"Temos que ver se há por aqui alguma pá ou alguma enxada, seja o que for que possa servir para cavar, disse o médico. Era manhã, tinham trazido com grande esforço o cadáver para a cerca interior, puseram-no no chão, entre o lixo e as folhas mortas das árvores. Agora era preciso enterrá-lo. Só a mulher do médico sabia o estado em que se encontrava o morto, a cara e o crânio rebentados pela descarga, três buracos de balas no pescoço e na região do esterno. Também sabia que em todo o edifício não havia nada com que se pudesse abrir uma cova. Percorrera toda a área que lhes tinha sido destinada e não encontrara mais que uma vara de ferro. Ajudaria, mas não era suficiente. E vira, por trás das janelas fechadas do corredor que seguia ao longo da ala reservada aos suspeitos de contágio, mais baixas deste lado da cerca, rostos atemorizados, de pessoas à espera da sua hora, do momento inevitável em que teriam de dizer às outras Ceguei, ou quando, se tivessem tentado ocultar-lhes o sucedido, as denunciasse um gesto errado, um mover de cabeça à procura duma sombra, um tropeção injustificado em quem tem olhos. Tudo isto também o sabia o médico, a frase que lançara fazia parte do disfarce combinado por ambos, a partir de agora a mulher já poderia dizer, E se pedíssemos aos soldados que nos atirassem cá para dentro uma pá, A ideia é boa, experimentemos, e todos estiveram de acordo, que sim, que era uma boa ideia, só a rapariga dos óculos escuros não pronunciou palavra sobre esta questão de enxada ou pá, todo o seu falar, por enquanto, eram lágrimas e lamentos, A culpa foi minha, chorava ela, e era verdade, não se podia negar, mas também é certo, se isso lhe serve de consolação, que se antes de cada acto nosso nos puséssemos a prever todas as consequências dele, a pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar. Os bons e os maus resultados dos nossos ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma forma bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprová-lo, para congratular-nos ou pedir perdão, aliás, há quem diga que isso é que é a imortalidade de que tanto se fala, Será, mas este homem está morto e é preciso enterrá-lo. Foram portanto o médico e a mulher a parlamentar, a rapariga dos óculos escuros, inconsolada, disse que ia com eles. Por dor da consciência. Mal apareceram à vista, na entrada da porta, um soldado gritou-lhes, Alto, e como se temesse que a intimação verbal, ainda que enérgica, não fosse acatada, disparou um tiro para o ar. Assustados, recuaram para a protecção da sombra do átrio, por trás das madeiras grossas da porta aberta. Depois a mulher do médico avançou sozinha, donde estava podia ver os movimentos do soldado e resguardar-se a tempo, se fosse necessário, Não temos com que enterrar o morto, disse, precisamos de uma pá. Ao portão, mas do lado oposto onde o cego tinha caído, apareceu outro militar. Sargento era, mas não o de antes, Que querem, gritou, Precisamos de uma pá, ou uma enxada, Não há cá disso, ponham-se andar, Temos de enterrar o corpo, Não enterrem, deixem-no aí a apodrecer, Se o deixarmos fica a contaminar a atmosfera, Pois que contamine e vos faça bom proveito, A atmosfera não está parada, tanto está aqui como vai para aí. A pertinência do argumento obrigou o militar a reflectir. Tinha vindo Substituir o outro sargento, que cegara e fora imediatamente levado para onde estavam a ser concentrados os enfermos pertencentes às forças armadas de terra. Escusado será dizer que a aviação e a marinha dispunham também, cada uma, das suas próprias instalações, mas estas de menor tamanho e importância, por serem mais reduzidos os efectivos destas armas. A mulher tem razão, reconsiderou o sargento, num caso como este não há dúvida de que todos os cuidados são poucos. Como prevenção, dois soldados, munidos de máscaras antigases, já haviam despejado sobre o sangue dois garrafões inteiros de amónia, cujos últimos vapores ainda faziam lacrimejar o pessoal e lhes picavam as mucosas da garganta e do nariz. O sargento declarou, enfim, Vou ver o que se pode arranjar, E a comida, aproveitou a mulher do médico a ocasião para recordar-lhe, A comida ainda não chegou, Só do nosso lado já há mais de cinquenta pessoas, temos fome, o que estão a mandar não chega para nada, Isso da comida não é com o exército, Alguém tem de resolver a situação, o governo comprometeu-se a alimentar-nos, Voltem lá para dentro, não quero ver ninguém nessa porta, A enxada, ainda gritou a mulher do médico, mas o sargento tinha- se ido embora. A manhã estava em meio quando se ouviu a voz do altifalante na camarata, Atenção, atenção, os internados alegraram- se, pensaram que era o anúncio da comida, mas não, tratava-se da enxada, Alguém que a venha buscar, mas nada de grupos, só sai uma pessoa, Vou eu, que já falei com eles antes, disse a mulher do médico. Logo que saiu ao patamar exterior viu a enxada. Pela posição e pela distância a que se encontrava, mais perto do portão do que da escada, devia ter sido atirada de fora, Não me posso esquecer de que estou cega, pensou a mulher do médico, Onde está, perguntou, Desce a escada, que já te irei guiando, respondeu o sargento, muito bem, agora anda na direcção em que estás, assim, assim, alto, vira-te um pouco para a direita, não, para a esquerda, menos, menos do que isso, agora em frente, se não te desviares vais dar com o nariz mesmo em cima dela, quente, a escaldar, merda, eu disse que não te desviasses, frio, frio, está a aquecer outra vez, quente, cada vez mais quente, pronto, agora dá meia volta que eu torno a guiar-te, não quero que fiques para aí como uma burra à nora, às voltas, e me venhas parar ao portão, Não estejas tão preocupado, pensou ela, irei daqui à porta em linha recta, no fim de contas tanto faz, ainda que ficasses a desconfiar de que não estou cega, a mim que me importa, não virás cá dentro buscar-me. Pôs a enxada ao ombro, como um cavador que vai ao seu trabalho, e caminhou na direcção da porta sem se desviar um passo, Nosso sargento, já viu aquilo, exclamou um dos soldados, até parece ela que tem olhos, Os cegos aprendem depressa a orientar-se, explicou, convicto, o sargento.
Foi trabalhoso abrir a cova. A terra estava dura, calcada, havia raízes a um palmo do chão. Cavaram à vez o motorista, os dois polícias e o primeiro cego. Perante a morte, o que se espera da natureza é que percam os rancores a força e o veneno, é certo que se diz que o ódio velho não cansa, e disso não faltam provas na literatura e na vida, mas isto aqui, no fundo, a bem dizer, não era ódio, e de velho nada, pois que vale o roubo de um automóvel ao lado do morto que o tinha roubado, e menos ainda no mísero estado em que se encontra, que não são precisos olhos para saber que esta cara não tem nariz nem boca. Não puderam cavar mais fundo que três palmos. Fosse o morto gordo e ter-lhe-ia ficado de fora a barriga, mas o ladrão era magro, um autêntico pau-de-virar-tripas, pior depois do jejum destes dias, a cova bastaria para dois como ele. Não houve orações. Podia-se pôr-lhe uma cruz, lembrou ainda a rapariga dos óculos escuros, foi o remorso que a fez falar, mas ninguém ali tinha notícia do que o falecido pensara em vida dessas histórias de Deus e da religião, o melhor era calar, se é que outro procedimento tem justificação perante a morte, além disso, leve-se em consideração que fazer uma cruz é muito menos fácil do que parece, sem falar do tempo que ela se iria aguentar, como todos estes cegos que não vêem onde põem os pés. Voltaram à camarata. Nos sítios mais frequentados, desde que não seja em campo aberto, como a cerca, a gente já não se perde, com um braço esticado à frente e uns dedos a mover-se como antenas de insectos chega-se a toda a parte, é mesmo provável que nos cegos mais dotados não tarde a desenvolver-se aquilo a que chamamos visão frontal. A mulher do médico, por exemplo, é extraordinário como ela consegue movimentar-se e orientar-se por este verdadeiro quebra-cabeças de salas, desvãos e corredores, como sabe virar uma esquina no ponto exacto, como pára diante de uma porta e a abre sem hesitação, como não precisa ir contando as camas até chegar à sua. Agora está sentada na cama do marido, conversa com ele, baixinho como de costume, vê-se que são pessoas de educação, e têm sempre alguma coisa para dizer um ao outro, não são o mesmo que o outro casal, o primeiro cego e a mulher, depois daquelas comovedoras efusões do reencontro quase não têm falado, é que, neles, provavelmente, tem podido mais a tristeza de agora do que o amor de antes, com o tempo hão-de habituar- se. Quem não se cansa a repetir que tem fome é o rapazito estrábico, apesar de a rapariga dos óculos escuros, praticamente, ter tirado a comida à sua boca para a dar a ele. Há muitas horas que o mocinho não pergunta pela mãe, mas decerto voltará a sentir-lhe a falta depois de ter comido, quando o corpo se encontrar liberto das brutidões egoístas que resultam da simples, porém imperiosa, necessidade de manter-se. Fosse por causa do que acontecera de madrugada, fosse por motivos alheios à nossa vontade, a verdade é que não tinham chegado a ser trazidas as caixas com a refeição da manhã. Agora está-se a aproximar a hora do almoço, é quase uma hora no relógio que a mulher do médico disfarçadamente acaba de consultar, não deverá portanto estranhar-se que a impaciência dos sucos gástricos tenha decidido uns quantos cegos, tanto desta ala como da outra, a irem esperar no átrio a chegada da comida, e isto por duas excelentes razões, a pública, de uns, porque desta maneira se ganharia tempo, a reservada, de outros, porque é sabido que quem chega primeiro melhor se serve. Ao todo, não serão menos de dez os cegos atentos ao ruído que o portão exterior fará ao ser aberto, aos passos dos soldados que hão-de trazer as abençoadas caixas. Por sua vez, temerosos de uma súbita cegueira que pudesse resultar da proximidade imediata dos cegos que esperavam no átrio, os contagiados da ala esquerda não se atreveram a sair, mas alguns deles estão a espreitar pela frincha da porta, ansiosos por que chegue a sua vez. O tempo foi passando. Cnasados de esperar, alguns cegos tinham-se sentado no chão, mais tarde dois ou três regressaram às camaratas. Foi pouco depois que se ouviu o ranger inconfundível do portão. Excitados, os cegos, atropelando-se uns aos outros, começaram a mover-se para onde, pelos sons de fora, calculavam que estava a porta, mas, de súbito, tomados por uma vaga inquietação que não iriam ter tempo de definir e explicar, pararam e logo confusamente retrocederam, enquanto começavam já a perceber-se distintamente os passos dos soldados que traziam a comida e da escolta armada que os acompanhava.”
José Saramago
Sonetos
Não lamentes por mim quando eu morrer
Senão enquanto o surdo sino diz
Ao mundo vil que o deixo e vou viver
Em meio aos vermes que inda são mais vis.
Nem te recorde o verso comovido
A mão que o escreveu, pois te amo tanto
Que antes achar em tua mente olvido
Quer ser lembrado e te causar o pranto.
Ah! peço-te que ao leres esta queixa
Quando for minha carne consumida,
Não te refiras ao meu nome e deixa
Que morra o teu amor com minha vida.
Não veja o mundo e zombe desta dor
Por minha causa, quando morto eu for.
William Shakespeare
Senão enquanto o surdo sino diz
Ao mundo vil que o deixo e vou viver
Em meio aos vermes que inda são mais vis.
Nem te recorde o verso comovido
A mão que o escreveu, pois te amo tanto
Que antes achar em tua mente olvido
Quer ser lembrado e te causar o pranto.
Ah! peço-te que ao leres esta queixa
Quando for minha carne consumida,
Não te refiras ao meu nome e deixa
Que morra o teu amor com minha vida.
Não veja o mundo e zombe desta dor
Por minha causa, quando morto eu for.
William Shakespeare
Eu luminoso não sou
“Eu luminoso não sou. Nem sei que haja
Um poço mais remoto, e habitado
De cegas criaturas, de histórias e assombros.
Se, no fundo poço, que é o mundo
Secreto e intratável das águas interiores,
Uma roda de céu ondulando se alarga,
Digamos que é o mar: como o rápido canto
Ou apenas o eco, desenha no vazio irrespirável
O movimento de asas. O musgo é um silêncio,
E as cobras-d'água dobram rugas no céu,
Enquanto, devagar, as aves se recolhem.”
José Saramago
Um poço mais remoto, e habitado
De cegas criaturas, de histórias e assombros.
Se, no fundo poço, que é o mundo
Secreto e intratável das águas interiores,
Uma roda de céu ondulando se alarga,
Digamos que é o mar: como o rápido canto
Ou apenas o eco, desenha no vazio irrespirável
O movimento de asas. O musgo é um silêncio,
E as cobras-d'água dobram rugas no céu,
Enquanto, devagar, as aves se recolhem.”
José Saramago
Memorial do Convento
Trecho I
"Perguntou el-rei, É verdade o que acaba de dizer-me sua eminência, que se eu prometer levantar um convento em Mafra terei filhos, e o frade respondeu, Verdade é, senhor, porém só se o convento for franciscano, tornou el-rei, Como sabeis, e frei António disse, Sei, não sei como vim a saber, eu sou apenas a boca de que a verdade se serve para falar, a fé não tem mais que responder, construa vossa majestade o convento e terá brevemente sucessão, não o construa e Deus decidirá. Com um gesto mandou el-rei ao arrábio que se retirasse, e depois perguntou a D. Nuno da Cunha. É virtuoso esse frade, e o bispo respondeu, Não há outro que mais o seja na sua ordem. Então D. João, o quinto do seu nome, assim assegurado sobre o mérito do empenho, levantou a voz para que claramente o ouvisse quem estava e o soubessem amanhã cidade e reino, Prometo, pela minha palavra real, que farei construir um convento de franciscanos na vila de Mafra se a rainha me der um filho no prazo de um ano a contar deste dia em que estamos, e todos disseram, Deus ouça vossa majestade, e ninguém ali sabia quem iria ser posto à prova, se o mesmo Deus, se a virtude de frei António, se a potência do rei, ou, finalmente, a fertilidade dificultosa da rainha."
Trecho II
"Por uma hora ficaram os dois sentados, sem falar. Apenas uma vez Baltasar se levantou para pôr alguma lenha na fogueira que esmorecia, e uma vez Blimunda espevitou o morrão da candeia que estava comendo a luz, e então, sendo tanta a claridade, pôde Sete-Sóis dizer, Por que foi que perguntaste o meu nome, e Blimunda respondeu, Porque minha mãe o quis saber e queria que eu o soubesse, Como sabes, se com ela não pudeste falar, Sei que sei, não sei como sei, não faças perguntas a que não posso responder, faze como fizeste, vieste e não perguntaste porquê, E agora, Se não tens onde viver melhor, fica aqui, Hei-de ir para Mafra, tenho lá família, Mulher, Pais e uma irmã, Fica, enquanto não fores, será sempre tempo de partires, Por que queres tu que eu fique, Porque é preciso, Não é razão que me convença, Se não quiseres ficar, vai-te embora, não te posso obrigar, Não tenho forças que me levem daqui, deitaste-me um encanto, Não deitei tal, não disse uma palavra, não te toquei, Olhaste-me por dentro, Juro que nunca te olharei por dentro, Juras que não o farás e já o fizeste, Não sabes de que estás a falar, não te olhei por dentro, Se eu ficar, onde durmo, Comigo.
Deitaram-se, Blimunda era virgem. Que idade tens, perguntou Baltasar, e Blimunda respondeu, Dezanove anos, mas já então se tornara muito mais velha. Correu algum sangue sobre a esteira. Com as pontas dos dedos médio e indicador humedecidos nele, Blimunda persignou-se e fez uma cruz no peito de Baltasar, sobre o coração. Estavam ambos nus. Numa rua perto ouviram vozes de desafio, bate de espadas, correrias. Depois o silêncio. Não correu mais sangue.
Quando, de manhã, Baltasar acordou, viu Blimunda deitada ao seu lado, a comer pão, de olhos fechados. Só os abriu, cinzentos àquela hora, depois de ter acabado de comer, e disse, Nunca te olharei por dentro."
José Saramago
"Perguntou el-rei, É verdade o que acaba de dizer-me sua eminência, que se eu prometer levantar um convento em Mafra terei filhos, e o frade respondeu, Verdade é, senhor, porém só se o convento for franciscano, tornou el-rei, Como sabeis, e frei António disse, Sei, não sei como vim a saber, eu sou apenas a boca de que a verdade se serve para falar, a fé não tem mais que responder, construa vossa majestade o convento e terá brevemente sucessão, não o construa e Deus decidirá. Com um gesto mandou el-rei ao arrábio que se retirasse, e depois perguntou a D. Nuno da Cunha. É virtuoso esse frade, e o bispo respondeu, Não há outro que mais o seja na sua ordem. Então D. João, o quinto do seu nome, assim assegurado sobre o mérito do empenho, levantou a voz para que claramente o ouvisse quem estava e o soubessem amanhã cidade e reino, Prometo, pela minha palavra real, que farei construir um convento de franciscanos na vila de Mafra se a rainha me der um filho no prazo de um ano a contar deste dia em que estamos, e todos disseram, Deus ouça vossa majestade, e ninguém ali sabia quem iria ser posto à prova, se o mesmo Deus, se a virtude de frei António, se a potência do rei, ou, finalmente, a fertilidade dificultosa da rainha."
Trecho II
"Por uma hora ficaram os dois sentados, sem falar. Apenas uma vez Baltasar se levantou para pôr alguma lenha na fogueira que esmorecia, e uma vez Blimunda espevitou o morrão da candeia que estava comendo a luz, e então, sendo tanta a claridade, pôde Sete-Sóis dizer, Por que foi que perguntaste o meu nome, e Blimunda respondeu, Porque minha mãe o quis saber e queria que eu o soubesse, Como sabes, se com ela não pudeste falar, Sei que sei, não sei como sei, não faças perguntas a que não posso responder, faze como fizeste, vieste e não perguntaste porquê, E agora, Se não tens onde viver melhor, fica aqui, Hei-de ir para Mafra, tenho lá família, Mulher, Pais e uma irmã, Fica, enquanto não fores, será sempre tempo de partires, Por que queres tu que eu fique, Porque é preciso, Não é razão que me convença, Se não quiseres ficar, vai-te embora, não te posso obrigar, Não tenho forças que me levem daqui, deitaste-me um encanto, Não deitei tal, não disse uma palavra, não te toquei, Olhaste-me por dentro, Juro que nunca te olharei por dentro, Juras que não o farás e já o fizeste, Não sabes de que estás a falar, não te olhei por dentro, Se eu ficar, onde durmo, Comigo.
Deitaram-se, Blimunda era virgem. Que idade tens, perguntou Baltasar, e Blimunda respondeu, Dezanove anos, mas já então se tornara muito mais velha. Correu algum sangue sobre a esteira. Com as pontas dos dedos médio e indicador humedecidos nele, Blimunda persignou-se e fez uma cruz no peito de Baltasar, sobre o coração. Estavam ambos nus. Numa rua perto ouviram vozes de desafio, bate de espadas, correrias. Depois o silêncio. Não correu mais sangue.
Quando, de manhã, Baltasar acordou, viu Blimunda deitada ao seu lado, a comer pão, de olhos fechados. Só os abriu, cinzentos àquela hora, depois de ter acabado de comer, e disse, Nunca te olharei por dentro."
José Saramago
Sonetos
Nem mármore, nem áureos monumentos
De reis hão de durar mais que esta rima,
E sempre hão de brilhar nestes acentos
Do que na pedra, pois o tempo a lima.
Pode a estátua na guerra ser tombada
E a cantaria o vil motim destrua;
Nem fogo ou Marte apagará com a espada
Vivo registro da memória tua.
Há de seguir teu passo sobranceiro
Vencendo a Morte e as legiões do olvido,
E os pósteros, no juízo derradeiro,
Hão de a este louvor prestar ouvido.
Pois até a sentença que levantes,
Vives aqui e no lábio dos amantes.
William Shakespeare
De reis hão de durar mais que esta rima,
E sempre hão de brilhar nestes acentos
Do que na pedra, pois o tempo a lima.
Pode a estátua na guerra ser tombada
E a cantaria o vil motim destrua;
Nem fogo ou Marte apagará com a espada
Vivo registro da memória tua.
Há de seguir teu passo sobranceiro
Vencendo a Morte e as legiões do olvido,
E os pósteros, no juízo derradeiro,
Hão de a este louvor prestar ouvido.
Pois até a sentença que levantes,
Vives aqui e no lábio dos amantes.
William Shakespeare
Não Entres tão Depressa Nessa Noite Escura
“O meu pai nunca me deixou entrar aqui. Devia sentar-se na cadeira de baloiço e olhar do postigo o jardim lá em baixo, o portão, a rua, eu pequena a brincar às fadas com a minha irmã no rebordo do lago. Aos domingos abria a gaveta da cómoda, remexia papéis até escutarmos o tilintar da argola, subia as escadas do sótão a procurar a chave no meio das outras chaves
(tal como hoje, agora que ninguém me proíbe, abri a gaveta, remexi papéis até escutar o tilintar da argola e subi as escadas a procurar a chave no meio das outras chaves)
e ficava horas seguidas na cadeira de baloiço
(entendo neste momento que era a cadeira de baloiço pelo ruído das molas)
a olhar do postigo o jardim lá em baixo, o portão, a rua, eu a brincar às fadas com a minha irmã no rebordo do lago
não, não acredito que se interessasse pela rua ou por nós, pela rua não se interessava nunca e quanto a nós o mais que nos oferecia era um aborrecimento mudo, a minha mãe mostrava-lhe os boletins do colégio e ele recusava-os com as costas da mão, fazíamos-lhe perguntas e continuava a mastigar, mudavam-nos o penteado e não reparava sequer, uma tarde, durante a lição de piano
a professora voltava a página da música (...)”
Lobo Antunes
(tal como hoje, agora que ninguém me proíbe, abri a gaveta, remexi papéis até escutar o tilintar da argola e subi as escadas a procurar a chave no meio das outras chaves)
e ficava horas seguidas na cadeira de baloiço
(entendo neste momento que era a cadeira de baloiço pelo ruído das molas)
a olhar do postigo o jardim lá em baixo, o portão, a rua, eu a brincar às fadas com a minha irmã no rebordo do lago
não, não acredito que se interessasse pela rua ou por nós, pela rua não se interessava nunca e quanto a nós o mais que nos oferecia era um aborrecimento mudo, a minha mãe mostrava-lhe os boletins do colégio e ele recusava-os com as costas da mão, fazíamos-lhe perguntas e continuava a mastigar, mudavam-nos o penteado e não reparava sequer, uma tarde, durante a lição de piano
a professora voltava a página da música (...)”
Lobo Antunes
Sonetos
Se, órfão do olhar humano e da fortuna,
Choro na solidão meu pobres estado
E o céu meu pranto inútil importuna,
Eu entro em mim a maldizer meu fado;
Sonho-me alguém mais rico de esperança.
Quero feições e amigos mais amenos,
Deste o pendor, a meta que outro alcança,
Do que mais amo contentado o menos.
Mas, se nesse pensar, que me magoa,
De ti me lembro acaso - o meu destino,
Qual cotovia na alvorada entoa
da negra terra aos longes céus um hino.
E na riqueza desse amor que evoco,
Já minha sorte com a dos reis não troco.
William Shakespeare
Choro na solidão meu pobres estado
E o céu meu pranto inútil importuna,
Eu entro em mim a maldizer meu fado;
Sonho-me alguém mais rico de esperança.
Quero feições e amigos mais amenos,
Deste o pendor, a meta que outro alcança,
Do que mais amo contentado o menos.
Mas, se nesse pensar, que me magoa,
De ti me lembro acaso - o meu destino,
Qual cotovia na alvorada entoa
da negra terra aos longes céus um hino.
E na riqueza desse amor que evoco,
Já minha sorte com a dos reis não troco.
William Shakespeare
O Elixir da Longa Vida
(..)
Num sumptuoso palácio de Ferrare, certa noite de inverno, D. Juan Belvidero recebia festivamente um príncipe da casa de Este. Nessa época uma tal recepção constituía espectáculo maravilhoso que só os tesouros reais ou o fausto dum grande senhor poderiam proporcionar.
