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Memória

"Nós acampamos no mato, e ficamos esperando o vento nas folhas das árvores, para ver se ele ensina uma cantiga nova, um canto cerimonial novo, se ele ensina, e você ouve, você repete muitas vezes esse canto, até você apreender......Sonho de verdade é quando você sente, comunica, recupera a memória da criação do mundo onde o fundamento da vida e o sentido do caminho do homem no mundo é contado para você......Não existiu uma criação do mundo e acabou! Todo instante, todo momento, o tempo todo é a criação do mundo.....Elas foram todas fundadas a partir da palavra que foi ordenando a criação do mundo, que quando nós narramos as histórias antigas nós criamos o mundo de novo, limpamos o mundo......E que humanidade é essa que precisa depositar sua memória nos museus, nos caixotes?..... Ela não sabe sonhar mais. Então ela precisa guardar depressa as anotações dessa memória........Quando os homens trabalham de dia, de noite, de dia, de noite, qualquer hora, eles estão se parecendo muito com a criação dos homens mesmo, que são as maquinas, mas muito pouco parecido com o criador do homem que é espírito........Essa humanidade que esta cada vez mais ocidental, civilizada e tecnológica, lembre, ela também, dessa memória comum que os humanos têm da criação do mundo, e que consigam dar uma medida para a sua historia, para a sua historia que esta guardada, registrada nos livros, nos museus, nas datas, porque, se esta sociedade se reportar a uma memória, nós podemos ter alguma chance......E, entre a história e a memória, eu quero ficar com a memória.”
Fragmentos do texto elaborado a partir de exposição oral de Ailtom Krenak, contidos na coleção: Tempo e História.

A Mulher dos Olhos Azuis

I
O comissário adjunto da polícia, Zossime Guillovitch Podchiblo, pesado e melancólico ucraniano, estava sentado à secretária, torcia os bigodes e girava os olhos irritados mirando o pátio do comissariado pela janela. O gabinete era escuro, quente e silencioso; só o pêndulo de um grande relógio de parede contava os minutos com pancadas desagradáveis e monótonas. No pátio, ao contrário, tudo era sedutor, claro... Três bétulas mergulhavam-no em sombra espessa e, num monte de feno recentemente trazido para ali para os cavalos dos bombeiros, dormia, estendido à vontade, o sargento Konkharine, que acabara de ser rendido da guarda. Zossime observava-o e aquilo tornava-o furioso. O subordinado dorme e ele, o seu infeliz chefe, deve vegetar neste buraco e respirar as emanações húmidas dos seus muros de pedra! Podchiblo imaginava o prazer que sentiria também, repousando à sombra, deitado no feno perfumado, se tivesse tempo e se a sua posição administrativa lho permitisse; depois espreguiçou-se, bocejou e ficou ainda mais desesperado. Sentiu o incoercível desejo de acordar Konkharine.
- Eh, tu!... Eh... Animal! Konkharine! - chamou ele com toda a força.
A porta abriu-se e alguém entrou no gabinete. Podchiblo olhava pela janela e não se virou, não teve o mais pequeno desejo de saber quem entrava, quem estava por trás dele no limiar da porta e fazia gemer o soalho sob o seu peso.

Konkharine não deu pelo chamamento do seu superior. Com as mãos cruzadas debaixo da cabeça, a barba virada para o céu, dormia, e a Zossime pareceu-lhe ouvir o forte ressonar do seu subordinado, um ressonar irónico, saboroso, feito para excitar ainda mais o seu desejo de repouso e a raiva de não se poder entregar a ele. Podchiblo teve vontade de descer para dar um bom pontapé na barriga inchada do homem, de o apanhar pela barba e arrastá-lo para o sol.

- Eh... ainda na sorna! Estás a ouvir-me?
- Senhor comissário, quem está de serviço sou eu! Proferiu alguém atrás dele numa voz obsequiosa e açucarada.
Podchiblo voltou-se, mediu com um olhar mau o sargento que remexia uns olhos grandes e embrutecidos e estava pronto a lançar-se instantaneamente aonde o mandassem.
- Chamei-te?
- Não, senhor comissário.
- Fiz-te alguma pergunta? - disse Podchiblo aumentando a voz e agitando-se ligeiramente na cadeira.
- Não, senhor comissário.
- Então, vai para o Diabo antes que te atire com qualquer coisa às ventas!
E ele começava já a remexer febrilmente na mesa com a mão esquerda para encontrar um projéctil qualquer enquanto a direita se agarrava à cadeira; mas o sub-oficial, lesto e rápido, passou para o outro lado da porta e desapareceu. Este desaparecimento parecia insuficientemente respeitoso ao comissário auxiliar da polícia; e veio-lhe a vontade de descarregar de qualquer forma toda a cólera que sentia subir em si contrastando com o ar morno da sala, com o serviço, com Konkharine adormecido, com a próxima temporada da feira e com outras maçadas que, não se sabe porquê, vinham naquele dia apresentar-se espontaneamente ao seu espírito, contra a sua vontade.

- Eh lá! Vem cá... - gritou na direcção da porta.
O sargento de serviço entrou e abrigou-se sob a soleira; a sua cara exprimia horror e expectativa.
- Cara de parvo - insultou-o Podchiblo com um ar carrancudo. - Vai ao pátio, acorda Konkharine e diz-lhe, a esse burro, que não torne a ressonar ali. Um escândalo!... Vai... depressa...
- Às suas ordens! E, senhor comissário, está ali uma senhora que o queria ver...
- Quem?
- Uma senhora...
- Como?
- Uma grande...
- Idiota! Que é que ela quer?
- Vê-lo...
- Pergunta-lhe para quê... anda!
- Perguntei-lhe... não me respondeu... "Quero ver o senhor comissário" disse ela.
- Ah, cambada!... Dize-lhe que entre!... É nova?
- Sim, senhor comissário.
- Bom, que entre!... Mexe-te! - ordenou Podchiblo com uma voz já mais suave; ajeitou o fato e fez barulho com os papéis na mesa dando à sua fisionomia aborrecida o aspecto vigoroso que convém à autoridade administrativa.

Atrás dele ouviu-se um roçar de vestido.
- Que deseja? - perguntou Podchiblo colocado a três quartos depois de ter medido a visitante com um ar crítico. Esta inclinou-se e aproximou-se lentamente da mesa, deitando um olhar encantador e furtivo ao polícia com os seus olhos azuis e graves. Estava vestida simples e pobremente, como as mulheres da pequena burguesia: com um lenço na cabeça, trazia um mantelete de pele cinzenta muito usada, cujos cantos ela amarfanhava entre os dedos morenos das suas mãos pequenas e bonitas. Era grande, forte, com o busto desenvolvido, e o rosto comprido e trigueiro; ela tinha em si qualquer coisa de particularmente severo e reflectido que não era feminino. Podia-se-lhe dar uns vinte sete anos. Avançava com um ar pensativo, com lentidão, como se perguntasse a ela mesma: "Não deveria ir-me embora?"
"Diabo! que granadeiro!" pensou Podchiblo imediatamente após a pergunta feita. "Isto vai dar uma queixa"...

- Podia dizer-me..., - começou ela com uma voz profunda de contralto, depois interrompeu-se hesitante, parando os seus olhos azuis na cara barbada do oficial da polícia.
- Sente-se, se faz favor... Que deseja saber? - perguntou Podchiblo com um tom oficial, continuando a pensar para consigo: "Uma boa mulher! Eh! Eh!"

- É por causa dos livretes...
- De habitação?
- Não, não é desses...
- Então quais?
- Aqueles... aqueles com que... as mulheres vão...
- Que quer dizer?... De que mulheres se trata? - Perguntou Zossime levantando as sobrancelhas com um sorriso atrevido.
- Toda a espécie de mulheres que... saem à noite...
- Ai, ai, ai! As prostitutas? - fez Zossime, explicando-se amavelmente.
- Sim! É isso.

E, suspirando profundamente, ela sorriu por sua vez, mostrando-se mais à vontade depois de ouvir a palavra.
- Ah! Ah! Então? Sim, sim! E depois? - começou a interrogar Zossime, pressentindo qualquer coisa interessante e complicada.
- E depois, foi por causa desses cartões que eu cá vim... - pronunciou a mulher deixando-se cair para trás na sua cadeira, suspirando e sacudindo estranhamente a cabeça como se tivesse recebido uma pancada.
- Então... vai abrir um pequeno estabelecimento ? É isso...
- Não, é para mim...
E a mulher baixou muito a cabeça.

- Ah! Ah! E então onde está o seu antigo livrete?... - perguntou Podchiblo e, puxando a sua cadeira para mais perto da visitante, deitou-lhe a mão à cintura, atirando uma olhadela para a porta.
- Qual? Eu não tinha... - respondeu ela, olhando para ele, mas não fez um movimento para evitar a sua mão.
- Então você exercia secretamente a sua indústria? - Você não estava matriculada? Isso acontece. E você quer pôr-se em dia? Está bem... Há menos riscos - encorajou-a Zossime, afoitando-se nos seus gestos.
- Mas é a primeira vez que... - precisou ela, baixando os olhos com um ar incomodado.

- Mas como, a primeira vez? Não compreendo - retorquiu Podchiblo, encolhendo os ombros.

- Eu quero só... É a primeira vez. Eu vim para a feira - explicou a senhora com uma voz estrangulada, sem levantar os olhos.
- Ah, é isso! - Zossime retirou a mão, afastou-se, e, um bocado embaraçado, recostou-se na sua cadeira.

Ficaram um instante silenciosos.
- É então isso!... Sim... você quer... Mas é uma profissão desagradável, vejamos. Difícil... Quero dizer, naturalmente... Mas mesmo assim... Estranho! Não compreendo, confesso... Como é que pode tomar essa decisão. Se é efectivamente verdade...

