Os resíduos ancestrais formam a camada mais
profunda e mais estável do carácter dos indivíduos e dos povos. É pelo seu “eu”
ancestral que um inglês, um francês, um chinês, diferem tão profundamente.
Mas a esses remotos atavismos sobrepõem-se elementos suscitados pelo meio
social (casta, classe, profissão, etc.), pela educação e ainda por muitas
outras influências. Eles imprimem à nossa personalidade uma orientação assaz
constante. Será o “eu”, um pouco artificial, assim formado, que
exteriorizaremos cada dia.
Entre todos os elementos formadores da personalidade, o mais activo, depois da
raça, é o que determina o agrupamento social ao qual pertencemos. Fundidas no
mesmo molde pelas idéias, as opiniões e as condutas semelhantes que lhes são
impostas, as individualidades de um grupo: militares, magistrados, padres,
operários, marinheiros, etc., apresentam numerosos carácteres idênticos.
As suas opiniões e os seus juízos são, em geral, vizinhos, porquanto sendo cada
grupo social muito nivelador, a originalidade não é tolerada nele. Aquele que
se quer diferenciar do seu grupo tem-no inteiramente por inimigo.
Essa tirania dos grupos sociais, na qual
insistiremos, não é inútil. Se os homens não tivessem por guia as opiniões e a
maneira de proceder daqueles que os cercam, onde achariam a direcção mental
necessária à maior parte? Graças ao grupo que os enquadra, eles possuem um modo
de agir e de reagir quase constante. Graças ainda a ele, naturezas um pouco
amorfas são orientadas e sustentadas na vida.
Assim canalizados, os membros de um grupo social qualquer possuem, com uma
personalidade momentânea ou durável, porém bem definida, uma força de acção que
jamais sonharia qualquer dos indivíduos que a compõem. As grandes matanças da
Revolução não foram actos individuais. Os seus autores atuavam em grupos: girondinos,
dantonistas, hebertistas, robespierristas, termidorianos, etc. Esses grupos,
muito mais do que indivíduos, então se combatiam. Deviam, portanto, empregar
nas suas lutas a ferocidade furiosa e o fanatismo estreito, característicos das
manifestações colectivas violentas.
Gustave Le Bon, in "As Opiniões e as Crenças"