha vivido tempo de mais como um cuco. Começava a engordar, as asas tinham perdido força e as penas perdido o brilho... Era tempo, não havia dúvida. Parti para a Galícia, e de lá para a Dobruja. Faz agora perto de trinta anos que moro aqui. Tive um marido, um moldavo, morreu há um ano. Vivo sozinha; sozinha não, com eles."

Fez um gesto em direcção ao mar. Para lá, tudo estava calmo. Por vezes, nascia um ruído rápido e enganador que morria logo a seguir.
- Gostam de mim. Conto-lhes uma porção de histórias. São todos ainda muito novos... Sinto-me bem com eles. Fazem-me lembrar como eu era dantes. Mas no meu tempo havia no homem muito mais força e paixão, a vida também era mais alegre e melhor. Não há dúvida.

Calou-se. Eu estava triste ao lado dela. Ela sonhava, abanava a cabeça e murmurava baixinho... talvez rezasse.

Do mar subia uma nuvem, negra, pesada, de contornos severos, semelhante a uma crista de montanha. Avançava rastejando pela estepe. Do cume destacavam-se farrapos que a precediam e apagavam as estrelas uma após outra. O mar bramia. Perto de nós, nos vinhedos, ouvia-se o ruído de beijos e suspiros. Na profundidade da estepe, uivava um cão... O ar irritava os nervos e as narinas, carregado de um perfume estranho. As nuvens atiravam para a terra sombras densas que rastejavam, rastejavam, desapareciam, reapareciam. No lugar da Lua apenas se mantinha uma mancha baça, cor de opala; de vez em quando, um pedaço de nuvem azulada escondia-se completamente. E no horizonte da estepe, agora negra e assustadora como se se dissimulasse ou escondesse um segredo, acendiam-se minúsculas luzes azuis. Ora aqui, ora ali, apareciam durante uma fracção de segundo e extinguiam-se, como se alguns homens esparsos pela imensidão da estepe procurassem qualquer coisa, acendessem fósforos imediatamente apagados pelo vento. Eram estranhas línguas de fogo, azuis, que faziam pensar em qualquer coisa de fabuloso.

- Estás a ver as fagulhas? - perguntou a velha Izerguil.

- As azuladas? - disse eu, apontando para a estepe.
- Azuladas? Sim, é isso... Quer dizer que continuam a voar. Eu já não as vejo. Já não posso ver muita coisa.
- De onde vêm elas? - perguntei.

Eu já conhecia relatos sobre a origem daqueles fogos-fátuos, mas queria ouvir o conto que a velha Izerguil faria sobre aquilo.

- Aquelas fagulhas vêm do coração ardente de Danko. Houve uma vez um coração que um dia pegou fogo. É dele que saltam fagulhas. Vou-te contar essa história. É uma velha lenda. Mais uma velha coisa; quantos tesouros havia nos tempos antigos, estás a ver?... E agora, nada, nem acções, nem homens, nem contos, como nesse tempo. Porquê? Responde, se és capaz. Não há resposta. Sabes lá? Que sabem vocês todos, rapazes novos? Eh, eh! Se olharem bem para o passado, verão que se encontra lá resposta para todos os enigmas... Mas vocês não olham e é por isso que não sabem viver. Achas que não vejo a vida? Vejo tudo, embora os meus olhos sejam maus! E vejo que os homens não vivem, passam o seu tempo a prepararem-se para agir, sem realmente agirem nunca; e gastam nisso toda a sua vida. Quando se roubaram a si próprios, esbanjando o tempo, põem-se a choramingar sobre o destino. Mas o que é o destino? Cada um é o seu próprio destino! Vejo toda a espécie de pessoas, mas não vejo pessoas fortes. Onde estão? E os belos homens são cada vez mais raros.

A velha pôs-se a reflectir sobre aquele tema, para onde iam os homens fortes e belos e, cismando, examinava a estepe sombria como que para obter uma resposta.

Eu esperava a história que ela contaria e calava-me com receio de que uma pergunta minha lhe desviasse novamente a atenção.
E então ela começou.
III
- Dantes viviam na terra homens cujos acampamentos eram cercados, por três lados, por florestas impenetráveis, abrindo o quarto lado para a estepe. Eram homens alegres, fortes e audaciosos. Mas um dia chegaram momentos difíceis: apareceram tribos, vindas não se sabe de onde, que expulsaram os anteriores para o fundo das florestas. Ali reinavam os pântanos e as trevas, a floresta era tão velha e os ramos tão entrelaçados que não deixavam ver o céu; os raios do Sol quase não conseguiam atravessar a folhagem espessa. Mas quando caíam na água dos pântanos, estes exalavam um tal fedor que os homens morriam uns atrás dos outros. As mulheres e as crianças começaram a chorar e os pais começaram a cismar e deixaram-se invadir pela tristeza. Era preciso sair da floresta e não havia, para tal, senão dois caminhos: voltar para trás, e lá encontravam-se inimigos fortes e de maus instintos, ou seguir em frente, o caminho onde se erguiam árvores gigantescas cujos ramos poderosos se entrelaçavam e cujas raízes penetravam profundamente na vasa pegajosa dos pântanos. As árvores de pedra erguiam-se, de dia, silenciosas e imóveis na penumbra cinzenta, e, à noite, cercavam os homens ainda mais de perto quando se acendiam as fogueiras do acampamento. E constantemente, quer de noite quer de dia, havia em redor dos homens um anel de trevas sólidas que parecia estar prestes a esmagá-los. Estavam habituados à imensidão das estepes. E ainda era mais terrível quando o vento chicoteava as frondes e toda a floresta uivava surdamente como se os ameaçasse e lhes entoasse um canto fúnebre. Eram homens fortes e poder-se-iam bater até à morte com os que anteriormente os tinham vencido, mas não deviam morrer nos combates porque tinham tradições e, se desaparecessem todos, elas desapareceriam com eles. Por isso se mantinham e cismavam, nas longas noites, sob o ruído abafado da floresta, no meio do fedor envenenado do pântano. Mantinham-se ali e as sombras das fogueiras dançavam à volta deles uma ronda muda; tinha-se a impressão de que não eram as florestas que dançavam mas sim os espíritos malignos da floresta e do pântano que triunfavam. Os homens continuavam a pensar, mas nada esgota tanto o corpo e a alma dos homens como os pensamentos na ansiedade; nada, nem o trabalho nem as mulheres. À força de pensar, os homens enfraqueceram. O terror apoderou-se deles, minou-lhes os braços sólidos, as mulheres deram largas ao medo chorando sobre os corpos dos que tinham morrido das emanações fétidas e sobre a sorte dos vivos agrilhoados pelo terror; começaram a ouvir-se na floresta palavras de cobardia, de início tímidas e abafadas, depois num tom cada vez mais alto. Já se sentiam prontos a ir ter com o inimigo levando-lhe em oferenda a sua liberdade, assustados pela morte já ninguém temia a vida de escravo... Foi então que apareceu Danko e, sozinho, os salvou a todos.

Era fácil de perceber que a velha contava frequentemente a história do coração ardente de Danko. A fala era cantante e a voz, rangente e abafada, evocava o ruído da floresta onde, com o ar fétido e envenenado do pântano, morriam homens infelizes e assustados. - Danko era um deles, um belo jovem. Os homens belos são sempre audaciosos. Ele disse aos camaradas:
- Com o pensamento não se afastam as pedras do caminho. Quem nada arrisca, nada obtém. Para que serve gastarmos as nossas forças a gemer e a cismar? Entraremos na floresta de pé e atravessá-la-emos, porque ela tem um fim, tudo no mundo tem um fim. Caminhemos! Para a frente!
"Olharam-no e viram que era o melhor de todos, nos olhos dele brilhava a força e a chama inextinguível.

"- Conduz-nos, então! - disseram eles.
"Foi desse modo que tomou o comando."

A velha calou-se durante um momento e olhou para a estepe onde as trevas se tornavam cada vez mais espessas. As pequenas fagulhas do coração de Danko cintilavam ao longe e pareciam aéreas flores azuis abertas por um instante.

"Danko traçou o caminho. Seguiram-no de comum acordo; acreditavam nele. O percurso era muito difícil. Estava escuro, a cada passo o pântano abria a goela ávida e pútrida que engolia os homens, e as árvores barravam-lhes o caminho com a sua poderosa muralha. Os ramos do arvoredo entrelaçavam-se como serpentes, as raízes tinham avassalado tudo e cada passo custava imenso suor e sangue. Caminharam durante muito tempo. A floresta era cada vez mais espessa, a energia deles cada vez mais escassa. Então começaram a resmungar contra Danko que tinha cometido o erro, tão jovem e inexperiente como era, de os conduzir sabia-se lá por onde. Ele, porém, caminhava na frente, sereno e audaz.