Como polícia experimentado, ele via bem, que efectivamente, era verdade: ela era fresca e correcta de mais para pertencer às mulheres de certa profissão... Não tinha nenhum dos sintomas de venabilidade que marcam infalivelmente o físico e os gestos duma mulher, mesmo depois de uma curta prática.

- Juro-lhe que é verdade! - Ela inclinou-se subitamente para ele, com confiança. - Eu ia exercer esta suja profissão, e ia pôr-me a mentir? Então porquê? É preciso levar as coisas simplesmente. Está a ver, eu sou viuva. Perdi o meu marido: ele era piloto e desapareceu em Abril durante o degelo. Tenho dois filhos, um rapaz de nove anos, uma rapariga de sete. Não tenho rendimentos. Pais também não. Ele casou comigo órfã. E os dele, os pais, estão longe. E, aliás, não gostavam de mim... Como são abastados, eu sou para eles uma espécie de mendiga. Não tenho porta onde bater. Podia trabalhar, é certo. Preciso de muito dinheiro, e nunca ganharia o suficiente. O meu filho está no liceu. Naturalmente, eu podia fazer uma tentativa para uma bolsa, mas onde é que isso me levava, a mim, uma pobre mulher? E o meu filho é um homenzinho... sabe, uma boa cabeça! Era pena cortar-lhe a carreira... O mesmo com a rapariga... Também é preciso dar-lhe qualquer coisa. E um trabalho para isto, um trabalho honesto... encontra-se pouco. E quanto ganharia? E depois, pergunto-lhe eu, que trabalho? Cozinheira, talvez... sim, claro... cinco rublos por mês... não chega! Não chega para nada! Enquanto que com esta coisa... Com sorte... pode-se ganhar duma vez para comer durante um ano. Durante a feira, o ano passado, uma mulher que eu conheço ganhou quatrocentos rublos! Agora, com esse dinheiro, casou-se com um guarda florestal; é uma senhora, não precisa de se maçar mais. Vive... Mas, há a vergonha, dirá o senhor, claro, é desonroso... Mas é só... E se pensar... É o destino... É sempre o destino. Isto veio-me assim, ao espírito; então, não é verdade, é preciso fazê-lo: é um sinal do destino... Se der resultado, muito bem... se não der, e que eu tenha apenas o sofrimento e a vergonha... será também o destino... Sim...

Podchiblo ouvia-a e percebia metade, porque toda a sua fisionomia falava. A princípio, era uma expressão de terror, mas, depois, tinha-se tornado simples, seca e resoluta.

Ele sentia-se pouco à vontade, com uma ponta de inquietação.
"Caia um idiota entre as mãos desta vaca e ela arrancar-lhe-á a pele num segundo e não lhe deixa senão os ossos" pensou e, quando a sua visitante acabou, disse secamente:

- Não posso fazer nada por si. Dirija-se ao chefe da polícia. Isso é com a direcção da polícia e com a inspecção sanitária. Eu não posso nada...
Desejava vê-la partir o mais cedo possível. Ela levantou-se imediatamente, inclinou-se e dirigiu-se lentamente para a porta. Podchiblo, com os dentes cerrados, piscando os olhos, seguia-a com os olhos, e calava-se para não lhe cuspir nas costas...

- Então, eu devo ir ver o chefe da polícia, diz o senhor? - perguntou-lhe ainda, voltando-se na porta... Os seus olhos azuis diziam a sua decisão inabalável. Mas uma ruga profunda vincava o seu rosto.
- Sim, sim! - respondeu precipitadamente Podchiblo.
- Até à vista! Muito obrigada! - E ela saiu.

Podchiblo encostou-se com os cotovelos sobre a mesa e ficou assim uma dezena de minutos, assobiando entre os dentes.
- Que estupor, hein? - Pronunciou em voz alta, sem levantar a cabeça. - Ainda por cima com os miúdos! O que é que os miúdos tinham a ver com isto? Hein! Que carcassa!

Fez-se, de novo, um enorme silêncio...

- Mas há a vida também..., se tudo aquilo é verdade. A vida torce um homem como uma corda, pode dizer-se... Sim... A vida não é nada macia...
Depois de novo silêncio, para recapitular todo o trabalho do seu pensamento, ele deu um pesado suspiro, cuspiu com um ar definitivo e exclamou energicamente:

- Porcaria!
- Que deseja? - disse o sargento de serviço que reapareceu à porta.
- Hein?
- O senhor comissário deseja qualquer coisa?
- Põe-te a mexer!
- Às suas ordens!
- Espécie de burro! - resmungou Podchiblo. E olhou pela janela.
Konkharine continuava a dormir no feno... Manifestamente, o sargento de serviço tinha-se esquecido de o acordar...
Mas Podchiblo tinha esquecido a sua cólera e o espectáculo do soldado que se refastelava sem cerimónia não o aborreceu de maneira nenhuma. Sentia-se obscuramente assustado. Via no espaço os olhos azuis, tranquilos, que o fitavam resolutamente, no rosto. Sob este olhar obstinado sentia um peso no coração, uma espécie de mal-estar.

Olhou para o relógio, reajustou o cinturão e saiu do gabinete, resmungando:
- Tornaremo-nos a ver, não há dúvida... É mesmo certo!

II
Efectivamente, tornaram a encontrar-se.
Uma noite em que rondava de serviço, Podchiblo viu-a a cinco passos de distância. Dirigia-se para o jardim público com o lento andar coleante, os olhos azuis obstinadamente fitos em frente, ao longe; em toda a sua figura, harmoniosa e alta, no movimento do busto e das ancas, no olhar luminoso e grave, havia qualquer coisa que se desencontrava; o vinco de fatalidade extrema, de renúncia, que lhe marcava a face, estava muito mais nítido que no primeiro encontro e estragava, endurecendo-o, aquele belo rosto.
Podchiblo cofiou o bigode, acariciou uma ideia travessa que acabava de nascer no seu espírito e decidiu não perder a mulher de vista.

- Espera um bocadinho, minha coruja! - Tal foi a exclamação prometedora que lhe dirigiu mentalmente.
Cinco minutos mais tarde estava já sentado ao lado dela num dos bancos do jardim.

- Não se lembra de mim? - perguntou ele sorrindo.
Ela olhou para ele e mediu-o calmamente.
- Sim, lembro-me. Boa tarde, - disse ela em voz baixa, abafada, mas não lhe estendeu a mão.
- Então, como vai isso? Sempre conseguiu o livrete?
- Está aqui! E começou imediatamente a procurar na algibeira do vestido, sem abandonar o seu ar dócil.

O polícia ficou um bocado desconcertado.
- Mas não, não vale a pena, não o mostre que eu acredito. E mesmo, eu não tenho o direito... Quero dizer... Diga-me antes se se está a sair bem? - perguntou ele. E pensou no mesmo instante. "Preciso de sabê-lo! E de que maneira! E além disso... vou-me pôr com delicadezas? Então, Podchiblo, vamos a isto!"

No entanto, se bem que assim pensasse, não se decidia a entrar a fundo. Havia nela qualquer coisa que não permitia aproximar-se-lhe muito de perto, imediatamente.

- Êxito? Lá vai, com a graça de... - ela parou bruscamente, abandonou a frase e corou fortemente.

- Está muito bem. Parabéns... É duro quando não se está habituada? Hein?
De repente ela teve um movimento de recuo com todo o tronco, as faces empalideceram, a fisionomia endureceu, a boca arredondou-se como se fosse dar um grito e bruscamente inteirisou-se para se afastar dele e retomar a atitude precedente...

- Vai indo... Habituar-me-ei... - disse com um tom igual e claro, - e, depois, tirando o lenço, assoou-se ruidosamente.
Podchiblo sentiu o peito oprimido. Era tudo aquilo, o gesto, a proximidade e os olhos azuis, imóveis e tranquilos.
Irritou-se contra si próprio, levantou-se e estendeu-lhe a mão sem dizer nada, com um ar zangado.

- Até à vista! - disse ela docemente.
Ele respondeu com um gesto de cabeça e afastou-se rapidamente, chamando-se enraivecidamente idiota e criança.
- Espera minha garota! Terás a paga! Vou fazer-te ver quem sou. Encarrego-me de te fazer passar esses ares de hipócrita! - ameaçou-a mentalmente, sem saber porquê. E todavia apercebia-se de que nada tinha contra ela.
Mas isso ainda mais lhe aumentava a ira.

III
Dez dias mais tarde, Podchiblo, vindo da feira caminhava na direcção do cais da Sibéria; parou ouvindo gritos de mulher, trocas de insultos e outros ruídos duma bulha escandalosa que chegava à rua pela janela dum café.
- Um agente! Socorro! - gritava uma voz ofegante. Ouviam-se pancadas medonhas com o barulho de ferragens, de móveis partidos e alguém, deliciado, mugia com voz de baixo que cobria toda a algazarra:
- Dá-lhe! Ainda!... Em cheio na tromba! E pumba!

Podchiblo trepou as escadas a correr, abriu passagem aos empurrões pela multidão que se tinha comprimido à porta da sala e o quadro seguinte apareceu-lhe à vista: inclinada para a frente, sobre uma mesa, o seu velho conhecimento, a mulher dos olhos azuis, tinha agarrado pelos cabelos uma outra mulher, e puxava-a para si, batendo-lhe na cara repetidas vezes, naquela cara aterrorizada e já inchada pelas pancadas.

Os olhos azuis, agora, estavam crispados pela crueldade, os lábios cerrados, vincos profundos saíam dos cantos da boca para o queixo, e aquele rosto que lhe era familiar, há pouco tão estranhamente sereno, tinha agora a expressão de animal bravio cheio duma fúria implacável. Era a cara de um indivíduo pronto a torturar indefinidamente o semelhante, a torturá-lo por prazer.