Sentados à volta de rica mesa iluminada por velas perfumadas, sete mulheres alegres trocavam frases ligeiras, num ambiente de admiráveis obras primas de decoração, com os mármores brancos sobressaindo de paredes de estuque vermelho, a contrastarem com preciosas tapeçarias turcas. Vestidas de cetins e resplandecendo ouro e pedrarias que fulguravam menos que os seus olhos, todas falavam de paixões intensas e diversas como os seus tipos de beleza. Só não diferiam nas palavras nem nas ideias, a que o ar, um olhar, certos gestos prestavam um comentário libertino, sensual, melancólico ou zombeteiro.
Uma afirmava: "Os meus encantos sabem aquecer o coração gelado dos homens já idosos".
E outra: "Gosto de estar recostada em coxins, para pensar, com embriaguez, nos meus adoradores".
Uma terceira, noviça nesta espécie de banquetes, sentia-se inclinada a corar:
"No fundo do meu coração, dizia, sinto um remorso. Sou católica e receio o Inferno, mas amo tanto, oh! tanto!, que poderei sacrificar pelo meu amor a Eternidade!".
A quarta, esvaziando uma taça de vinho de Chio, exclamava: "Viva a alegria! Eu encarno uma existência nova em cada dia que passa. Esquecida do passado, ébria ainda dos meus sucessos quotidianos, todas as noites esgoto uma vida de felicidade, trasbordante de amor".
Aquela que estava sentada junto de Belvidero fixava-o com olhar ardente. Conservava-se silenciosa e pensava: "Se o meu amante me abandonasse, nem por isso me entregaria a excessos para o matar!" Logo sorriu, mas a sua mão convulsa destruía uma caixa de amêndoas, em ouro, maravilhosamente cinzelada.
- Quando será Grão-Duque? perguntou a sexta mulher ao Príncipe, com expressão de alegria cruel nos lábios e um brilho de bacante nos olhos.
- E tu, dize-me, quando morrerá o teu pai ? - indagou a sétima, lançando o seu raminho de flores a Belvidero, com um delicioso gesto traquinas. Era uma rapariga de ar inocente, habituada a divertir-se com as coisas sagradas.
- Ah! não me falem disso! - exclamou o jovem e belo D. Juan. Há neste mundo um único pai eterno, e a desgraça quer que seja o meu!
As sete cortesãs de Ferrare, os amigos de Belvidero e o próprio Príncipe soltaram uma exclamação de horror.
Duzentos anos depois, no tempo de Luís XV, as pessoas de bom tom ter-se-iam rido daquele dito de espírito. Mas, talvez que as almas conservassem ainda, no começo dum festim, a sua lucidez. Apesar do clarão das velas, do fremir das paixões, do aspecto dos vasos de ouro e prata, dos vapores do álcool e da presença de encantadoras mulheres, subsistiria ainda no fundo dos corações um pouco do respeito pelos sentimentos humanos e as coisas divinas, que luta até a orgia o afogar nas últimas gotas dum vinho espumoso. No entanto, já as flores se estiolavam, os olhos desumanizavam-se e a embriaguez chegava, segundo a expressão de Rabelais, à ponta dos pés. E neste momento de silêncio abriu-se uma porta e, como no banquete de Baltazar, o Diabo surgiu sob a aparência de velho criado, de cabeça encanecida, o andar vacilante e as sobrancelhas contraídas. Fez a sua entrada com ar triste e com o olhar murchou as grinaldas, amorteceu o brilho das pratas douradas, o viço das pirâmides de frutos, o esplendor da festa, o vermelho dos rostos e a cor dos coxins amarfanhados pelos níveos braços das mulheres; lançou, enfim, a tristeza no estonteamento, proferindo em voz cava estas palavras sombrias:
- Senhor, vosso pai está a morrer.
D. Juan ergueu-se lançando aos seus convidados um gesto que poderia traduzir-se por: "Desculpem-me, isto não sucede todos os dias".
A morte dum pai não surpreende os jovens entre os esplendores da vida ou as loucas expansões dum festim. É tão brusca nos seus caprichos como uma bacante nos seus desdéns, embora, mais fiel do que estas, nunca iluda ninguém.
No momento em que D. Juan fechou a porta da sala do banquete e caminhou por uma extensa galeria, tão álgida como escura esforçou-se por tomar uma atitude hipócrita porque, pensando na sua dignidade de filho, tinha posto de lado a alegria juntamente com o guardanapo. A noite estava lôbrega. O discreto serviçal que conduzia D. Juan ao aposento paterno iluminava mal o seu amo, de maneira que a Morte, ajudada pelo frio, o silêncio e a obscuridade pôde suscitar na sua alma, talvez por uma reacção da embriaguez, algumas reflexões graves. Assim interrogou o seu passado e ficou cabisbaixo como um acusado caminhando para o tribunal.
Bartolomeu Belvidero, pai de D. Juan, era um nonagenário que passara a maior parte da vida em grandes transacções comerciais. Tendo percorrido as mais frequentes vezes as regiões enfeitiçadas do Oriente, adquirira avultadas riquezas e, segundo dizia, conhecimentos mais preciosos que o ouro e os diamantes, a que já então nenhuma importância ligava. "Prefiro um dente a um rubi e o poder ao saber", declarava sorrindo. Este excelente pai gostava de ouvir D. Juan contar-lhe as estúrdias da juventude e dizia, com ar chocarreiro: "Meu querido filho, faz todas as asneiras que te possam divertir". Devia ser o único velho que sentia prazer diante dum jovem, pois iludia assim a sua velhice com a contemplação de uma vida tão radiosa como era a de D. Juan.
Aos sessenta anos Belvidero apaixonara-se por um anjo de beleza e de inocência. O filho fora o único fruto desse tardio e breve amor. Havia quinze anos que o velho chorava a morte da sua querida Joana. A numerosa criadagem e o filho atribuíam a esta dor os hábitos singulares que o ancião contraíra. Refugiado na álea menos confortável do palácio, de onde raramente saía, o próprio D. Juan não entrava ali sem a sua prévia autorização. Quando este estranho anacoreta passeava pelo palácio ou nas ruas de Ferrare, parecia procurar qualquer coisa que lhe faltava, caminhando abstracto, hesitante, meditabundo, como que em luta com uma ideia ou uma recordação. Enquanto o filho dava festas e o palácio ressoava com as expansões da sua alegria, enquanto os cavalos escarvavam nas cocheiras ou os pagens discutiam jogando os dados pela escadas, Bartolomeu Belvidero comia diariamente sete onças de pão e só bebia água. Se consentia em servir-se de um prato de galinha era para dar os ossos a um cão-de-água preto, seu fiel companheiro. Não o incomodava o ruído. Quando doente, se o som duma corneta ou o latido dos cães o estremunhavam, contentava-se em dizer: "Ah!, é D. Juan que volta!"
Jamais existiu um pai tão compreensivo e indulgente. Por isso o jovem Belvidero, habituado a tratá-lo sem cerimónia, tinha todos os defeitos das pessoas amimadas, vivendo com seu pai como uma cortesã caprichosa com amante velho, conseguindo o perdão de qualquer impertinência com um sorriso, vendendo o seu bom humor e deixando-se amar. Reconstituindo no pensamento o quadro dos seus anos de mocidade, D. Juan compreendeu que lhe seria difícil descobrir uma razão de queixa do autor dos seus dias.
Agora, ao atravessar a galeria que o levava ao quarto de Bartolomeu moribundo, sentiu despertar um remorso no fundo do coração e inclinava-se a perdoar-lhe ter vivido tanto tempo. Nutria sentimentos de piedade filial, como um ladrão que preza a honestidade ante a possível posse de um milhão bem roubado. Em breve entrou nas desconfortáveis e enormes salas que compunham os aposentos do pai. Depois de experimentar os efeitos de uma atmosfera húmida, em que o cheiro a mofo se exalava das velhas tapeçarias e dos armários cobertos de pó, encontrou-se no quarto do velho, diante do seu leito nauseabundo, junto da lareira apagada. O candeeiro disposto sobre a mesa gótica projectava, a intervalos desiguais, manchas de luz mais ou menos intensas sobre o leito e mostrava o rosto do ancião sob aspectos que variavam. O frio entrava pelas frinchas das janelas mal fechadas e a neve, fustigando as vidraças, produzia um ruído surdo. Esta cena contrastava tão chocantemente com a que D. Juan acabava de abandonar, que ele não pôde deixar de estremecer. Percorreu-o um arrepio quando, ao aproximar-se da cama, um clarão do candeeiro provocado por uma lufada do vento, iluminou a cabeça do velho. Tinha as feições descompostas e a pele, colada aos ossos, apresentava tons esverdeados, que a brancura da almofada tornava ainda mais horríveis. Contraída pela dor, a boca entreaberta e desdentada deixava escapar uns gemidos lúgubres, que pareciam prolongados pelos uivos da tempestade. Não obstante estes sinais de destruição, dimanava daquela cabeça uma força sem limites. Dir-se-ia um espírito superior em luta com a Morte. Os olhos encovados pela enfermidade conservavam uma fixidez singular. Parecia que Bartolomeu procurava abater com o seu olhar um inimigo postado junto do leito. A sua mirada, fixa e gélida, tornava-se tanto mais terrível porquanto a cabeça se mantinha imóvel como os crânios lívidos que se vêem nas mesas de anatomia. O corpo, desenhado por inteiro pela cobertura da cama, denunciava a mesma fixidez nos membros. Tudo morrera nele menos os olhos. O ralo que se escapa da sua boca tinha qualquer coisa de mecânico.
D. Juan procurou vencer um retraimento para se aproximar do moribundo, ostentando ainda ao peito o raminho de flores oferecido pela cortesã, trazendo assim para junto da morte de seu pai os perfumes da festa e o cheiro do vinho.
- Divertias-te? - murmurou o velho ao deparar com ele.
Nesse instante a voz pura, suave da cantora que deliciava os convivas, acompanhada pelos acordes dum violino, fez esquecer os uivos do temporal ressoando no quarto fúnebre. D. Juan desejaria bem que não se tivesse feito ouvir ali tão crua afirmativa à pergunta do moribundo.
Este prosseguiu:
- Não te quero mal por isso, meu filho...
Tais palavras, repassadas de doçura, feriram D. Juan que, no íntimo não perdoou essa pungente bondade paternal:
- Que remorso, pai! - suspirou hipocritamente.
- Pobre Juanin - insistiu o moribundo com voz lúgubre. - Fui sempre tão indulgente para ti que não poderás desejar a minha morte.
- Oh! - exclamou D. Juan, se fosse possível restituir-lhe a vida, daria para isso uma parte da minha!
"Estas coisas podem sempre dizer-se", pensou discretamente. "Parece que estou a prometer o mundo à minha amante".
Mal tinha completado este pensamento o cão ladrou. Aquele ladrido cheio de perspicácia fez estremecer D. Juan. Afigurou-se-lhe ter sido compreendido pelo animal.
- Sabia muito bem, meu filho, que podia contar contigo - continuou Bartolomeu. Viverei pois, e ficarás satisfeito. Viverei, mas sem roubar um só dos dias que te pertencem.
"Já delira!", comentou para si o filho.
Depois acrescentou, em voz alta:
- Sim, querido pai, viverá pelo menos tanto como eu, porque a sua imagem nunca se apagará no meu coração.
- Não se trata dessa espécie de vida - replicou o velho, reunindo as poucas forças para se erguer um pouco pois sentia-se abalado por uma dessas suspeitas que só despertam sob o travesseiro dos agonizantes.
- Escuta, Juanin - prosseguiu, enfraquecido por aquele último esforço: desejo tanto morrer como tu privares-te de amantes, de vinho, de cavalos, de cães, enfim de dinheiro...
"Assim o creio", conjecturou ainda D. Juan, ajoelhando à cabeceira do leito e beijando uma das mãos daquele quase cadáver:
- Pai, querido pai - disse, temos de nos submeter à vontade de Deus.
- Deus, sou eu! - resmungou o velho.
- Não blasfeme! - suplicou o jovem, deparando no pai com uma expressão de ameaça. Tenha cuidado, porque recebeu já a extrema-unção, e eu nunca me resignaria vendo-o morrer em pecado!
- Queres ou não escutar-me?! - vociferou o agonizante, rangendo os maxilares.
D. Juan calou-se. Caiu no quarto um silêncio sinistro. Por entre os silvos surdos do granizo, lá fora os acordes do violino e o canto melodioso ouviam-se novamente, ténues como a luz dum dia que desponta. O ancião sorriu:
- Agradeço-te teres convidado cantoras e músicos. Há festa, mulheres jovens e belas, brancas e de cabelos negros, os melhores prazeres da vida... Dize-lhes que fiquem, porque eu vou renascer.
"É já o auge do delírio!", pensou o filho, quando Bartolomeu lhe disse de súbito:
- Descobri o meio de ressuscitar. Olha: Procura na gaveta da mesa; poderás abri-la carregando no botão que esta oculto pelo entalhe que figura um grifo.
- Pronto, meu pai.
- Bem. Tira de lá o frasquinho de Cristal.
- Está aqui...
- Gastei vinte anos... - ia o moribundo a contar, mas sentiu que o seu fim chegava e esforçou-se por acrescentar:
- Logo que eu tenha soltado o último suspiro, fricciona-me todo o corpo com esse líquido, e eu ressuscitarei...
- Há muito pouco - notou D. Juan.
Entretanto, Bartolomeu, se já não podia falar, tinha ainda a faculdade de ouvir e ver. As palavras do filho fizeram-lhe voltar a cabeça num movimento brusco. Ficou com o pescoço torcido como o duma estátua de mármore condenada pelo escultor a olhar eternamente de lado. As suas pupilas dilatadas tinham tomado uma imobilidade odiosa. Estava morto.
Expirara ao perder a sua última e única ilusão. Ao procurar a sua derradeira salvação no coração do filho, encontrara neste um túmulo mais profundo do que o preparado pelos homens para jazida dos seus mortos. Os cabelos eriçaram-se-lhe de pavor, só o seu olhar pareceu exprimir ainda alguma coisa. Era já como um pai que se erguia do sepulcro para suplicar vingança a Deus.
- Pronto! O homenzinho acabou... - cuidou D. Juan.
Na ânsia de observar o misterioso frasco à luz do candeeiro à semelhança de um apreciador que examina a sua garrafa no fim do repasto, olhava perplexamente para o pai e o frasco. A seu lado, o cão-de-água observava da mesma maneira, ora o frasco ora o dono morto.
O candeeiro projectava clarões movediços. O silêncio tornara-se mais solene.
O violino e a voz da cantora tinham emudecido. O jovem estremeceu, parecendo-lhe que o defunto se mexera. Intimidado pela fixidez acusadora dos seus olhos, foi cerrar-lhos como teria fechado uma persiana batida pela rajada em noite invernosa.
Conservou-se de pé, imóvel, perdido num caos de pensamentos. De súbito um ruído seco, lembrando o duma mola emperrada, cortou a mudez. Surpreendido D. Juan quase deixou cair o frasco. Inundou-o um suor mais frio do que aço de punhal. O galo de madeira pintada do relógio familiar surgiu e cantou três vezes. Era daqueles maquinismos engenhosos, de que se serviam os sábios da época para despertarem à hora fixada para as suas lucubrações. A aurora avermelhava já as janelas. D. Juan tinha passado dez horas a reflectir. O velho relógio era mais fiel do que ele ao cumprimento dos seus deveres para com Bartolomeu. Aquele mecanismo compunha-se de corda, alavanca e rodas dentadas, enquanto ele tinha o músculo peculiar aos homens, que se chama coração. Para não se arriscar a perder o precioso líquido, D. Juan voltou a guardá-lo, cepticamente, na gaveta da mesinha gótica. Nesse instante ouviu nas galerias do palácio um tumulto confuso.
Eram vozes indistintas, risos abafados, todo o rumor dum grupo alegre procurando conter-se. Finalmente, a porta abriu-se e o Príncipe, com os restantes convidados aparecerem com a desordem estonteada dos dançarinos surpreendidos pela claridade da manhã, quando o sol luta ainda com a pálida chama das velas. Vinham para dar ao jovem herdeiro as condolências da etiqueta.
- Terá o nosso D. Juan tomado a peito esta morte? - perguntou o Príncipe ao ouvido da Brambilla.
- Talvez - respondeu ela, porque o pai era um homem extremamente bondoso.
As meditações nocturnas de D. Juan tinham-lhe gravado no rosto uma tal expressão que o grupo se sentiu perplexo. Os homens permaneceram hirtos. As mulheres, com os lábios ressequidos pelo álcool, as faces maceradas pelos beijos, ajoelharam e rezaram. O órfão não pôde deixar de estremecer à vista das alegrias contidas, dos risos desfeitos, dos cantos sumidos, da juventude apagada, da beleza desvanecida, de tudo aquilo que personificava o melhor da vida perante a Morte. Porém naquela amável Itália do tempo, o Pecado e a Religião, conjugavam-se de tal maneira que se confundiam.
O Príncipe apertou afectuosamente a mão a D. Juan e todos os rostos esboçaram simultaneamente uma idêntica expressão, meio triste, meio indiferente. Depois toda esta fantasmagoria protocolar desapareceu, deixando mais vazio o aposento mortuário. Era bem a imagem da Vida.
Ao descer a escadaria, o Príncipe confiou a Rivabarela:
- Quem teria julgado assim o nosso D. Juan, um fanfarrão da impiedade?... Afinal, adorava o pai!
- Reparou no cão?... - indagou Brambilla.
- Aí temos o nosso amigo fabulosamente rico - sugeriu, suspirando, a Bianco Cavatolino.
- Que importa...? - desdenhou a orgulhosa Veronese, que destruíra, com mão nervosa a dourada caixinha de amêndoas.
- Não te importo...? - clamou o Duque. Pois com os seus escudos será tanto um príncipe como eu!
A princípio D. Juan, cedendo a mil pensamentos, hesitou entre vários partidos a tomar. Depois de ter avaliado os tesouros acumulados por seu pai, voltou, de noite, para o quarto fúnebre, a alma esmagada sob feroz egoísmo. Encontrou todos os serviçais ocupados em ordenar os paramentos do catafalco em que o falecido senhor seria exposto no dia seguinte, ao centro duma sumptuosa câmara ardente - espectáculo de grande curiosidade, que toda a Ferrara viria admirar.
A um sinal de D. Juan, os criados detiveram-se interditos e trémulos.
- Deixem-me só - ordenou com a voz alterada. Continuarão depois de eu sair.
Quando os passos do velho Mordomo, que foi o último a retirar-se, deixaram de se ouvir sobre as lajes, D. Juan fechou precipitadamente a porta e disse consigo:
- Experimentemos...
O corpo de Bartolomeu fora deitado sobre uma longa mesa. Para ocultarem o odioso espectáculo de um cadáver a que extrema decrepitude e magreza davam o aspecto de simples esqueleto, os embalsamadores tinham envolvido num lençol todo o corpo, excepto a cabeça. Esta espécie de múmia jazia no meio da dependência, com o sudário a desenhar-lhe vagamente as formar esguias e agudas. No rosto já apareciam largas manchas violáceas, que indicavam a necessidade de se apressar o embalsamamento. Apesar de escudado pelo seu cepticismo, D. Juan hesitou em desrolhar o frasquinho de cristal. Tremia tanto quando se aproximou da cabeça do defunto que se sentiu constrangido a aguardar um momento. Porém, este jovem, bem cedo corrompido completamente pelos costumes duma corte dissoluta, foi encorajado por uma ideia digna do famoso Duque de Albin, ao mesmo tempo que era aguilhoado pela curiosidade. Dir-se-ia que o próprio Diabo lhe segredava estas palavras, que lhe ecoavam no coração: "Humedece um dos olhos". Pegou num pano e, depois de o embeber àvaramente no precioso líquido, passou-o ao de leve sobre a pálpebra direita do cadáver. O olho abriu-se...
- Ah! - exclamou D. Juan, enclavinhando os dedos no frasco, tal como apertamos, em sonhos, a haste de que nos suspendemos num precipício.
Via aquele olho pleno de vida, como olho de criança na cabeça dum morto, a luz cintilando no seu humor líquido juvenil, apenas velada por belos cílios negros, trazendo à memória essas singulares claridades que o viajante avista nos campos desertos, em noites de Inverno. Aquele olho resplandecia, parecia querer precipitar-se para D. Juan, pensava, acusava, condenava, ameaçava, vociferava, mordia. Todas as paixões humanas se agitavam nele, as súplicas mais ternas, a cólera dos reis, o amor de uma donzela pedindo misericórdia aos seus algozes. Tinha, por fim, a mirada profunda que um homem lança aos outros do último degrau para o cadafalso. Havia tanta vivacidade naquele fragmento de vida que D. Juan recuou, apavorado. Passeou pelo aposento sem ousar fixar aquele olho, que ele revia no chão, nas tapeçarias, por toda a parte. Toda a dependência estava semeada de pontos luminosos, fulgurantes de vida, de inteligência. E todos esses pontos que eram outros tantos olhos, perseguiam, cercavam D. Juan.
"Será capaz de viver mil anos", calculou ele incontidamente, ao voltar junto do pai, levado por uma atracção diabólica a contemplar aquela centelha de luz vivente.
De súbito a pálpebra fechou-se e voltou a abrir-se ágil, como a de uma mulher que concede. Se uma voz lhe tivesse dito: "Sim", D. Juan não se sentiria mais aterrado.
- Que fazer? - pensou.
Ainda teve coragem para tentar cerrar aquela pálpebra, mas os seus esforços foram inúteis.
- Será um parricídio esmagá-lo? - perguntou-se diante do olho.
- Sim - fez-lhe este compreender com uma piscadela irónica.
D. Juan debruçou-se para o esmagar. Uma grossa lágrima rolou pelas faces encovadas do cadáver e caiu sobre a mão do filho.
A lágrima queimou-o. Sentou-se, fatigado por uma luta que lhe lembrava a de Jacob com o anjo.
Por fim levantou-se, murmurando:
- Contanto que não haja sangue...
Depois, procurando a todo o transe não se acobardar, esmagou o olho, servindo-se de um pano e voltando o rosto. Um gemido inesperado, angustioso, surpreendeu-o. Era o cão que morria uivando.
- Conheceria o segredo do velho? - indagou-se, deitando uma olhadela ao fiel animal.
D. Juan Belvidero passou depois aos olhos do mundo por um filho piedoso. Mandou construir um monumento de mármore do mais branco sobre o túmulo de seu pai, confiando as figuras que o ornariam aos mais célebres artistas da época. Só se sentiu perfeitamente tranquilo no dia em que a estátua paterna, ajoelhada aos pés da Religião, impôs o seu peso enorme sobre a sepultura em que enterrou o único remorso que ainda poderia sobressaltar-lhe o coração nos momentos de maior lassidão.
Depois de feito o inventário das riquezas acumuladas pelo velho orientalista, tornou-se avarento. Acaso não tinha ele de garantir duas vidas com o seu dinheiro? O olhar tornou-se-lhe perscrutador, alongando-o pela sociedade humana e melhor compreendendo o mundo por avistá-lo através de um túmulo. Analisou os homens e os seus actos para não se importar, de uma vez para sempre, com o passado representado pela História, o presente, encarnado pelas leis e o futuro, desvendado pelas religiões. Tomou o espírito e a matéria, misturou-os num cadinho e, nada aí encontrando que valesse a pena, tornou-se, autenticamente, D. Juan.
No segredo das ilusões humanas, jovem e belo, lançou-se para a vida, desprezando o mundo para melhor dele se apoderar. Assim, a sua felicidade não poderia ser a ventura burguesa que se contenta com o cozido trivial, uma confortante botija de água quente na cama, no inverno, um candeeiro para a noite e umas pantufas novas em cada trimestre. Apoderou-se da existência como um símio que apanha uma noz e, sem perda de tempo, trata espertamente de desembaraçar o fruto da casca inútil, para lhe saborear a polpa. A poesia e os sublimes arroubos das paixões deixaram de o interessar. Procurou evitar, o erro de certos homens poderosos que, supondo que as almas ingénuas crêem nas almas fortes, das ideias efémeras. Poderia bem caminhar, como eles, com os pés sobre a terra e a cabeça a tocar os céus: contudo, preferia refestelar-se e devorar de beijos os lábios, duma mulher meiga, fresca e perfumada, já que, semelhante à Morte, extinguindo impudentemente tudo por onde passava, exigindo só o amor que possuía, um amor à oriental, que lhe proporcionasse apenas amores longos e fáceis.
