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Nos Arredores

Morosamente correm
água e tempo. Fácil é
metaforizar o tempo
por dados da Natureza.
Água que jorra da boca
do cano de chumbo esvai-se
em velha caleira aberta
cai para o rego
entre pés de feijoeiro.

Acontece
em pormenor um dia algures.
De súbito feijoeiros cruzam-se
ou ventos no encaniçado
passam entre flor e vagem.
As mãos já sem corpo
tacteiam as folhas
acamam no cesto leve
as vagens verdes ignotas.
Serva morta, volta
a crescer da Terra
como as trepadoras.
Fiama Hasse Pais Brandão, in "Três Rostos - Ecos"

Ceia

Nesta sala vivemos. Todos
no mesmo despojamento
da matéria. Aqui os meus dedos
agarram puras ideias de coisas.
Em volta estão sem luxúria
as figuras.
                                                (Natal de 1988)
Fiama Hasse Pais Brandão, in "Três Rostos - Ecos"

A um Poema

A meio deste inverno começaram
a cair folhas demais. Um excessivo
tom amarelado nas imagens.
Quando falei em imagem
ia falar de solo. Evitei o
imediato, a palavra mais cromática.

O desfolhar habitual das memórias é
agora mais geral e também mais súbito.
Mas falaria de árvores, de plátanos,
com relativa evidência. Maior
ou menor distância, ou chamar-lhe-ei
rigor evocativo, em nada diminui

sequer no poema a emoção abrupta.
Tão perturbada com a intensa mancha
colorida. Umas passadas hesitantes,
entre formas vulgares e tão diferentes.
A descrição distante. Sobretudo esta
alheada distância em relação a um Poema.
Fiama Hasse Pais Brandão, in "Nova Natureza"