A vítima não fazia senão gemer; agitava-se com espasmos e batia estupidamente no ar com os braços.

Podchiblo sentiu uma onda de fúria invadi-lo: o desejo selvagem de se vingar de qualquer coisa sobre alguém. Atirou-se e, agarrando a mulher que batia pela cintura, arrancou-a com um puxão da vítima.
A mesa caiu num ruído de louça partida; o público gritava selváticamente, morrendo a rir.

Podchiblo via, como nas tonturas da embriaguez, passar e repassar à frente dos seus olhos um desfile de caraças vermelhas, bestiais; segurava a autora da rixa pela cintura e gritava-lhe raivosamente aos ouvidos.
- Ah! Escândalo? Desordem? Vais ver!

A que levara pancada caiu ao chão entre os fragmentos de loiça; estremecia com soluços entrecortados por guinchos histéricos...
- Aquela, excelência - disse à outra: - "Vai então, prostituta, animal!". Então a outra deu-lhe um murro. Vai ela atirou-lhe com a chávena de chá à cara, e então, eu agarro-te os cabelos, eu bato-te, eu bato-te! E depois, sou eu que lhe digo, uma sova de criar bicho! Que sarilho!
- Ah! então é isso? - rosnou Podchiblo, apertando a mulher cada vez mais contra si, e começando ele próprio a sentir ganas de se bater.
Debruçado à janela, bizarramente curvado, mostrando as costas largas, o pescoço arroxeado pela cólera, rugiu para a rua: - Cocheiro! Eh, cocheiro!
E um pouco mais tarde:

- Vamos, depressa... Para a esquadra! Toca a andar!... As duas! Vamos! De pé... E tu, onde estavas? E o teu serviço? Animal! Leva-as para a esquadra. À bruta! As duas... Vá!

O agente da polícia, forte e atarracado, empurrando ora uma, ora outra, com uma pancada nas costas, fê-las sair da sala.

- Dá-me... uma aguardente com água de Seltz, depressa! - disse Podchiblo ao criado, e deixou-se cair numa cadeira ao pé da janela, extenuado e furioso contra tudo e contra todos.

No dia seguinte de manhã ela estava à sua frente tão resoluta e calma como no primeiro encontro; fitava-o a direito nos olhos com o seu olhar azul e esperava o momento em que ele começasse a falar.
Podchiblo, que não tinha dormido o suficiente e se sentia exasperado, remexia os papéis que estavam em cima da mesa e, mau grado o seu mau humor, não sabia como encetar o diálogo.
As apóstrofes e injúrias habitualmente de rigor nestes casos não podiam sair-lhe da boca, e queria encontrar algo mais duro, mais violento que lhe atirasse à cara.

- Como é que isso começou, a vossa questão? Vamos, fala.
- Ela insultou-me... - pronunciou a mulher com um ar de dignidade.
- Que lindeza... Quem havia de dizer... - ironizou Podchiblo.
- Ela não tinha esse direito... Eu não sou como ela.
- Ai, minha avó! Então o que é que tu és?
- Eu, ora... é a miséria... sim... enquanto que ela...
- Ah! E ela, é por prazer, sem dúvida?
- Ela?
- Sim, ela. Tu julgas que é por prazer?
- Mas porque é que ela o faria? Ela não tem filhos, ela...
- Ah, aí está o que tu querias dizer... cala-te, reles estupor! Não me venhas para cá com a história dos filhos para me adoçar a boca... Vai-te, mas toma cuidado, se eu tornar a apanhar-te: mudada em vinte e quatro horas! Não penses em pôr os pés no terreno da feira! Percebeste? Bom! Eu conheço-as! Eu te direi! Escândalo! Faço-te ver o escândalo, eu, minha porcaria!
E, mais insultantes umas que outras, as palavras saíam da boca do polícia para saltar à cara da mulher. Ela empalideceu e os seus olhos franziram-se como na véspera, no café.

- Vai-te embora! - Trovejou Podchiblo, batendo brutalmente com o punho na mesa.
- Que Deus o julgue... - articulou ela secamente, em tom ameaçador. E saiu rapidamente do gabinete.
- Eu dou-te os juizes! - berrou Podchiblo.

Tinha tido prazer em humilhá-la. Aquele rosto calmo e o olhar direito dos olhos azuis tinham-no posto fora de si. Para que é que ela se punha a fingir e com presunções? Filhos? Parvoíces! Que descaramento! O que é que os miúdos têm a ver com isto? Uma debochada que se vai vender à feira e que arma em inocente... Uma mártir, por força... e os filhos! Onde quer ela chegar com isto? Não tem coragem de se portar mal francamente, e então vai chorar às portas que é miséria... Quem havia de dizer...

IV
No entanto, eles existiam: o rapaz, um pouco pálido e tímido, na sua farda velha e usada de liceal, com um barrete negro mal feito, por cima das orelhas, e a rapariguinha, com um impermeável de xadrez demasiado grande para ela. Lá estavam, os dois, nas pranchas do embarcadoiro de Kachine e tremiam de frio sob o vento do Outono, absorvidos pela sua conversa infantil e fácil. A mãe estava de pé, atrás deles, encostada a uma carga de mercadorias; e olhava-os carinhosamente com os seus olhos azuis. O rapaz parecia-se com ela; também tinha os olhos azuis; virava muitas vezes para a mãe a sua cabecita com um boné, cuja pala estava partida, e falava-lhe sorrindo. A rapariga tinha a cara muito marcada de varíola, o nariz era pontiagudo, os olhos grandes e cinzentos tinham um brilho vivo e inteligente. À volta deles, nas pranchas, alinhavam-se caixotes e embrulhos.
Estava-se no fim de Setembro: a chuva caía desde manhã, o cais estava ensopado em lama viscosa e o vento soprava, húmido e frio.

Vagas revoltas corriam sobre o Volga e batiam ruidosamente na margem. Por toda a parte havia um rumor surdo, pesado, violento... Gente de toda a espécie agitava-se, inquieta, precipitando-se não se sabe para onde... E, ao fundo do cais animado duma vida palpitante, o grupo formado pelas duas crianças e a mãe, esperando calmamente, saltava imediatamente aos olhos.
Zossime Podchiblo tinha notado o grupo há muito e, mantendo-se à distância, observava com uma atenção contida. Ele via todos os movimentos de cada um e envergonhava-se...

Vindo do cais da Sibéria, aproximava-se o vapor de Kachine; dentro de meia-hora partia para subir o Volga.

O público precipitava-se aos empurrões no desembarcadoiro.
A mulher dos olhos azuis inclinou-se para os filhos, endireitou-se, muito carregada de pacotes e embrulhos, e desceu as escadas, atrás dos dois filhos que iam de mão dada, carregados igualmente.
Podchiblo também devia ir ao desembarcadoiro. Não tinha vontade, mas era preciso, um pouco mais tarde, ela lá estava, não longe da bilheteira.
A mulher comprou um bilhete. Nas mãos tinha uma enorme carteira amarela, recheada de notas.

- Para mim, está a ver - dizia ela - precisava... Para os pequenos, uma segunda classe, vamos para Kostrona, e, para mim uma terceira. Um só bilhete para os dois miúdos, se for possível?... Não? Podia fazer-me um desconto? Muito obrigado! Deus lhe...
E ela afastou-se satisfeita. As crianças andavam à volta dela e, puxando-a pelo vestido, perguntavam-lhe qualquer coisa... Ela ouvia-os e sorria...
- Ah, Senhor! claro, eu compro-lhes, prometi! Então eu dizia que não? Cada um, dois? Bom... fiquem aí!

E dirigiu-se para a esplanada onde se vendia toda a espécie de artigos e frutas.

Pouco depois estava novamente ao pé das crianças e dizia-lhes:
- Toma, para ti, Babetle, um sabonete... Cheira muito bem! Toma, cheira! E, para ti, Pierrot, uma faca. Vês, eu lembro-me, não há nada que eu esqueça! E aqui estão dez laranjas. Comam-nas... Mas não agora...
O barco atracou ao pontão. Um choque. Toda a gente oscilou. A mulher, com um olhar inquieto pôs as mãos nos ombros dos filhos e apertou-os contra si. Os pequenos estavam calmos.

Tranquilizada por sua vez, começou a rir, e as crianças riram com ela. Puseram a prancha no seu lugar e a gente atirou-se para o barco.
- Esperem! Nada de empurrões, minha besta - ordenou Podchiblo, à frente de quem desfilavam os passageiros, a um carpinteiro carregado de serras, machados e outras ferramentas. - Desastrado! - Deixa passar a senhora e os filhos... Que bruto que és; meu pobre tiozinho! completou ele com mais doçura, logo que a senhora, aquela que ele conhecia e que tinha os olhos azuis, lhe sorriu e o saudou, passando à frente dele para subir para o vapor...

...Terceiro apito.
- Larga! - Ordenou o capitão do cimo da ponte.
O barco estremeceu e largou lentamente.

Podchiblo, passeando os olhos pelo povo concentrado na ponte e encontrando a mulher das pupilas azuis, tirou respeitosamente o boné e inclinou-se para a cumprimentar.

Ela respondeu-lhe com uma profunda vénia à russa e benzeu-se com fervor.
Ela partia para Kostrona com os filhos.