"Ora um dia a tempestade abateu-se sobre a floresta. O arvoredo soltou um murmúrio abafado e assustador. A escuridão foi tal que se supôs que as noites se tinham reunido subitamente, as noites todas desde que a floresta nascera. Os homens, minúsculos, caminhavam entre as grandes árvores no meio do ribombar ameaçador dos trovões; caminhavam e os troncos gigantescos balouçavam-se, rangiam e uivavam canções irritadas, e os relâmpagos que passavam rapidamente por cima deles iluminavam por um momento a floresta com uma gélida chama azul, desaparecendo tão depressa como tinham surgido, deixando-os apavorados. As árvores, iluminadas pela chama fria dos relâmpagos, pareciam vivas, pareciam estender em torno dos homens que se evadiam das trevas os seus longos braços retorcidos, entrançando assim uma rede cerrada para tentar deter os viajantes. Através das sombras das ramagens apercebiam algo de assustador, de sombrio e gélido. O caminho difícil levava os homens a perder a coragem. Mas tinham vergonha de confessar a sua impotência e então, no seu furor e na sua cólera, atiraram-se a Danko, voltaram-se contra o homem que marchava na frente deles. Acusaram-no de não os saber dirigir. Isso, muito simplesmente.

"Pararam e, sob o rumor triunfante da floresta, entre as trevas trémulas, fatigados e cheios de ódio, puseram-se a julgar Danko.

"- És um falhado e um homem nocivo! - disseram-lhe. - Arrastaste-nos atrás de ti, esgotaste as nossas forças e por isso terás de morrer.

"- Vocês disseram-me que os conduzisse, e eu fi-lo! - gritou Danko, enfrentando-os. - Possuo a coragem de conduzir e essa é a razão por que aceitei a missão. E vocês? Que fizeram antes para se ajudarem a si mesmos? Limitaram-se a caminhar e não souberam guardar forças para um caminho mais longo. Limitaram-se a seguir ao acaso como um rebanho de carneiros.
"Mas estas palavras exasperaram-nos ainda mais.
"- Morrerás! Morrerás! - rugiam eles.

"A floresta estrondeava, acompanhando-lhes os gritos, e os relâmpagos rasgavam as trevas em farrapos. Danko olhava para aqueles por quem tinha sofrido e via que eram como feras. Eram numerosos à sua volta, mas não havia nos rostos deles nenhuma nobreza e não podia esperar compaixão. Sentiu ferver dentro de si a indignação, mas a sua própria piedade apaziguou-o. Amava os homens e pensava que, sem ele, talvez perecessem. O coração inflamou-se-lhe com o desejo de os salvar, de os conduzir a um caminho fácil, e nos olhos cintilaram-lhe os raios dessa poderosa chama. Pensaram que ele estava furioso, que era a raiva que lhe dava ao olhar um tal brilho, e ficavam à espreita, como lobos, esperando vê-lo lutar; cercaram-no mais de perto para que fosse mais fácil apanhá-lo e matá-lo. Mas ele já lhes tinha apreendido o pensamento e o coração ardeu como uma chama ainda mais clara porque um tal pensamento enchia-o de tristeza.
"A floresta continuava a cantar a sua lúgubre canção; trovejava e chovia em bátegas.

"- Que posso fazer pelos homens? - gritou Danko, com uma voz mais alta que a da tempestade.

"Subitamente, arrancou o coração do peito, com as mãos, erguendo-o muito alto, acima da cabeça.

"O coração ardia com uma chama mais clara que a do Sol, e toda a floresta se calou, iluminada por aquela tocha de amor; as trevas dispersaram-se diante da luz e foram cair no fundo da floresta, na goela pútrida do pântano. Os homens, espantados, ficaram como se fossem de pedra.

"- Para a frente! - gritou Danko, dando o exemplo, começando a caminhar com o coração ardente, bem alto, a iluminar a vereda dos homens.

"Lançaram-se atrás dele, fascinados. Então a floresta recomeçou a sussurrar, balouçando as ramarias altas, admirada, mas com a voz abafada pelo pisar firme dos homens em marcha. Corriam, rápidos e audazes, atraídos pelo espectáculo maravilhoso do coração ardente. Alguns ainda morriam, mas faziam-no sem lamentos, sem lágrimas. Danko seguia sempre na vanguarda, e o coração continuava a arder, a arder!

"E de súbito a floresta afastou-se diante dele; afastou-se e deixou-se ficar para trás, opaca e muda; Danko e os seus homens mergulhavam repentinamente num mar de sol e de ar puro lavado pela chuva. A tempestade ficava para trás, por cima da floresta, mas aqui o Sol resplandecia, a estepe respirava, a erva brilhava sob as pérolas da chuva, o rio reflectia como ouro... Era ao crepúsculo e, sob os raios do poente, o rio parecia vermelho como o sangue que tinha jorrado como um regato ardente do peito dilacerado de Danko.

"Este, orgulhoso e altivo, olhou para diante de si, para a imensidade da estepe, lançou um olhar alegre para a terra livre e soltou uma gargalhada satisfeita. Depois tombou... morto.

"Mas os homens, alegres e cheios de esperança, não notaram a morte dele e não viram que ao lado do cadáver o coração ainda ardia. Só um deles, mais prudente, se apercebeu disso e, temendo uma infelicidade, pousou o pé naquele coração altivo que soltou um feixe de fagulhas, extinguindo-se.
"É daí que vêm as fagulhas azuis que aparecem na estepe e antecedem a tempestade."

Agora que a velha tinha acabado o seu belo conto, um silêncio de assombro dominava a estepe. Dir-se-ia que esta se admirava da força do corajoso Danko, que tinha incendiado o coração a favor dos homens e morrido sem pedir recompensa. A velha cochilava. Olhei-a e pensei: quantos contos e recordações não retém a memória dela? E pensei no grande coração ardente de Danko e na imaginação dos homens que criaram tantas lendas belas e fortes.

Uma rajada de vento levantou os andrajos mostrando o peito seco da velha Izerguil que adormecia cada vez mais profundamente. Cobri-lhe o velho corpo e deitei-me no chão, ao lado dela. A estepe estava calma e escura. No céu as nuvens deslizavam, lentas e monótonas... O mar trovejava tristemente, com um som abafado.”
Máximo Gorkii

Lembranças de Morrer

“Quando em meu peito rebentar-se a fibra
Que o espírito enlaça a dor vivente,
Não derramem por mim nem uma lágrima
Em pálpebra demente.

E nem desfolhem da matéria impura
A flor do vale que adormece ao vento:
Não quero que uma só nota de alegria
Se cala por meu triste passamento.

Eu deixo a vida como deixo o tédio
Do deserto o poento caminheiro
- Como as horas de um nobre pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;

Como desterro de minh`alma errante
onde fogo insensato a consumia
só levo uma saudade- é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.

Só levo uma saudade- é dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas...
De ti, ó minha mãe, pobre coitada
Que por minha tristeza te definhas!

Do meu pai... de meus poucos amigos,
Poucos- bem poucos - e que não zombavam
Quando em noites de febre endoudecido
Minhas pálidas crenças duvidavam

Se uma lágrima as pálpebras me inunda
Se um suspiro nos seios treme ainda
É pela virgem que sonhei... que nunca
Aos lábios encostei a face linda!

Só tu a mocidade sonhadora
Do pálido poeta destes flores...
Se viveu foi por ti! e de esperança
De na vida gozar de teus amores.

Beijarei a verdade santa e nua
Verei cristalizar-se o sonho amigo...
Ó minha virgem dos errantes sonhos,
Filha do céu, eu vou sonhar contigo!

Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida
À sombra de uma cruz e escrevam nela:
- Foi poeta- sonhou- e amou na vida!

Sombras do vale, noites da montanha
Que minha alma cantou e amava tanto,
Protegei o meu corpo abandonado,
E no silêncio derramai-lhe canto!

Mas quando preludia ave d`aurora
E quando à meia-noite o céu repousa,
Arvoredos do bosque, abri-me os ramos
Deixai a lua prantear-me a lousa!”
Augusto dos Anjos

Ana Carolina, “Só de Sacanagem”

Sonetos

Devo igualar-te a um dia de verão?
Mais afável e belo é o teu semblante:
O vento esfolha Maio inda em botão,
Dura o termo estival em breve instante.

muitas vezes a luz do céu calcina,
Mas o áureo tom também perde clareza:
De seu belo a beleza enfim declina,
Ao léu ou pelas leis da Natureza,

Só teu verão eterno não se acaba
nem a posse de tua formosura;
de impor-te a sombra a Morte não se gaba

Pois que esta estrofe eterna o Tempo dura.
Enquanto houver viventes nesta lida,
Há de viver meu verso e te dar vida.
William Shakespeare

Sonetos

Quando observo que tudo quanto cresce
Desfruta a perfeição de um só momento,
Que neste palco imenso se obedece
A secreta influição do firmamento;

quando percebo que ao homem, como à planta,
Esmaga o mesmo céu que lhe deu glória,
Que se ergue em seiva e, no ápice, aquebranta
E um dia enfim se apaga da memória:

Esse conceito dea inconstante sina
mais jovem faz-te ao meu olhar agora,
Quando o tempo se alia com a Ruína

Para tornar em noite tua aurora.
E crua guerra contra o Tempo enfrento,
William Shakespeare

Um Casal à Moda Antiga

Aprecio sobremaneira a vida modesta que nos seus domínios recolhidos fazem os fidalgos "à moda antiga", como vulgarmente se lhes chama na Pequena Rússia. Essa gente recorda-me velhas e pitorescas casas, cuja simplicidade nos atrai pelo contraste que faz com os edifícios novos, espaventosos, a que a chuva ainda não manchou as paredes, nem o bolor atacou os tetos, nem o reboco fresco traiu a cor dos tijolos.