Amando na Mulher só a fêmea, adoptou a ironia como a atitude própria da sua alma. Quando nos seus braços as amantes subiam ao paraíso, perdidas num êxtase de embriaguez, acompanhava-as, meio grave, meio expansivo, tão sincero como um estudante alemão. Dizia sempre - Eu, enquanto a louca apaixonada dizia - Nós. - Sabia admiravelmente deixar-se cativar por uma mulher. Tinha sempre o domínio suficiente para a fazer acreditar que tremia como o estudantinho do liceu que segreda à primeira rapariga com quem volteia num baile: "Gosta de dançar?". Mas não sabia menos utilizar uma espada dura e abater comendadores. Ocultava-se zombaria na sua simplicidade e riso nas suas lágrimas, chorando tão bem como a esposa que diz ao marido: "Dá-me uma carruagem ou morrerei de tísica!". Para o negociante o mundo é um acumulado de mercadorias e um bom montante de notas de Banco; para a maior parte dos jovens é uma mulher; para algumas mulheres, um homem; para certos espíritos, um salão, um meio de intrigas, um bairro ou uma cidade inteira. Para D. Juan o mundo era ele! Modelo de graça e de brandura, espírito sedutor, soube sempre levar a água ao seu moinho. Simulando deixar-se conduzir, nunca ia além do limite onde queria ser levado. Quanto mais observava mais ia duvidando. Ao analisar os homens, descobriu que, muitas vezes, a coragem não passava de temeridade, e a prudência, de cobardia; a delicadeza era patetice e a generosidade, astúcia; a justiça, um crime, e a probidade, uma convenção. Descobriu, ainda, que, por um singular destino, as pessoas verdadeiramente honestas, delicadas, justas, prudentes e corajosas não mereciam a menor consideração social.
- Que cruel ironia! - dizia de si para consigo. Não, é certamente, obra de Deus.
Então, renunciando a um mundo melhor, nunca mais se descobriu ao ouvir pronunciar nomes sagrados e considerou as imagens das igrejas como simples obras de arte. Assim, conhecendo o mecanismo das sociedades humanas, procurava não ferir demasiado os preconceitos, por não se sentir tão forte como os carrascos, mas iludia as leis sociais com subtileza e espírito. Foi a encarnação de D. Juan, de Molière; do Fausto, de Goethe; do Manfred, de Byron e do Melmoth, de Maturin. Grandes figuras criadas pelos maiores Génios europeus, cantadas em acordes de Mozart e, talvez, um dia, em árias de Rossini. Entes terríveis, que o príncipe do Mal eterniza e de que se encontram alguns exemplares através dos séculos, quer quando tais personagens entram em negociações com os homens, encarnadas em Mirabeau, quer se contentem em agir sobrepetíciamente, como Bonaparte ou em abraçar o mundo numa ironia, como Rabelais. Mas o Génio, ainda mais profundo, de D. Juan Belvidero, resumiu, com antecipação, todas essas figuras criadas pela genialidade. A sua foi uma perpétua zombaria, em que envolveu os homens, as coisas, as instituições e as ideias.
Tendo conversado em boa familiaridade, durante meia hora, com o papa Júlio II sobre a Eternidade, ao concluir disse-lhe, sorrindo:
- Se é em absoluto necessário escolher, prefiro crer em Deus a acreditar no diabo; o poder, aliado à bondade, pode proporcionar-nos melhor refúgio do que aliado à potência do Mal.
- Sim concordou o Pontífice, mas o Senhor quer que façamos penitência neste mundo...
- Pensais então sempre nas vossas indulgências? - tornou Belvidero. Pois bem, eu tenho reservada, para me arrepender da primeira vida, uma outra completa existência...
- Ah! se compreendes assim a velhice - insistiu Júlio II - arrisca-te a ser canonizado...
D. João sorriu; a terminar:
- Depois da vossa elevação ao Papado tudo é possível.
E foram ver os operários ocupados na construção da imensa basílica consagrada a São Pedro.
- O Apóstolo genial que constituiu o nosso duplo poder - acrescentou o Papa Belvidero, merece este monumento. Mas, por vezes, durante a noite, penso que um novo dilúvio apagará tudo isto e será forçoso recomeçar.
D. Juan e o Pontífice riram, compreendendo-se. Um tolo teria ido, no dia seguinte, divertir-se com Júlio II em casa de Rafael ou na deliciosa Vila Madama, mas Belvidero foi vê-lo oficiar pontificalmente, para se convencer das suas dúvidas. Num banquete, o Rovére teria podido desmentir-se e comentar o Apocalipse.
Mas esta lenda não foi criada para fornecer elementos aqueles que desejem escrever memórias sobre a biografia de D. Juan. Destina-se a provar às pessoas honestas que Belvidero não morreu no seu duelo com uma figura de pedra, como querem fazer-nos acreditar alguns biógrafos.
Quando atingiu os sessenta anos, Belvidero fixou-se em Espanha. Aí, mais avançado em idade, desposou uma jovem e encantadora andaluza. Por cálculo, não foi bom esposo nem bom pai. Tinha concluído que nunca seremos tão ternamente amados como pelas mulheres a quem damos menos atenções. Dona Elvira, santamente criada por uma velha tia, nos confins da Andaluzia, a algumas léguas de San-Lucar, era toda dedicação e graça. D. Juan pressentiu que seria mulher para lutar durante muito tempo contra uma paixão antes de lhe ceder. Assim esperou poder conservá-la virtuosa até à sua morte. Foi um divertimento arriscado, uma como que partida de xadrez que reservou para jogar quando já fosse velho. Decidiu, pois, subordinar todos os seus actos ao êxito da comédia que deveria ter o desfecho no seu leito de morte. Assim a sua fortuna permaneceu enterrada no palácio de Ferrare, onde ia raramente. O resto dos seus bens empregou-os em viajar, no prolongamento da sua vida - artimanha esta que deveria ter ocorrido também a seu pai. Porém, tal astúcia não foi para ele de grande proveito. O moço Filipe Belvidero, seu filho, saiu-lhe um espanhol tão conscenciosamente religioso quanto o pai era ímpio. Isto, talvez, em obediência ao provérbio: Pai avarento, filho pródigo.
O abade de San-Lucar foi escolhido para director espiritual da Duquesa de Belvidero e de Filipe. Era este eclesiástico um santo homem, de admirável estatura, bem proporcionado, belos olhos e rosto à Tibério, fatigado pelos jejuns, empalidecido pelas macerações e dia a dia tentado, como são os solitários. O já então idoso D. Juan esperava talvez poder ainda matar um anacoreta antes de terminar o primeiro prazo da sua vida. Mas, ou porque o abade fosse de temperamento tão forte como ele, ou por que Dona Elvira possuísse menos ardência ou mais prudência do que a Espanha habitualmente concede às mulheres, Belvidero viu-se constrangido a passar os seus dias calmo como um velho reitor de aldeia, sem escândalos caseiros. Por vezes sentia prazer em apanhar a mulher ou o filho em falta para com os seus deveres religiosos e ordenava-lhes imperiosamente que cumprissem as suas obrigações de fiéis da Santa Sé Apostólica. Finalmente, raro era tão feliz como quando ouvia o afável cura de San-Lucar, Dona Elvira e Filipe entretidos em discutir um caso de consciência. Entretanto, apesar dos cuidados extremos que dedicava à sua pessoa, os dias da sua decrepitude chegaram; e, com os achaques da idade, vieram as imprecações da impotência, tanto mais desesperadora quanto mais vivas eram as recordações da sua ardente juventude e de sua voluptuosa maturidade. Aquele homem para quem o maior divertimento era obrigar os outros a acreditarem nas leis e nos princípios de que desdenhava, adormecia à noite atormentado por um talvez... Modelo de bom-tom, aquele duque, ousado numa orgia, soberbo mas cortês, espirituoso junto das mulheres, a quem vergava pelo coração como um campónio verga uma haste de vime, enfim aquele homem de Génio, tinha um defluxo renitente, uma ciática arreliadora, uma gota feroz. Via os dentes irem-se-lhe como, ao fim duma festa nocturna, as mulheres mais brancas e melhor vestidas se retiraram, uma a uma, abandonando a sala deserta e desguarnecida. Depois, as suas mãos afoitas tremeram, as pernas esbeltas vacilaram e, uma noite, a apoplexia apertou-lhe a garganta com as suas mãos aduncas e gélidas. Tornou-se, desde então, quezilento, áspero. Censurava a dedicação do filho e da mulher, atribuindo os seus cuidados enternecidos, desvelados, ao facto de ele ter empregado toda a sua fortuna em rendimento vitalício. Elvira e Filipe choravam lágrimas amargas e redobravam de carícias para com o maldoso velho, que, em voz enfraquecida, que procurava tornar afectuosa, dizia:
- Meus amigos, minha querida esposa, perdoam-me, não é verdade? Atormento-vos um pouco. Ah!, meu Deus! porque te serves de mim para pôr à prova estas santas criaturas? Eu, que devia ser a sua alegria, não passo do seu martírio...
Assim os acorrentava à cabeceira do seu leito, fazendo-lhes esquecer meses de rezinga e de crueldade, naquela hora em que lhes desvendava os inesperados tesouros da sua espirituosidade e da sua falsa ternura. Este seu modo paternal resultou infinitamente melhor do que o outro usado por seu pai. Por fim o seu estado agravou-se de tal maneira que, para o meterem na cama, era necessária uma manobra tal como a de meter uma embarcação num canal perigoso. E chegou o dia da morte. Tão brilhante e céptica personagem, em quem só a inteligência parecia escapar à mais terrível de todas as destruições, viu-se entre um médico e um confessor, as suas maiores antipatias. Mas mostrou-se jovial. Para ele não existia qualquer luz cintilando para além da cortina que ocultava o futuro. Sobre essa tela, opaca para os outros e diáfana para ele, as belas, arrebatadoras delícias da mocidade moviam-se como sombras.
Foi numa bela noite de verão que D. Juan sentiu que a Morte se aproximava. O céu de Espanha tinha uma admirável pureza, as laranjeiras perfumavam o espaço; as estrelas irradiavam uma viva claridade. A natureza parecia oferecer-lhe provas irrefutáveis da sua próxima ressurreição. Um filho carinhoso, dedicado, contemplava-o com amor e respeito.
Cerca das onze horas desejou ficar só com tão cândida criatura:
- Filipe - disse-lhe com voz de um afecto e uma ternura tais que o moço estremeceu, chorou de felicidade ao ouvir o pai pronunciar assim o seu nome. - Escuta, meu filho - continuou o moribundo. Sou um grande pecador. Por isto toda a vida pensei na Morte. Outrora fui amigo do grande papa Júlio II. Esse ilustre pontífice receou que os meus excessos me levassem a cometer qualquer pecado mortal entre o meu último suspiro e o momento em que me ministrassem os santos óleos. Para que assim não sucedesse fez-me presente de um frasco contendo água santa que, noutros tempos, jorrava dos rochedos do deserto. Guardei segredo sobre esta concessão da Igreja mas fui autorizado pelo dito Papa a, in extremis, revelar tudo a meu filho. Encontrarás esse frasco na gaveta da mesa gótica, que nunca deixei afastar da minha cabeceira... O frasquinho também te poderá ser útil, querido Filipe. Jura-me, pois, pela tua salvação, que executarás pontualmente as minhas determinações!...
Filipe fitou o pai. D. Juan conhecia bem a expressão dos sentimentos humanos para não morrer em paz sem reconhecer fidelidade nos olhos do filho, para mais lembrando-se de que seu pai morrera de desespero soletrando-lhe nos olhos as intenções:
- Merecias melhor paternidade, Filipe - prosseguiu D. Juan. Assim ouso confessar-te, meu filho, que, no momento em que o abade de San-Lucar me administrava o Sagrado Viático, eu pensava na eterna incompatibilidade de dois poderes tão fortes como o de Deus e o Diabo...
- Oh!, meu pai!
- E dizia comigo: quando Satã fizer a paz com a divina omnipotência, deverá, sob pena de ser um grande réprobo, estipular o perdão dos seus sequazes. Este pensamento não me largou mais. Porque eu irei para o Inferno, meu filho, se não cumprires à risca os meus últimos desejos...
- Oh!, diga-mos sem demora, meu pai!
- Pois bem. Logo que eu tenha expirado, talvez daqui a poucos minutos, pegarás no meu corpo ainda quente e estendê-lo-ás sobre uma mesa, no meio deste quarto. Depois apagarás o candeeiro. A claridade das estrelas devera bastar-te. Então despes-me e, enquanto fores rezando padre-nossos e ave-marias, elevando a tua alma a Deus, terás o cuidado de humedecer, com essa água miraculosa, os meus olhos, os lábios, toda a cabeça, em primeiro lugar e, em seguida, sucessivamente, os membros e o tronco. Entretanto, filho, toma bem nota de que o poder de Deus é tão grande que não deverás estranhar coisa alguma!
Nesta altura, D. Juan, que sentia a morte chegar, acrescentou com voz temível:
- Segura bem o frasco!
Depois expirou suavemente nos braços do filho, que vertia copiosas lágrimas naquelas faces irónicas e lívidas.
Era cerca de meia-noite quando D. Filipe Belvidero colocou o cadáver sobre a mesa. Beijou-lhe a fronte e os cabelos encanecidos e apagou o candeeiro. A claridade suave do luar que iluminava o campo com revérberos caprichosos mal permitiu ao piedoso mancebo distinguir o corpo do pai, como uma alongada mancha branca no seio da sombra. Embebeu um pano no líquido e, recolhido em oração, ungiu a cabeça do querido defunto, em profundo silêncio. Ouvia indistintos rumores, mas atribuí-os ao cicio da brisa na copa das árvores. Mal acabava de molhar o braço direito do morto quando lhe pareceu que outro braço veio apertar-lhe tenazmente o pescoço. Sentindo-se estrangulado, soltou um grito dilacerante e deixou cair o frasco, que se quebrou. Os criados acorreram trazendo luzes. O grito tinha-os aterrado como se a trombeta do Juízo Final tivesse abalado os ecos do mundo. Num momento o quarto encheu-se de gente. A criadagem, trémula, encontrou D. Filipe desmaiado mas seguro pelo braço forte de seu pai, que o estrangulava. Depois - caso sobrenatural!- os circunstantes depararam com a cabeça de D. Juan tão jovem e bela como a de Antinos; uma cabeça de cabelos negros, olhos brilhantes, boca vermelha, e que se agitava horrivelmente sem poder mover o corpo esquelético a que pertencia.
Um velho serviçal gritou:
- Milagre!
E todos aqueles espanhóis repetiram, em uníssono:
- Milagre!
Suficientemente religiosa para não se fiar nos mistérios da Magia, Dona Elvira mandou chamar o abade de San-Lucar. O pároco assim que pôde constatar o milagre, pensou logo aproveitar-se do extraordinário facto, como homem esperto e abade que só desejava aumentar os rendimentos da freguesia. Declarando imediatamente que D. Juan seria canonizado, infalivelmente, marcou a cerimónia para a epifania para o seu convento, que daí em diante - declarou - San-Juan de Lucar. A estas palavras, a cara do defunto teve um esgar irónico.
A inclinação dos espanhóis por este género de solenidades é tão conhecida que não será difícil conceber a pompa das cerimónias religiosas em que o cura de San-Lucar celebrou a trasladação do bem-aventurado D. Juan Belvidero para a sua igreja.
Alguns dias depois da morte daquele ilustre senhor, o milagre da sua ressurreição incompleta foi tão largamente comentado, de povoação em povoação, num raio de cinquenta léguas à volta de San-Lucar, que, num grande espectáculo de peregrinação, os curiosos acorreram de todos os lados, atraídos pela perspectiva de um Te Deum solenemente cantado à luz dos círios. A antiga mesquita, agora igreja do convento de San-Lucar, maravilhoso edifício construído pelos mouros e cujas abóbadas escutavam, havia séculos, o nome de Jesus em substituição do de Allah, não pôde conter a multidão que vinha assistir ao acto. Apertados como formigas num formigueiro, os fidalgos, com suas capas de veludo e belas espadas à cinta, conservavam-se junto dos pilares, quase sem espaço para dobrar o joelho que só ali se dignavam dobrar. Encantadoras camponesas com as vasquinhas a moldarem-lhe as formas airosas, davam o braço a velhos encanecidos. Moços, de olhos ardentes, eram vistos ao lado de velhas arrebicadas. Avistavam-se ainda, entre a multidão, parzinhos jovens radiantes de alegria, namoradas curiosas trazidas pelos bem-amados, algumas casadinhas de fresco, e, finalmente, crianças receosas pela mão das mães. Toda aquela gente estabelecia flagrantes contrastes, carregada de flores, colorida, despertando um surdo rumor na quietação da noite.
As grandes portas da igreja descerraram-se. Os que haviam chegado tarde de mais ficaram no adro, assistindo de longe, pelos portais escancarados, a um espectáculo de que as reduzidas cenas das óperas modernas nunca poderão dar uma pálida ideia. Devotos e pecadores empenhados em ganhar as boas graças dum novo santo, acenderam em seu louvor milhares de círios na vasta igreja, flâmulas interesseiras que emprestavam aspectos de magia ao majestoso templo. As escuras arcarias, as colunas e os seus capitéis, as capelas profundas, resplandecendo de ouro e prata, as galerias, os rendilhados mouriscos, os mais subtis pormenores daquela arquitectura delicada, desenhavam-se num exuberante clarão, como as figuras caprichosas dos grandes brasidos ardentes. Era um mar de luzes, dominado ao fundo pelo coro dourado sobranceiro ao altar-mor, rivalizando, em esplendor, com o Sol nascente. Com efeito, o brilho dos áureos lampadários, dos candelabros argênteos, dos panejamentos, das imagens e dos "ex-voto" parecia esmorecer ante o relicário que continha o corpo de D Juan. Os restos mortais do ímpio resplandeciam de pedrarias, flores, ouro, plumas brancas como asas de anjo e substituíam, sobre o altar, um painel de Cristo. À sua volta numerosas flamas erguiam no ar clarões rutilantes.
O bom abade de San-Lucar, com paramentos pontificais, a mitra ornada de pedras preciosas, de sobrepeliz e báculo de ouro, sentava-se, como monarca, num cadeirão de luxo imperial, no meio do seu cabido, composto de impassíveis anciãos encanecidos, vestidos de alvas e que o rodeavam, como as santas figuras que os pintores agrupam, nos seus painéis, à volta do Eterno.
O grande chantre e os dignitários do capítulo, ostentando as vistosas insígnias das suas prerrogativas eclesiásticas, iam e vinham por entre nuvens de incenso. Quando chegou a hora da solene consagração, os sinos tangeram e todos dirigiram ao Altíssimo a primeira hossana de louvor, que iniciou o Te-Deum. Clamor sublime! Eram vozes puras, cristalinas, de mulheres em êxtase, confundidas com vozes masculinas, fortes e graves, num coro tão poderoso que o órgão não conseguia dominá-lo com o vibrar dos seus largos acordes. Só as notas agudas dos meninos do Coro e as dos barítonos suscitavam a ideia da infância e da força naquele fantástico concerto de vozes humanas unidas num sentimento de amor:
- Te Deum laudamus!
Do âmago do vasto templo enxameado pela multidão ajoelhada, aquele coro cresceu como uma claridade que cintilasse repentinamente na noite e o silêncio como que foi cortado por um ribombar. As vozes ascendiam com as nuvens do incenso que toldavam as majestáticas maravilhas arquitectónicas em diáfanos véus azulados. Tudo era magnificência, perfume luz e polifonia.
No momento em que o grave hino de gratidão e de amor atingiu o altar-mor, D. Juan, suficientemente cortês para nada levar a mal, esboçou um lívido sorriso e envaideceu-se no interior do relicário.
Porém o Diabo, lembrando-lhe o risco de passar assim por um homem vulgar, por um santo, um bonifrates ou um Pantaleão, perturbou a grande polifonia de amor com um bramido, a que se juntaram as mil vozes do Inferno. A Terra abençoava, e o Céu maldizia. O templo estremeceu sobre os seus remotos alicerces.
- Te Deus laudamus ! - clamava a multidão.
- Vão para todos os diabos, estúpidos animais que sois! Deus! Deus! Que sois vós com o vosso Deus encanecido?
E uma torrente de imprecações correu como caudal de lavas ardentes, arremessadas por uma erupção do Vesúvio.
- Deus Sabaoth!... Sabaoth! - bramiam os crentes
- Insultais a majestade do Inferno! - tornou D. Juan, rangendo os maxilares.
Momentos depois o seu braço ressuscitado, saindo do relicário, ameaçou a turba com um gesto de desespero e de ironia.
- O santo abençoa-nos! - gritaram as velhas, as crianças e as noivas, crêdulamente.
Desta maneira somos muitas vezes iludidos nas nossas crenças. Mas o homem superior ri-se dos que o louvam e louva, muitas vezes, aqueles de quem se ri no seu íntimo.
No momento em que o pároco, prosternado ante o altar, entoava: Sancte Johannes, ora pro nobis..." ouviu distintamente a palavra - imbecil!
- Que se passa ali? - exclamou o coadjutor ao ver o relicário mover-se.
O Santo antes parece o Diabo - retorquiu o prior.
Nesse instante a cabeça vivente de D. Juan separou-se violentamente do seu corpo inerte e foi cair sobre a cabeça do esbelto e jovem oficiante:
- Lembra-te de D. Elvira! - gritou aquela cabeça mordendo o abade.
Este deixou escapar um grito de dor, que interrompeu a solene cerimónia. Todos os padres acudiram e rodearam o seu superior hierárquico.
- Pateta! Dize agora que existe um Deus! - rugiu ainda a voz infernal, quando o abade, atingido no crânio pela mordedura, expirava.
Paris, Outubro de 1830
Honoré de Balzac
Num sumptuoso palácio de Ferrare, certa noite de inverno, D. Juan Belvidero recebia festivamente um príncipe da casa de Este. Nessa época uma tal recepção constituía espectáculo maravilhoso que só os tesouros reais ou o fausto dum grande senhor poderiam proporcionar.
Sentados à volta de rica mesa iluminada por velas perfumadas, sete mulheres alegres trocavam frases ligeiras, num ambiente de admiráveis obras primas de decoração, com os mármores brancos sobressaindo de paredes de estuque vermelho, a contrastarem com preciosas tapeçarias turcas. Vestidas de cetins e resplandecendo ouro e pedrarias que fulguravam menos que os seus olhos, todas falavam de paixões intensas e diversas como os seus tipos de beleza. Só não diferiam nas palavras nem nas ideias, a que o ar, um olhar, certos gestos prestavam um comentário libertino, sensual, melancólico ou zombeteiro.
Uma afirmava: "Os meus encantos sabem aquecer o coração gelado dos homens já idosos".
E outra: "Gosto de estar recostada em coxins, para pensar, com embriaguez, nos meus adoradores".
Uma terceira, noviça nesta espécie de banquetes, sentia-se inclinada a corar:
"No fundo do meu coração, dizia, sinto um remorso. Sou católica e receio o Inferno, mas amo tanto, oh! tanto!, que poderei sacrificar pelo meu amor a Eternidade!".
A quarta, esvaziando uma taça de vinho de Chio, exclamava: "Viva a alegria! Eu encarno uma existência nova em cada dia que passa. Esquecida do passado, ébria ainda dos meus sucessos quotidianos, todas as noites esgoto uma vida de felicidade, trasbordante de amor".
Aquela que estava sentada junto de Belvidero fixava-o com olhar ardente. Conservava-se silenciosa e pensava: "Se o meu amante me abandonasse, nem por isso me entregaria a excessos para o matar!" Logo sorriu, mas a sua mão convulsa destruía uma caixa de amêndoas, em ouro, maravilhosamente cinzelada.
- Quando será Grão-Duque? perguntou a sexta mulher ao Príncipe, com expressão de alegria cruel nos lábios e um brilho de bacante nos olhos.
- E tu, dize-me, quando morrerá o teu pai ? - indagou a sétima, lançando o seu raminho de flores a Belvidero, com um delicioso gesto traquinas. Era uma rapariga de ar inocente, habituada a divertir-se com as coisas sagradas.