Podchiblo seguiu-a com o olhar durante alguns instantes, deu um profundo suspiro e saiu do desembarcadoiro para ir para o seu posto. Estava triste e abatido.”
Máximo Gorkii

O Rio

“O rio Paraíba corria bem próximo ao cercado. Chamavam-no "o rio". E era tudo. Em tempos antigos fora muito mais estreito. Os marizeiros e as ingazeiras apertavam as duas margens e as águas corriam em leito mais fundo. Agora era largo e, quando descia nas grandes enchentes, fazia medo. Contava-se o tempo pelas eras das cheias. Isto se deu na cheia de 93, aquilo se fez depois da cheia de 68. Para nós meninos, o rio era mesmo a nossa serventia nos tempos de verão, quando as águas partiam e se retinham nos poços. Os moleques saíam para lavar os cavalos e íamos com eles. Havia o Poço das Pedras, lá para as bandas da Paciência. Punham-se os animais dentro d"água e ficávamos nos banhos, nos cangapés. Os aruás cobriam os lajedos, botando gosma pelo casco. Nas grandes secas o povo comia aruá que tinha gosto de lama. O leito do rio cobria-se de junco e faziam-se plantações de batata-doce pelas vazantes. Era o bom rio da seca a pagar o que fizera de mau nas cheias devastadoras. E quando ainda não partia a corrente, o povo grande do engenho armava banheiros de palha para o banho das moças. As minhas tias desciam para a água fria do Paraíba que ainda não cortava sabão.

O rio para mim seria um ponto de contato com o mundo. Quando estava ele de barreira a barreira, no marizeiro maior, amarravam a canoa que Zé Guedes manobrava.

Vinham cargueiros do outro lado pedindo passagem. Tiravam as cangalhas dos cavalos e, enquanto os canoeiros remavam a toda a força, os animais, com as cabeças agarradas pelo cabresto, seguiam nadando ao lado da embarcação. Ouvia então a conversa dos estranhos. Quase sempre eram aguardenteiros contrabandistas que atravessavam, vindos dos engenhos de Itambé com destino ao sertão. Falavam do outro lado do mundo, de terras que não eram de meu avô. Os grandes do engenho não gostavam de me ver metido com aquela gente. Às vezes o meu avô aparecia para dar gritos. Escondia-me no fundo da canoa até que ele fosse para longe. Uma vez eu e o moleque Ricardo chegamos na beira do rio e não havia ninguém. O Paraíba dava somente um nado e corria no manso, sem correnteza forte. Ricardo desatou a corda, meteu-se na canoa comigo, e quando procurou manobrar era impossível. A canoa foi descendo de rio abaixo aos arrancos da água. Não havia força que pudesse contê-la. Pus-me a chorar alto, senti-me arrastado para o fim da terra. Mas Zé Guedes, vendo a canoa solta, correu pela beira do rio e foi nos pegar quase que no Poço das Pedras. Ricardo nem tomara conhecimento do desastre. Estava sentado na popa. Zé Guedes porém deu-lhe umas lapadas de cinturão e gritou para mim:
- Vou dizer ao velho!

Não disse nada. Apenas a viagem malograda me deixou alarmado. Fiquei com medo da canoa e apavorado com o rio. Só mais tarde é que voltaria ele a ser para mim mestre de vida.”
José Lins do Rego

A Cartomante

“Minhas pernas circulavam num céu de sabão, quando uma mulher que de tão morena parecia a estátua da Fatalidade plantou-se diante de mim. Imediatamente nasceram dois baralhos de suas mãos. Diversos senadores, choferes, estudantes, operários e o núncio apostólico suicidaram-se na frente dela. Eu também devo ter me suicidado, só que o poeta é o tipo do sobrevivente. Ela ainda agarrou pela aba do roupão o banhista José, mas o herói deslizou na primeira onda de som e caiu no mar. A mulher soltava mentiras a todo instante. Cada vez que ela soltava uma mentira, nascia uma roseira. Em breve a praça tornou-se coalhada de roseiras com seus cinemas, suas confeitarias, seus bordéis, seus anúncios luminosos, seus bancos, suas guilhotinas. Os peixes cintilavam no céu, e, movendo graciosamente as barbatanas, faziam vibrar a música das esferas. Diante do espetáculo da ordem da criação, meu espírito bárbaro levantou as camadas de sífilis e de pesadelo que me legaram os retratos de meus avós cretinos, e gritou diante do mar coalhado de paquetes:

"Mulher que pareces contemporânea do 1o tempo do espírito, explique-me, ô anjo máquina de costura-caos, por que existe um limite para a desarmonia; por que os anjos não atropelam os geômetras na rua; por que os capitalistas nas suas casas; por que as diabas-antenas não atropelam os músicos nas suas cabeças; por que a minha namorada não me matou".

Aposto um mamão contra a eternidade que a mulher ia responder; mas um aeroplano que passava atirou uma bomba de tinta Eureka na cabeça dela. O ar ficou tão lavado e transparente que eu pude distinguir com nitidez a linha que vai do equador ao pólo; em cima dela um japonês se equilibrava, jogando bilboquê com a cabeça de um chinês. (1933)”
Murilo Mendes

A morte segundo Nelson Rodrigues

“A morte é anterior a si mesma. Começa antes, muito antes. É todo um lento, suave, maravilhoso processo. O sujeito já começou a morrer e não sabe.

Morrer significa, em última análise, um pouco de vocação. Há vivos tão pouco militantes que temos vontade de lhes enviar coroas ou de lhes atirar na cara a última pá de cal. Esses, sim, têm a vocação da morte.

Há, em qualquer infância, uma antologia de mortos.

Na hora de morrer, e quando sabe que está morrendo, todo homem tem um olhar de contínuo.

Há na morte por intoxicação alimentar um inevitável toque humoristico, que humilha o cadáver e compromete o velório.

Para mim, qualquer morta tem mais densidade do que qualquer morto.

A morte natural é própria dos medíocres. O medíocre tem de fazer uma força tremenda para morrer tragicamente. Ele morre de gripe, de pneumonia oun da empada que matou o guarda. Já o grande homem sempre morre tragicamente. Veja o caso de Lincoln, de Gandhy, de Kennedy.

Há uma inteligência da morte, assim como há uma bondade da morte. O que vai morrer já olha as coisas, as pessoas, com a doçura do último olhar.

Eu diria que é a saudade antes do adeus.

O sujeito procura esquecer que o homem é também o seu próprio cadáver. E ele, queira ou não, não destruirá jamais a sua vocação para a morte.

Nada mais falso do que o medo de morrer, e eu diria que nós fazemos tudo para morrer o mais depressa possível. Os nossos hábitos, os nossos usos, os nossos vícios, as nossas irritações mal disfarçam a vontade, a urgência, a fome da morte.

Chegou às redações a notícia da minha morte. E os bons colegas trataram de fazer a notícia. Se é verdade o que de mim disseram os necrológios, com a generosa abundância de todos os necrológios, sou de fato um bom sujeito.

A morte é um grande despertar.”
Nelson Rodrigues

Feiticeiro e o Deputado

“Nos arredores do "Posto Agrícola de Cultura Experimental de Plantas Tropicais", que, como se sabe, fica no município Contra - Almirante Doutor Frederico Antônio da Mota Batista, limítrofe do nosso, havia um habitante singular.
Conheciam-no no lugar que, antes do batismo burocrático, tivera o nome doce e espontâneo de Inhangá, por "feiticeiro"; o mesmo certa vez a ativa polícia local, em falta do que fazer, chamou-o a explicações. Não julguem que fosse negro. Parecia até branco e não fazia feitiços. Contudo, todo o povo das redondezas teimava em chamá-lo de "feiticeiro".

É bem possível que essa alcunha tivesse tido origem no mistério de sua chegada e na extravagância de sua maneira de viver.

Fora mítico o seu desembarque. Um dia apareceu numa das praias do município e ficou, tal e qual Manco Capac, no Peru, menos a missão civilizadora do pai dos incas. Comprou, por algumas centenas de mil-réis, um pequeno sitio com uma miserável choça, coberta de sapê, paredes a sopapo; e tratou de cultivar-lhe as terras, vivendo taciturno e sem relações quase.

À meia encosta da colina, o seu casebre crescia como um cômoro de cupins; ao redor, os cajueiros, as bananeiras e as laranjeiras afagavam-no com amor; e cá embaixo, no sopé do morrote, em tomo do poço de água salobra, as couves reverdesciam nos canteiros, aos seus cuidados incessantes e tenazes.
Era moço, não muito. Tinha por aí uns trinta e poucos anos; e um olhar doce e triste, errante e triste e duro, se fitava qualquer cousa.

Toda a manhã viam-no descer à rega das couves; e, pelo dia em fora, roçava, plantava e rachava lenha. Se lhe falavam, dizia:

- "Seu" Ernesto tem visto como a seca anda "brava".
- É verdade.
- Neste mês "todo" não temos chuva.
- Não acho... Abril, águas mil.

Se lhe interrogavam sobre o passado, calava-se; ninguém se atrevia a insistir e ele continuava na sua faina hortícola, à margem da estrada.
À tarde, voltava a regar as couves; e, se era verão, quando as tardes são longas, ainda era visto depois, sentado à porta de sua choupana. A sua biblioteca tinha só cinco obras: a Bíblia, o Dom Quixote, a Divina comédia, o Robinson e o Pensées, de Pascal. O seu primeiro ano ali devia ter sido de torturas.

A desconfiança geral, as risotas, os ditérios, as indiretas certamente teriam-no feito sofrer muito, tanto mais que já devia ter chegado sofrendo muito profundamente, por certo de amor, pois todo sofrimento vem dele.

Se se é coxo e parece que se sofre com o aleijão, não é bem este que nos provoca a dor moral: é a certeza de que ele não nos deixa plenamente...