Por vezes, gosto de me abandonar a esta vida plácida, refugiar-me nesta solidão inefável: ali, nenhum desejo ultrapassa os limites do pequeno pátio, o valado que contorna o pomar de macieiras, ou os casebres da aldeia pendurados nos flancos das colinas e perdidos entre salgueiros, sabugueiros e pereiras. A vida desta gente modesta escoa-se tão lentamente, tão pacificamente, que em certos instantes do esquecimento duvidamos da existência de paixões, de desejos, de agitações vãs, engendradas pelo espírito do Mal para perturbar a humanidade - nesses momentos tudo isto nos parece apenas o reflexo dum sonho, duma fantasmagoria resplandecente.

Tenho diante dos olhos aquela casa pequena e baixa cingida em toda a volta por uma "galeria" de colunas delicadas de madeira escura, que a protege das tempestades; nas traseiras, as cerejeiras perfumadas, as longas fileiras de árvores frutíferas anãs, submersas no mar de púrpura das cerejas e de ametista das ameixas de tom escuro, o bordo frondoso à sombra do qual jaz um tapete de repouso; do lado da frente, o pátio espaçoso, a erva rasa e verdejante, o corredor que conduz da despensa à cozinha e da cozinha aos aposentos dos donos da casa, a pata de pescoço comprido banhando-se num charco em companhia da sua ninhada de patinhos frágeis e sedosos; a vedação donde pendem fieiras de fruta seca e arejam roupas; perto do celeiro, um boi espojando-se junto de um carro repleto de melões. Este quadro tem para mim um encanto inexprimível porque certamente o não volto a ver e porque todas as coisas de que estamos separados tem um lugar especial no nosso coração.

Não sei porquê, mas logo que a minha britchka se aproximava desta casa invadia-me imediatamente uma sensação deliciosa de quietude, os cavalos detinham-se todos contentes diante da entrada, o cocheiro descia lentamente do seu lugar e punha-se a encher o cachimbo como se tivesse chegado diante da sua própria casa. E até mesmo o ladrar dos rafeiros, dos cães de caça e de guarda me soava agradavelmente ao ouvido.

Mas o que mais me seduzia nestes modestos recantos eram os donos das casas, gente velha e bondosa que se apressava a vir ao meu encontro, e que ainda hoje, de quando em quando, o meu espírito faz reviver entre os trajes modernos no meio do tumulto e do luxo do mundo. Entrego-me nesses momentos à sedução dos sonhos, à miragem do passado. Lê-se nos seus rostos tanta bondade e tanta franqueza que de bom grado se renuncia, pelo menos durante um certo tempo, a toda a ambição, e imperceptivelmente damo-nos completamente a esta vida bucólica, humilde.

Há dois velhos do século passado que nunca consigo esquecer. Nenhum já vive; e contudo invade-me e oprime-me um bizarro sentimento de piedade e de tristeza quando penso que um dia, por qualquer capricho do acaso, me poderei encontrar perante a sua casa abandonada onde talvez vá descobrir um pântano no lugar do tanque e um montão de escombros cobertos de silvas no lugar da casa... e nada mais. É verdade, basta-me pensar nesta possibilidade para me sentir triste, horrivelmente triste. Comecemos, porém, a nossa narrativa.

Os dois velhos chamavam-se Atanásio Ivanovitch e Pulquéria Ivanovna Tovstogoub. Se eu fosse pintor e quisesse representar Filemon e Baucis não escolheria outros modelos. Atanásio Ivanovitch poderia ter os seus sessenta anos e Pulquéria Ivanovna os seus cinqüenta e cinco. De estatura elevada e sempre coberto com uma pele de carneiro, como qualquer vendedor ambulante, Atanásio Ivanovitch gostava de estar sentado curvado e tinha um sorriso quase permanente nos lábios, quer quando contava uma história, quer quando se limitava a escutá-la. Pulquéria Ivanovna era pouco risonha, mas os seus olhos e toda a sua figura irradiavam tanta bondade e adivinhava-se-lhe um desejo tão intenso de vos oferecer tudo o que tinha de melhor, que estou certo que um sorriso poria uma nota de insipidez naquela bela fisionomia. As rugas superficiais do seu rosto estavam dispostas com tal graciosidade que um pintor facilmente saberia tirar proveito delas. Eram nela o reflexo daquela vida calma e serena que faziam as pessoas de velha cepa, simples no meio da sua riqueza, e que estiveram sempre em perfeito contraste com aqueles pequenos russos de baixa origem, que se lançam como um bando de abutres sobre os empregos públicos, que se dedicam zelosamente a extorquir até o último centavo dos seus compatriotas, que inundam Sampetersburgo de mercadoria, que acabam por aferrolhar enorme fortuna e, em sinal de triunfo, acrescentam o v russo ao o final do nome. Não, os meus dois bons amigos não se assemelhavam em nada a esses odiosos e desprezíveis pretensiosos, aliás como a eles também se não assemelha nenhum membro das nossas famílias verdadeiramente antigas.
Não se podia assistir impassível às provas recíprocas de afeto que dedicavam um ao outro. Nunca se tratavam por tu; diziam sempre "o senhor" ou "a senhora": "Senhor Atanásio Ivanovitch. Senhora Pulquéria Ivanovna. - Foi o senhor que partiu o tampo a esta cadeira, Atanásio Ivanovitch? - Não tem importância, Pulquéria Ivanovna, não se apoquente; sim, fui eu". Como nunca tiveram filhos, concentraram toda a sua ternura um sobre o outro.
Noutros tempos, quando jovem, Atanásio Ivanovitch tinha prestado serviço na cavalaria ligeira, tendo mesmo chegado a ser major. Mas tudo isso ia já muito longe, tão longe que ele já raras vezes fazia alusão a esse tempo. Casara-se com a idade de trinta anos, um belo rapaz sempre ricamente vestido; teve de usar de bastante prudência e tacto para desposar Pulquéria Ivanovna porque os pais dela o não queriam para genro. Mas também de tudo isto já não havia vestígios na sua memória, ou pelo menos não o recordava por palavras.

Estas aventuras de outrora tinham dado lugar a uma vida calma e retirada, a esses devaneios confusos, mas nunca desprovidos de harmonia, que nos assaltam quando na varanda do jardim escutamos o sussurro suntuoso da chuva caindo em bátegas espessas sobre as árvores ou escoando-se em pequenos regatos cantantes, que nos comunica uma profunda sensação de sonolência, enquanto o arco-íris se insinua por entre a folhagem para ir os tentar sobre o fundo do céu a frágil abóbada das suas sete cores; ou então, quando, em plena estepe, nos deixamos embalar pelo movimento da caleche, mergulhando num mar de verdura, pelo cantar da codorniz, pelas carícias suaves da vegetação desvairada, das espigas e das flores campestres nas faces e nas mãos.

Atanásio Ivanovitch recebia sempre com um sorriso gracioso e uma atenção pronta as pessoas que o vinham visitar; quando falava, era quase sempre para fazer uma pergunta. Não era um desses velhos obcecados pela ideia de vangloriar o passado e de criticar o presente. Muito pelo contrário, as perguntas que fazia denunciavam um grande interesse pelas circunstâncias de vida dos outros, os seus sucessos e reveses. Era uma curiosidade em tudo igual à de uma criança que enquanto fala connosco se absorve na contemplação dos berloques que pendem da corrente do nosso relógio. Nesses momentos, o seu rosto "respira" verdadeira bondade.

Segundo o hábito antigo, os nossos dois velhos habitavam numa casa com divisões pequenas e baixas, com um enorme fogão que ocupava um terço da área. Abafava-se nesses quartos exíguos porque Atanásio Ivanovitch e Pulquéria Ivanovna adoravam o calor. Todas as aberturas do fogão davam para uma antecâmara atafulhada de palha até ao teto. Na Pequena Rússia a lenha de aquecimento é substituída por palha que com o seu fogo cintilante e claro empresta às antecâmaras um ambiente agradável durante os longos serões de inverno, especialmente para os rapazes que se apressam a aquecer-se ao seu calor quando regressam a casa transidos de frio por terem andado em perseguição de qualquer moçoila.

Alguns quadros e estampas metidos em velhos caixilhos estreitos decoravam as paredes da sala de visitas. Tenho a certeza de que os donos da casa já há muito se tinham esquecido do que representavam esses quadros; e se lhes tirassem alguns nem dariam pela sua desaparição. Entre outros, havia dois grandes retratos a óleo, um que representava um prelado e outro o Imperador Pedro II; num caixilho diminuto uma duquesa de La Valiére, toda salpicada pelas moscas, olhava-nos com os olhos fixos. Uma multidão de pequenas gravuras que nos habituamos insensivelmente a considerar como manchas das paredes e a que por isso já não prestamos atenção decorava o contorno das janelas e das portas. O sobrado de quase todos os quadros era simples terra batida mas estava sempre brilhante e a sua limpeza teria feito inveja a qualquer sobrado de luxo varrido pela mão indolente dum indivíduo de libré ainda ensonado.