- Ah! não me falem disso! - exclamou o jovem e belo D. Juan. Há neste mundo um único pai eterno, e a desgraça quer que seja o meu!
As sete cortesãs de Ferrare, os amigos de Belvidero e o próprio Príncipe soltaram uma exclamação de horror.
Duzentos anos depois, no tempo de Luís XV, as pessoas de bom tom ter-se-iam rido daquele dito de espírito. Mas, talvez que as almas conservassem ainda, no começo dum festim, a sua lucidez. Apesar do clarão das velas, do fremir das paixões, do aspecto dos vasos de ouro e prata, dos vapores do álcool e da presença de encantadoras mulheres, subsistiria ainda no fundo dos corações um pouco do respeito pelos sentimentos humanos e as coisas divinas, que luta até a orgia o afogar nas últimas gotas dum vinho espumoso. No entanto, já as flores se estiolavam, os olhos desumanizavam-se e a embriaguez chegava, segundo a expressão de Rabelais, à ponta dos pés. E neste momento de silêncio abriu-se uma porta e, como no banquete de Baltazar, o Diabo surgiu sob a aparência de velho criado, de cabeça encanecida, o andar vacilante e as sobrancelhas contraídas. Fez a sua entrada com ar triste e com o olhar murchou as grinaldas, amorteceu o brilho das pratas douradas, o viço das pirâmides de frutos, o esplendor da festa, o vermelho dos rostos e a cor dos coxins amarfanhados pelos níveos braços das mulheres; lançou, enfim, a tristeza no estonteamento, proferindo em voz cava estas palavras sombrias:
- Senhor, vosso pai está a morrer.
D. Juan ergueu-se lançando aos seus convidados um gesto que poderia traduzir-se por: "Desculpem-me, isto não sucede todos os dias".
A morte dum pai não surpreende os jovens entre os esplendores da vida ou as loucas expansões dum festim. É tão brusca nos seus caprichos como uma bacante nos seus desdéns, embora, mais fiel do que estas, nunca iluda ninguém.
No momento em que D. Juan fechou a porta da sala do banquete e caminhou por uma extensa galeria, tão álgida como escura esforçou-se por tomar uma atitude hipócrita porque, pensando na sua dignidade de filho, tinha posto de lado a alegria juntamente com o guardanapo. A noite estava lôbrega. O discreto serviçal que conduzia D. Juan ao aposento paterno iluminava mal o seu amo, de maneira que a Morte, ajudada pelo frio, o silêncio e a obscuridade pôde suscitar na sua alma, talvez por uma reacção da embriaguez, algumas reflexões graves. Assim interrogou o seu passado e ficou cabisbaixo como um acusado caminhando para o tribunal.
Bartolomeu Belvidero, pai de D. Juan, era um nonagenário que passara a maior parte da vida em grandes transacções comerciais. Tendo percorrido as mais frequentes vezes as regiões enfeitiçadas do Oriente, adquirira avultadas riquezas e, segundo dizia, conhecimentos mais preciosos que o ouro e os diamantes, a que já então nenhuma importância ligava. "Prefiro um dente a um rubi e o poder ao saber", declarava sorrindo. Este excelente pai gostava de ouvir D. Juan contar-lhe as estúrdias da juventude e dizia, com ar chocarreiro: "Meu querido filho, faz todas as asneiras que te possam divertir". Devia ser o único velho que sentia prazer diante dum jovem, pois iludia assim a sua velhice com a contemplação de uma vida tão radiosa como era a de D. Juan.
Aos sessenta anos Belvidero apaixonara-se por um anjo de beleza e de inocência. O filho fora o único fruto desse tardio e breve amor. Havia quinze anos que o velho chorava a morte da sua querida Joana. A numerosa criadagem e o filho atribuíam a esta dor os hábitos singulares que o ancião contraíra. Refugiado na álea menos confortável do palácio, de onde raramente saía, o próprio D. Juan não entrava ali sem a sua prévia autorização. Quando este estranho anacoreta passeava pelo palácio ou nas ruas de Ferrare, parecia procurar qualquer coisa que lhe faltava, caminhando abstracto, hesitante, meditabundo, como que em luta com uma ideia ou uma recordação. Enquanto o filho dava festas e o palácio ressoava com as expansões da sua alegria, enquanto os cavalos escarvavam nas cocheiras ou os pagens discutiam jogando os dados pela escadas, Bartolomeu Belvidero comia diariamente sete onças de pão e só bebia água. Se consentia em servir-se de um prato de galinha era para dar os ossos a um cão-de-água preto, seu fiel companheiro. Não o incomodava o ruído. Quando doente, se o som duma corneta ou o latido dos cães o estremunhavam, contentava-se em dizer: "Ah!, é D. Juan que volta!"
Jamais existiu um pai tão compreensivo e indulgente. Por isso o jovem Belvidero, habituado a tratá-lo sem cerimónia, tinha todos os defeitos das pessoas amimadas, vivendo com seu pai como uma cortesã caprichosa com amante velho, conseguindo o perdão de qualquer impertinência com um sorriso, vendendo o seu bom humor e deixando-se amar. Reconstituindo no pensamento o quadro dos seus anos de mocidade, D. Juan compreendeu que lhe seria difícil descobrir uma razão de queixa do autor dos seus dias.
Agora, ao atravessar a galeria que o levava ao quarto de Bartolomeu moribundo, sentiu despertar um remorso no fundo do coração e inclinava-se a perdoar-lhe ter vivido tanto tempo. Nutria sentimentos de piedade filial, como um ladrão que preza a honestidade ante a possível posse de um milhão bem roubado. Em breve entrou nas desconfortáveis e enormes salas que compunham os aposentos do pai. Depois de experimentar os efeitos de uma atmosfera húmida, em que o cheiro a mofo se exalava das velhas tapeçarias e dos armários cobertos de pó, encontrou-se no quarto do velho, diante do seu leito nauseabundo, junto da lareira apagada. O candeeiro disposto sobre a mesa gótica projectava, a intervalos desiguais, manchas de luz mais ou menos intensas sobre o leito e mostrava o rosto do ancião sob aspectos que variavam. O frio entrava pelas frinchas das janelas mal fechadas e a neve, fustigando as vidraças, produzia um ruído surdo. Esta cena contrastava tão chocantemente com a que D. Juan acabava de abandonar, que ele não pôde deixar de estremecer. Percorreu-o um arrepio quando, ao aproximar-se da cama, um clarão do candeeiro provocado por uma lufada do vento, iluminou a cabeça do velho. Tinha as feições descompostas e a pele, colada aos ossos, apresentava tons esverdeados, que a brancura da almofada tornava ainda mais horríveis. Contraída pela dor, a boca entreaberta e desdentada deixava escapar uns gemidos lúgubres, que pareciam prolongados pelos uivos da tempestade. Não obstante estes sinais de destruição, dimanava daquela cabeça uma força sem limites. Dir-se-ia um espírito superior em luta com a Morte. Os olhos encovados pela enfermidade conservavam uma fixidez singular. Parecia que Bartolomeu procurava abater com o seu olhar um inimigo postado junto do leito. A sua mirada, fixa e gélida, tornava-se tanto mais terrível porquanto a cabeça se mantinha imóvel como os crânios lívidos que se vêem nas mesas de anatomia. O corpo, desenhado por inteiro pela cobertura da cama, denunciava a mesma fixidez nos membros. Tudo morrera nele menos os olhos. O ralo que se escapa da sua boca tinha qualquer coisa de mecânico.
D. Juan procurou vencer um retraimento para se aproximar do moribundo, ostentando ainda ao peito o raminho de flores oferecido pela cortesã, trazendo assim para junto da morte de seu pai os perfumes da festa e o cheiro do vinho.
- Divertias-te? - murmurou o velho ao deparar com ele.
Nesse instante a voz pura, suave da cantora que deliciava os convivas, acompanhada pelos acordes dum violino, fez esquecer os uivos do temporal ressoando no quarto fúnebre. D. Juan desejaria bem que não se tivesse feito ouvir ali tão crua afirmativa à pergunta do moribundo.
Este prosseguiu:
- Não te quero mal por isso, meu filho...
Tais palavras, repassadas de doçura, feriram D. Juan que, no íntimo não perdoou essa pungente bondade paternal:
- Que remorso, pai! - suspirou hipocritamente.
- Pobre Juanin - insistiu o moribundo com voz lúgubre. - Fui sempre tão indulgente para ti que não poderás desejar a minha morte.
- Oh! - exclamou D. Juan, se fosse possível restituir-lhe a vida, daria para isso uma parte da minha!
"Estas coisas podem sempre dizer-se", pensou discretamente. "Parece que estou a prometer o mundo à minha amante".
Mal tinha completado este pensamento o cão ladrou. Aquele ladrido cheio de perspicácia fez estremecer D. Juan. Afigurou-se-lhe ter sido compreendido pelo animal.
- Sabia muito bem, meu filho, que podia contar contigo - continuou Bartolomeu. Viverei pois, e ficarás satisfeito. Viverei, mas sem roubar um só dos dias que te pertencem.
"Já delira!", comentou para si o filho.
Depois acrescentou, em voz alta:
- Sim, querido pai, viverá pelo menos tanto como eu, porque a sua imagem nunca se apagará no meu coração.
- Não se trata dessa espécie de vida - replicou o velho, reunindo as poucas forças para se erguer um pouco pois sentia-se abalado por uma dessas suspeitas que só despertam sob o travesseiro dos agonizantes.
- Escuta, Juanin - prosseguiu, enfraquecido por aquele último esforço: desejo tanto morrer como tu privares-te de amantes, de vinho, de cavalos, de cães, enfim de dinheiro...
"Assim o creio", conjecturou ainda D. Juan, ajoelhando à cabeceira do leito e beijando uma das mãos daquele quase cadáver:
- Pai, querido pai - disse, temos de nos submeter à vontade de Deus.
- Deus, sou eu! - resmungou o velho.
- Não blasfeme! - suplicou o jovem, deparando no pai com uma expressão de ameaça. Tenha cuidado, porque recebeu já a extrema-unção, e eu nunca me resignaria vendo-o morrer em pecado!
- Queres ou não escutar-me?! - vociferou o agonizante, rangendo os maxilares.
D. Juan calou-se. Caiu no quarto um silêncio sinistro. Por entre os silvos surdos do granizo, lá fora os acordes do violino e o canto melodioso ouviam-se novamente, ténues como a luz dum dia que desponta. O ancião sorriu:
- Agradeço-te teres convidado cantoras e músicos. Há festa, mulheres jovens e belas, brancas e de cabelos negros, os melhores prazeres da vida... Dize-lhes que fiquem, porque eu vou renascer.
"É já o auge do delírio!", pensou o filho, quando Bartolomeu lhe disse de súbito:
- Descobri o meio de ressuscitar. Olha: Procura na gaveta da mesa; poderás abri-la carregando no botão que esta oculto pelo entalhe que figura um grifo.
- Pronto, meu pai.
- Bem. Tira de lá o frasquinho de Cristal.
- Está aqui...
- Gastei vinte anos... - ia o moribundo a contar, mas sentiu que o seu fim chegava e esforçou-se por acrescentar:
- Logo que eu tenha soltado o último suspiro, fricciona-me todo o corpo com esse líquido, e eu ressuscitarei...
- Há muito pouco - notou D. Juan.
Entretanto, Bartolomeu, se já não podia falar, tinha ainda a faculdade de ouvir e ver. As palavras do filho fizeram-lhe voltar a cabeça num movimento brusco. Ficou com o pescoço torcido como o duma estátua de mármore condenada pelo escultor a olhar eternamente de lado. As suas pupilas dilatadas tinham tomado uma imobilidade odiosa. Estava morto.
Expirara ao perder a sua última e única ilusão. Ao procurar a sua derradeira salvação no coração do filho, encontrara neste um túmulo mais profundo do que o preparado pelos homens para jazida dos seus mortos. Os cabelos eriçaram-se-lhe de pavor, só o seu olhar pareceu exprimir ainda alguma coisa. Era já como um pai que se erguia do sepulcro para suplicar vingança a Deus.
- Pronto! O homenzinho acabou... - cuidou D. Juan.
Na ânsia de observar o misterioso frasco à luz do candeeiro à semelhança de um apreciador que examina a sua garrafa no fim do repasto, olhava perplexamente para o pai e o frasco. A seu lado, o cão-de-água observava da mesma maneira, ora o frasco ora o dono morto.
O candeeiro projectava clarões movediços. O silêncio tornara-se mais solene.
O violino e a voz da cantora tinham emudecido. O jovem estremeceu, parecendo-lhe que o defunto se mexera. Intimidado pela fixidez acusadora dos seus olhos, foi cerrar-lhos como teria fechado uma persiana batida pela rajada em noite invernosa.
Conservou-se de pé, imóvel, perdido num caos de pensamentos. De súbito um ruído seco, lembrando o duma mola emperrada, cortou a mudez. Surpreendido D. Juan quase deixou cair o frasco. Inundou-o um suor mais frio do que aço de punhal. O galo de madeira pintada do relógio familiar surgiu e cantou três vezes. Era daqueles maquinismos engenhosos, de que se serviam os sábios da época para despertarem à hora fixada para as suas lucubrações. A aurora avermelhava já as janelas. D. Juan tinha passado dez horas a reflectir. O velho relógio era mais fiel do que ele ao cumprimento dos seus deveres para com Bartolomeu. Aquele mecanismo compunha-se de corda, alavanca e rodas dentadas, enquanto ele tinha o músculo peculiar aos homens, que se chama coração. Para não se arriscar a perder o precioso líquido, D. Juan voltou a guardá-lo, cepticamente, na gaveta da mesinha gótica. Nesse instante ouviu nas galerias do palácio um tumulto confuso.
Eram vozes indistintas, risos abafados, todo o rumor dum grupo alegre procurando conter-se. Finalmente, a porta abriu-se e o Príncipe, com os restantes convidados aparecerem com a desordem estonteada dos dançarinos surpreendidos pela claridade da manhã, quando o sol luta ainda com a pálida chama das velas. Vinham para dar ao jovem herdeiro as condolências da etiqueta.
- Terá o nosso D. Juan tomado a peito esta morte? - perguntou o Príncipe ao ouvido da Brambilla.
- Talvez - respondeu ela, porque o pai era um homem extremamente bondoso.
As meditações nocturnas de D. Juan tinham-lhe gravado no rosto uma tal expressão que o grupo se sentiu perplexo. Os homens permaneceram hirtos. As mulheres, com os lábios ressequidos pelo álcool, as faces maceradas pelos beijos, ajoelharam e rezaram. O órfão não pôde deixar de estremecer à vista das alegrias contidas, dos risos desfeitos, dos cantos sumidos, da juventude apagada, da beleza desvanecida, de tudo aquilo que personificava o melhor da vida perante a Morte. Porém naquela amável Itália do tempo, o Pecado e a Religião, conjugavam-se de tal maneira que se confundiam.
O Príncipe apertou afectuosamente a mão a D. Juan e todos os rostos esboçaram simultaneamente uma idêntica expressão, meio triste, meio indiferente. Depois toda esta fantasmagoria protocolar desapareceu, deixando mais vazio o aposento mortuário. Era bem a imagem da Vida.
Ao descer a escadaria, o Príncipe confiou a Rivabarela:
- Quem teria julgado assim o nosso D. Juan, um fanfarrão da impiedade?... Afinal, adorava o pai!
- Reparou no cão?... - indagou Brambilla.
- Aí temos o nosso amigo fabulosamente rico - sugeriu, suspirando, a Bianco Cavatolino.
- Que importa...? - desdenhou a orgulhosa Veronese, que destruíra, com mão nervosa a dourada caixinha de amêndoas.
- Não te importo...? - clamou o Duque. Pois com os seus escudos será tanto um príncipe como eu!
A princípio D. Juan, cedendo a mil pensamentos, hesitou entre vários partidos a tomar. Depois de ter avaliado os tesouros acumulados por seu pai, voltou, de noite, para o quarto fúnebre, a alma esmagada sob feroz egoísmo. Encontrou todos os serviçais ocupados em ordenar os paramentos do catafalco em que o falecido senhor seria exposto no dia seguinte, ao centro duma sumptuosa câmara ardente - espectáculo de grande curiosidade, que toda a Ferrara viria admirar.
A um sinal de D. Juan, os criados detiveram-se interditos e trémulos.
- Deixem-me só - ordenou com a voz alterada. Continuarão depois de eu sair.
Quando os passos do velho Mordomo, que foi o último a retirar-se, deixaram de se ouvir sobre as lajes, D. Juan fechou precipitadamente a porta e disse consigo:
- Experimentemos...
O corpo de Bartolomeu fora deitado sobre uma longa mesa. Para ocultarem o odioso espectáculo de um cadáver a que extrema decrepitude e magreza davam o aspecto de simples esqueleto, os embalsamadores tinham envolvido num lençol todo o corpo, excepto a cabeça. Esta espécie de múmia jazia no meio da dependência, com o sudário a desenhar-lhe vagamente as formar esguias e agudas. No rosto já apareciam largas manchas violáceas, que indicavam a necessidade de se apressar o embalsamamento. Apesar de escudado pelo seu cepticismo, D. Juan hesitou em desrolhar o frasquinho de cristal. Tremia tanto quando se aproximou da cabeça do defunto que se sentiu constrangido a aguardar um momento. Porém, este jovem, bem cedo corrompido completamente pelos costumes duma corte dissoluta, foi encorajado por uma ideia digna do famoso Duque de Albin, ao mesmo tempo que era aguilhoado pela curiosidade. Dir-se-ia que o próprio Diabo lhe segredava estas palavras, que lhe ecoavam no coração: "Humedece um dos olhos". Pegou num pano e, depois de o embeber àvaramente no precioso líquido, passou-o ao de leve sobre a pálpebra direita do cadáver. O olho abriu-se...
- Ah! - exclamou D. Juan, enclavinhando os dedos no frasco, tal como apertamos, em sonhos, a haste de que nos suspendemos num precipício.
Via aquele olho pleno de vida, como olho de criança na cabeça dum morto, a luz cintilando no seu humor líquido juvenil, apenas velada por belos cílios negros, trazendo à memória essas singulares claridades que o viajante avista nos campos desertos, em noites de Inverno. Aquele olho resplandecia, parecia querer precipitar-se para D. Juan, pensava, acusava, condenava, ameaçava, vociferava, mordia. Todas as paixões humanas se agitavam nele, as súplicas mais ternas, a cólera dos reis, o amor de uma donzela pedindo misericórdia aos seus algozes. Tinha, por fim, a mirada profunda que um homem lança aos outros do último degrau para o cadafalso. Havia tanta vivacidade naquele fragmento de vida que D. Juan recuou, apavorado. Passeou pelo aposento sem ousar fixar aquele olho, que ele revia no chão, nas tapeçarias, por toda a parte. Toda a dependência estava semeada de pontos luminosos, fulgurantes de vida, de inteligência. E todos esses pontos que eram outros tantos olhos, perseguiam, cercavam D. Juan.
"Será capaz de viver mil anos", calculou ele incontidamente, ao voltar junto do pai, levado por uma atracção diabólica a contemplar aquela centelha de luz vivente.
De súbito a pálpebra fechou-se e voltou a abrir-se ágil, como a de uma mulher que concede. Se uma voz lhe tivesse dito: "Sim", D. Juan não se sentiria mais aterrado.
- Que fazer? - pensou.
Ainda teve coragem para tentar cerrar aquela pálpebra, mas os seus esforços foram inúteis.
- Será um parricídio esmagá-lo? - perguntou-se diante do olho.
- Sim - fez-lhe este compreender com uma piscadela irónica.
D. Juan debruçou-se para o esmagar. Uma grossa lágrima rolou pelas faces encovadas do cadáver e caiu sobre a mão do filho.
A lágrima queimou-o. Sentou-se, fatigado por uma luta que lhe lembrava a de Jacob com o anjo.
Por fim levantou-se, murmurando:
- Contanto que não haja sangue...
Depois, procurando a todo o transe não se acobardar, esmagou o olho, servindo-se de um pano e voltando o rosto. Um gemido inesperado, angustioso, surpreendeu-o. Era o cão que morria uivando.
- Conheceria o segredo do velho? - indagou-se, deitando uma olhadela ao fiel animal.
D. Juan Belvidero passou depois aos olhos do mundo por um filho piedoso. Mandou construir um monumento de mármore do mais branco sobre o túmulo de seu pai, confiando as figuras que o ornariam aos mais célebres artistas da época. Só se sentiu perfeitamente tranquilo no dia em que a estátua paterna, ajoelhada aos pés da Religião, impôs o seu peso enorme sobre a sepultura em que enterrou o único remorso que ainda poderia sobressaltar-lhe o coração nos momentos de maior lassidão.
Depois de feito o inventário das riquezas acumuladas pelo velho orientalista, tornou-se avarento. Acaso não tinha ele de garantir duas vidas com o seu dinheiro? O olhar tornou-se-lhe perscrutador, alongando-o pela sociedade humana e melhor compreendendo o mundo por avistá-lo através de um túmulo. Analisou os homens e os seus actos para não se importar, de uma vez para sempre, com o passado representado pela História, o presente, encarnado pelas leis e o futuro, desvendado pelas religiões. Tomou o espírito e a matéria, misturou-os num cadinho e, nada aí encontrando que valesse a pena, tornou-se, autenticamente, D. Juan.
No segredo das ilusões humanas, jovem e belo, lançou-se para a vida, desprezando o mundo para melhor dele se apoderar. Assim, a sua felicidade não poderia ser a ventura burguesa que se contenta com o cozido trivial, uma confortante botija de água quente na cama, no inverno, um candeeiro para a noite e umas pantufas novas em cada trimestre. Apoderou-se da existência como um símio que apanha uma noz e, sem perda de tempo, trata espertamente de desembaraçar o fruto da casca inútil, para lhe saborear a polpa. A poesia e os sublimes arroubos das paixões deixaram de o interessar. Procurou evitar, o erro de certos homens poderosos que, supondo que as almas ingénuas crêem nas almas fortes, das ideias efémeras. Poderia bem caminhar, como eles, com os pés sobre a terra e a cabeça a tocar os céus: contudo, preferia refestelar-se e devorar de beijos os lábios, duma mulher meiga, fresca e perfumada, já que, semelhante à Morte, extinguindo impudentemente tudo por onde passava, exigindo só o amor que possuía, um amor à oriental, que lhe proporcionasse apenas amores longos e fáceis.
Amando na Mulher só a fêmea, adoptou a ironia como a atitude própria da sua alma. Quando nos seus braços as amantes subiam ao paraíso, perdidas num êxtase de embriaguez, acompanhava-as, meio grave, meio expansivo, tão sincero como um estudante alemão. Dizia sempre - Eu, enquanto a louca apaixonada dizia - Nós. - Sabia admiravelmente deixar-se cativar por uma mulher. Tinha sempre o domínio suficiente para a fazer acreditar que tremia como o estudantinho do liceu que segreda à primeira rapariga com quem volteia num baile: "Gosta de dançar?". Mas não sabia menos utilizar uma espada dura e abater comendadores. Ocultava-se zombaria na sua simplicidade e riso nas suas lágrimas, chorando tão bem como a esposa que diz ao marido: "Dá-me uma carruagem ou morrerei de tísica!". Para o negociante o mundo é um acumulado de mercadorias e um bom montante de notas de Banco; para a maior parte dos jovens é uma mulher; para algumas mulheres, um homem; para certos espíritos, um salão, um meio de intrigas, um bairro ou uma cidade inteira. Para D. Juan o mundo era ele! Modelo de graça e de brandura, espírito sedutor, soube sempre levar a água ao seu moinho. Simulando deixar-se conduzir, nunca ia além do limite onde queria ser levado. Quanto mais observava mais ia duvidando. Ao analisar os homens, descobriu que, muitas vezes, a coragem não passava de temeridade, e a prudência, de cobardia; a delicadeza era patetice e a generosidade, astúcia; a justiça, um crime, e a probidade, uma convenção. Descobriu, ainda, que, por um singular destino, as pessoas verdadeiramente honestas, delicadas, justas, prudentes e corajosas não mereciam a menor consideração social.
- Que cruel ironia! - dizia de si para consigo. Não, é certamente, obra de Deus.