Cochichavam que matara, que roubara, que falsificara; mas a palavra do delegado do lugar, que indagara dos seus antecedentes, levou a todos confiança no moço, sem que perdesse a alcunha e a suspeita de feiticeiro. Não era um malfeitor; mas entendia de mandingas. A sua bondade natural para tudo e para todos acabou desarmando a população. Continuou, porém, a ser feiticeiro, mas feiticeiro bom.

Um dia Sinhá Chica animou-se a consultá-lo:

- "Seu" Emesto: viraram a cabeça de meu filho... Deu "pa bebê"... "Tá arrelaxando"...
- Minha senhora, que hei de eu fazer?
- O "sinhô" pode, sim! "Conversa cum" santo...

O solitário, encontrando-se por acaso, naquele mesmo dia, com o filho da pobre rapariga, disse-lhe docentemente estas simples palavras:

- Não beba, rapaz. É feio, estraga - não beba!

E o rapaz pensou que era o Mistério quem lhe falava e não bebeu mais. Foi um milagre que mais repercutiu com o que contou o Teófilo Candeeiro.
Este incorrigível bebaço, a quem atribuíam a invenção do tratamento das sezões, pelo parati, dias depois, em um cavaco de venda, narrou que vira, uma tardinha, aí quase pela boca da noite, voar do telhado da casa do "homem" um pássaro branco, grande, maior do que um pato; e, por baixo do seu vôo rasteiro, as árvores todas se abaixavam, como se quisessem beijar a terra.

Com essas e outras, o solitário de Inhangá ficou sendo como um príncipe encantado, um gênio bom, a quem não se devia fazer mal.

Houve mesmo quem o supusesse um Cristo, um Messias. Era a opinião do Manuel Bitu, o taverneiro, um antigo sacristão, que dava a Deus e a César o que era de um e o que era de outro; mas o escriturário do posto, "Seu" Almada, contrariava-o dizendo que se o primeiro Cristo não existiu, então um segundo!...

O escriturário era um sábio, e sábio ignorado, que escrevia em ortografia pretensiosa os pálidos ofícios, remetendo mudas de laranjeiras e abacateiros para o Rio.
A opinião do escriturário era de exegeta, mas a do médico era de psiquiatra.
Esse "anelado" ainda hoje é um enfezadinho, muito lido em livros grossos e conhecedor de uma quantidade de nomes de sábios; e diagnosticou: um puro louco.
Esse "anelado" ainda hoje é uma esperança de ciência...

O "feiticeiro", porém, continuava a viver no seu rancho sobranceiro a todos eles.
Opunha às opiniões autorizadas do doutor e do escriturário o seu desdém soberano de miserável independente; e ao estulto julgamento do bondoso Mané Bitu, a doce compaixão de suaalma tema e afeiçoada...
De manhã e à tarde, regava as suas couves; pelo dia em fora, plantava, colhia, fazia e rachava lenha, que vendia aos feixes, ao Mané Bitu, para poder comprar as utilidades de que necessitasse.

Assim, passou ele cinco anos quase só naquele município de Inhangá, hoje burocraticamente chamado - "Contra-Almirante Doutor Frederico Antônio da Mota Batista".

Um belo dia foi visitar o posto o deputado Braga, um elegante senhor, bem posto, polido e céptico.

O diretor não achava, mas o doutor Chupadinho, o sábio escriturário Almada e o vendeiro Bitu, representando o "capital" da localidade, receberam o parlamentar com todas as honras e não sabiam como agradá-lo.

Mostraram-lhe os recantos mais agradáveis e pinturescos, as praias longas e brancas e também as estranguladas entre morros sobranceiros ao mar; os horizontes fugidios e cismadores do alto das colinas; as plantações de batatas-doces; a ceva dos porcos...

Por fim, ao deputado que já se ia fatigando com aqueles dias, a passar tão cheio de assessores, o doutor Chupadinho convidou:

- Vamos ver, doutor, um degenerado que passa por santo ou feiticeiro aqui. E um dementado que, se a lei fosse lei, já há muito estaria aos cuidados da ciência, em algum manicômio.
E o escriturário acrescentou:
- Um maníaco religioso, um raro exemplar daquela espécie de gente com que as outras idades fabricavam os seus santos.
E o Mané Bitu:
- É um rapaz honesto... Bom moço - é o que posso dizer dele.
O deputado, sempre cético e complacente, concordou em acompanhá-los à morada do feiticeiro. Foi sem curiosidade, antes indiferente, com uma ponta de tristeza no olhar.

O "feiticeiro" trabalhava na horta, que ficava ao redor do poço,
na várzea, à beira da estrada.

O deputado olhou-o e o solitário, ao tropel de gente, ergueu o busto que estava inclinado sobre a enxada, voltou-se e fitou os quatro. Encarou mais firmemente o desconhecido e parecia procurar reminiscências. O legislador fitou-o também um instante e, antes que pudesse o "feiticeiro" dizer qualquer cousa, correu até ele e abraçou-o muito e demoradamente.

- És tu, Ernesto?
- És tu, Braga?

Entraram. Chupadinho, Almada e Bitu ficaram à parte e os dois conversaram particularmente.
Quando saíram, Almada perguntou:

- O doutor conhecia-o?
- Muito. Foi meu amigo e colega.
- É formado? indagou o doutor Chupadinho.
- É.
- Logo vi, disse o médico. Os seus modos, os seus ares, a maneira com que se porta, fizeram-me crer isso; o povo, porém...
- Eu também, observou Almada, sempre tive essa opinião íntima; mas essa gente por aí leva a dizer...
- Cá para mim, disse Bitu, sempre o tive por honesto. Paga
sempre as suas contas.

E os quatro voltaram em silêncio para a sede do "Posto Agrícola
de Cultura Experimental de Plantas Tropicais".
Lima Barreto

Adélia

“- A nossa filantropia moderna feita de elegância e exibições é das cousas mais inúteis e contraproducentes que se pode imaginar.Entre todas as pessoas do povo aqui, no Rio de Janeiro, há uma condenação geral para as raparigas que se casam, no dia de santa Isabel, e saem da Casa de Expostos. Isto se dá para uma casa semi-religiosa, que só visa, penso eu, não a felicidade terrena, mas o resgate de almas das garras do demônio. Agora, imagina tu o que de transtorno na vida de tantos entes não vão levar esses "dispensários", essas creches etc. que lhes amparam os primeiros anos de vida e, depois, os abandonam à sua sorte!... Antes a sala do banco da Misericórdia que receita remédios de uma cor única e cuja dieta só varia na inversão dos pratos... É sempre a mesma... Essa caridade é espúria e perversa... Antes deixar essa pobre gente entregue á sua sorte...
- És mau... E impossível que ela não aproveite muitos.
- Alguns, talvez; mas muitos, ela estraga e desvia do seu destino, que talvez fosse alto. Nélson legou Lady Hamilton à Inglaterra; e tu sabes quais foram os começos dela. Chegaria até isso se andasse
em creches, dispensários?
- Não sei; mas não nos devemos guiar por exceções.
- É uma frase; mas vou contar-te uma história bem singela que espero não me interromperás. Prometes?

- Prometo.
- Vou contar.
- Conta lá.

O narrador fez uma pausa e encetou vagarosamente:

- Quando a portuguesa Gertrudes, que "vivia" com o italiano Giuseppe, um amolador ambulante, apresentou Adélia, sua filha, à sublimada competência do doutor

Castrioto, do dispensário, a criança era só um olhar. As pernas lhe eram uns palitos, os braços descamados, esqueléticos, moviam-se nas convulsões de choro sinistramente. Com tais membros e o ventre ressequido e a boca umedecida de uma baba viscosa, a criança parecia premida por todas as forças universais, físicas e espirituais. O seu olhar, entretanto, era calmo. Era azul-turquesa, e doce, e vago. No meio da desgraça do seu corpo, a placidez do seu olhar tinha um tom zombeteiro. O doutor melhorou-a muito; mas, assim mesmo, até à puberdade, foi-lhe o corpo um frangalho e o olhar sempre o mesmo, a ver caravelas ao longe que a viessem buscar para países felizes. Depois de adolescente, porém, no fim das grandes concentrações íntimas, o brilho hialino das pupilas turbava-se, estremecia. Ninguém descobriu-lhe o olhar - quem repara no olhar de uma menina de estalagem? Olham-se-lhe as formas, os quadris e os seios; ela não os tinha opulentos, contudo casou-se. O casamento realizou-se a pé e a garotada assoviou pelo caminho. A noiva com calma estúpida olhou-os. Por quê? Casava-se a pé; era ignóbil. O padrinho não lhe notou modificação sensível. Não chorara, não soluçara, não tremera; unicamente mudou num instante de olhar, que ficou duro e perverso. O primeiro ano de casamento fez-lhe bem.

A intensa vida sexual arredondou-lhe as formas, disfarçou as arestas e as anfractuosidades - emprestou-lhe beleza. Demais, o ócio desse primeiro ano afinou-a, melhorou-a; mas sempre com aquele olhar fora do corpo e das cousas reais e palpáveis. No fim de dois anos de casada, o marido começou a tossir e a escarrar, a escarrar e a tossir. Não trabalhava mais. Adélia rogou, pediu, chorou. Andou por aqui e por ali. Encontrou alguém amável que a convidou:

- Vamos até lá, é perto.
- Ó... Não... "Ele"...
- "Ele"!... Vamos!... "Ele" não sabe; não pode mais. Vamos.

"Foi, e foi muitas vezes; mas sempre sem pesar, sem compreender bem o que fazia, à espera das caravelas sonhadas.

Ia e voltava. O marido tossia e tomava remédios.

- Trouxeste?
- Sim; trouxe.
- Quem te deu?
- O doutor.
- Como ele é bom.