Um número incontestável de cofres e cofrezinhos, de caixas e caixotes atravancavam o quarto de Pulquéria Ivanovna. Das paredes pendiam numerosos sacos e saquinhos contendo variadíssimas sementes - sementes de flores, sementes de legumes, sementes de melancia, etc. Nos recantos das caixas e nos intervalos entre os cofres amontoavam-se em desalinho novelos de lã de todas as cores, retalhos de fazendas diversas, roupa usada com mais de meio século. A boa senhora era uma perfeita dona de casa e guardava tudo sem muitas vezes saber a razão.

O mais notável, porém, de toda a casa era o cantar das portas. Desde manhã cedo a sua canção enchia toda a casa. Não sei dizer porque elas cantavam: seriam os gonzos que estariam ferrugentos? Teria quem as fez escondido nelas algum mecanismo secreto? A verdade é que cada porta tinha o seu cantar próprio: a porta do quarto de dormir tinha uma voz aguda de tenor, a da sala de jantar a voz roufenha dum baixo, a da antecâmara produzia um som estranho, frágil, queixoso, que escutado com atenção se acabava por distinguir claramente: "pobre de mim, estou gelada". Sim, bem sei que muita gente detesta os ruídos das portas. Quanto a mim confesso que os adoro. O gemido duma porta dá-me logo a sensação de estar no campo: revejo a salinha baixa iluminada por uma candeia fixa a um candelabro antigo, a ceia na mesa, a noite sombria de Maio que nos espia pela janela aberta para o jardim; oiço o trinado do rouxinol pairando sobre o parque, sobre a casa e alargando-se até à ribeira distante; distingo o murmúrio angustioso das ramagens... Oh! Meu Deus, meu Deus, que corrente interminável de recordações me assalta o espírito!

Na sala maior havia várias cadeiras de madeira maciça, como se faziam antigamente, de costas altas trabalhadas em toda a volta, sem cor nem verniz; nem sequer eram acolchoadas e sugeriam vagamente as cadeiras de que ainda hoje se servem os prelados. Ainda na mesma sala, viam-se algumas mesinhas redondas, uma mesa quadrada diante do canapé, outra diante do espelho enquadrado por uma fina folhagem dourada que as moscas haviam salpicado de pontos negros, e ainda diante do canapé um tapete em cujo desenho se distinguiam pássaros que pareciam flores e flores que pareciam pássaros. Era este, mais ou menos, o aspecto modesto da habitação dos meus bons velhotes.

No quarto das criadas ouvia-se o zumbido dum verdadeiro enxame de raparigas e velhas, todas com saias às riscas. Pulquéria Ivanovna dava-lhes coisas sem importância para coser ou frutos para escolher. O mais vulgar, porém, era elas escapulirem-se para a cozinha onde podiam dormir à vontade. Pulquéria Ivanovna considerava seu dever mantê-las em sua casa e velar pela sua conduta moral. Porém, para grande surpresa sua, era raro passar-se um mês sem que o volume de alguma destas raparigas não aumentasse mais do que é normal. Este fenômeno parecia tanto mais estranho quanto é certo que na casa não havia nenhum celibatário além dum rapazola, que andava sempre descalço e metido num ridículo casaco cinzento e que passava o tempo ou a dormir ou a comer. Em semelhantes ocasiões, Pulquéria repreendia a culposa e exigia-lhe que o fato se não voltasse a repetir.

Uma avalanche de moscas debatia-se incessantemente contra os vidros das janelas, num zumbido constante acompanhado muitas vezes pelo assobiar estridente das vespas; quando se aproximava delas uma luz, estas hordas de insectos refugiavam-se na escuridão do teto, que ficava encoberto com uma nuvem espessa e escura.

Pouco interessavam a Atanásio Ivanovitch os trabalhos do campo; apesar disso, de quando em vez ainda se dignava ir até junto dos ceifeiros e observava os trabalhos com um ar grave e atento. Todo o fardo das actividades domésticas e agrícolas recaía sobre os ombros de Pulquéria Ivanovna: abrir e fechar constantemente o celeiro, cozer, salgar e secar frutos, folhas e legumes em quantidades avantajadas. Aquela casa assemelhava-se sob todos os pontos de vista a um laboratório de química: sob uma macieira do jardim, ardia ininterruptamente uma fogueira sobre a qual uma tripeça de ferro suportava quase sempre um caldeirão ou uma panela de cobre com doces, geléias, compotas de mel, açúcar e não sei que mais. Debaixo doutra árvore, o cocheiro destilava aguardente de cereja, de pêssego e de ginja; ao cabo desta operação, entaramelava-se-lhe a língua e apenas gaguejava meia dúzia de palavras de que Pulquéria Ivanovna não conseguia perceber patavina e ia então dormir uma soneca na cozinha. Este homem preparava uma tal profusão destas drogas que chegariam para inundar o pátio - a boa senhora, de fato sempre previdente, gostava de não se limitar ao estritamente necessário para os seus gastos e punha sempre de lado preciosa reserva. Uma boa metade destas bebidas, porém, era devorada pelas criadas: metiam-se na despensa e encharcavam-se em bebidas de tal forma que durante um dia inteiro andavam a gemer e a queixar-se de dores de estômago.

Pulquéria Ivanovna, sobrecarregada de tantos afazeres, não podia vigiar atentamente os trabalhos dos campos, e por isso o caseiro e o feitor surripiavam o que podiam sem sombra de escrúpulo. Estes dois dignos cavalheiros tinham-se habituado a considerar como propriedade sua as matas dos seus senhores: mandavam fabricar trenós que vendiam nas feiras dos arredores; derrubavam e vendiam os carvalhos com que os cossacos das vizinhanças construíam os moinhos. Apenas uma única vez Pulquéria Ivanovna exprimiu o desejo de inspeccionar as matas que lhe pertenciam. Prepararam-lhe o drojki que tinha um enorme avental de couro para a proteger contra a chuva e a lama. Mal o cocheiro pegava nas rédeas e punha em marcha os cavalos - duas pilecas que tinham tomado parte na última campanha ao serviço da milícia - esta carroça enchia o ar de ruídos esquisitos, entre os quais em breve se distinguia o som da flauta e do tambor. Molas e eixos gemiam tão ruidosamente que no moinho, a umas duas boas verstas de distância, se sabia perfeitamente quando a boa senhora partia de viagem. Pulquéria Ivanovna tinha forçosamente de reparar no desbaste que a mata tinha sofrido e no desaparecimento dos carvalhos que já na sua infância ela tinha conhecido como seculares.

- Como se explica isto, Nitchipor? - perguntou ela ao caseiro que a acompanhava. - Porque é que os carvalhos estão tão escassos? Toma cuidado não vá acontecer o mesmo aos teus cabelos...

- Escassos? - ia repetindo o homenzinho. - É que desapareceram; não há dúvida, minha senhora, desapareceram: caíram-lhes faíscas mesmo em cima, e os vermes roeram-nos... Enfim, que quer a senhora, desapareceram, não há dúvida, desapareceram.

Esta resposta satisfez plenamente a Pulquéria Ivanovna: chegada a casa, deu ordem para redobrar a vigilância do pomar, especialmente das cerejeiras e das pêras de inverno.

Estes dois dignos e honestos administradores acabaram por chegar à conclusão de que não havia vantagem em armazenar no celeiro toda a farinha produzida, visto que os patrões se contentariam perfeitamente com metade da produção; e com o tempo, decidiram até que essa metade deveria sair da farinha com bolor e bafio que lhes era recusada na feira. Assim, pois, os nossos dois espertalhões rapinavam desaforadamente. Aliás, com o que pilhava, toda a criadagem praticava a gula com liberdade, desde a governanta à última das servas, incluindo mesmo os suínos, que devoravam à tripa forra montes de ameixas e de maçãs e que por vezes se entretinham a dar focinhadas contra as árvores para fazer cair uma chuva de frutos; a pardalada e os corvos banqueteavam-se ao desafio, as criadas ofereciam numerosos presentes aos seus amigos das aldeias vizinhas e chegavam mesmo a furtar peças de pano e de filaça cujo último destino era o de todas as coisas: a taberna; cocheiros e lacaios subtraíam tanto ou mais do que os outros. E apesar de tudo isto, esta terra de eleição mostrava-se tão fértil e os seus felizes donos tão moderados nas suas necessidades, que todas estas depredações passavam despercebidas.

Exactamente como todas as pessoas doutros tempos, os nossos dois velhinhos eram um tanto exagerados com a alimentação. Mal começava a despontar a aurora - sim, porque eles eram bastante matinais -, mal as portas começavam a fazer-se ouvir no seu concerto discordante, abancavam os dois e tomavam o café. Atanásio Ivanovitch dirigia-se em seguida para a antecâmara, parava à porta e gritava, brandindo o lenço:
- Scht! Scht! fora daí, seus patos, fora!