Então, renunciando a um mundo melhor, nunca mais se descobriu ao ouvir pronunciar nomes sagrados e considerou as imagens das igrejas como simples obras de arte. Assim, conhecendo o mecanismo das sociedades humanas, procurava não ferir demasiado os preconceitos, por não se sentir tão forte como os carrascos, mas iludia as leis sociais com subtileza e espírito. Foi a encarnação de D. Juan, de Molière; do Fausto, de Goethe; do Manfred, de Byron e do Melmoth, de Maturin. Grandes figuras criadas pelos maiores Génios europeus, cantadas em acordes de Mozart e, talvez, um dia, em árias de Rossini. Entes terríveis, que o príncipe do Mal eterniza e de que se encontram alguns exemplares através dos séculos, quer quando tais personagens entram em negociações com os homens, encarnadas em Mirabeau, quer se contentem em agir sobrepetíciamente, como Bonaparte ou em abraçar o mundo numa ironia, como Rabelais. Mas o Génio, ainda mais profundo, de D. Juan Belvidero, resumiu, com antecipação, todas essas figuras criadas pela genialidade. A sua foi uma perpétua zombaria, em que envolveu os homens, as coisas, as instituições e as ideias.
Tendo conversado em boa familiaridade, durante meia hora, com o papa Júlio II sobre a Eternidade, ao concluir disse-lhe, sorrindo:
- Se é em absoluto necessário escolher, prefiro crer em Deus a acreditar no diabo; o poder, aliado à bondade, pode proporcionar-nos melhor refúgio do que aliado à potência do Mal.
- Sim concordou o Pontífice, mas o Senhor quer que façamos penitência neste mundo...
- Pensais então sempre nas vossas indulgências? - tornou Belvidero. Pois bem, eu tenho reservada, para me arrepender da primeira vida, uma outra completa existência...
- Ah! se compreendes assim a velhice - insistiu Júlio II - arrisca-te a ser canonizado...
D. João sorriu; a terminar:
- Depois da vossa elevação ao Papado tudo é possível.
E foram ver os operários ocupados na construção da imensa basílica consagrada a São Pedro.
- O Apóstolo genial que constituiu o nosso duplo poder - acrescentou o Papa Belvidero, merece este monumento. Mas, por vezes, durante a noite, penso que um novo dilúvio apagará tudo isto e será forçoso recomeçar.
D. Juan e o Pontífice riram, compreendendo-se. Um tolo teria ido, no dia seguinte, divertir-se com Júlio II em casa de Rafael ou na deliciosa Vila Madama, mas Belvidero foi vê-lo oficiar pontificalmente, para se convencer das suas dúvidas. Num banquete, o Rovére teria podido desmentir-se e comentar o Apocalipse.
Mas esta lenda não foi criada para fornecer elementos aqueles que desejem escrever memórias sobre a biografia de D. Juan. Destina-se a provar às pessoas honestas que Belvidero não morreu no seu duelo com uma figura de pedra, como querem fazer-nos acreditar alguns biógrafos.
Quando atingiu os sessenta anos, Belvidero fixou-se em Espanha. Aí, mais avançado em idade, desposou uma jovem e encantadora andaluza. Por cálculo, não foi bom esposo nem bom pai. Tinha concluído que nunca seremos tão ternamente amados como pelas mulheres a quem damos menos atenções. Dona Elvira, santamente criada por uma velha tia, nos confins da Andaluzia, a algumas léguas de San-Lucar, era toda dedicação e graça. D. Juan pressentiu que seria mulher para lutar durante muito tempo contra uma paixão antes de lhe ceder. Assim esperou poder conservá-la virtuosa até à sua morte. Foi um divertimento arriscado, uma como que partida de xadrez que reservou para jogar quando já fosse velho. Decidiu, pois, subordinar todos os seus actos ao êxito da comédia que deveria ter o desfecho no seu leito de morte. Assim a sua fortuna permaneceu enterrada no palácio de Ferrare, onde ia raramente. O resto dos seus bens empregou-os em viajar, no prolongamento da sua vida - artimanha esta que deveria ter ocorrido também a seu pai. Porém, tal astúcia não foi para ele de grande proveito. O moço Filipe Belvidero, seu filho, saiu-lhe um espanhol tão conscenciosamente religioso quanto o pai era ímpio. Isto, talvez, em obediência ao provérbio: Pai avarento, filho pródigo.
O abade de San-Lucar foi escolhido para director espiritual da Duquesa de Belvidero e de Filipe. Era este eclesiástico um santo homem, de admirável estatura, bem proporcionado, belos olhos e rosto à Tibério, fatigado pelos jejuns, empalidecido pelas macerações e dia a dia tentado, como são os solitários. O já então idoso D. Juan esperava talvez poder ainda matar um anacoreta antes de terminar o primeiro prazo da sua vida. Mas, ou porque o abade fosse de temperamento tão forte como ele, ou por que Dona Elvira possuísse menos ardência ou mais prudência do que a Espanha habitualmente concede às mulheres, Belvidero viu-se constrangido a passar os seus dias calmo como um velho reitor de aldeia, sem escândalos caseiros. Por vezes sentia prazer em apanhar a mulher ou o filho em falta para com os seus deveres religiosos e ordenava-lhes imperiosamente que cumprissem as suas obrigações de fiéis da Santa Sé Apostólica. Finalmente, raro era tão feliz como quando ouvia o afável cura de San-Lucar, Dona Elvira e Filipe entretidos em discutir um caso de consciência. Entretanto, apesar dos cuidados extremos que dedicava à sua pessoa, os dias da sua decrepitude chegaram; e, com os achaques da idade, vieram as imprecações da impotência, tanto mais desesperadora quanto mais vivas eram as recordações da sua ardente juventude e de sua voluptuosa maturidade. Aquele homem para quem o maior divertimento era obrigar os outros a acreditarem nas leis e nos princípios de que desdenhava, adormecia à noite atormentado por um talvez... Modelo de bom-tom, aquele duque, ousado numa orgia, soberbo mas cortês, espirituoso junto das mulheres, a quem vergava pelo coração como um campónio verga uma haste de vime, enfim aquele homem de Génio, tinha um defluxo renitente, uma ciática arreliadora, uma gota feroz. Via os dentes irem-se-lhe como, ao fim duma festa nocturna, as mulheres mais brancas e melhor vestidas se retiraram, uma a uma, abandonando a sala deserta e desguarnecida. Depois, as suas mãos afoitas tremeram, as pernas esbeltas vacilaram e, uma noite, a apoplexia apertou-lhe a garganta com as suas mãos aduncas e gélidas. Tornou-se, desde então, quezilento, áspero. Censurava a dedicação do filho e da mulher, atribuindo os seus cuidados enternecidos, desvelados, ao facto de ele ter empregado toda a sua fortuna em rendimento vitalício. Elvira e Filipe choravam lágrimas amargas e redobravam de carícias para com o maldoso velho, que, em voz enfraquecida, que procurava tornar afectuosa, dizia:
- Meus amigos, minha querida esposa, perdoam-me, não é verdade? Atormento-vos um pouco. Ah!, meu Deus! porque te serves de mim para pôr à prova estas santas criaturas? Eu, que devia ser a sua alegria, não passo do seu martírio...
Assim os acorrentava à cabeceira do seu leito, fazendo-lhes esquecer meses de rezinga e de crueldade, naquela hora em que lhes desvendava os inesperados tesouros da sua espirituosidade e da sua falsa ternura. Este seu modo paternal resultou infinitamente melhor do que o outro usado por seu pai. Por fim o seu estado agravou-se de tal maneira que, para o meterem na cama, era necessária uma manobra tal como a de meter uma embarcação num canal perigoso. E chegou o dia da morte. Tão brilhante e céptica personagem, em quem só a inteligência parecia escapar à mais terrível de todas as destruições, viu-se entre um médico e um confessor, as suas maiores antipatias. Mas mostrou-se jovial. Para ele não existia qualquer luz cintilando para além da cortina que ocultava o futuro. Sobre essa tela, opaca para os outros e diáfana para ele, as belas, arrebatadoras delícias da mocidade moviam-se como sombras.
Foi numa bela noite de verão que D. Juan sentiu que a Morte se aproximava. O céu de Espanha tinha uma admirável pureza, as laranjeiras perfumavam o espaço; as estrelas irradiavam uma viva claridade. A natureza parecia oferecer-lhe provas irrefutáveis da sua próxima ressurreição. Um filho carinhoso, dedicado, contemplava-o com amor e respeito.
Cerca das onze horas desejou ficar só com tão cândida criatura:
- Filipe - disse-lhe com voz de um afecto e uma ternura tais que o moço estremeceu, chorou de felicidade ao ouvir o pai pronunciar assim o seu nome. - Escuta, meu filho - continuou o moribundo. Sou um grande pecador. Por isto toda a vida pensei na Morte. Outrora fui amigo do grande papa Júlio II. Esse ilustre pontífice receou que os meus excessos me levassem a cometer qualquer pecado mortal entre o meu último suspiro e o momento em que me ministrassem os santos óleos. Para que assim não sucedesse fez-me presente de um frasco contendo água santa que, noutros tempos, jorrava dos rochedos do deserto. Guardei segredo sobre esta concessão da Igreja mas fui autorizado pelo dito Papa a, in extremis, revelar tudo a meu filho. Encontrarás esse frasco na gaveta da mesa gótica, que nunca deixei afastar da minha cabeceira... O frasquinho também te poderá ser útil, querido Filipe. Jura-me, pois, pela tua salvação, que executarás pontualmente as minhas determinações!...
Filipe fitou o pai. D. Juan conhecia bem a expressão dos sentimentos humanos para não morrer em paz sem reconhecer fidelidade nos olhos do filho, para mais lembrando-se de que seu pai morrera de desespero soletrando-lhe nos olhos as intenções:
- Merecias melhor paternidade, Filipe - prosseguiu D. Juan. Assim ouso confessar-te, meu filho, que, no momento em que o abade de San-Lucar me administrava o Sagrado Viático, eu pensava na eterna incompatibilidade de dois poderes tão fortes como o de Deus e o Diabo...
- Oh!, meu pai!
- E dizia comigo: quando Satã fizer a paz com a divina omnipotência, deverá, sob pena de ser um grande réprobo, estipular o perdão dos seus sequazes. Este pensamento não me largou mais. Porque eu irei para o Inferno, meu filho, se não cumprires à risca os meus últimos desejos...
- Oh!, diga-mos sem demora, meu pai!
- Pois bem. Logo que eu tenha expirado, talvez daqui a poucos minutos, pegarás no meu corpo ainda quente e estendê-lo-ás sobre uma mesa, no meio deste quarto. Depois apagarás o candeeiro. A claridade das estrelas devera bastar-te. Então despes-me e, enquanto fores rezando padre-nossos e ave-marias, elevando a tua alma a Deus, terás o cuidado de humedecer, com essa água miraculosa, os meus olhos, os lábios, toda a cabeça, em primeiro lugar e, em seguida, sucessivamente, os membros e o tronco. Entretanto, filho, toma bem nota de que o poder de Deus é tão grande que não deverás estranhar coisa alguma!
Nesta altura, D. Juan, que sentia a morte chegar, acrescentou com voz temível:
- Segura bem o frasco!
Depois expirou suavemente nos braços do filho, que vertia copiosas lágrimas naquelas faces irónicas e lívidas.
Era cerca de meia-noite quando D. Filipe Belvidero colocou o cadáver sobre a mesa. Beijou-lhe a fronte e os cabelos encanecidos e apagou o candeeiro. A claridade suave do luar que iluminava o campo com revérberos caprichosos mal permitiu ao piedoso mancebo distinguir o corpo do pai, como uma alongada mancha branca no seio da sombra. Embebeu um pano no líquido e, recolhido em oração, ungiu a cabeça do querido defunto, em profundo silêncio. Ouvia indistintos rumores, mas atribuí-os ao cicio da brisa na copa das árvores. Mal acabava de molhar o braço direito do morto quando lhe pareceu que outro braço veio apertar-lhe tenazmente o pescoço. Sentindo-se estrangulado, soltou um grito dilacerante e deixou cair o frasco, que se quebrou. Os criados acorreram trazendo luzes. O grito tinha-os aterrado como se a trombeta do Juízo Final tivesse abalado os ecos do mundo. Num momento o quarto encheu-se de gente. A criadagem, trémula, encontrou D. Filipe desmaiado mas seguro pelo braço forte de seu pai, que o estrangulava. Depois - caso sobrenatural!- os circunstantes depararam com a cabeça de D. Juan tão jovem e bela como a de Antinos; uma cabeça de cabelos negros, olhos brilhantes, boca vermelha, e que se agitava horrivelmente sem poder mover o corpo esquelético a que pertencia.
Um velho serviçal gritou:
- Milagre!
E todos aqueles espanhóis repetiram, em uníssono:
- Milagre!
Suficientemente religiosa para não se fiar nos mistérios da Magia, Dona Elvira mandou chamar o abade de San-Lucar. O pároco assim que pôde constatar o milagre, pensou logo aproveitar-se do extraordinário facto, como homem esperto e abade que só desejava aumentar os rendimentos da freguesia. Declarando imediatamente que D. Juan seria canonizado, infalivelmente, marcou a cerimónia para a epifania para o seu convento, que daí em diante - declarou - San-Juan de Lucar. A estas palavras, a cara do defunto teve um esgar irónico.
A inclinação dos espanhóis por este género de solenidades é tão conhecida que não será difícil conceber a pompa das cerimónias religiosas em que o cura de San-Lucar celebrou a trasladação do bem-aventurado D. Juan Belvidero para a sua igreja.
Alguns dias depois da morte daquele ilustre senhor, o milagre da sua ressurreição incompleta foi tão largamente comentado, de povoação em povoação, num raio de cinquenta léguas à volta de San-Lucar, que, num grande espectáculo de peregrinação, os curiosos acorreram de todos os lados, atraídos pela perspectiva de um Te Deum solenemente cantado à luz dos círios. A antiga mesquita, agora igreja do convento de San-Lucar, maravilhoso edifício construído pelos mouros e cujas abóbadas escutavam, havia séculos, o nome de Jesus em substituição do de Allah, não pôde conter a multidão que vinha assistir ao acto. Apertados como formigas num formigueiro, os fidalgos, com suas capas de veludo e belas espadas à cinta, conservavam-se junto dos pilares, quase sem espaço para dobrar o joelho que só ali se dignavam dobrar. Encantadoras camponesas com as vasquinhas a moldarem-lhe as formas airosas, davam o braço a velhos encanecidos. Moços, de olhos ardentes, eram vistos ao lado de velhas arrebicadas. Avistavam-se ainda, entre a multidão, parzinhos jovens radiantes de alegria, namoradas curiosas trazidas pelos bem-amados, algumas casadinhas de fresco, e, finalmente, crianças receosas pela mão das mães. Toda aquela gente estabelecia flagrantes contrastes, carregada de flores, colorida, despertando um surdo rumor na quietação da noite.
As grandes portas da igreja descerraram-se. Os que haviam chegado tarde de mais ficaram no adro, assistindo de longe, pelos portais escancarados, a um espectáculo de que as reduzidas cenas das óperas modernas nunca poderão dar uma pálida ideia. Devotos e pecadores empenhados em ganhar as boas graças dum novo santo, acenderam em seu louvor milhares de círios na vasta igreja, flâmulas interesseiras que emprestavam aspectos de magia ao majestoso templo. As escuras arcarias, as colunas e os seus capitéis, as capelas profundas, resplandecendo de ouro e prata, as galerias, os rendilhados mouriscos, os mais subtis pormenores daquela arquitectura delicada, desenhavam-se num exuberante clarão, como as figuras caprichosas dos grandes brasidos ardentes. Era um mar de luzes, dominado ao fundo pelo coro dourado sobranceiro ao altar-mor, rivalizando, em esplendor, com o Sol nascente. Com efeito, o brilho dos áureos lampadários, dos candelabros argênteos, dos panejamentos, das imagens e dos "ex-voto" parecia esmorecer ante o relicário que continha o corpo de D Juan. Os restos mortais do ímpio resplandeciam de pedrarias, flores, ouro, plumas brancas como asas de anjo e substituíam, sobre o altar, um painel de Cristo. À sua volta numerosas flamas erguiam no ar clarões rutilantes.
O bom abade de San-Lucar, com paramentos pontificais, a mitra ornada de pedras preciosas, de sobrepeliz e báculo de ouro, sentava-se, como monarca, num cadeirão de luxo imperial, no meio do seu cabido, composto de impassíveis anciãos encanecidos, vestidos de alvas e que o rodeavam, como as santas figuras que os pintores agrupam, nos seus painéis, à volta do Eterno.
O grande chantre e os dignitários do capítulo, ostentando as vistosas insígnias das suas prerrogativas eclesiásticas, iam e vinham por entre nuvens de incenso. Quando chegou a hora da solene consagração, os sinos tangeram e todos dirigiram ao Altíssimo a primeira hossana de louvor, que iniciou o Te-Deum. Clamor sublime! Eram vozes puras, cristalinas, de mulheres em êxtase, confundidas com vozes masculinas, fortes e graves, num coro tão poderoso que o órgão não conseguia dominá-lo com o vibrar dos seus largos acordes. Só as notas agudas dos meninos do Coro e as dos barítonos suscitavam a ideia da infância e da força naquele fantástico concerto de vozes humanas unidas num sentimento de amor:
- Te Deum laudamus!
Do âmago do vasto templo enxameado pela multidão ajoelhada, aquele coro cresceu como uma claridade que cintilasse repentinamente na noite e o silêncio como que foi cortado por um ribombar. As vozes ascendiam com as nuvens do incenso que toldavam as majestáticas maravilhas arquitectónicas em diáfanos véus azulados. Tudo era magnificência, perfume luz e polifonia.
No momento em que o grave hino de gratidão e de amor atingiu o altar-mor, D. Juan, suficientemente cortês para nada levar a mal, esboçou um lívido sorriso e envaideceu-se no interior do relicário.
Porém o Diabo, lembrando-lhe o risco de passar assim por um homem vulgar, por um santo, um bonifrates ou um Pantaleão, perturbou a grande polifonia de amor com um bramido, a que se juntaram as mil vozes do Inferno. A Terra abençoava, e o Céu maldizia. O templo estremeceu sobre os seus remotos alicerces.
- Te Deus laudamus ! - clamava a multidão.
- Vão para todos os diabos, estúpidos animais que sois! Deus! Deus! Que sois vós com o vosso Deus encanecido?
E uma torrente de imprecações correu como caudal de lavas ardentes, arremessadas por uma erupção do Vesúvio.
- Deus Sabaoth!... Sabaoth! - bramiam os crentes
- Insultais a majestade do Inferno! - tornou D. Juan, rangendo os maxilares.
Momentos depois o seu braço ressuscitado, saindo do relicário, ameaçou a turba com um gesto de desespero e de ironia.
- O santo abençoa-nos! - gritaram as velhas, as crianças e as noivas, crêdulamente.
Desta maneira somos muitas vezes iludidos nas nossas crenças. Mas o homem superior ri-se dos que o louvam e louva, muitas vezes, aqueles de quem se ri no seu íntimo.
No momento em que o pároco, prosternado ante o altar, entoava: Sancte Johannes, ora pro nobis..." ouviu distintamente a palavra - imbecil!
- Que se passa ali? - exclamou o coadjutor ao ver o relicário mover-se.
O Santo antes parece o Diabo - retorquiu o prior.
Nesse instante a cabeça vivente de D. Juan separou-se violentamente do seu corpo inerte e foi cair sobre a cabeça do esbelto e jovem oficiante:
- Lembra-te de D. Elvira! - gritou aquela cabeça mordendo o abade.
Este deixou escapar um grito de dor, que interrompeu a solene cerimónia. Todos os padres acudiram e rodearam o seu superior hierárquico.
- Pateta! Dize agora que existe um Deus! - rugiu ainda a voz infernal, quando o abade, atingido no crânio pela mordedura, expirava.
Paris, Outubro de 1830
Honoré de Balzac
Sonetos
Lanço-me ao leito, exausto da fadiga,
Repousa o corpo ao fim da caminhada;
Mais eis que a outra jornada a mente obriga
Quando é do corpo a obrigação passada.
A ti meu pensamento - na distância -
em santa romaria então me leva,
E fico, as frouxas pálpebras em ânsia,
Olhando, como os cegos vêem na treva.
E a vista de minha alma ali desvenda
Aos olhos sem visão tua figura,
Que igual a jóia erguida em noite horrenda,
Renova a velha face à noite escura.
Ai! que o dia o corpo, à noite a alma,
Por tua e minha culpa têm calma.
William Shakespeare
Repousa o corpo ao fim da caminhada;
Mais eis que a outra jornada a mente obriga
Quando é do corpo a obrigação passada.
A ti meu pensamento - na distância -
em santa romaria então me leva,
E fico, as frouxas pálpebras em ânsia,
Olhando, como os cegos vêem na treva.
E a vista de minha alma ali desvenda
Aos olhos sem visão tua figura,
Que igual a jóia erguida em noite horrenda,
Renova a velha face à noite escura.
Ai! que o dia o corpo, à noite a alma,
Por tua e minha culpa têm calma.
William Shakespeare
A Lenda de S. Julião Hospitaleiro
(Trecho)
O pai e a mãe de Julião moravam num castelo no meio de um bosque, na encosta de uma colina. As quatro torres dos ângulos, tinham os tectos pontiagudos, revestidas de chapas de chumbo, e a base das muralhas apoiavam-se sobre blocos de rocha, que desciam abruptamente até ao fundo dos fossos. As calçadas do pátio estavam limpas como o lajeamento de uma igreja. As goteiras figuravam dragões de boca aberta, jorrando água das chuvas para as cisternas; em todos os peitoris das janelas encontrava-se um vaso de plantas, quer fossem basiliscos ou heliotropos (1).
Uma segunda cerca feita de estacaria, rodeava um pomar de árvores de fruto, seguido de um parque onde nos canteiros as flores desenhavam monogramas; depois um fresco túnel de ramaria e um terreiro de jogo da malha que servia de divertimento aos pagens. Do outro lado encontravam-se o canil, as cavalariças, a padaria, o lagar e os celeiros. Uma pastagem de relva verde rodeava-os, enquadrando-os numa espessa sebe de espinhos.
Vivia-se em paz, de modo que nem era preciso fechar a grade de segurança; os fossos estavam cheios de água, as andorinhas faziam o seu ninho nas frestas das ameias, e o archeiro que todo o dia passeava ao longo das muralhas, quando o calor apertava, recolhia-se à sua torrinha e adormecia placidamente. No interior, as ferragens reluziam, as tapeçarias protegiam os quartos do frio, os armários regurgitavam de roupa branca, os tonéis cheios de vinho empilhavam-se nos celeiros, as arcas de carvalho vergavam sob o peso dos sacos de dinheiro. Viam-se na sala de armas entre estandartes e cabeças de animais selvagens, armas de todos os tempos e nações, fundas dos Amalecitas, dardos dos Garamantes (2), alfanges sarracenos e cotas de malha dos Normandos. O maior espeto da cozinha podia voltejar um boi.
A capela era sumptuosa como um oratório de um rei. Havia mesmo num compartimento afastado, uma sala de banhos quentes, como as usadas pelos romanos mas o bom senhor não a utilizava, julgando ser um hábito de idólatras.
Sempre envergando uma pelica de pele de raposa, passeava pela casa, fazia a justiça dos seus vassalos, acalmava as questões entre os vizinhos. Durante o inverno olhava os flocos da neve que caía, ou gostava de ouvir ler histórias. Logo que vinham os primeiros dias bons, montava na mula, indo ao longo dos caminhos sobranceiros aos trigais que reverdesciam, falando com campónios, dando conselhos.
Após muitas aventuras arranjara para esposa uma menina de alta linhagem. Era muito branca, um pouco altiva e sisuda. Os seus cónicos chapéus roçavam nas bandeiras das portas; a cauda do seu vestido arrastava-se três passos atrás de si. A vida da sua casa era regulada como num mosteiro; cada manhã distribuía o trabalho às suas criadas, vigiava as compotas e os unguentos, fiava à roca ou bordava toalhas de altar. E à força de rogar a Deus, acabou por ter um filho. Houve grande alegria, e para a comemorar, um festim que durou três dias e quatro noites, com iluminação de archotes, e música de harpa sob um docel de romarias.