"Aos poucos, infiltravam-se-lhe gostos novos. Um sapato de
abotoar, um chapéu de plumas, uma luva... Morreu o marido. O
enterro foi fácil e o luto ficou-lhe bem. O seu olhar vago, fora dos
homens e das cousas, atravessava o véu negro como um firmamento com uma única estrela no engaste de um céu de borrasca. Um ano depois corria confeitarias, à tarde; mas o seu olhar não pousava nunca nos espelhos e nas armações. Andava longe dela, longe daqueles lugares.

- Toma vermute?
- Sim.
- É melhor coquetel.
- É.
- Antes cerveja.
- Vá cerveja.

Não custou a embriagar-se um dia. Meteram-lhe num carro.Estava que nem uma pasta mole e desconjuntada.

- Que tem você?
- Nada, não vejo.
- Você por que não abre mais os olhos?
- Não posso, não vejo!
- Lá vão os Fenianos... Você não vê?
- Ouço a música.

Teve carros. Freqüentou teatros e bailes duvidosos, mas seu olhar sempre saía deles, procurando coisas longínquas e indefinidas.Recebeu jóias. Olhava-as. Tudo lhe interessou e nada disso amou. Parecia em viagem, a bordo. A mobília e a louça do paquete não lhe desagradavam; queria a riqueza, talvez; mas era só. Nada se acorrentava na sua alma. Correu cidades elegantes e as praias.

- Hoje, ao Leme.
- Sim, ao Leme.

A curva suave da praia e a imensa tristeza do oceano prendiam-na. Defronte do mar, animava-se; dizia cousas altas que passavam pelas cabeças das companheiras, cheias de mistério, como o vôo longo de patos selvagens, à hora crepuscular.
Veio um ano que se examinou. Estava quase magra, quase esquálida. Foi-se fanando dai por diante. Diminuíram-se-lhe as jóias e os vestidos. Morreu aos trinta e poucos anos como a criança que se fora: um frangalho de corpo e um olhar vago e doce, fora dela e das cousas. Que é que adiantou o dispensário?"
Calou-se o que narrava, e o outro só soube dizer:

- Vou-me embora... Até amanhã.”
Lima Barreto

Memórias Sentimentais de João Miramar

À guisa de prefácio

(...)
“João Miramar abandona momentaneamente o periodismo para fazer a sua entrada de homem moderno na espinhosa carreira das letras. E apresenta-se como o produto improvisado e portanto imprevisto e quiçá chocante para muitos, de uma época insofismável de transição. Como os tanks, os aviões de bombardeio sobre as cidades encolhidas de pavor, os gases asfixiantes e as terríveis minas, o seu estilo e a sua personalidade nasceram das clarinadas caóticas da guerra.

Porque eu continuarei a chamar guerra a toda esta época embaralhada de inéditos valores e clangorosas ofensivas que nos legou o outro lado do Atlântico com as primeiras bombardas heróicas da tremenda conflagração européia.

O glorioso tratado de Versalhes que pôs termo à loucura nietzschiana dos guerreiros teutões, não foi senão um minuto de trégua numa hora de sangue. Depois dele, assistimos ao derramamento orgânico de todas as convulsões sociais. Poincaré, Artur Bernardes, Lênine, Mussolini e Kemal Paxá ensaiam diretivas inéditas no código portentoso dos povos, perante a falência idealista de Wilson e o último estertor rubro do sindicalismo. Quem poderia prever a Ruhr? Quem poderia prever o "pronunciamento" espanhol? E a queda de Lloyd George? E o telefone sem fio?

Torna-se lógico que o estilo dos escritores acompanhe a evolução emocional dos surtos humanos. Se no meu foro interior, um velho sentimentalismo racial vibra ainda nas doces cordas alexandrinas de Bilac e Vicente de Carvalho, não posso deixar de reconhecer o direito sagrado das inovações, mesmo quando elas ameaçam espedaçar nas suas mãos hercúleas o ouro argamassado pela idade parnasiana. VAE VICTIS!

Esperemos com calma os frutos dessa nova revolução que nos apresenta pela primeira vez o estilo telegráfico e a metáfora lancinante. O Brasil, desde a idade trevosa das capitanias, vive em estado de sítio. somos feudais, somos fascistas, somos justiçadores. Época nenhuma da história foi mais propícia à nossa entrada no concerto das nações, pois que estamos na época do desconcerto. O Brasil, país situado na América, continente donde partiram as sugestões mecânicas e coletivistas da modernidade literária e artística, é um país privilegiado e moderno. Nossa natureza como nossa bandeira, feita de glauco verde e de amarelo jalde, é propícia às violências maravilhosas da cor. Justo é pois que nossa arte também o queira ser.

Quanto à glótica de João Miramar, à parte alguns lamentáveis abusos, eu a aprovo sem, contudo, adotá-la nem aconselhá-la. Será esse o Brasileiro do Século XXI? foi como ele a justificou, ante minhas reticências críticas. O fato é que o trabalho de plasma de uma língua modernista nascida da mistura do português com as contribuições das outras línguas imigradas entre nós e contudo tendendo paradoxalmente para uma construção de simplicidade latina, não deixa de ser interessante e original. A uma coisa apenas oponho legítimos embargos - é à violação das regras comuns da pontuação. Isso resulta em lamentáveis confusões, apesar de, sem dúvida, fazer sentir "a grande forma da frase", como diz Miramar pro domo sua.

"Memórias Sentimentais"- por que negá-lo? - é o quadro vivo de nossa máquina social que um novel romancista tenta escalpelar com a arrojada segurança dum profissional do subconsciente das camadas humanas.

Há, além disso, nesse livro novo, um sério trabalho em torno da "volta ao material" - tendência muito de nossa época como se pode ver no Salão d'Outono, em Paris.
Pena é que os espíritos curtos e provincianos, se vejam embaraçados no decifrar do estilo em que está escrito tão atilado quão mordaz ensaio satírico.”
Oswald de Andrade

Literatura

“Para Aradópolis, junto à fazenda Nova-Lombardia de recordações nupciais, fordei em primeira com o dr. Pilatos e meu querido Fíleas em excursão histórica e marcada conferência de Machado Penumbra convite do Grêmio Bandeirantes comemorador da malograda morte do conselheiro Zé Alves.

Auditório de fascistas sicilianos com professorado cow-boy no cine de zinco e palmas.
Ao longo da ribalta exígua o orador pôs frases alvíssimas nos bigodes pretos.
E de lambuja grandiloquou o conferente destinos territoriais de São Paulo na expectativa do trem com colegiada despedidora e vivante.

- a plenitude cafeeira e pastoril de nosso Estado se distende nos assaltos ao hinterland que foge num último galopar de índios e de feras! A cada investida vitoriosa, os novos bandeirantes são a reencarnação estupenda da luta, a magnífica, a eterna ressurreição simbólica da Força!
De chapéu no braço e gestos, Minão da Silva, meu agregado lombardo e jovem orgulho mulatal do grêmio, retrucou tomando a palavra pela ordem.

- Não preocupei as bancadas das escolas, meus senhores e ilustríssimas senhoras e crianças! Mas o conselheiro Zé Alves que o ilustre colega comemoramos, não morreu! Apenas desapareceu de nossa competência. O Grêmio Bandeirantes com 500 membros me mandou saudá-lo. Ele tem doutores que não quiseram vim. Mas a norma do regulamento dos estatutos me mandou saudar. Desculpe os erros!

E o trem taratinchou saudades.”
Oswald de Andrade

Senhora

Primeiro capítulo

“Aurelia

Há anos raiou no céu fluminense uma nova estrela.

Desde o momento de sua ascensão ninguém lhe disputou o cetro; foi proclamada a rainha dos salões.

Tornou-se a deusa dos bailes; a musa dos poetas e o ídolo dos noivos em disponibilidade.

Era rica e formosa.

Duas opulências, que realçam como a flor em vaso de alabastro; dois esplendores que se refletem, como o raio de sol no prisma do diamante.

Quem não se recorda da Aurélia Camargo, que atravessou o firmamento da corte como brilhante meteoro, e apagou-se de repente no meio do deslumbramento que produzira o seu fulgor?
Tinha ela dezoito anos quando apareceu a primeira vez na sociedade. Não a conheciam; e logo buscaram todos com avidez informações acerca da grande novidade do dia.

Dizia-se muita coisa que não repetirei agora, pois a seu tempo saberemos a verdade, sem os comentos malévolos de que usam vesti-la os noveleiros.

Aurélia era órfã; e tinha em sua companhia uma velha parenta, viúva, D. Firmina Mascarenhas, que sempre a acompanhava na sociedade.

Mas essa parenta não passava de mãe de encomenda, para condescender com os escrúpulos da sociedade brasileira, que naquele tempo não tinha admitido ainda certa emancipação feminina.
Guardando com a viúva as deferências devidas à idade, a moça não declinava um instante do firme propósito de governar sua casa e dirigir suas ações como entendesse.

Constava também que Aurélia tinha um tutor; mas essa entidade desconhecida, a julgar pelo caráter da pupila, não devia exercer maior influência em sua vontade, do que a velha parenta.
A convicção geral era que o futuro da moça dependia exclusivamente de suas inclinações ou de seu capricho; e por isso todas as adorações se iam prostrar aos próprios pés do ídolo.

Assaltada por uma turba de pretendentes que a disputavam como o prêmio da vitória, Aurélia, com sagacidade admirável em sua idade, avaliou da situação difícil em que se achava, e dos perigos que a ameaçavam.

Daí provinha talvez a expressão cheia de desdém e um certo ar provocador, que eriçavam a sua beleza aliás tão correta e cinzelada para a meiga e serena expansão da alma.

Se o lindo semblante não se impregnasse constantemente, ainda nos momentos de cisma e distração, dessa tinta de sarcasmo, ninguém veria nela a verdadeira fisionomia de Aurélia, e sim a máscara de alguma profunda decepção.