No pátio, encontrava quase sempre o caseiro, com quem se entretinha a conversar: interrogava-o tão detalhadamente sobre os trabalhos dos campos, fazia-lhe certas observações e dava-lhe ordens tão acertadas, que quem o escutasse ficaria surpreendido com o seu invulgar talento administrativo e se recusaria a acreditar que fosse possível ludibriar um patrão tão arguto e clarividente. Mas o caseiro, raposa velha e matreira, sabia como iludir as respostas e, melhor ainda, sabia como proceder.
Depois deste diálogo, Atanásio Ivanovitch regressava à casa e, aproximando-se de sua mulher, dizia:
- Que lhe parece, Pulquéria Ivanovna, não seriam horas de comer qualquer coisa?
- Mas o quê, a estas horas, Atanásio Ivanovitch? Só se for um bolo de toucinho, ou um pastelinho com semente dormideira; ou então, ou então cogumelos de conserva?
- Traga lá os cogumelos e os pastelinhos - respondia Atanásio Ivanovitch. E, num instante, a mesa aparecia coberta com uma toalha e os acepipes pedidos.

Uma hora antes de almoçar, Atanásio Ivanovitch ainda comia uma bucha e matava o bicho: engolia uma boa porção de aguardente numa velha taça de prata, acompanhada de peixe seco e outros petiscos. Almoçava ao meio dia: além dos pratos, pires e talheres, a mesa tinha de suportar o peso de grande número de pequenos tachos e terrinas, hermeticamente fechados para que o sabor e o cheiro apetitoso dos cozinhados se não desvanecesse. Durante o repasto, a conversação girava quase sempre em volta de temas intimamente relacionados com este importante problema.
- Desconfio - começava normalmente por dizer Atanásio Ivanovitch - que esta papa de trigo está um bocado queimada. Não lhe parece, Pulquéria Ivanovna?

- Não, a mim não me parece, Atanásio Ivanovitch. Mas ponha-lhe um bocado de manteiga que perde esse sabor; ou então, se preferir, deite-lhe por cima um pouco deste molho de cogumelos.
- Seja - respondia Atanásio Ivanovitch, dando-lhe o seu prato. - Vejamos o que sai daí.
Depois do almoço, Atanásio Ivanovitch ia dormir a sesta. Uma hora depois, Pulquéria Ivanovna vinha-lhe trazer uma melancia cortada em talhadas e dizia:
- Ora prove esta melancia, Atanásio Ivanovitch, e vai ver como está fresquinha.

- O miolo é vermelho como sangue, mas em todo o caso é bom não confiar - retorquia Atanásio Ivanovitch escolhendo uma talhada razoavelmente grossa. - Há muitas que são vermelhas mas que não prestam para nada.
Em todo o caso, a melancia evaporava-se rapidamente, sucediam-se-lhe algumas pêras e depois o casal dava uma volta pelo jardim para ajudar a digestão. De regresso a casa, Pulquéria Ivanovna voltava a ocupar-se dos afazeres domésticos, enquanto o marido se instalava sob o alpendre, em frente do pátio, observando o celeiro, que se abria e fechava incessantemente para dar entrada e saída às criadas que em constante vaivém transportavam toda a casta de bugigangas em cestos, caixas e outros recipientes. Passado pouco tempo, Atanásio mandava chamar Pulquéria, ou ia ele próprio procurá-la e perguntava-lhe:

- Que é que há que se coma, Pulquéria Ivanovna?
- Não sei muito bem - replicava esta. - Quer que mande servir umas tortas de creme com morangos que pus de parte para si?
- Traga lá as tortas - respondia Atanásio Ivanovitch.
- Talvez prefira uma geleia de fruta?
- Traga a geleia de frutas - concordava Atanásio Ivanovitch.

E imediatamente se serviam estas deliciosas iguarias, que, bem entendido, eram engolidas num ápice.

Antes da ceia, Atanásio Ivanovitch não dispensava uma ligeira colação. Às nove e meia servia-se a ceia; e logo que a mesa estava levantada todos se deitavam e um profundo silêncio reinava neste pequeno canto da terra, ao mesmo tempo tão activo e tão tranquilo.

No quarto de dormir o calor era tão sufocante que poucas pessoas conseguiriam manter-se nele algumas horas; contudo, Atanásio Ivanovitch para melhor se aquecer deitava-se junto do fogão, embora o excesso de calor o obrigasse a levantar-se várias vezes durante a noite e a passear pelo quarto. Durante estes passeios, soltava de vez em quando um profundo gemido.

- Porque geme, Atanásio Ivanovitch? - informava-se, nesses momentos, Pulquéria Ivanovna.
- Só Deus sabe, Pulquéria Ivanovna. Parece-me que não estou muito bem do estômago - respondia Atanásio Ivanovitch.
- Talvez fosse melhor comer qualquer coisa - sugeria Pulquéria Ivanovna.
- Parece-lhe, Pulquéria Ivanovna? Mas o que é que eu poderei comer?
- Leite ou compota de pêras.
- Seja; não há perigo em experimentar - aquiescia Atanásio Ivanovitch.

E lá ia arrancar à cama uma das criadas para que fosse rebuscar os armários. Atanásio Ivanovitch comia sofregamente e depois costumava dizer com ar de alívio:

- Parece que me sinto melhor.

Algumas vezes, quando o tempo estava sereno e o quarto bem aquecido, Atanásio Ivanovitch sentia-se invadido por uma calma sensação eufórica de boa disposição e gostava de gracejar à custa de Pulquéria Ivanovna. Abordava, então, qualquer assunto de ordem geral.

- Ora vejamos, Pulquéria Ivanovna - perguntava-lhe ele -, se a nossa casa um dia ardesse que faríamos nós?
- Deus nos proteja! Porque pensa nessas coisas? - exclamava Pulquéria Ivanovna, benzendo-se.
- E só uma suposição: se a casa ardesse onde nos iríamos refugiar?
- Deus até o pode castigar pelo que está a dizer, Atanásio Ivanovitch. Como é que a nossa casa podia arder?! Deus não o permitirá!
- Mas se apesar de tudo ela ardesse?
- Bem, nesse caso, íamos para a parte da cozinha e ficávamos no quarto da governanta.
- E se a cozinha também ardesse?
- Ora essa! Arder a casa e a cozinha?! Deus nunca permitiria uma coisa dessas!... Bem, nesse caso, íamos para as casas de arrecadação e esperávamos que se reconstruísse a casa.
- Mas se as casas de arrecadação também ardessem?
- Apre! é demais! Já o não posso ouvir. Não sabe que é pecado dizer essas coisas e que Deus nunca deixa impunes semelhantes palavras?

Mas Atanásio Ivanovitch, satisfeito com a sua brincadeira inocente, sorria com uma expressão doce e suave e quedava-se imóvel na sua cadeira.
Quando eu mais gostava destes bons velhos era quando eles recebiam visitas. Tudo tomava um aspecto diferente na casa. Estas duas simpáticas pessoas entregavam-se de alma e coração aos convidados: traziam para a mesa tudo o que tinham de melhor; estavam numa ansiedade constante para ofertar os produtos das suas terras. O que sobretudo me enternecia e encantava, era ver que não havia o menor indício de afectação nessa cortesia. Pintava-se-lhes no rosto uma cordialidade tão espontânea e comovedora que nenhum convidado tinha coragem para resistir às suas insistências: sentia-se bem que apenas cediam aos impulsos do coração. Profundo abismo separa esta bonomia franca da etiqueta fastidiosa dum pretensioso funcionário de finanças que nos recebe com exclamações de "meu benfeitor!" e se curva servilmente a nossos pés.

Não há memória de jamais terem deixado partir uma visita no próprio dia da chegada; todos tinham que passar pelo menos uma noite naquela casa.
- Então, já quer ir embora? A uma hora destas, já tão tarde e ainda com tanto para andar?! - dizia infalível e invariavelmente Pulquéria Ivanovna, embora muitas vezes o visitante não morasse a mais de uma légua de distância.

- Pois com certeza, tem toda a razão - reforçava por seu lado Atanásio Ivanovitch. - Nunca se sabe o que pode acontecer na estrada a uma hora destas. Pode encontrar qualquer salteador ou qualquer pessoa de maus instintos e intenções.

- Deus nos livre de ladrões! - voltava à carga Pulquéria Ivanovna. - Porque é que fala dessas coisas a estas horas, Atanásio Ivanovitch? Não se trata de ladrões, mas a verdade é que a noite está muito escura. Não são horas para uma pessoa se meter ao caminho. E o seu cocheiro - conheço bem o seu cocheiro - é tão franzino que seria incapaz de fazer frente a uma cabra. Além disso pode ter a certeza de que a esta hora está ele para aí a curtir alguma bebedeira.

E a visita via-se forçada a ficar. No entanto, uma noite passada num quarto aconchegado e acolhedor, o sussurro embalador de palavras irradiando o calor duma simpatia e bondade naturais, o perfume e o sabor duma ceia substancial preparada delicadamente por mão de mestre, eram pródiga recompensa desse gesto de complacência.