Comeram-se as mais raras iguarias, galinhas tão gordas como carneiros; e entre os divertimentos surgiu um anão de dentro de um bolo; as escudelas não paravam, e como a alegria aumentava sempre, até se bebeu por trompas de marfim e elmos.
A jovem mãe não assistiu a estas festas. Ficara no leito tranquilamente. Uma noite, acordou assustada, e viu envolvida por um raio de luar que entrava pela janela, uma sombra que se movia. Era um ancião vestido com um borel, apertando a cintura com um rosário, de alforge ao ombro enfim toda a aparência de um ermita. Aproximou-se da sua cabeceira e murmurou-lhe sem descerrar os lábios:
- Alegra-te ó mãe, o teu filho será um santo!
Ia para acreditar, mas escorregando sobre o raio de luar, ele ergueu-se docemente no ar e depois desapareceu. Os ecos do banquete soaram mais forte. Ela escutava a voz dos anjos, e a sua cabeça recaiu no travesseiro sob o qual se escondia um osso de mártir dentro do seu escrínio de rubis.
No dia seguinte todos os criados interrogados declararam que nenhum havia visto o ermita. Sonho ou realidade, aquilo seria certamente uma comunicação do céu; mas nada revelou, pois não queria que a acusassem de orgulhosa.
Os convivas partiram pelos alvores da madrugada, e, o pai de Julião encontrava-se de parte de fora da poterna (3) onde tinha vindo acompanhar os convidados, quando subitamente um mendigo se apresentou na sua frente, surgindo do nevoeiro. Era um Boémio, de barba encaracolada, pulseiras nos braços e olhos vivos. De repente, como que inspirado, pronunciou estas palavras:
- Ah, o teu filho! Muito vivo e muitas glórias! Muito feliz! A família de um imperador!
Logo que se dobrou para apanhar a esmola, perdeu-se nos campos, desaparecendo. O castelão olhou em redor, chamando-o. Nada. O vento sibilava, a bruma da manhã envolvia-o. Atribuiu esta visão à fadiga do seu cérebro, por ter dormido pouco.
- Se eu falar rir-se-ão de mim - pensou.
Todavia os esplendores destinados ao seu filho, maravilharam-no, se bem que a promessa não fosse clara e duvidasse mesmo de a ter ouvido.
Os esposos calaram-se com o seu segredo. Os dois dedicavam ao menino igual amor, e acreditando que ele estava marcado por Deus rodeavam-no de cuidados infinitos. Por de cima do seu berço que era forrado de penas e do mais fino tecido, uma lamparina em forma de pomba bruxuleava continuadamente.
Três amas o embalavam, e bem apertado nos cueiros, a face rosada, os olhos azuis, com o seu fatinho de seda bordado a oiro e a prata, e a touca debruada a pérolas, assemelhava-se a um Menino Jesus. Os dentes nasceram-lhe sem que tivesse chorado uma só vez.
Quando tinha sete anos, a mãe ensinou-lhe a cantar. Para lhe dar coragem o pai montou-o num fogoso cavalo. O menino sorriu de contentamento e não tardou em saber tudo o que dizia respeito a um mestre de cavalaria. Um velho monge, muito sabedor, ensinou-lhe a santa escritura, a numeração dos árabes, o latim, e a fazer no pergaminho pequenas pinturas. Trabalhavam juntamente no alto de um torreão afim de fugirem ao barulho.
Terminada a lição, invariavelmente desciam ao jardim onde passeavam vagarosamente estudando as flores. Algumas vezes avistavam caminhando na distância do vale uma fila de animais de carga, conduzidos por um peão vestido à oriental. O castelão que o havia reconhecido como um comerciante mandava ao seu encontro um escudeiro.
O estrangeiro, ganhando confiança, desviava-se do seu caminho, e introduzido na portaria, retirava dos seus cofres as peças de veludo e de seda, jóias e perfumes, coisas singulares de um uso desconhecido; por fim o bom homem ia-se embora depois de boa venda, sem ter sofrido qualquer espécie de violência. Doutras vezes, era um grupo de peregrinos que batia à porta. Os seus fatos encharcados secavam diante da lareira, e, quando estavam refeitos, contavam das suas viagens, do balanço dos barcos sobre as ondas do mar, das caminhadas nas areias escaldantes, da ferocidade dos pagãos, das cavernas da Síria, do Palheiro e do Santo Sepulcro. Depois, ofereciam ao jovem senhor conchas (4) tiradas das suas capas. De outras vezes o castelão recebia velhos companheiros de armas.
Enquanto bebiam, falavam das suas guerras, assaltos a fortalezas com o auxílio de máquinas e de ferimentos extraordinários. Julião, que os escutava, soltava gritos, e o pai não duvidava que ele viria a ser, sem dúvida alguma, um conquistador. Mas uma tarde ao sair do Angelus, quando passava por entre mendigos inclinados, abrindo a bolsa, com muita modéstia e um ar nobre, a mãe ficou absolutamente segura que a sua futura carreira seria a eclesiástica. O seu lugar na capela era ao lado dos pais, e por muito longos que fossem os ofícios, permanecia de joelhos no seu lugar, o gorro por terra e as mãos juntas.
Um dia durante a missa, avistou, erguendo a cabeça, um ratito saindo de um buraco da parede. Saltitava no primeiro degrau do altar, e após duas ou três voltas, regressou ao ponto de partida. No domingo seguinte o pensamento de o tornar a ver preocupou-o. Voltou, e cada domingo verificava como ele era importuno, tomou-se de rancor e resolveu matá-lo. Fechou a porta e semeou os degraus com migalhas de um bolo, colocando-se diante do buraco com uma vara na mão. Ao fim de algum tempo um focinhito rosáceo surgiu, depois o corpo. Desfechou um golpe rápido e ficou estupefacto perante o pequeno corpo que deixara de mexer. Uma gota de sangue manchava a laje. Limpou-a rapidamente com a manga, atirou fora o rato e não disse nada a ninguém.
Todas as espécies de passarinhos vinham debicar nas sementes do jardim. Pensou em meter grãos no côncavo de uma cana. Quando ouvia um chilreio numa árvore aproximava-se silenciosamente, erguia a cana e assoprava; e as avezinhas assustadas choviam em seu redor, de tal modo, que ele não podia deixar de rir da sua malícia.
Uma manhã ao afastar a cortina, viu pousado no parapeito da janela, um belo pombo que se espanejava ao sol. Julião agachou-se para o observar; a parede neste lugar tinha uma brecha, enfiou os dedos, apanhou uma pedra, rodou o braço e abateu a ave que caiu no fosso. Precipitou-se em direcção a este, arranhando-se nas silvas, farejando mais lesto que um cachorro. O pombo de asas quebradas, palpitava, suspenso aos ramos de um arbusto.
A resistência da sua vida irritou a criança. Pôs-se a estrangulá-lo e as convulsões do animalzinho faziam palpitar o seu coração envolvendo-o numa volúpia selvagem e tumultuosa. Ao último esticão sentiu-se desfalecer.
À noite, enquanto ceavam, o pai declarou que com a idade de Julião já aprendera a arte de caçar; e foi buscar um velho caderno de apontamentos, contendo perguntas e respostas sobre todas as espécies de caça. Mais tarde um mestre demonstrou ao menino a arte de adestrar cães, de ensinar falcões, de colocar ratoeiras e de reconhecer o veado pelos seus excrementos, a raposa pelas suas pistas, o lobo pelas pegadas, a melhor maneira de discernir os seus trilhos, o modo de o abater e de localizar os seus refúgios; quais eram os ventos mais propícios, enumerando os gritos, e as regras de como devem ser distribuídas aos cães as entranhas dos animais abatidos.
Quando Julião recitou para o pai todas estas normas, este apressou-se em lhe arranjar uma matilha. Nela se distinguiam vinte e quatro galgos africanos, mais rápidos do que gazelas, difíceis de conduzir; dezassete casais de cães da Bretanha, vermelhos, malhados de branco, infalíveis na caça, largos de peito e muito uivadores. Para o ataque ao javali e pistas perigosas, possuía "griffons" (5) peludos como ursos. Os mastins da Tartaria mais altos do que burros, de espinha larga e jarrete direito, eram os destinados à caça grossa. As capas negras dos fraldiqueiros luziam como cetim; os latidos dos "talbots" tapavam todos os outros. Num pátio à parte, rosnavam puxando as trelas e dardejando olhares, oito cães Álamos (6), animais formidáveis e tão ferozes que não tinham medo dos leões. Todos comiam pão de trigo e bebiam em bebedouros de pedra. Tinham nomes sonoros.
A falconaria talvez fosse superior à matilha; o bom senhor, à força de dinheiro, comprara Terçôs do Cáucaso, Sacres da Babilónia, gerifalcos da Alemanha, "falções-peregrinos" capturados nas falésias das praias dos mares frios, em distantes países.
Viviam em barracões cobertos de colmo, e, presos por ordem de alturas aos poleiros, tinham na sua frente um canteiro de relva, onde de quando em quando poisavam a fim de desentorpecer. As bolsas (7), os anzóis, as ratoeiras (8), enfim todos os apetrechos foram feitos. Frequentemente saíam a campo os "cães passarinheiros" que caíam bem depressa sobre as presas. Então os palafroneiros avançavam passo a passo, estendendo com cuidado sobre os seus corpos impassíveis uma larga rede. Um batedor obrigava-os a ladrar; as codornizes esvoaçavam, e as senhoras dos arredores convidadas com seus maridos, as crianças, as camareiras, toda a gente, procurava apanhá-las o que conseguia facilmente. Outras vezes para fazer sair as lebres, batiam tambores; as raposas desembocavam dos fossos como balas, iludindo algum lobo que lhes aparecesse pela frente.
Mas Julião não prestava atenção a estes cómodos divertimentos; gostava mais de caçar longe das gentes, com o seu cavalo e o falcão. Acompanhava-o quase sempre um grande Tártaro (9) de Scythie, branco como a neve. No seu carapuço de coiro flutuava um penacho, os guizos de oiro ressoavam nas patas azuis; e ele mantinha-se firme no braço do dono enquanto o cavalo galopava e os campos se desdobravam na sua frente. Julião, desapertava a correia soltando-o em seguida, e o falcão cortava atrevidamente o espaço como uma flecha. Depois podiam-se ver duas silhuetas diferentes confundindo-se e desaparecendo nas alturas azuis. O falcão não tardava a descer segurando no bico qualquer pássaro e voltava a pousar no guante, com as asas ainda frementes.
Julião caçava deste modo a garça real, o milhafre, a gralha, e o abutre. Gostava de soprar a trompa, seguir os seus cães, que corriam nas vertentes da colina, saltando ribeiros, subindo em direcção ao bosque, e quando o veado mordido começava a gemer, abatia-o de súbito, abandonando-o à fúria dos cães que o devoravam abocando a carne ainda quente. Nos dias de nevoeiro enfronhava-se nos pântanos para esperas aos gansos, lontras e patos bravos.
Naquele dia três escudeiros desde a aurora, que se encontravam no fim da escadaria e o velho monge debruçando-se na sua mansarda fazia grandes sinais chamando-o, mas Julião não regressava. Era sempre assim. Quer fosse com as ardências do sol, com a chuva, com a tempestade, bebendo com as mãos em concha a água dos ribeiros, comendo frutos selvagens enquanto galopava, e se estava fatigado repousando à sombra de um carvalho só voltava pelo escurecer, coberto de sangue e de lodo, com espinhos no cabelo e cheirando a animais ferozes. Imaginava-se como eles. Quando a mãe o acarinhava, aceitava friamente as suas carícias como se estivesse sonhando, ausente.
Matava ursos a golpes de faca, touros com o machado, javalis com o venábulo (10), e mesmo uma vez, nada mais tendo do que um bordão, defendeu-se contra os lobos que estavam devorando cadáveres ao pé de um cadafalso.
Uma manhã de inverno partiu antes de nascer o sol, bem equipado, uma balista (11) ao ombro e um punhado de flechas no arção da sela. O seu ginete dinamarquês seguido de dois podengos, estremecia o terreno. Gotas de geada perolavam a sua capa, uma brisa violenta soprava.
Parte do horizonte clareou, na brancura do crepúsculo, avistou coelhos saltitando perto das suas tocas. Os dois podengos lépidos, atiraram-se a eles, aqui e ali despedaçando-lhes com violência os lombos. Seguidamente entrou num bosque. Num ramo, um galo do campo encolhido pelo frio, dormia com a cabeça sob a asa. Julião com um golpe de espada decepou-lhe as patas, e sem se demorar continuou o seu caminho.
Gustave Flaubert
O pai e a mãe de Julião moravam num castelo no meio de um bosque, na encosta de uma colina. As quatro torres dos ângulos, tinham os tectos pontiagudos, revestidas de chapas de chumbo, e a base das muralhas apoiavam-se sobre blocos de rocha, que desciam abruptamente até ao fundo dos fossos. As calçadas do pátio estavam limpas como o lajeamento de uma igreja. As goteiras figuravam dragões de boca aberta, jorrando água das chuvas para as cisternas; em todos os peitoris das janelas encontrava-se um vaso de plantas, quer fossem basiliscos ou heliotropos (1).
Uma segunda cerca feita de estacaria, rodeava um pomar de árvores de fruto, seguido de um parque onde nos canteiros as flores desenhavam monogramas; depois um fresco túnel de ramaria e um terreiro de jogo da malha que servia de divertimento aos pagens. Do outro lado encontravam-se o canil, as cavalariças, a padaria, o lagar e os celeiros. Uma pastagem de relva verde rodeava-os, enquadrando-os numa espessa sebe de espinhos.
Vivia-se em paz, de modo que nem era preciso fechar a grade de segurança; os fossos estavam cheios de água, as andorinhas faziam o seu ninho nas frestas das ameias, e o archeiro que todo o dia passeava ao longo das muralhas, quando o calor apertava, recolhia-se à sua torrinha e adormecia placidamente. No interior, as ferragens reluziam, as tapeçarias protegiam os quartos do frio, os armários regurgitavam de roupa branca, os tonéis cheios de vinho empilhavam-se nos celeiros, as arcas de carvalho vergavam sob o peso dos sacos de dinheiro. Viam-se na sala de armas entre estandartes e cabeças de animais selvagens, armas de todos os tempos e nações, fundas dos Amalecitas, dardos dos Garamantes (2), alfanges sarracenos e cotas de malha dos Normandos. O maior espeto da cozinha podia voltejar um boi.
A capela era sumptuosa como um oratório de um rei. Havia mesmo num compartimento afastado, uma sala de banhos quentes, como as usadas pelos romanos mas o bom senhor não a utilizava, julgando ser um hábito de idólatras.
Sempre envergando uma pelica de pele de raposa, passeava pela casa, fazia a justiça dos seus vassalos, acalmava as questões entre os vizinhos. Durante o inverno olhava os flocos da neve que caía, ou gostava de ouvir ler histórias. Logo que vinham os primeiros dias bons, montava na mula, indo ao longo dos caminhos sobranceiros aos trigais que reverdesciam, falando com campónios, dando conselhos.
Após muitas aventuras arranjara para esposa uma menina de alta linhagem. Era muito branca, um pouco altiva e sisuda. Os seus cónicos chapéus roçavam nas bandeiras das portas; a cauda do seu vestido arrastava-se três passos atrás de si. A vida da sua casa era regulada como num mosteiro; cada manhã distribuía o trabalho às suas criadas, vigiava as compotas e os unguentos, fiava à roca ou bordava toalhas de altar. E à força de rogar a Deus, acabou por ter um filho. Houve grande alegria, e para a comemorar, um festim que durou três dias e quatro noites, com iluminação de archotes, e música de harpa sob um docel de romarias.
Comeram-se as mais raras iguarias, galinhas tão gordas como carneiros; e entre os divertimentos surgiu um anão de dentro de um bolo; as escudelas não paravam, e como a alegria aumentava sempre, até se bebeu por trompas de marfim e elmos.
A jovem mãe não assistiu a estas festas. Ficara no leito tranquilamente. Uma noite, acordou assustada, e viu envolvida por um raio de luar que entrava pela janela, uma sombra que se movia. Era um ancião vestido com um borel, apertando a cintura com um rosário, de alforge ao ombro enfim toda a aparência de um ermita. Aproximou-se da sua cabeceira e murmurou-lhe sem descerrar os lábios:
- Alegra-te ó mãe, o teu filho será um santo!
Ia para acreditar, mas escorregando sobre o raio de luar, ele ergueu-se docemente no ar e depois desapareceu. Os ecos do banquete soaram mais forte. Ela escutava a voz dos anjos, e a sua cabeça recaiu no travesseiro sob o qual se escondia um osso de mártir dentro do seu escrínio de rubis.
No dia seguinte todos os criados interrogados declararam que nenhum havia visto o ermita. Sonho ou realidade, aquilo seria certamente uma comunicação do céu; mas nada revelou, pois não queria que a acusassem de orgulhosa.
Os convivas partiram pelos alvores da madrugada, e, o pai de Julião encontrava-se de parte de fora da poterna (3) onde tinha vindo acompanhar os convidados, quando subitamente um mendigo se apresentou na sua frente, surgindo do nevoeiro. Era um Boémio, de barba encaracolada, pulseiras nos braços e olhos vivos. De repente, como que inspirado, pronunciou estas palavras:
- Ah, o teu filho! Muito vivo e muitas glórias! Muito feliz! A família de um imperador!
Logo que se dobrou para apanhar a esmola, perdeu-se nos campos, desaparecendo. O castelão olhou em redor, chamando-o. Nada. O vento sibilava, a bruma da manhã envolvia-o. Atribuiu esta visão à fadiga do seu cérebro, por ter dormido pouco.
- Se eu falar rir-se-ão de mim - pensou.
Todavia os esplendores destinados ao seu filho, maravilharam-no, se bem que a promessa não fosse clara e duvidasse mesmo de a ter ouvido.
Os esposos calaram-se com o seu segredo. Os dois dedicavam ao menino igual amor, e acreditando que ele estava marcado por Deus rodeavam-no de cuidados infinitos. Por de cima do seu berço que era forrado de penas e do mais fino tecido, uma lamparina em forma de pomba bruxuleava continuadamente.
Três amas o embalavam, e bem apertado nos cueiros, a face rosada, os olhos azuis, com o seu fatinho de seda bordado a oiro e a prata, e a touca debruada a pérolas, assemelhava-se a um Menino Jesus. Os dentes nasceram-lhe sem que tivesse chorado uma só vez.
Quando tinha sete anos, a mãe ensinou-lhe a cantar. Para lhe dar coragem o pai montou-o num fogoso cavalo. O menino sorriu de contentamento e não tardou em saber tudo o que dizia respeito a um mestre de cavalaria. Um velho monge, muito sabedor, ensinou-lhe a santa escritura, a numeração dos árabes, o latim, e a fazer no pergaminho pequenas pinturas. Trabalhavam juntamente no alto de um torreão afim de fugirem ao barulho.
Terminada a lição, invariavelmente desciam ao jardim onde passeavam vagarosamente estudando as flores. Algumas vezes avistavam caminhando na distância do vale uma fila de animais de carga, conduzidos por um peão vestido à oriental. O castelão que o havia reconhecido como um comerciante mandava ao seu encontro um escudeiro.
O estrangeiro, ganhando confiança, desviava-se do seu caminho, e introduzido na portaria, retirava dos seus cofres as peças de veludo e de seda, jóias e perfumes, coisas singulares de um uso desconhecido; por fim o bom homem ia-se embora depois de boa venda, sem ter sofrido qualquer espécie de violência. Doutras vezes, era um grupo de peregrinos que batia à porta. Os seus fatos encharcados secavam diante da lareira, e, quando estavam refeitos, contavam das suas viagens, do balanço dos barcos sobre as ondas do mar, das caminhadas nas areias escaldantes, da ferocidade dos pagãos, das cavernas da Síria, do Palheiro e do Santo Sepulcro. Depois, ofereciam ao jovem senhor conchas (4) tiradas das suas capas. De outras vezes o castelão recebia velhos companheiros de armas.
Enquanto bebiam, falavam das suas guerras, assaltos a fortalezas com o auxílio de máquinas e de ferimentos extraordinários. Julião, que os escutava, soltava gritos, e o pai não duvidava que ele viria a ser, sem dúvida alguma, um conquistador. Mas uma tarde ao sair do Angelus, quando passava por entre mendigos inclinados, abrindo a bolsa, com muita modéstia e um ar nobre, a mãe ficou absolutamente segura que a sua futura carreira seria a eclesiástica. O seu lugar na capela era ao lado dos pais, e por muito longos que fossem os ofícios, permanecia de joelhos no seu lugar, o gorro por terra e as mãos juntas.
Um dia durante a missa, avistou, erguendo a cabeça, um ratito saindo de um buraco da parede. Saltitava no primeiro degrau do altar, e após duas ou três voltas, regressou ao ponto de partida. No domingo seguinte o pensamento de o tornar a ver preocupou-o. Voltou, e cada domingo verificava como ele era importuno, tomou-se de rancor e resolveu matá-lo. Fechou a porta e semeou os degraus com migalhas de um bolo, colocando-se diante do buraco com uma vara na mão. Ao fim de algum tempo um focinhito rosáceo surgiu, depois o corpo. Desfechou um golpe rápido e ficou estupefacto perante o pequeno corpo que deixara de mexer. Uma gota de sangue manchava a laje. Limpou-a rapidamente com a manga, atirou fora o rato e não disse nada a ninguém.
Todas as espécies de passarinhos vinham debicar nas sementes do jardim. Pensou em meter grãos no côncavo de uma cana. Quando ouvia um chilreio numa árvore aproximava-se silenciosamente, erguia a cana e assoprava; e as avezinhas assustadas choviam em seu redor, de tal modo, que ele não podia deixar de rir da sua malícia.
Uma manhã ao afastar a cortina, viu pousado no parapeito da janela, um belo pombo que se espanejava ao sol. Julião agachou-se para o observar; a parede neste lugar tinha uma brecha, enfiou os dedos, apanhou uma pedra, rodou o braço e abateu a ave que caiu no fosso. Precipitou-se em direcção a este, arranhando-se nas silvas, farejando mais lesto que um cachorro. O pombo de asas quebradas, palpitava, suspenso aos ramos de um arbusto.
A resistência da sua vida irritou a criança. Pôs-se a estrangulá-lo e as convulsões do animalzinho faziam palpitar o seu coração envolvendo-o numa volúpia selvagem e tumultuosa. Ao último esticão sentiu-se desfalecer.
À noite, enquanto ceavam, o pai declarou que com a idade de Julião já aprendera a arte de caçar; e foi buscar um velho caderno de apontamentos, contendo perguntas e respostas sobre todas as espécies de caça. Mais tarde um mestre demonstrou ao menino a arte de adestrar cães, de ensinar falcões, de colocar ratoeiras e de reconhecer o veado pelos seus excrementos, a raposa pelas suas pistas, o lobo pelas pegadas, a melhor maneira de discernir os seus trilhos, o modo de o abater e de localizar os seus refúgios; quais eram os ventos mais propícios, enumerando os gritos, e as regras de como devem ser distribuídas aos cães as entranhas dos animais abatidos.
Quando Julião recitou para o pai todas estas normas, este apressou-se em lhe arranjar uma matilha. Nela se distinguiam vinte e quatro galgos africanos, mais rápidos do que gazelas, difíceis de conduzir; dezassete casais de cães da Bretanha, vermelhos, malhados de branco, infalíveis na caça, largos de peito e muito uivadores. Para o ataque ao javali e pistas perigosas, possuía "griffons" (5) peludos como ursos. Os mastins da Tartaria mais altos do que burros, de espinha larga e jarrete direito, eram os destinados à caça grossa. As capas negras dos fraldiqueiros luziam como cetim; os latidos dos "talbots" tapavam todos os outros. Num pátio à parte, rosnavam puxando as trelas e dardejando olhares, oito cães Álamos (6), animais formidáveis e tão ferozes que não tinham medo dos leões. Todos comiam pão de trigo e bebiam em bebedouros de pedra. Tinham nomes sonoros.
A falconaria talvez fosse superior à matilha; o bom senhor, à força de dinheiro, comprara Terçôs do Cáucaso, Sacres da Babilónia, gerifalcos da Alemanha, "falções-peregrinos" capturados nas falésias das praias dos mares frios, em distantes países.