Como acreditar que a natureza houvesse traçado as linhas tão puras e límpidas daquele perfil para quebrar-lhes a harmonia com o riso de uma pungente ironia?

Os olhos grandes e rasgados, Deus não os aveludaria com a mais inefável ternura, se os destinasse para vibrar chispas de escárnio.
Para que a perfeição estatutária do talhe de sílfide, se em vez de arfar ao suave influxo do amor, ele devia ser agitado pelos assomos do desprezo?

Na sala, cercada de adoradores, no meio das esplêndidas reverberações de sua beleza, Aurélia bem longe de inebriar-se da adoração produzida por sua formosura, e do culto que lhe rendiam, ao contrário parecia unicamente possuída de indignação por essa turba vil e abjeta.

Não era um triunfo que ela julgasse digno de si, a torpe humilhação dessa gente ante sua riqueza. Era um desafio que lançava ao mundo; orgulhosa de esmagá-lo sob a planta, como a um réptil venenoso.

E o mundo é assim feito; que foi o fulgor satânico da beleza dessa mulher, a sua maior sedução. Na acerba veemência da alma revolta, pressentiam-se abismos de paixão; e entrevia-se que procelas de volúpia havia de ter o amor da virgem bacante.

Se o sinistro vislumbre se apagasse de súbito, deixando a formosa estátua na penumbra suave da candura e inocência, o anjo casto e puro que havia naquela, como há em todas as moças, talvez passasse desapercebida pelo turbilhão.

As revoltas mais impetuosas de Aurélia eram justamente contra a riqueza que lhe servia de trono, e sem a qual nunca por certo, apesar de suas prendas, receberia como rainha desdenhosa, a vassalagem que lhe rendiam.

Por isso mesmo considerava ela o ouro um vil metal que rebaixava os homens; e no íntimo sentia-se profundamente humilhada pensando que para toda essa gente que a cercava, ela, a sua pessoa, não merecia uma só das bajulações que tributavam a cada um de seus mil contos de réis.

Nunca da pena de algum Chatterton desconhecido saíram mais cruciantes apóstrofes contra o dinheiro, do que vibrava muitas vezes o lábio perfumado dessa feiticeira menina, no seio de sua opulência.
Um traço basta para desenhá-la sob esta face.

Convencida de que todos os seus inúmeros apaixonados, sem exceção de um, a pretendiam unicamente pela riqueza, Aurélia reagia contra essa afronta, aplicando a esses indivíduos o mesmo estalão.
Assim costumava ela indicar o merecimento relativo de cada um dos pretendentes, dando-lhes certo valor monetário. Em linguagem financeira, Aurélia cotava os seus adoradores pelo preço que razoavelmente poderiam obter no mercado matrimonial.

Uma noite, no Cassino, a Lísia Soares, que fazia-se íntima com ela, e desejava ardentemente vê-la casada, dirigiu-lhe um gracejo acerca do Alfredo Moreira, rapaz elegante que chegara recentemente da Europa:

- É um moço muito distinto - respondeu Aurélia sorrindo; vale bem como noivo cem contos de réis; mas eu tenho dinheiro para pagar um marido de maior preço, Lísia; não me contento com esse.

Riam-se todos destes ditos de Aurélia, e os lançavam à conta de gracinhas de moça espirituosa; porém a maior parte das senhoras, sobretudo aquelas que tinham filhas moças, não cansavam de criticar esses modos desenvoltos, impróprios de meninas bem educadas.
Os adoradores de Aurélia sabiam, pois ela não fazia mistério, do preço de sua cotação no rol da moça; e longe de se agastarem com a franqueza, divertiam-se com o jogo que muitas vezes resultava do ágio de suas ações naquela empresa nupcial.

Dava-se isto quando qualquer dos apaixonados tinha a felicidade de fazer alguma coisa a contento da moça e satisfazer-lhe as fantasias; porque nesse caso ela elevava-lhe a cotação, assim como baixava a daquele que a contrariava ou incorria em seu desagrado.

Muito devia a cobiça embrutecer esses homens, ou cegá-los de paixão, para não verem o frio escárnio com que Aurélia os ludibriava nestes brincos ridículos, que eles tomavam por garridices de menina, e não eram senão ímpetos de uma irritação íntima e talvez mórbida.

A verdade é que todos porfiavam, às vezes colhidos por desânimo passageiro, mas logo restaurados por uma esperança obstinada, nenhum se resolvia a abandonar o campo; e muito menos o Alfredo Moreira que parecia figurar na cabeça do rol.

Não acompanharei Aurélia em sua efêmera passagem pelos salões da corte, onde viu, jungido a seu carro de triunfo, tudo que a nossa sociedade tinha de mais elevado e brilhante.

Proponho-me unicamente a referir o drama íntimo e estranho que decidiu do destino dessa mulher singular.”
José de Alencar

Capitães da Areia

(...)
Como o vestido dificultava seus movimentos e como ela queria ser totalmente um dos Capitães da Areia, o trocou por umas calças que deram a Barandão numa casa da cidade alta. As calças tinham ficado enormes para o negrinho, êle então as ofereceu a Dora. Assim mesmo, estavam grandes para ela, teve que as cortar nas pernas para que dessem. Amarrou com cordão, seguindo o exemplo de todos, o vestido servia de blusa. Se não fôsse a cabeleira loira e os seios nascentes, todos a poderiam tomar por um menino, um dos Capitães da Areia.

No dia em que, vestida como um garôto, ela apareceu na frente de Pedro Bala, o menino começou a rir. Chegou a se enrolar no chão de tanto rir. Por fim conseguiu dizer:

- Tu tá gozada...

Ela ficou triste, Pedro Bala parou de rir.
Não tá direito que vocês me dê de comer todo dia. Agora eu tomo parte no que vocês fizer.

O assombro dêle não teve limites:

- Tu quer dizer...

Ela o olhava calma, esperando que êle concluisse a frase.
- ...que vai andar com a gente pela rua, batendo coisas...

- Isso mesmo. - Sua voz estava cheia de resolução.

- Tu endoidou...

- Não sei por quê.

- Tu não tá vendo que tu não pode? Que isso não é coisa pra menina. Isso é coisa pra homem.

- Como se vocêes fôsse tudo um homão. E tudo um menino.

Pedro Bala procurou o que responder:

- Mas a gente veste calça, não é saia...

- Eu também. - E mostrava as calças.

De momento êle não encontrou nada que dizer. Olhou para ele pensativo, já não tinha vontade de rir. Depois de algum tempo, falou:

- Se a polícia pegar a gente, não tem nada. Mas se pegar tu?

- E igual.

- Te metem no Orfanato. Tu nem sabe o que é...

- Tem nada não. Eu agora vou com vocês.

Ele encolheu os ombros num gesto de quem não tinha nada com aquilo. Havia avisado. Mas ela bem sabia que êle estava preocupado. Por isso ainda disse:

- Tu vai ver que eu sou igual a qualquer um...

- Tu já viu uma mulher fazer o que um homem faz? Tu não aguenta um empurrão...

- Posso fazer outras coisas.

Pedro Bala se conformou. No fundo gostava da atitude dela, se bem tivesse mêdo dos resultados.”
Jorge Amado

Sagarana

“O grande êxito de Sagarana, do dr. J. Guimarães Rosa, não deixa de se prender às relações do público ledor com o problema do regionalismo e do nacionalismo literário. Há cerca de trinta anos, quando a literatura regionalista veio para a ribalta, gloriosa, avassaladora, passávamos um momento de extremo federalismo. Na intelligentzia, portanto, o patriotismo se afirmou como reação de unidade nacional. A Pátria, com pê sempre maiúsculo, latejou descompassadamente, e os escritores regionais eram procurados como afirmação nativista. Foi o tempo em que todo jovem promotor ou delegado, despachado para as cidadezinhas do interior, voltava com um volume de contos ou uma novela sertaneja, quase sempre lembrança de cenas, fatos e pessoas cujo pitoresco lhes assanhava a sensibilidade litorânea de nascimento ou educação.

A reviravolta econômica nos grandes Estados, subseqüente à crise de 1929, alterou os termos de equação política, e a descentralização federalista, depois de alguns protestos nem sempre platônicos, foi cedendo passo à nova fase centralizadora, exigida quase pelo desenvolvimento da indústria. Processo cuja aberração foi o Estado Novo, assim como a constituição castilhista tinha sido a aberração do processo anterior.

Para compensar - como às vezes acontece -, a intelligentzia se virou para o bairrismo. Antes, quando a palavra de ordem política e o sentimento geral eram provincianos, foi chique ser nacionalista, e o porta-voz mais característico da tendência foi Olavo Bilac. Agora, que as forças unitárias predominam e já se vai generalizando um certo sentimento de todo - deste todo de repente vivo e existente por meio do rádio e do aeroplano -, agora a moda é ser bairrista, e o porta-voz mais autorizado da tendência é o sr. Gilberto Freyre, pai da voga atual da palavra "província". Todos falam na sua província, nas suas tradições etc etc, embora a maioria prefira fazer como seu Rui da canção, isto é, ela lá e eu aqui. Quando chega ao Rio, o jovem intelectual não mais se esforça por mudar a pronúncia e parecer familiarizado com a cidade; capricha o sotaque e escreve imediatamente sobre a negra velha que (diz ele) o criou, falando dos avós da pequena terra em ue nasceu etc. O maior elogio do dia é "sabor da terra", traduzindo do " francês, já se vê, e a maior ofensa dizer a um escritor que ele não tem raízes.