Parece-me estar a ver Atanásio Ivanovitch curvado sobre a cadeira, com um eterno sorriso nos lábios, a escutar muito atento, a beber gulosamente as palavras do seu hóspede. Muitas vezes, a conversa recaía sobre política. O visitante que, por seu lado, também raramente saía da sua aldeia, tomava ares graves e misteriosos: envolvia-se em conjecturas, sugeria que Ingleses e Franceses se tinham concertado secretamente para instigar Napoleão a lançar-se outra vez sobre a Rússia, ou afirmava peremptoriamente que a guerra ia estalar em breve. Nessas ocasiões, Atanásio Ivanovitch, olhando Pulquéria Ivanovna de soslaio, tinha por costume declarar:
- Eu próprio tenho a intenção de me oferecer para a guerra. Sim, afinal porque é que eu não hei-de ir para a guerra?

- Pronto, lá está ele com as suas! - interrompia-o Pulquéria Ivanovna. - Não preste atenção ao que ele diz - acrescentava, dirigindo-se ao hóspede. - Pode imaginá-lo, com a idade que tem, a combater?! O primeiro soldado inimigo que o apanhasse matava-o logo. Não tenha dúvida, era só fazer pontaria e matava-o logo!

- A não ser que eu o matasse primeiro - replicava Atanásio Ivanovitch.
- Garganta, garganta! - recomeçava Pulquéria Ivanovna. - Mas digam-me o que é que ele ia fazer para a guerra?! Pois se ele até deitou as pistolas para o ferro velho! Só queria que as visse: todas ferrugentas! Ao primeiro tiro rebentavam-lhe nas mãos. Ficava todo desfigurado!

- Ora, isso não importa! - protestava Atanásio Ivanovitch. - Comprava umas armas novas, um sabre e uma lança de cossaco.

- Mas que disparate! Quando lhe sobe uma ideia à cabeça não há quem lha arranque - protestava Pulquéria Ivanovna já um tanto melindrada. - Eu bem sei que ele está a gracejar, mas nem por isso é menos desagradável ouvir semelhantes tolices. É sempre assim: por vezes, à força de tanto ouvir, acabo por me assustar.

Então, Atanásio Ivanovitch, satisfeito o capricho de amofinar um pouco Pulquéria Ivanovna, sorria benevolentemente, curvado sobre a cadeira.
O momento em que mais me divertia com Pulquéria Ivanovna era quando ela, à hora da ceia, conduzia o seu hóspede até ao aparador onde se amontoavam os acepipes para a refeição.

- Olhe - começava ela destapando uma garrafa -, isto é aguardente de milefólio e de salva, remédio excelente contra as dores das costas e dos rins; isto é aguardente de centaurcia, o melhor que há contra as impigens e os zumbidos dos ouvidos. Isto é essência de sementes de frutos, beba só um gole; que cheirinho, não tem? Quando se dá uma cabeçada na esquina duma mesa ou dum armário e se fica com um galo, basta beber um cálice desta aguardente antes da ceia para o mal desaparecer como por encanto.
E assim ia passando revista a todas as aguardentes e essências que possuíam, quase todas, uma ou outra virtude curativa. Depois de ter encharcado bem o seu hóspede com um pouco de todas estas misturas, passava às matérias sólidas e, indicando um autêntico batalhão de pratos, explicava:

- Olhe, isto são cogumelos com serpão; aquilo são cogumelos com cravo-da-índia e nozes da Valáquia. Quem me deu a receita foi uma turca, no tempo em que tivemos aqui na aldeia alguns prisioneiros dessa nacionalidade. Era uma boa mulher e era difícil descobrir que pertencia à religião turca: fazia quase tudo como nós; só no que não tocava era em carne de porco: parece que é proibido pela religião deles... Olhe, isto também são cogumelos, mas com noz moscada. E isto são abóboras de conserva; é a primeira vez que faço, não sei se vai gostar. Quem me ensinou a fazê-las foi o Tio Ivan: levam folhas de carvalho, pimenta, etc. E, por fim, aqui tem as empadas: estas são de queijo; aquelas de leite coalhado; e estas são de legumes, que são as preferidas de Atanásio Ivanovitch.
- É verdade - confirmava Atanásio Ivanovitch -, gosto muito delas, porque são tenrinhas e um pouco ácidas.

Em resumo: Pulquéria Ivanovna estava sempre de bom humor, quando tinha visitas: a simpática mulher concentrava nelas toda a sua atenção! Adorava visitar este casal. E claro, o organismo acabava sempre por se ressentir daquele excesso de alimentos, o que, aliás, acontecia a todos os outros hóspedes. E, contudo, era sempre com prazer que voltava a visitá-los. De resto, tenho a impressão de que o próprio ar da Pequena Rússia é propício às boas digestões. Pelo contrário, quem nesta cidade(1) se entregasse a semelhantes comezainas corria grande risco de em breve se encontrar estendido não na sua cama mas sobre a mesa!(2)
Ah! que bons e excelentes velhinhos!

Chegou, porém, o momento de vos contar um acontecimento muito triste que quebrou para sempre esta calma aprazível e que, pela futilidade das causas que o determinaram, mais chocante se torna. Por uma combinação bizarra e ocasional de circunstâncias, causas imperceptíveis e insignificantes engendraram sempre grandes e decisivos acontecimentos, ao passo que empreendimentos grandiosos e cuidadosamente planeados deram frutos irrisórios. Um conquistador organiza todas as suas forças, invade um país segundo planos meticulosamente estudados, luta em combates encarniçados durante vários anos, o exército cobre-se de glória - e tudo isto para usurpar umas nesgas de terras inúteis, onde mal se poderão semear batatas. Mas se por uma razão de lana caprina, um patego se trava de razões com um compadre da aldeia vizinha, logo a questão serve de rastilho para lançar o fogo às duas aldeias, às vilas, às cidades, ao país inteiro. Mas ponhamos de lado estes problemas superiores: não é este o local para os analisar, além de que me não agradam as especulações, que não passam de especulações.
Pulquéria Ivanovna tinha uma gata cinzenta que estava sempre enrolada a seus pés como um novelo de lã, e que ela acariciava de vez em quando. Não que ela simpatizasse muito com o bichano; mas o hábito de a ter sempre junto de si tinha-lhe criado uma certa afeição pelo animal.
Contudo, este afecto pela gata era objecto das zombarias de Atanásio Ivanovitch.

- Francamente, Pulquéria Ivanovna, não sei por que razão simpatiza com esse animal. Não serve para nada! Se ao menos tivesse um cão... Um cão ainda se pode levar à caça, mas uma gata...

- Era melhor que não dissesse tolices, Atanásio Ivanovitch - respondia-lhe Pulquéria Ivanovna. - Nunca pode estar calado. Um cão é um animal porco que só causa preocupações. Um gato, pelo contrário, é um animal simpático que não faz mal a ninguém.

Ao fim e ao cabo, Atanásio Ivanovitch tanto gostava de cães como de gatos. O que ele dizia era só para irritar e ouvir Pulquéria Ivanovna.
Por detrás do jardim da casa havia um enorme pinhal que o dono tinha poupado até então, decerto com receio de que o ruído fosse ferir os ouvidos delicados de Pulquéria Ivanovna. Era um pinhal basto, sombrio, abandonado; uma vegetação espessa e desordenada envolvia os velhos troncos das árvores fazendo recordar vagamente a penugem aveludada das pernas dos pombos. Habitavam-no apenas os gatos selvagens. É preciso não confundir os gatos selvagens com esses gatos vadios e experimentados que vagabundeiam pelos telhados das casas: a despeito das suas maneiras bruscas, estes habitantes das cidades são muito mais civilizados que os gatos selvagens, raça de animais desconfiados e bravios, sempre escanzelados e com um miar rude e primitivo. Por vezes, estes mariolas abrem galerias subterrâneas até aos celeiros, onde se introduzem e roubam o que podem. A sua audácia vai até ao ponto de saltarem agilmente pelas janelas das cozinhas logo que sentem a cozinheira afastar-se. São estranhos a qualquer sentimento generoso, vivem da rapina, e matam os pássaros dentro dos próprios ninhos. Uma vez, num dos corredores subterrâneos, um destes libertinos encontrou a gatinha de Pulquéria Ivanovna, que em breve se deixou seduzir como uma ingénua de aldeia por um soldado da cidade. Desde esse dia desapareceu. A dona procurou-a em vão por toda a parte. Passaram-se três dias, mas depois de algumas lamentações Pulquéria Ivanovna acabou por esquecê-la. Até que um dia, quando regressava duma visita de inspecção à horta, trazendo uma braçada de pepinos para Atanásio Ivanovitch, lhe chegou aos ouvidos um miar desolado. Instintivamente começou a chamar: bicha, bicha, bichinha; e de repente saltou dum silvado a sua gatinha cinzenta, muito magra, muito desfigurada. Era evidente que já não comia havia muitos dias. Pulquéria Ivanovna continuava a chamá-la, mas a gata miava, miava e não ousava aproximar-se, tão selvagem se tinha tornado. Pulquéria Ivanovna retomou o caminho de casa, continuando os seus apelos: bicha, bichinha. A gata seguiu-a a medo até à vedação e depois de ter reconhecido a casa decidiu-se a entrar. Pulquéria Ivanovna mandou-lhe dar imediatamente leite e carne, deliciando-se ao ver o animal atacar com sofreguidão os alimentos.