Viviam em barracões cobertos de colmo, e, presos por ordem de alturas aos poleiros, tinham na sua frente um canteiro de relva, onde de quando em quando poisavam a fim de desentorpecer. As bolsas (7), os anzóis, as ratoeiras (8), enfim todos os apetrechos foram feitos. Frequentemente saíam a campo os "cães passarinheiros" que caíam bem depressa sobre as presas. Então os palafroneiros avançavam passo a passo, estendendo com cuidado sobre os seus corpos impassíveis uma larga rede. Um batedor obrigava-os a ladrar; as codornizes esvoaçavam, e as senhoras dos arredores convidadas com seus maridos, as crianças, as camareiras, toda a gente, procurava apanhá-las o que conseguia facilmente. Outras vezes para fazer sair as lebres, batiam tambores; as raposas desembocavam dos fossos como balas, iludindo algum lobo que lhes aparecesse pela frente.
Mas Julião não prestava atenção a estes cómodos divertimentos; gostava mais de caçar longe das gentes, com o seu cavalo e o falcão. Acompanhava-o quase sempre um grande Tártaro (9) de Scythie, branco como a neve. No seu carapuço de coiro flutuava um penacho, os guizos de oiro ressoavam nas patas azuis; e ele mantinha-se firme no braço do dono enquanto o cavalo galopava e os campos se desdobravam na sua frente. Julião, desapertava a correia soltando-o em seguida, e o falcão cortava atrevidamente o espaço como uma flecha. Depois podiam-se ver duas silhuetas diferentes confundindo-se e desaparecendo nas alturas azuis. O falcão não tardava a descer segurando no bico qualquer pássaro e voltava a pousar no guante, com as asas ainda frementes.
Julião caçava deste modo a garça real, o milhafre, a gralha, e o abutre. Gostava de soprar a trompa, seguir os seus cães, que corriam nas vertentes da colina, saltando ribeiros, subindo em direcção ao bosque, e quando o veado mordido começava a gemer, abatia-o de súbito, abandonando-o à fúria dos cães que o devoravam abocando a carne ainda quente. Nos dias de nevoeiro enfronhava-se nos pântanos para esperas aos gansos, lontras e patos bravos.
Naquele dia três escudeiros desde a aurora, que se encontravam no fim da escadaria e o velho monge debruçando-se na sua mansarda fazia grandes sinais chamando-o, mas Julião não regressava. Era sempre assim. Quer fosse com as ardências do sol, com a chuva, com a tempestade, bebendo com as mãos em concha a água dos ribeiros, comendo frutos selvagens enquanto galopava, e se estava fatigado repousando à sombra de um carvalho só voltava pelo escurecer, coberto de sangue e de lodo, com espinhos no cabelo e cheirando a animais ferozes. Imaginava-se como eles. Quando a mãe o acarinhava, aceitava friamente as suas carícias como se estivesse sonhando, ausente.
Matava ursos a golpes de faca, touros com o machado, javalis com o venábulo (10), e mesmo uma vez, nada mais tendo do que um bordão, defendeu-se contra os lobos que estavam devorando cadáveres ao pé de um cadafalso.
Uma manhã de inverno partiu antes de nascer o sol, bem equipado, uma balista (11) ao ombro e um punhado de flechas no arção da sela. O seu ginete dinamarquês seguido de dois podengos, estremecia o terreno. Gotas de geada perolavam a sua capa, uma brisa violenta soprava.
Parte do horizonte clareou, na brancura do crepúsculo, avistou coelhos saltitando perto das suas tocas. Os dois podengos lépidos, atiraram-se a eles, aqui e ali despedaçando-lhes com violência os lombos. Seguidamente entrou num bosque. Num ramo, um galo do campo encolhido pelo frio, dormia com a cabeça sob a asa. Julião com um golpe de espada decepou-lhe as patas, e sem se demorar continuou o seu caminho.
Gustave Flaubert
Um Fantasma
I. As trevas
Nos porões de tristeza impenetrável
Onde o destino um dia me esqueceu;
Onde jamais um róseo raio ardeu,
Só com a noite, hospedeira intratável,
Sou qual pintor que um deus, por diversão,
Na treva faz mover seus pincéis,
Ou o cozinheiro de apetites cruéis
Que assa e devora o próprio coração.
Súbito brilha e faz ali presente
Fantasma esplêndido e de graça extrema
Em oriental postura evanescente.
Ao atingir a perfeição suprema,
Nele percebo a bela visitante:
Ei-la! Negra e contudo fulgurante.
II. O Perfume
Leitor, tens já por vezes respirado
Com embriaguez e lenta gostosura
O grão de incenso que enche uma clausura
Ou de um saquinho o almíscar entranhado?
Sutil e estranho encanto transfigura
Em nosso agora a imagem do passado.
Assim o amante sobre o corpo amado
À flor mais rara colhe o que perdura.
Da cabeleira espessa como crina,
Turíbulo de alcova, ébria almofada,
Vinha uma essência rútila e indomada,
E das vestes, veludo e musselina,
Que sua tenra idade penetrava,
Um perfume de pêlos se evolava.
III. A Moldura
Como à tela se ajusta uma moldura
– Não importa do artista a sutileza –,
Isolando-a da imensa natureza,
Um não-sei-quê de mágica textura,
Assim jóias, metais e douradura
Ajustavam-se à sua irreal beleza;
Nada ofuscava-lhe a integral clareza,
E tudo lhe era como cercadura.
Dir-se-ia muita vez que ela supunha
Tudo existir para adorá-la e expunha
Sua nudez com gozo e encantamento
Às carícias do linho e do cetim,
E, suave ou brusca, a cada movimento
Mostrava a graça ingênua do sagüim.
IV. O Retrato
A Doença e a Morte tornam cinza todo
Aquele fogo que por nós ardeu.
Dos olhos a me olhar daquele modo,
Da boca onde meu ser se dissolveu,
Dos beijos sempre fiéis a uma ordem dada,
Dos êxtases mais vivos que fulgores,
Que resta? É horrível, ó minha alma! Nada
Mais que um pálido esboço de três cores
Que se extingue, como eu, na solitude,
E que o Tempo, sem pressa e em toda parte
Vai roçando com asa amarga e rude...
Negro assassino da Vida e da Arte,
Jamais hás de matar-me na memória
A que foi meu prazer e minha glória!
Charles Baudelaire
Nos porões de tristeza impenetrável
Onde o destino um dia me esqueceu;
Onde jamais um róseo raio ardeu,
Só com a noite, hospedeira intratável,
Sou qual pintor que um deus, por diversão,
Na treva faz mover seus pincéis,
Ou o cozinheiro de apetites cruéis
Que assa e devora o próprio coração.
Súbito brilha e faz ali presente
Fantasma esplêndido e de graça extrema
Em oriental postura evanescente.
Ao atingir a perfeição suprema,
Nele percebo a bela visitante:
Ei-la! Negra e contudo fulgurante.
II. O Perfume
Leitor, tens já por vezes respirado
Com embriaguez e lenta gostosura
O grão de incenso que enche uma clausura
Ou de um saquinho o almíscar entranhado?
Sutil e estranho encanto transfigura
Em nosso agora a imagem do passado.
Assim o amante sobre o corpo amado
À flor mais rara colhe o que perdura.
Da cabeleira espessa como crina,
Turíbulo de alcova, ébria almofada,
Vinha uma essência rútila e indomada,
E das vestes, veludo e musselina,
Que sua tenra idade penetrava,
Um perfume de pêlos se evolava.
III. A Moldura
Como à tela se ajusta uma moldura
– Não importa do artista a sutileza –,
Isolando-a da imensa natureza,
Um não-sei-quê de mágica textura,
Assim jóias, metais e douradura
Ajustavam-se à sua irreal beleza;
Nada ofuscava-lhe a integral clareza,
E tudo lhe era como cercadura.
Dir-se-ia muita vez que ela supunha
Tudo existir para adorá-la e expunha
Sua nudez com gozo e encantamento
Às carícias do linho e do cetim,
E, suave ou brusca, a cada movimento
Mostrava a graça ingênua do sagüim.
IV. O Retrato
A Doença e a Morte tornam cinza todo
Aquele fogo que por nós ardeu.
Dos olhos a me olhar daquele modo,
Da boca onde meu ser se dissolveu,
Dos beijos sempre fiéis a uma ordem dada,
Dos êxtases mais vivos que fulgores,
Que resta? É horrível, ó minha alma! Nada
Mais que um pálido esboço de três cores
Que se extingue, como eu, na solitude,
E que o Tempo, sem pressa e em toda parte
Vai roçando com asa amarga e rude...
Negro assassino da Vida e da Arte,
Jamais hás de matar-me na memória
A que foi meu prazer e minha glória!
Charles Baudelaire
Em busca do tempo perdido
"Sobretudo, devemos dizer a nós próprios o seguinte: por um lado, a mentira é muitas vezes um traço de carácter; por outro lado, nas mulheres que sem isso não seriam mentirosas, é uma defesa natural improvisada, e depois cada vez mais organizada, contra esse perigo súbito que seria capaz de destruir toda a sua vida: o amor. Por outro lado, não é por acaso que os seres intelectuais e sensíveis se dão sempre a mulheres insensíveis e inferiores, apegando-se-lhes a tal ponto que a prova de que não são amados não os cura do hábito de tudo sacrificar para conservarem junto de si uma tal mulher. Se digo que tais homens precisam de sofrer, digo uma coisa exacta, suprimindo as verdades preliminares que fazem dessa necessidade - de certo modo involuntária - de sofrer uma consequência perfeitamente compreensível dessas verdades. Sem contar que , sendo raras as naturezas completas, um ser muito intelectual e sensível terá geralmente uma vontade fraca , será o joguete do hábito e desse modo de sofrer no minuto seguinte que vota aos sofrimentos perpétuos, e nessas condições nunca poderá repudiar a mulher que não o ama . Admira-nos que ele se contente com tão pouco amor; antes deveríamos imaginar a dor que pode causar-lhe o amor que ele sente. Dor que não se deve lastimar muito, pois com as terríveis comoções que nos causam o amor infeliz, a partida ou a morte de uma amante, sucede o mesmo que com esses ataques de paralisia que primeiro nos fulminam, mas depois dos quais os nossos músculos tendem a recuperar pouco a pouco a elasticidade e a energia vitais. Além disso, essa dor não deixa de ter as suas compensações. Esses seres intelectuais e sensíveis são geralmente pouco propensos à mentira. Esta apanha-os tanto mais desprevenidos quanto, mesmo muito inteligentes, eles vivem no mundo dos possíveis, reagem pouco, vivem mais na dor que uma mulher acaba de infligir-lhes do que na clara percepção do que ela queria, do que ela fazia, do que ela gostava, percepção que é dada somente às naturezas voluntariosas e que precisam disso para preparar o futuro em vez de chorar o passado. Por conseguinte esses seres sentem-se enganados sem saber como. Por isso a mulher medíocre, que se espantava de os ver amarem-na, enriquece-lhes bem mais o universo do que o faria uma mulher inteligente. Por trás de cada uma das suas palavras, eles sentem uma mentira; por trás de cada casa onde ela diz ter ido, uma outra casa; por trás de cada acção , de cada ser, outra acção, outro ser. Sem dúvida, não sabem quais, não têm a energia nem porventura a possibilidade de chegar a saber. Uma mulher mentirosa, com um truque extremamente simples, e sem se dar ao trabalho de modificá-lo, pode ludibriar uma quantidade de pessoas, e até aquela que tinha obrigação de descobri-lo. Tudo isso cria, diante do intelectual sensível, um universo todo de profundezas, que o seu ciúme desejaria sondar e que não deixam de interessar a sua inteligência. Sem ser precisamente desses, eu ia talvez, agora que Albertine estava morta, saber o segredo da sua vida. Mas isso, essas indiscrições que só se produzem quando a vida terrestre de uma pessoa acabou, não provam antes que, no fundo, ninguém acredita numa vida futura? Se essas indiscrições são verdadeiras, deveríamos temer o ressentimento daquela cujas acções desvendamos, no dia em que a encontrarmos no céu, como o temíamos quando ela era viva e nos sentíamos obrigados a guardar segredo. E se essas indiscrições são falsas, inventadas porque ela já cá não está para as desmentir, deveríamos recear ainda mais a cólera da morte se acreditamos no céu. Mas ninguém acredita."
Marcel Proust
Marcel Proust
Lirismo
"não quero mais saber do
lirismo que não é libertação.
(...) Quero antes o lirismo
dos loucos/ O lirismo dos bebados".
Manuel Bandeira
lirismo que não é libertação.
(...) Quero antes o lirismo
dos loucos/ O lirismo dos bebados".
Manuel Bandeira
Uma Alma Simples
(Techo)
Teve, como qualquer outra, a sua história de amor. O pai, um pedreiro, morrera tendo caído de um andaime. Depois morreu a mãe, as irmãs dispersaram-se, um quinteiro recolheu-a e empregou-a, ainda de pequenina, a guardar as vacas no campo.
Tiritava sob os farrapos, bebia a água dos charcos, estendida de bruços, no chão. Foi sovada a propósito de tudo e de nada e, finalmente, expulsa por causa de um roubo de trinta soldos que não cometera. Entrou para outra quinta e serviu como encarregada da criação. Porque agradava aos patrões, as suas camaradas invejavam-na.
Numa noite do mês de Agosto (tinha então dezoito anos) os patrões levaram-na a uma festa em Colleville. Ficou aturdida, estupefacta com o alarido dos tocadores, as luzes nas árvores, a variedade de trajes, as rendas, as cruzes de ouro, a multidão que se movia.
Conservava-se recatadamente afastada quando um rapaz, de aspecto rico e que fumava o seu cachimbo, apoiando os cotovelos sobre a lança de um pequeno carro, veio convidá-la para dançar.
Pagou-lhe cidra, café, bolo folhado, deu-lhe um lenço de seda e, julgando que ela compreendia as suas intenções, ofereceu-se para a acompanhar a casa. Num campo de aveia atirou-a, brutalmente, ao chão. Ela teve medo e começou a gritar. Ele afastou-se.
Numa outra tarde, na estrada de Beaumont, ao ultrapassar um grande carro cheio de feno que avançava, lentamente, reconheceu Teodoro. Este veio ter com ela pedindo que lhe perdoasse, pois "a culpa tinha sido da bebida". Não soube que responder e teve vontade de fugir. Depois ele falou sobre as colheitas e pessoas importantes da comuna e, visto que seu pai tinha trocado Colleville pela quinta de Ecots, eis a razão porque eram vizinhos. "Ah! " - disse ela. Ele acrescentou que desejavam casa-lo. Mas não tinha pressa, pois esperava encontrar mulher a seu gosto. Felicidade baixou a cabeça. Ele perguntou-lhe se pensava em casar. Ela retorquiu, rindo-se, que não era bonito gracejar com coisas tão sérias. "Mas não! Juro-te que falo a sério", e, com o braço esquerdo, apertou-lhe a cintura. Caminhava, assim, apoiada nele. Retardaram o passo. O vento soprava brando, as estrelas brilhavam e a enorme carripana de feno oscilava na sua frente. Os quatro cavalos, arrastando os passos, levantavam nuvens de poeira. Depois, sem governo, voltaram à direita. Ele abraçou-a uma vez mais. Ela desapareceu na sombra.
Na semana seguinte Teodoro conseguiu encontrar-se várias vezes com Felicidade, sob uma árvore isolada, ao fundo das capoeiras, por detrás de um muro. Não era inocente como as meninas recatadas - os animais haviam-na instruído; mas a razão e o instinto da honra impediram-na de cair. Esta resistência exasperou o amor de Teodoro ainda que, para satisfaze-lo, (ou talvez sinceramente) lhe haja proposto casamento. Ela hesitou em acreditar. Todavia ele fez grandes promessas.
Depressa confessou algo aborrecido: os pais, no ano transacto, haviam-no feito substituir no serviço militar por um outro homem a quem pagaram para esse efeito. Mas, de um dia para o outro, poderiam vir buscá-lo. A ideia de servir o exército amedrontava-o.
Esta cobardia foi para Felicidade uma prova de ternura. A sua por ele duplicou. Escapava-se, de noite e, quando se encontravam, Teodoro torturava-a com os seus receios e as suas instâncias.
Por fim disse-lhe que iria à Prefeitura colher informações e trá-las-ia, no domingo seguinte, entre as onze horas e a meia-noite.
No momento aprazado correu para o noivo. Em seu lugar encontrou um dos amigos. Este fez-lhe saber que não deviam encontrar-se mais.
Para conseguir fugir ao alistamento militar, Teodoro casara-se com uma velha muito rica, a senhora Lehoussais, de Toucques.
Sentiu uma amargura imensa. Atirou-se ao chão, gritou, invocou Deus e, sozinha, chorou até ao nascer do sol. Em seguida voltou à quinta e participou que saía. No fim do mês, feitas as contas, enrolou toda a sua bagagem num lenço e dirigiu-se a Pont-l'Evêque.
Em frente da estalagem encontrou uma viúva que, precisamente, procurava uma cozinheira. A rapariga pouco sabia mas parecia ter tão boa vontade e tão poucas exigências que a senhora Aubain acabou por dizer:
- "Está bem, aceito-a"!
Felicidade um quarto de hora depois estava na nova casa. A princípio viveu numa espécie de receio que lhe causavam "o género da casa" e a "recordação do senhor", dominando tudo.
Paulo e Virgínia, aquele de sete anos de idade, e esta de quatro anos, pareciam-lhe feitos de uma matéria preciosa. Andava com eles às cavalitas e a senhora Aubain proibiu-a de os beijar, de minuto a minuto, o que a martirizou.
Todavia sentia-se feliz. A doçura do ambiente eclipsara a sua tristeza.
Às quintas-feiras apareciam as costumadas visitas para a partida do boston. Felicidade preparava, de antemão, as cartas e os aquecedores. Chegavam, justamente, às oito horas da noite e saiam antes das onze badaladas.
Às segundas-feiras, pela manhã, o ferro velho, que morava na rua, estendia no chão a sucata. Pouco a pouco a cidade enchia-se de um ruído de vozes a que se misturavam os relinchos dos cavalos, o balar dos cordeiros, o grunhir dos porcos e a trepidação seca dos carros na calçada.
Perto do meio-dia, quando o mercado atingia o auge, aparecia, à entrada da porta da senhora Aubain, um velho camponês, desempenado, boné lançado para a nuca, nariz recurvo e que era, nem mais nem menos, Robelin, o quinteiro de Geffosses. Pouco tempo depois vinha Liébard, o quinteiro de Toucques, pequeno, avermelhado, obeso, vestindo de cinzento o calçando polainas altas de couro, armadas de esporas. Ambos ofereciam à sua proprietária frangos e queijos.
Felicidade, invariavelmente, frustrava as suas intenções manhosas e eles saíam cheios de consideração por ela.
De tempos a tempos a senhora Aubain recebia a visita do marquês de Grémanville, seu tio, arruinado por causa do jogo e que vivia em Falaise, no último pedaço das suas imensas terras de outrora.
Chegava sempre à hora do almoço, com um cão de água muito feio que, com as patas, sujava os móveis. Apesar dos esforços para parecer elegante, chegando a tirar o chapéu sempre que dizia "meu falecido pai" todavia, cedendo ao hábito, bebia cálix após cálix, larachando sempre. Felicidade despedia-o:
- "O senhor ainda tem muito que fazer, senhor de Grémanville! Até outro dia". E fechava a porta.
Abria-a com prazer ao senhor Bourais, antigo procurador. A gravata branca, a calvície, o peitilho da camisa, a ampla sobrecasaca castanha, a sua maneira de gesticular, descrevendo círculos no ar quando fazia cálculos, todo este conjunto produzia nela perturbação semelhante àquela que em nós provoca a presença de qualquer homem extraordinário.
Administrava as propriedades da senhora e, por isso, fechava-se com ela durante horas no escritório do "senhor", receava sempre comprometer-se, respeitava intimamente a magistratura e tinha pretensão a latinista.
Para instruir de forma agradável as crianças ofereceu-lhes urna geografia com gravuras. Representavam diferentes curiosidades do mundo, tais como antropófagos coroados de penas, um macaco roubando uma menina, os beduínos no deserto, uma baleia ao ser arpoada, etc.
Paulo explicou estes desenhos a Felicidade. Foi esta, precisamente, toda a sua educação literária. A das crianças era ministrada por Guyot, um pobre diabo empregado na Câmara, famoso pela sua boa caligrafia e que amolava o canivete nas botas.
Quando o tempo estava bom partiam cedo para a quinta de Geffosses. O pátio ficava numa encosta e a casa no meio dele; ao longe, o mar aparecia como uma mancha cinzenta.
Felicidade retirava do cabaz fatias de carne fria e almoçavam numa casa contígua à vacaria. Eram os últimos vestígios de uma casa de recreio, agora desaparecida. O papel das paredes, às tiras, tremia com as correntes de ar. A senhora Aubain inclinava a fronte repleta de recordações; as crianças não se atreviam a falar.
- "Brinquem"! ordenava. Elas desapareciam. Paulo subia ao celeiro, apanhava pássaros, fazia ricochetes na água ou batia com um pau nas enormes pipas que ressoavam como tambores.
Virgínia dava comida aos coelhos, apanhava miosótis e, na rapidez da corrida, deixava ver as calcinhas bordadas.
Uma tarde de outono voltaram através das pastagens. A lua, no seu primeiro quarto, iluminava uma parte do céu e a neblina flutuava como um manto sobre as sinuosidades de Toucques.
Bois, deitados no meio da relva, olhavam tranquilamente as quatro pessoas que passavam. Na terceira pastagem alguns ergueram-se na frente deles, olhando em volta.
- "Não tenham medo" - disse Felicidade e, murmurando uma espécie de lamento, acariciou o lombo do que lhe ficava mais perto: ele voltou-se, os outros imitaram-no. Mas quando atravessavam a pastagem seguinte ouviram um formidável mugido. Era um touro que o nevoeiro ocultava. Avançou para as duas mulheres. A senhora Aubain ia correr.
- "Não, não, mais devagar". - Apesar disso apressaram o passo e ouviam atrás um sopro ruidoso que se aproximava. Os cascos, como martelos, batiam a erva do prado. Ei-lo que galopa agora. Felicidade voltou-se e com ambas as maus arrancava pedaços de relva que ia atirando para os olhos.
O touro baixava o focinho, sacudia os cornos, tremia de furor, mugindo horrivelmente.
A senhora Aubain, ao fundo da passagem, procurava, desvairada, transpor o alto muro. Felicidade recuava sempre diante do touro, lançando-lhe continuadamente os pedaços de relva com terra agarrada, que o cegavam, gritando:
- "Despachai-vos! Despachai-vos !"
A senhora Aubain desceu o fosso e pousou Virgínia, Paulo fez várias tentativas para subir o talude, mas caía. Por fim conseguiu-o à força de coragem.
O touro encurralou Felicidade numa vedação. A sua baba salpicava-lhe já a cara. Um segundo mais e estripava-a. Teve tempo de se escapar por entre dois varões e o corpulento animal, surpreendido, parou.
Durante muitos anos, este acontecimento foi motivo de conversa em Pont-l'Evêque. Felicidade não se mostrou orgulhosa com o facto nem pensou que tivesse feito algo de heróico.
Virgínia ocupava-a, exclusivamente, porque teve, em consequência do susto, uma doença nervosa e o Dr. Poupart aconselhou banhos de mar em Trouville. Nesse tempo não eram frequentados. A senhora Aubain colheu informações e fez preparativos para uma longa viagem.
A bagagem seguiu, de véspera, no carro de Liébard.
No dia seguinte trouxe este dois cavalos, um com sela para mulher, munida de um espaldar de veludo. Na garupa do segundo, uma manta enrolada formava uma espécie de cadeira. A senhora Aubain tomou lugar atrás de Liébard. Felicidade encarregou-se de Virgínia e Paulo escarrapachou-se no burro do senhor Lechaptois, emprestado sob condição de terem com ele o maior cuidado.
A estrada era tão má que, para percorrem oito quilómetros, gastaram duas horas. Os cavalos afundavam-se na lama, fazendo, para sair dela, bruscos movimentos de ancas. Umas vezes tropeçavam no rodado vincado na estrada. Outras, era preciso saltar.