Aquela favorita pródiga parecia engordar instantaneamente, e quando se lhe acalmou a voracidade, Pulquéria Ivanovna estendeu a mão para lhe fazer uma festa no lombo; mas a ingrata saltou ligeira pela janela e fugiu para sempre, sem dúvida porque tomara já demasiado gosto pela companhia dos gatos selvagens ou porque sob a influência deles perfilhara a máxima romântica de que o amor e a miséria são preferíveis à riqueza e à solidão.
Este incidente deu que pensar à boa da velha. "Foi a morte que me veio visitar!" acabou por concluir depois de muito matutar. E toda a santa tarde este pensamento a absorveu, sem que houvesse forma de afastá-lo. Atanásio Ivanovitch tentou em vão brincar, gracejar e conhecer as razões desta melancolia repentina. Pulquéria Ivanovna permanecia muda ou, então, limitava-se a dar respostas evasivas que o não satisfaziam. No dia seguinte tinha emagrecido muito.

- Então, que tem, Pulquéria Ivanovna? Sente-se doente?
- Não, não estou doente, Atanásio Ivanovitch. Mas tenho que o prevenir dum acontecimento muito importante: vou morrer este verão. Tenho a certeza: a morte já me veio visitar.

Atanásio Ivanovitch mordeu os lábios de dor, mas dominou-se e tentou sorrir:

- Não sabe o que está a dizer, Pulquéria Ivanovna. Com certeza que em vez do seu cházinho habitual tomou por engano uma chávena de aguardente.
- Não, Atanásio Ivanovitch, não bebi nenhuma aguardente.
Atanásio Ivanovitch sentiu-se roído de remorso por aquele gracejo e fixou o olhar em Pulquéria Ivanovna, enquanto uma lágrima se lhe encamarinhava nas pálpebras.

- Peço-lhe, Atanásio Ivanovitch, que faça cumprir as minhas últimas vontades - recomeçou Pulquéria Ivanovna. - Desejo que me enterrem perto da igreja, que me vistam o meu vestido cinzento, sabe, aquele que tem umas florzinhas num fundo castanho. De maneira nenhuma quero que me ponham o meu fato de cetim; os mortos não têm necessidade de luxos, e ainda se pode fazer dele um belo robe para que o senhor receba convenientemente as visitas.

- Só Deus pode compreender o que está a dizer, Pulquéria Ivanovna - repetia Atanásio Ivanovitch. - Se não vai morrer já para que me está a fazer sofrer com antecedência?

- Engana-se, Atanásio Ivanovitch. Sei muito bem que a minha morte se aproxima. Não se preocupe nem se amofine por minha causa: já estou velha, já vivi muito. O senhor também já não é nenhum rapaz e em breve nos voltaremos a encontrar no outro mundo.

Atanásio Ivanovitch chorava como uma criança.
- Até é pecado estar a chorar, Atanásio Ivanovitch. Não chore, não chame sobre si a cólera divina. Eu não tenho pena de morrer. Só me preocupa uma coisa (e aqui escapou-se-lhe do peito um suspiro profundo): é não saber a quem confiar, é não saber quem tomará conta de si quando eu já não estiver a seu lado. O senhor é como uma criancinha e quem o servir tem de o amar.
À medida que ia falando ia-se-lhe pintando no rosto uma expressão de tão profunda piedade e de tão desolador sofrimento, que ninguém a poderia contemplar com indiferença.

- Escuta, Eudóxia - disse ela à governanta que tinha mandado chamar à sua presença propositadamente. - Quando eu morrer olha pelo teu patrão como se fosse um filho teu, dá ordens para que lhe preparem os pratos de que ele gosta; dá-lhe sempre a roupa muito limpinha; quando houver visitas, veste-o como deve ser, porque de contrário ele é muito capaz de receber os hóspedes com um fato velho, pois já não distingue muito bem os dias de festa dos dias vulgares. Nunca o percas de vista, Eudóxia, que eu rezo por ti no outro mundo e Deus há-de recompensar-te. Não te esqueças de nada do que te digo; tu estás velha, já não tens muito tempo para viver, não queiras manchar a tua alma com um pecado. Se não cuidas dele como deve ser, nunca mais serás feliz neste mundo e eu própria pedirei a Nosso Senhor para não te conceder uma morte boa, serás infeliz para todo o resto da tua vida e nem os teus filhos nem a família receberão as bênçãos de Deus.
Pobre velha! Não pensava nem no momento solene que a aguardava, nem na salvação da sua alma, nem na vida futura; apenas a preocupava a sorte daquele homem que fora o companheiro de toda a sua vida e que agora tinha forçosamente de abandonar. Com uma lucidez perfeita, determinou todas as coisas de forma que Atanásio Ivanovitch não pudesse ressentir-se da sua ausência. Estava tão conscientemente convencida da proximidade da morte e o seu espírito tão calmamente preparado para aceitar este acontecimento, que ao fim de alguns dias se recusou a levantar-se e a tomar qualquer alimento. Atanásio Ivanovitch prodigalizou-lhe todos os cuidados e atenções, não abandonando nunca a cabeceira da doente.
- Não seria melhor tomar qualquer coisa, Pulquéria Ivanovna? - perguntava-lhe, olhando-a nos olhos com inquietação.

Mas Pulquéria Ivanovna quedava-se muda. Por fim tentou balbuciar como que para quebrar este longo silêncio... e exalou o último suspiro.
Atanásio Ivanovitch ficou esmagado. Esta tragédia deixou-o tão perplexo que nem sequer verteu uma lágrima: ficou-se a contemplar o cadáver com um olhar turvo. O sentido da morte parecia escapar à sua compreensão.
Estenderam o cadáver sobre uma mesa, vestiram-lhe o fato que tinha indicado, cruzaram-lhe os braços sobre o peito, puseram-lhe uma vela entre os dedos. Atanásio Ivanovitch a tudo assistiu numa completa insensibilidade. Passado pouco tempo, a casa foi invadida por pessoas de todas as condições, muitas delas vindas de longe para prestarem a última homenagem. No pátio havia algumas mesas compridas apinhadas de bolos, aguardentes e o tradicional bolo funerário, de arroz. Os visitantes falavam, choravam, contemplavam a defunta, evocavam as suas virtudes e voltavam os olhares para Atanásio Ivanovitch, que olhava para tudo isto com uma expressão imbecil. Por fim, levaram o cadáver, toda a gente acompanhou o enterro - e ele seguiu atrás do cortejo. O padre tinha vestido os paramentos mais ricos, o sol resplendia, as crianças choravam nos braços das mães, as cotovias cantavam nos campos, a garotada brincava à beira dos caminhos. Finalmente, depositaram o caixão à beira do túmulo e convidaram-no a aproximar-se para dizer o último adeus à defunta. Ele aproximou-se e beijou-a maquinalmente; chorava, mas eram lágrimas quase insensíveis. O caixão desceu à terra; o diácono e os dois chantres entoaram um requiem num tom baixo e arrastado que se foi perder no céu puro e sem nuvens; os coveiros tomaram as pás e em breve a terra cobria completamente a última morada de Pulquéria Ivanovna. Neste momento, Atanásio Ivanovitch deu uns passos em frente e toda a gente se afastou, desejosa de conhecer as suas intenções.

Aproximou-se do túmulo, levantou os olhos do chão, passeou à sua volta um olhar baço e exclamou:
- Já a enterraram! Porquê...?
E foi incapaz de acabar a frase.
Quando se encontrou de novo em casa, naquele quarto vazio donde tinham retirado tudo, até mesmo a cadeira de Pulquéria Ivanovna, precipitou-se num pranto impressionante, soluçou, soluçou sem fim, soluçou dolorosamente, inconsolavelmente com as lágrimas a escaparem-se-lhe em bica dos olhos embaciados.

Cinco anos se passaram. Há alguma dor que resista ao tempo? Há algum desgosto, alguma paixão que resista à luta desigual com o tempo? Conheci outrora um homem na flor da mocidade, dotado dum carácter verdadeiramente superior e das virtudes mais preciosas, arrebatado por uma paixão comovedora, louca, exaltada mas nobre. Pois diante de mim, quase sob os meus olhos, a insaciável ceifeira levou-lhe o objecto querido do seu amor, uma encantadora criatura, bela como um anjo. Nunca na minha vida assisti a semelhantes excessos de arrebatamento, a uma angústia tão pungente, a um desespero tão frenético. Nunca tinha imaginado que um homem fosse capaz de criar dentro de si um inferno tão tenebroso, um inferno onde nunca penetra o mais pálido reflexo duma esperança. O infeliz apaixonado era vigiado de perto e retiraram do seu alcance todo o objecto de que ele pudesse lançar mão para se suicidar. Ao fim de quinze dias, dominando inesperadamente o seu sofrimento, desatou a rir e a gracejar: deixaram-no à vontade e ele aproveitou imediatamente a liberdade para comprar uma arma. E, um dia, soou na casa um tiro que aterrorizou os parentes: precipitaram-se no quarto e encontraram-no no chão, com um tiro na cabeça. Correram em busca dum médico que gozava nessa época de grande nomeada, que perante o espanto geral conseguiu salvá-lo. Desde então redobraram a vigilância sobre este infeliz desesperado: esconderam dele todo o menor objecto com que pudesse ferir-se. Mas acabou por aproveitar uma oportunidade para se escapar e lançou-se sobre as rodas dum carro: partiu as pernas e os braços, mas ainda desta vez o conseguiram salvar. Um ano mais tarde, voltei a encontrá-lo num salão muito frequentado: estava sentado a uma mesa de jogo e dizia, com uma voz alegre, desfazendo-se duma carta: "Pouca sorte!" enquanto por trás dele, de pé, apoiada ao espaldar da cadeira, uma mulher muito jovem - a mulher dele - brincava despreocupadamente com os dados.

Cinco anos, pois, após a morte de Pulquéria Ivanovna, encontrando-me por acaso nessas paragens, ocorreu-me a ideia de ir surpreender Atanásio Ivanovitch, recordar ao vivo os lugares onde outrora tinha passado tantas horas felizes amimado pela generosidade de Pulquéria Ivanovna. Ao chegar diante da casa pareceu-me que o dobro do tempo tinha passado sobre ela: as capoeiras estavam em ruínas, e os seus habitantes decerto tinham desaparecido; a vedação estava completamente destruída, e vi, com os meus próprios olhos, a cozinheira arrancar-lhe uma das traves para a pôr no fogão, quando lhe bastava dar mais dois passos para deitar mão a um monte de lenha. Aproximei-me tristemente da entrada; os mesmos cães - mas agora cegos ou estropiados - começaram a ladrar, endireitando as caudas de pêlo frisado mas sujo. O velho veio ao meu encontro. Ainda hesitei se seria ele, tão curvado estava. Reconheceu-me e recebeu-me com o mesmo sorriso que lhe conhecera. Entrei na casa: superficialmente, tudo parecia na mesma, mas em breve se notava uma desordem que era indício certo duma ausência. Tive a sensação estranha que nos assalta quando penetramos pela primeira vez na casa dum viúvo que sempre nos habituámos a ver na companhia inseparável da esposa. E exactamente a mesma sensação de angústia que nos estrangula quando visitamos um doente que sempre conhecemos com saúde. Nas mais pequeninas coisas se notava a falta de solicitude de Pulquéria Ivanovna: uma das facas que puseram na mesa não tinha cabo; os pratos já não eram servidos com a mesma perfeição. Para não alargar esta visão de decadência, nem sequer me informei do estado das culturas e recusei-me a ver as cavalariças.

Quando nos sentámos à mesa, uma das criadas amarrou um guardanapo ao pescoço de Atanásio Ivanovitch. Foi uma boa medida, porque ele teria sujado o fato todo. Esforcei-me por o distrair, contei-lhe novidades: escutou-me com o seu sorriso de sempre, mas em certos momentos o seu olhar tornava-se vazio e distante, e na sua expressão não transparecia o menor traço dum pensamento. Nesses momentos levava a colher ao nariz, e como não atinava com a boca era preciso a criada pegar-lhe na mão para comer a sopa. As refeições eram servidas lentamente, com grandes intervalos entre cada prato. O próprio Atanásio Ivanovitch se apercebia da demora e perguntava:
- Porque demoram tanto tempo a servir-nos?

Pela porta entreaberta, vi perfeitamente que o rapaz incumbido deste serviço se deixara adormecer sobre uma cadeira, com a cabeça pendida sobre o peito.

- Era este prato - disse-me Atanásio Ivanovitch quando nos apresentaram um pastelão de queijo -, era este prato... - repetiu, com voz entrecortada e com as lágrimas a saltarem dos olhos - era este prato que a minha po... pobre...
E, de repente, desfez-se em lágrimas; deixou cair o braço sobre o prato, que se empinou, caiu no chão e partiu-se; o molho sujou-o todo. E, contudo, ficou sentado, insensível, de colher na mão, estático, e dos olhos, como a água duma fonte inesgotável, as lágrimas corriam, corriam em fios contínuos sobre o guardanapo que lhe protegia o peito.

"Meu Deus", pensava para comigo, "cinco anos se passaram, cinco anos de acção desse demolidor universal e impiedoso que é o tempo, e este velho já enregelado a quem a vida parecia ter protegido de toda a emoção violenta, reservando-lhe o prazer de longas horas de descanso, a alegria de histórias inocentes e as delícias e acepipes delicados - cinco anos, e este velho continua ainda a ser presa duma angústia inflexível. Quem, pois, terá mais poder sobre a alma humana: a paixão ou o hábito? Talvez os nossos desejos, os nossos ímpetos, as nossas loucuras sejam apenas apanágio dos nossos verdes anos, talvez seja apenas a nossa imaginação juvenil que empreste um halo de realidade a todo esse turbilhão irresistível de paixões!"
Seja como for, comparadas a este hábito longo, lento e quase inconsciente, todas essas paixões me pareceram, nesse momento, futilidades pueris. Por várias vezes Atanásio Ivanovitch tentou pronunciar o nome da falecida mulher, mas no meio da palavra o rosto plácido alterava-se-lhe convulsivamente e as suas lágrimas de criança feriam-me o coração. Não, não eram lágrimas protocolares em que se mostram sempre pródigos os velhos quando nos contam os seus infortúnios e tristezas; nem tão-pouco eram as lágrimas fáceis que o álcool provoca; não, estas lágrimas caíam por si mesmas, espontâneas, transbordavam dum coração há muito retalhado pela dor.

Atanásio Ivanovitch morreu pouco depois da minha visita. Soube há pouco tempo que tinha falecido, e, coisa curiosa, certas circunstâncias fizeram que a sua morte se assemelhasse à de Pulquéria Ivanovna. Certo dia, de tempo magnífico, quis dar um passeio pelo jardim da casa. Ao caminhar lentamente por uma vereda com a indiferença que nele se tornara habitual, pareceu-lhe ouvir uma voz que o chamava distintamente: "Atanásio Ivanovitch." Voltou-se. Não viu ninguém. Olhou para todos os lados, não viu ninguém. Estava um dia sereno de sol brilhante. Reflectiu um momento, o rosto iluminou-se-lhe e acabou por exclamar: "É Pulquéria Ivanovna que me chama!".

Com certeza que já vos aconteceu ouvir uma voz que chama pelo vosso próprio nome. Dizem as pessoas simples que é uma alma que tem saudades vossas e que vos comunica a proximidade da morte. Devo confessar que sempre tive medo deste misterioso apelo, que aliás ouvi muitas vezes na minha infância. Acontecia geralmente em dias de sol glorioso: nem uma folha bulia, pairava sobre tudo um silêncio de morte, os próprios grilos interrompiam o seu cantar, nem vivalma à minha volta. Este silêncio horrível aliado à serenidade dum dia límpido assustava-me muito mais do que a noite mais sinistra e tenebrosa, do que toda a fúria dos elementos surpreendendo-me no meio duma floresta densa. Fugia a toda a pressa, desnorteado e ofegante, e só conseguia acalmar-me quando o contacto com um outro ser humano dissipava em mim a sensação aflitiva de vácuo que se apoderava do meu coração.

Convencido de que sua mulher o tinha chamado, Atanásio Ivanovitch curvou-se à ideia da morte com uma docilidade infantil. Começou a tossir, a emagrecer, a desaparecer lentamente como uma vela acesa, e como uma vela se extinguiu, quando já nada resta para alimentar a sua chama débil.
"Enterrem-me ao pé de Pulquéria Ivanovna" foram as suas últimas palavras.
Fizeram-lhe essa vontade e enterraram-no perto da igreja, junto de Pulquéria Ivanovna. À cerimónia assistiram principalmente pessoas simples e mendigos. E, desta vez, a casa ficou deserta. O caseiro e o feitor levaram para casa tudo o que a governanta não tinha ainda subtraído.
Inesperadamente, surgiu não se sabe bem donde o herdeiro dos bens, um parente afastado, que tinha sido tenente não sei em que exército e que tinha a ideia fixa das reformas. Imediatamente compreendeu o estado de abandono e de desordem em que tudo estava, e decidiu, portanto, pôr fim a todos os abusos e estabelecer uma ordem perfeita. Para tal, comprou instrumentos de lavoura novos, numerou todas as capoeiras - enfim, seguiu uma orientação tão prudente e tomou medidas tão sábias que ao fim de seis meses tiveram que o dar por incapaz e pô-lo sob tutela. Depois de prudentemente estudado o assunto, o espinhoso encargo foi entregue a um funcionário público reformado e a um capitão da reserva, cujo uniforme tinha evidentemente sofrido as inclemências do tempo. Estes ponderados tutores apressaram-se a mandar destruir as capoeiras, incluindo os ovos e tudo. As casas de arrecadação, que se inclinavam já quase até ao chão, acabaram por cair definitivamente. Os trabalhadores passaram a embriagar-se descaradamente e acabaram todos por fugir. Quanto ao proprietário, que aliás vivia nas melhores relações com os seus tutores, com quem se entregava a generosas libações alcoólicas, raras vezes punha os pés nas suas terras. Pode-se ainda encontrá-lo em qualquer feira da Pequena Rússia: informa-se detalhadamente dos preços dos géneros que só se vendem por grosso, como a farinha, o cânhamo, o mel, para apenas comprar pedras de isqueiro, cachimbos e outros objectos insignificantes cujo valor nunca vai além de um rublo.”
Nicolai Gogol