O jumento de Liébard, em certas alturas, parava bruscamente. Cheio de paciência o dono esperava que recomeçasse a andar. Falava a respeito dos proprietários das terras que ladeavam o caminho, juntando às histórias reflexões de ordem moral. Assim, no meio de Toucques, ao passar sob uma janela cercada por uma trepadeira disse, encolhendo os ombros: - "aqui está uma, a senhora Lehoussais que, em vez de ter casado com um rapaz novo..." Felicidade não ouviu o resto. Os cavalos trotavam, o burro galopava. Enfiaram por um atalho, contornando uma barreira; apareceram dois rapazes e desceram mesmo à porta da estrebaria.
A tia Liébard, ao ver a patroa prodigalizou-lhe demonstrações de alegria. Serviu-lhes um almoço composto de costela de vaca, tripas, morcela, frango de fricassé, cidra espumante, uma torta de compotas e brunhos em aguardente, acompanhando tudo isto de mesuras e gentilezas para com a senhora Aubain que parecia de "óptima saúde", a menina, agora "magnífica" e o menino Paulo, singularmente "crescido", sem esquecer seus falecidos avós que os Liébard tinham conhecido, pois estavam ao serviço da família desde há muitas gerações.
A quinta tinha, como eles, um aspecto vetusto. As vigas do tecto estavam carunchosas, as paredes negras do fumo, os vidros das janelas cinzentos de poeira.
Sobre um aparador de castanho via-se toda a espécie de utensílios: canjirões, pratos, escudelas de estanho, armadilhas, tesouras de tosquiar carneiros. Uma enorme seringa fez rir as crianças.
Todas as árvores dos três quintais tinham cogumelos na base ou camadas de visco nos ramos. O vento derrubara várias delas; renasceram e vergavam, agora, sob o peso dos frutos.
Os tectos de palha, semelhantes a veludo castanho e de espessuras diferentes, resistiam às mais fortes borrascas. Entretanto a cocheira caía, em ruínas. A senhora Aubain dizia que tomaria providências e mandou que aparelhassem os animais.
Demoraram meia hora a chegar a Trouville.
A pequena caravana apeou-se para atravessar os Ecores; tratava-se de uma falésia a prumo sobre os barcos. E, três minutos mais tarde, ao fundo do cais entraram no pátio do "Cordeiro de ouro", casa da tia David.
Virgínia, poucos dias depois, sentiu-se menos fraca, resultado da mudança de ares e da acção dos banhos. Tomava-os em camisa, à falta de fato de banho e a criada vestia-a na cabana do guarda da alfândega. Todos os banhistas, aliás, faziam o mesmo. À tarde iam com o burro para lá das rochas negras, para as bandas de hennequeville. O atalho, a princípio, subia por entre terrenos cobertos de relva, como um prado, depois atingia o planalto, onde alternavam as pastagens e os campos de lavoura.
Ladeavam-no moutas de espinheiros de entre os quais se elevavam, altaneiros, os azevinhos. Aqui e além uma grande árvore desenhava no ar azul ziguezagues, com os seus ramos. Quase sempre repousavam num prado, tendo Deauville à esquerda, o Havre à direita e, em frente, o mar. Este, liso como um espelho, brilhava com o sol e de tal maneira brando que se ouvia apenas o seu murmúrio. Pardais ocultos pipiavam e a abóbada imensa do céu cobria tudo isto.
A senhora Aubain, sentada, costurava. Virgínia, perto dela, entrançava juncos. Felicidade sachava as flores de alfazema. Paulo, aborrecido, queria partir. Outras vezes, tendo atravessado de barco para Toucques, procuravam conchas. A maré baixa deixava a descoberto ouriços do mar e medusas; e as crianças corriam para os flocos de espuma que o vento arrastava. As ondas adormecidas, caindo sobre a areia, desdobravam-se, ao longo da praia; esta estendia-se a perder de vista mas do lado da terra, tinha por limite as dunas do "Marais", larga pradaria, em forma de hipódromo.
Quando voltavam, Trouville, ao fundo na encosta da colina, aumentava de tamanho, a cada passo e, com as casas desiguais, parecia espalhar-se numa desordem alegre.
Nos dias mais quentes não saiam do quarto. A deslumbrante clareza de fora chapeava barras de luz entre as travessas das gelosias. Nenhum ruído na povoação. Em baixo ninguém nos passeios. Este silêncio generalizado aumentava a tranquilidade das coisas.
Ao longe os martelos dos calafates batiam as quilhas das embarcações e uma brisa pesada trazia o cheiro do alcatrão.
O principal divertimento era constituído pelo regresso dos barcos. Desde que ultrapassavam as balizas começavam a bordejar. As velas desciam para dois terços dos mastros e, com a mezena inchada como um balão, avançavam, deslizavam por entre o marulhar das vagas, até ao meio do porto, onde a âncora imediatamente caía. Depois os barcos colocavam-se em frente do cais. Os marujos lançavam por cima do costado dos barcos, peixes ainda vivos, a saltar. Uma fila de carros esperava e as mulheres, com lenços de algodão esforçavam-se por segurar os cabazes e abraçar os seus maridos.
Uma delas, um dia, foi ter com Felicidade que, pouco depois, entrou no quarto, toda satisfeita: tinha encontrado uma irmã.
Anastácia Barette, mulher de Leroux, apareceu com um bebé ao colo, outro pela mão direita e, à esquerda, um outro vestido de marujo, de punhos na anca e gorro enterrado até às orelhas.
Ao fim de um quarto de hora a senhora Aubain despediu-a.
Encontravam-nos sempre nas proximidades da cozinha ou quando passeavam. O marido não aparecia.
Felicidade tomou-lhes afeição. Comprou-lhes uma manta, camisas, um fogão; evidentemente eles exploravam-na.
Esta fraqueza de Felicidade irritava os nervos da senhora Aubain, que, além disso, não gostava das familiaridades do sobrinho porque ele tuteava seu filho. E, como Virgínia tossia e a estação já não era boa, voltaram para Pont-l'Evêque.
O senhor Bourais ajudou-a a escolher um colégio. O de Caen passava por ser o melhor Paulo foi pois para lá e portou-se bem à despedida, foi mesmo valente, satisfeito por ir viver para uma casa onde passava a ter camaradas.
A senhora Aubain, conformou-se com o afastamento do filho, porque era indispensável. Virgínia pensou nele pouco. Felicidade lamentava-se com alarido. Mas uma ocupação veio distraí-la: a partir do Natal levava todos os dias a menina à catequese.
Gustave Flaubert
Teve, como qualquer outra, a sua história de amor. O pai, um pedreiro, morrera tendo caído de um andaime. Depois morreu a mãe, as irmãs dispersaram-se, um quinteiro recolheu-a e empregou-a, ainda de pequenina, a guardar as vacas no campo.
Tiritava sob os farrapos, bebia a água dos charcos, estendida de bruços, no chão. Foi sovada a propósito de tudo e de nada e, finalmente, expulsa por causa de um roubo de trinta soldos que não cometera. Entrou para outra quinta e serviu como encarregada da criação. Porque agradava aos patrões, as suas camaradas invejavam-na.
Numa noite do mês de Agosto (tinha então dezoito anos) os patrões levaram-na a uma festa em Colleville. Ficou aturdida, estupefacta com o alarido dos tocadores, as luzes nas árvores, a variedade de trajes, as rendas, as cruzes de ouro, a multidão que se movia.
Conservava-se recatadamente afastada quando um rapaz, de aspecto rico e que fumava o seu cachimbo, apoiando os cotovelos sobre a lança de um pequeno carro, veio convidá-la para dançar.
Pagou-lhe cidra, café, bolo folhado, deu-lhe um lenço de seda e, julgando que ela compreendia as suas intenções, ofereceu-se para a acompanhar a casa. Num campo de aveia atirou-a, brutalmente, ao chão. Ela teve medo e começou a gritar. Ele afastou-se.
Numa outra tarde, na estrada de Beaumont, ao ultrapassar um grande carro cheio de feno que avançava, lentamente, reconheceu Teodoro. Este veio ter com ela pedindo que lhe perdoasse, pois "a culpa tinha sido da bebida". Não soube que responder e teve vontade de fugir. Depois ele falou sobre as colheitas e pessoas importantes da comuna e, visto que seu pai tinha trocado Colleville pela quinta de Ecots, eis a razão porque eram vizinhos. "Ah! " - disse ela. Ele acrescentou que desejavam casa-lo. Mas não tinha pressa, pois esperava encontrar mulher a seu gosto. Felicidade baixou a cabeça. Ele perguntou-lhe se pensava em casar. Ela retorquiu, rindo-se, que não era bonito gracejar com coisas tão sérias. "Mas não! Juro-te que falo a sério", e, com o braço esquerdo, apertou-lhe a cintura. Caminhava, assim, apoiada nele. Retardaram o passo. O vento soprava brando, as estrelas brilhavam e a enorme carripana de feno oscilava na sua frente. Os quatro cavalos, arrastando os passos, levantavam nuvens de poeira. Depois, sem governo, voltaram à direita. Ele abraçou-a uma vez mais. Ela desapareceu na sombra.
Na semana seguinte Teodoro conseguiu encontrar-se várias vezes com Felicidade, sob uma árvore isolada, ao fundo das capoeiras, por detrás de um muro. Não era inocente como as meninas recatadas - os animais haviam-na instruído; mas a razão e o instinto da honra impediram-na de cair. Esta resistência exasperou o amor de Teodoro ainda que, para satisfaze-lo, (ou talvez sinceramente) lhe haja proposto casamento. Ela hesitou em acreditar. Todavia ele fez grandes promessas.
Depressa confessou algo aborrecido: os pais, no ano transacto, haviam-no feito substituir no serviço militar por um outro homem a quem pagaram para esse efeito. Mas, de um dia para o outro, poderiam vir buscá-lo. A ideia de servir o exército amedrontava-o.
Esta cobardia foi para Felicidade uma prova de ternura. A sua por ele duplicou. Escapava-se, de noite e, quando se encontravam, Teodoro torturava-a com os seus receios e as suas instâncias.
Por fim disse-lhe que iria à Prefeitura colher informações e trá-las-ia, no domingo seguinte, entre as onze horas e a meia-noite.
No momento aprazado correu para o noivo. Em seu lugar encontrou um dos amigos. Este fez-lhe saber que não deviam encontrar-se mais.
Para conseguir fugir ao alistamento militar, Teodoro casara-se com uma velha muito rica, a senhora Lehoussais, de Toucques.
Sentiu uma amargura imensa. Atirou-se ao chão, gritou, invocou Deus e, sozinha, chorou até ao nascer do sol. Em seguida voltou à quinta e participou que saía. No fim do mês, feitas as contas, enrolou toda a sua bagagem num lenço e dirigiu-se a Pont-l'Evêque.
Em frente da estalagem encontrou uma viúva que, precisamente, procurava uma cozinheira. A rapariga pouco sabia mas parecia ter tão boa vontade e tão poucas exigências que a senhora Aubain acabou por dizer:
- "Está bem, aceito-a"!
Felicidade um quarto de hora depois estava na nova casa. A princípio viveu numa espécie de receio que lhe causavam "o género da casa" e a "recordação do senhor", dominando tudo.
Paulo e Virgínia, aquele de sete anos de idade, e esta de quatro anos, pareciam-lhe feitos de uma matéria preciosa. Andava com eles às cavalitas e a senhora Aubain proibiu-a de os beijar, de minuto a minuto, o que a martirizou.
Todavia sentia-se feliz. A doçura do ambiente eclipsara a sua tristeza.
Às quintas-feiras apareciam as costumadas visitas para a partida do boston. Felicidade preparava, de antemão, as cartas e os aquecedores. Chegavam, justamente, às oito horas da noite e saiam antes das onze badaladas.
Às segundas-feiras, pela manhã, o ferro velho, que morava na rua, estendia no chão a sucata. Pouco a pouco a cidade enchia-se de um ruído de vozes a que se misturavam os relinchos dos cavalos, o balar dos cordeiros, o grunhir dos porcos e a trepidação seca dos carros na calçada.
Perto do meio-dia, quando o mercado atingia o auge, aparecia, à entrada da porta da senhora Aubain, um velho camponês, desempenado, boné lançado para a nuca, nariz recurvo e que era, nem mais nem menos, Robelin, o quinteiro de Geffosses. Pouco tempo depois vinha Liébard, o quinteiro de Toucques, pequeno, avermelhado, obeso, vestindo de cinzento o calçando polainas altas de couro, armadas de esporas. Ambos ofereciam à sua proprietária frangos e queijos.
Felicidade, invariavelmente, frustrava as suas intenções manhosas e eles saíam cheios de consideração por ela.
De tempos a tempos a senhora Aubain recebia a visita do marquês de Grémanville, seu tio, arruinado por causa do jogo e que vivia em Falaise, no último pedaço das suas imensas terras de outrora.
Chegava sempre à hora do almoço, com um cão de água muito feio que, com as patas, sujava os móveis. Apesar dos esforços para parecer elegante, chegando a tirar o chapéu sempre que dizia "meu falecido pai" todavia, cedendo ao hábito, bebia cálix após cálix, larachando sempre. Felicidade despedia-o:
- "O senhor ainda tem muito que fazer, senhor de Grémanville! Até outro dia". E fechava a porta.
Abria-a com prazer ao senhor Bourais, antigo procurador. A gravata branca, a calvície, o peitilho da camisa, a ampla sobrecasaca castanha, a sua maneira de gesticular, descrevendo círculos no ar quando fazia cálculos, todo este conjunto produzia nela perturbação semelhante àquela que em nós provoca a presença de qualquer homem extraordinário.
Administrava as propriedades da senhora e, por isso, fechava-se com ela durante horas no escritório do "senhor", receava sempre comprometer-se, respeitava intimamente a magistratura e tinha pretensão a latinista.
Para instruir de forma agradável as crianças ofereceu-lhes urna geografia com gravuras. Representavam diferentes curiosidades do mundo, tais como antropófagos coroados de penas, um macaco roubando uma menina, os beduínos no deserto, uma baleia ao ser arpoada, etc.
Paulo explicou estes desenhos a Felicidade. Foi esta, precisamente, toda a sua educação literária. A das crianças era ministrada por Guyot, um pobre diabo empregado na Câmara, famoso pela sua boa caligrafia e que amolava o canivete nas botas.
Quando o tempo estava bom partiam cedo para a quinta de Geffosses. O pátio ficava numa encosta e a casa no meio dele; ao longe, o mar aparecia como uma mancha cinzenta.
Felicidade retirava do cabaz fatias de carne fria e almoçavam numa casa contígua à vacaria. Eram os últimos vestígios de uma casa de recreio, agora desaparecida. O papel das paredes, às tiras, tremia com as correntes de ar. A senhora Aubain inclinava a fronte repleta de recordações; as crianças não se atreviam a falar.
- "Brinquem"! ordenava. Elas desapareciam. Paulo subia ao celeiro, apanhava pássaros, fazia ricochetes na água ou batia com um pau nas enormes pipas que ressoavam como tambores.
Virgínia dava comida aos coelhos, apanhava miosótis e, na rapidez da corrida, deixava ver as calcinhas bordadas.
Uma tarde de outono voltaram através das pastagens. A lua, no seu primeiro quarto, iluminava uma parte do céu e a neblina flutuava como um manto sobre as sinuosidades de Toucques.
Bois, deitados no meio da relva, olhavam tranquilamente as quatro pessoas que passavam. Na terceira pastagem alguns ergueram-se na frente deles, olhando em volta.
- "Não tenham medo" - disse Felicidade e, murmurando uma espécie de lamento, acariciou o lombo do que lhe ficava mais perto: ele voltou-se, os outros imitaram-no. Mas quando atravessavam a pastagem seguinte ouviram um formidável mugido. Era um touro que o nevoeiro ocultava. Avançou para as duas mulheres. A senhora Aubain ia correr.
- "Não, não, mais devagar". - Apesar disso apressaram o passo e ouviam atrás um sopro ruidoso que se aproximava. Os cascos, como martelos, batiam a erva do prado. Ei-lo que galopa agora. Felicidade voltou-se e com ambas as maus arrancava pedaços de relva que ia atirando para os olhos.
O touro baixava o focinho, sacudia os cornos, tremia de furor, mugindo horrivelmente.
A senhora Aubain, ao fundo da passagem, procurava, desvairada, transpor o alto muro. Felicidade recuava sempre diante do touro, lançando-lhe continuadamente os pedaços de relva com terra agarrada, que o cegavam, gritando:
- "Despachai-vos! Despachai-vos !"
A senhora Aubain desceu o fosso e pousou Virgínia, Paulo fez várias tentativas para subir o talude, mas caía. Por fim conseguiu-o à força de coragem.
O touro encurralou Felicidade numa vedação. A sua baba salpicava-lhe já a cara. Um segundo mais e estripava-a. Teve tempo de se escapar por entre dois varões e o corpulento animal, surpreendido, parou.
Durante muitos anos, este acontecimento foi motivo de conversa em Pont-l'Evêque. Felicidade não se mostrou orgulhosa com o facto nem pensou que tivesse feito algo de heróico.
Virgínia ocupava-a, exclusivamente, porque teve, em consequência do susto, uma doença nervosa e o Dr. Poupart aconselhou banhos de mar em Trouville. Nesse tempo não eram frequentados. A senhora Aubain colheu informações e fez preparativos para uma longa viagem.
A bagagem seguiu, de véspera, no carro de Liébard.
No dia seguinte trouxe este dois cavalos, um com sela para mulher, munida de um espaldar de veludo. Na garupa do segundo, uma manta enrolada formava uma espécie de cadeira. A senhora Aubain tomou lugar atrás de Liébard. Felicidade encarregou-se de Virgínia e Paulo escarrapachou-se no burro do senhor Lechaptois, emprestado sob condição de terem com ele o maior cuidado.
A estrada era tão má que, para percorrem oito quilómetros, gastaram duas horas. Os cavalos afundavam-se na lama, fazendo, para sair dela, bruscos movimentos de ancas. Umas vezes tropeçavam no rodado vincado na estrada. Outras, era preciso saltar.
O jumento de Liébard, em certas alturas, parava bruscamente. Cheio de paciência o dono esperava que recomeçasse a andar. Falava a respeito dos proprietários das terras que ladeavam o caminho, juntando às histórias reflexões de ordem moral. Assim, no meio de Toucques, ao passar sob uma janela cercada por uma trepadeira disse, encolhendo os ombros: - "aqui está uma, a senhora Lehoussais que, em vez de ter casado com um rapaz novo..." Felicidade não ouviu o resto. Os cavalos trotavam, o burro galopava. Enfiaram por um atalho, contornando uma barreira; apareceram dois rapazes e desceram mesmo à porta da estrebaria.
A tia Liébard, ao ver a patroa prodigalizou-lhe demonstrações de alegria. Serviu-lhes um almoço composto de costela de vaca, tripas, morcela, frango de fricassé, cidra espumante, uma torta de compotas e brunhos em aguardente, acompanhando tudo isto de mesuras e gentilezas para com a senhora Aubain que parecia de "óptima saúde", a menina, agora "magnífica" e o menino Paulo, singularmente "crescido", sem esquecer seus falecidos avós que os Liébard tinham conhecido, pois estavam ao serviço da família desde há muitas gerações.
A quinta tinha, como eles, um aspecto vetusto. As vigas do tecto estavam carunchosas, as paredes negras do fumo, os vidros das janelas cinzentos de poeira.
Sobre um aparador de castanho via-se toda a espécie de utensílios: canjirões, pratos, escudelas de estanho, armadilhas, tesouras de tosquiar carneiros. Uma enorme seringa fez rir as crianças.
Todas as árvores dos três quintais tinham cogumelos na base ou camadas de visco nos ramos. O vento derrubara várias delas; renasceram e vergavam, agora, sob o peso dos frutos.
Os tectos de palha, semelhantes a veludo castanho e de espessuras diferentes, resistiam às mais fortes borrascas. Entretanto a cocheira caía, em ruínas. A senhora Aubain dizia que tomaria providências e mandou que aparelhassem os animais.
Demoraram meia hora a chegar a Trouville.
A pequena caravana apeou-se para atravessar os Ecores; tratava-se de uma falésia a prumo sobre os barcos. E, três minutos mais tarde, ao fundo do cais entraram no pátio do "Cordeiro de ouro", casa da tia David.
Virgínia, poucos dias depois, sentiu-se menos fraca, resultado da mudança de ares e da acção dos banhos. Tomava-os em camisa, à falta de fato de banho e a criada vestia-a na cabana do guarda da alfândega. Todos os banhistas, aliás, faziam o mesmo. À tarde iam com o burro para lá das rochas negras, para as bandas de hennequeville. O atalho, a princípio, subia por entre terrenos cobertos de relva, como um prado, depois atingia o planalto, onde alternavam as pastagens e os campos de lavoura.
Ladeavam-no moutas de espinheiros de entre os quais se elevavam, altaneiros, os azevinhos. Aqui e além uma grande árvore desenhava no ar azul ziguezagues, com os seus ramos. Quase sempre repousavam num prado, tendo Deauville à esquerda, o Havre à direita e, em frente, o mar. Este, liso como um espelho, brilhava com o sol e de tal maneira brando que se ouvia apenas o seu murmúrio. Pardais ocultos pipiavam e a abóbada imensa do céu cobria tudo isto.
A senhora Aubain, sentada, costurava. Virgínia, perto dela, entrançava juncos. Felicidade sachava as flores de alfazema. Paulo, aborrecido, queria partir. Outras vezes, tendo atravessado de barco para Toucques, procuravam conchas. A maré baixa deixava a descoberto ouriços do mar e medusas; e as crianças corriam para os flocos de espuma que o vento arrastava. As ondas adormecidas, caindo sobre a areia, desdobravam-se, ao longo da praia; esta estendia-se a perder de vista mas do lado da terra, tinha por limite as dunas do "Marais", larga pradaria, em forma de hipódromo.
Quando voltavam, Trouville, ao fundo na encosta da colina, aumentava de tamanho, a cada passo e, com as casas desiguais, parecia espalhar-se numa desordem alegre.
Nos dias mais quentes não saiam do quarto. A deslumbrante clareza de fora chapeava barras de luz entre as travessas das gelosias. Nenhum ruído na povoação. Em baixo ninguém nos passeios. Este silêncio generalizado aumentava a tranquilidade das coisas.
Ao longe os martelos dos calafates batiam as quilhas das embarcações e uma brisa pesada trazia o cheiro do alcatrão.
O principal divertimento era constituído pelo regresso dos barcos. Desde que ultrapassavam as balizas começavam a bordejar. As velas desciam para dois terços dos mastros e, com a mezena inchada como um balão, avançavam, deslizavam por entre o marulhar das vagas, até ao meio do porto, onde a âncora imediatamente caía. Depois os barcos colocavam-se em frente do cais. Os marujos lançavam por cima do costado dos barcos, peixes ainda vivos, a saltar. Uma fila de carros esperava e as mulheres, com lenços de algodão esforçavam-se por segurar os cabazes e abraçar os seus maridos.
Uma delas, um dia, foi ter com Felicidade que, pouco depois, entrou no quarto, toda satisfeita: tinha encontrado uma irmã.
Anastácia Barette, mulher de Leroux, apareceu com um bebé ao colo, outro pela mão direita e, à esquerda, um outro vestido de marujo, de punhos na anca e gorro enterrado até às orelhas.
Ao fim de um quarto de hora a senhora Aubain despediu-a.
Encontravam-nos sempre nas proximidades da cozinha ou quando passeavam. O marido não aparecia.
Felicidade tomou-lhes afeição. Comprou-lhes uma manta, camisas, um fogão; evidentemente eles exploravam-na.
Esta fraqueza de Felicidade irritava os nervos da senhora Aubain, que, além disso, não gostava das familiaridades do sobrinho porque ele tuteava seu filho. E, como Virgínia tossia e a estação já não era boa, voltaram para Pont-l'Evêque.
O senhor Bourais ajudou-a a escolher um colégio. O de Caen passava por ser o melhor Paulo foi pois para lá e portou-se bem à despedida, foi mesmo valente, satisfeito por ir viver para uma casa onde passava a ter camaradas.
A senhora Aubain, conformou-se com o afastamento do filho, porque era indispensável. Virgínia pensou nele pouco. Felicidade lamentava-se com alarido. Mas uma ocupação veio distraí-la: a partir do Natal levava todos os dias a menina à catequese.
Gustave Flaubert
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