Natural, em meio semelhante, o alvoroço causado pelo sr. Guimarães Rosa, cujo livro vem cheio de "terra", fazendo arregalar os olhos aos intelectuais que não tiveram a sorte de morar ou nascer no interior (digo, na "província" ) ou aos que, tendo nela nascido, nunca souberam do nome da árvore grande do largo da igreja, coisa bem brasileira. Seguro do seu feito, o sr. Guimarães Rosa despeja nomes de tudo - plantas, bichos, passarinhos, lugares, modas - enrolados em locuções e construções de humilhar os citadinos. "Irra, que é talento demais", como o deputado português, mal comparando.

Mas Sagarana não vale apenas na medida em que nos traz um certo sabor regional, mas na medida em que constrói um certo sabor regional, isto é, em que transcende a região. A província do sr. Guimarães Rosa - no caso, Minas - é menos uma região do Brasil do que uma região da arte, com detalhes e locuções e vocabulário e geografia cosidos de maneira por vezes irreal, tamanha é a concentração com que trabalha o autor. Assim, veremos, numa conversa, os interlocutores gastarem meia dúzia de provérbios e outras tantas parábolas como se alguém falasse no mundo deste jeito. Ou, de outra vez, paisagens tão cheias de plantas, flores e passarinhos cujo nome o autor colecionou, que somos mesmo capazes de pensar que na região do sr. Guimarães Rosa o sistema fito-zoológico obedece ao critério da Arca de Noé. Por isso, sustento, e sustentarei mesmo que provem o meu erro, que Sagarana não é um livro regional como os outros, porque não existe região alguma igual à sua, criada livremente pelo autor com elementos caçados analiticamente e, depois, sintetizados na ecologia belíssima das suas histórias.

Transcendendo o critério regional por meio de uma condensação do material observado (condensação mais forte do que qualquer outra em nossa literatura da "terra"), o sr. Guimarães Rosa como que iluminou, de repente, todo o caminho feito pelos antecessores. Sagarana significa, entre outras coisas, a volta triunfal do regionalismo do Centro. Volta o coroamento. De Bernardo Guimarães a ele, passando por Afonso Arinos, Valdomiro Silveira, Monteiro Lobato, Amadeu de Queirós, Hugo de Carvalho Ramos, assistimos a um longo movimento de tomada de consciência, através da exploração do meio humano e geográfico. É a fase do pitoresco e do narrativo, do regionalismo "entre aspas", se dão licença de citar uma expressão minha em artigo recente. Fase ultrapassada, cujos produtos envelheceram rapidamente, talvez à força de copiados e dessorados pelos minores. Fase, precisamente, em que os escritores trouxeram a região até o leitor, conservando, eles próprios, atitude de sujeito e objeto. O sr. Guimarães Rosa construiu um regionalismo muito mais autêntico e duradouro, porque criou uma experiência total em que o pitoresco e o exótico são animados pela graça de um movimento interior em que se desfazem as relações de sujeito e objeto pára ficar a obra de arte como integração total de experiência.
Sagarana nasceu universal pelo alcance e pela coesão da fatura. A língua parece finalmente ter atingido o ideal da expressão literária regionalista. Densa, vigorosa, foi talhada no veio da linguagem popular e disciplinada dentro das tradições clássicas. Mário de Andrade, se fosse vivo, leria comovido este resultado esplêndido da libertação lingüística, para que ele contribuiu com a libertinagem heróica da sua.

Além das convenções literárias, Sagarana se caracteriza por um soberano desdém das convenções. O sr. Guimarães Rosa - cuja vocação de virtuose é inegável - parece ter querido mostrar a possibilidade de chegar à vitória partindo de uma série de condições que conduzem, geralmente, ao fracasso. Ou melhor: todos os fracassos dos seus predecessores se transformaram, em suas mãos, noutros fatores de vitória.
Para começar, a própria temática, batida e aparentemente esgotada. Em matéria de regionalismo, só aceitamos, de uns vinte anos para cá, o nordestino, transformado, por sua vez e por força do uso, em arrabalde pacífico e já sem surpresas da nossa sensibilidade literária.

Em seguida, o exotismo do léxico, recurso geralmente fácil, abusado pelos escritores gaúchos. Depois, a tendência descritiva, quase de composição escolar, familiar a quem vive em contato com os pequenos jornais do interior e, em literatura, relegada a segundo plano pelas exigências tanto de ação quanto de introspecção do romance moderno. Finalmente, o capricho meio oratório do estilo, que há muito consideramos privativo da subliteratura.
Pois o sr. Guimarães Rosa partiu de todas estas condições, algumas das quais bastaram para fazer naufragar escritores de maior talento, como Monteiro Lobato, ou reduzir ás devidas proporções outros indevidamente valorizados, como o velho Afonso Arinos; não rejeitou nenhuma delas e ~hegou a verdadeiras obras-primas, como são alguns dos contos de Sagarana.

Passando a setor de ordem mais pessoal, talvez possamos dizer que a qualidade básica do autor escapa à crítica, porque só pode ser sugerida por meio de imprecisões como "capacidade de contar", "vigor narrativo" e outras coisas que, tudo exprimindo, nada dizem de positivo. O meu mestre e amigo Giuseppe Ungaretti usaria expressão mais direta, invocando razões de ordem hormonal em calão pitoresco, que eu não me atrevo a trazer para este bem comportado rodapé e que, segundo ele, são as únicas a exprimir a força criadora dos artistas poderosos como é o sr. Guimarães Rosa.

Sagarana se caracteriza pela paixão de contar. O autor chega a condescendência excessiva para com ela, a ponto de quebrar a espinha das suas histórias a fim de dar relevo a narrativas secundárias, terciárias, cujo conjunto resulta mais importante do que a narrativa central. Deixa-se ir ao sabor dos casos, não perdendo vasa para contá-los, acumulando detalhes, minuciando com pachorra, como quem dá a entender que, em arte, o fim não tem a mínima importância, porque o que importa são os meios. Todos os meios e até a ampliação retórica são bons, desde que nos arrebatem da vida, transportando-nos para a vida mais intensa da arte.

Já se vê por aí que o sr. Guimarães Rosa retorna, em grande estilo, à concepção do contista-contador, para o qual a verdade está na narração e na descrição, para o qual as facadas, os casos de amor, os estouros de boiada e os crepúsculos têm valor eterno, acima de quaisquer outros. Por outro lado, como ficou sugerido, a região, deixando de ser, para ele, simples localïzação da história, com funções de pitoresco e anedótico, passa a verdadeira personagem (se assim me posso exprimir), tanta é a persistência e a profundidade com que vém invocados a sua flora, a sua fauna, o seu relevo. Há, mesmo, certos contos, como "São Marcos", em que só ela redime o anedótico e garante o toque literário autêntico. Em "A hora e vez de Augusto Matraga" há uma certa entrada de primavera - verdadeiro Sacre du Printemps - em que a natureza nos comunica sentimento quase inefável, germinal e religioso.

Como padrão de arte objetiva e elaborada, perfeito na suficiência admirável dos meios, gostaria de indicar o conto "Duelo", das maiores peças de atmosfera da nossa atual novelístïca. Uma tensão envolvente, quase alucinante, alimentada sorrateiramente pelo autor com um ominoso vaivém cheio de detalhes geográficos e pequenos casos laterais.

Não é aí, todavia, que devemos procurar a obra-prima do livro mas no citado "Augusto Matraga", onde o autor, deixando de certo modo a objetividade da arte-pela-arte, entra em região quase épica de humanidade e cria um dos grandes tipos da nossa literatura, dentro do conto que será, daqui por diante, cantado entre os dez ou doze mais perfeitos da língua.

Não penso que Sagarana seja um bloco unido, nem que o sr. Guimarães Rosa tenha sabido, sempre, escapar a certo pendor verboso, a certa difusão de escrita e composição. Sei, porém, que, construindo em termos brasileiros certas experiências de uma altura encontrada geralmente apenas nas grandes literaturas estrangeiras, criando uma vivência poderosamente nossa e ao mesmo tempo universal, que valoriza e eleva a nossa arte, escrevendo contos como "Duelo", "Lalino Salãthiel", "O burrinho pedrês" e, sobre todos (muito sobre todos), "Augusto Matraga" - sei que por tudo isso o sr. Guimarães Rosa vai reto para a linha dos nossos grandes escritores.”
Antônio Cândido

A Sociedade

“-Filha minha não casa com filho de carcamano!

A esposa do Conselheiro José Bonifácio de Matos e Arruda disse isso e foi brigar com o italiano das batatas.

Teresa Rita misturou lágrimas com gemidos e entrou no seu quarto batendo a porta.
O Conselheiro José Bonifácio limpou as unhas com o palito, suspirou e saiu de casa abotoando o fraque.

O esperado grito do cláxon fechou o livro de Henri Ardel e trouxe Teresa Rita do escritório para o terraço.

O Lancia passou como quem não quer. Quase parando.

A mão enluvada cumprimentou com o chapéu Borsalino.

Uiiiiia-uiiiiia! Adriano Meli calcou o acelerador. Na primeira esquina fez a curva. Veio voltando. Passou de novo. Continuou. Mais duzentos metros. Outra curva. Sempre na mesma rua. Gostava dela. Era a Rua da Liberdade. Pouco antes do número 259-C sabe: uiiiiia-uiiiiia!

-O que você está fazendo aí no terraço, menina?

-Então nem tomar um pouco de ar eu posso mais?

Lancia Lambda, vermelhinho, resplendente, pompeando na rua. Vestido de Camilo, verde, grudado à pele, serpejando no terraço.

-Entre já para dentro ou eu falo com seu pai quando ele chegar!

-Ah meu Deus, meu Deus, que vida, meu Deus!

Adriano Melli passou outras vezes ainda. Estranhou. Desapontou. Tocou para a Avenida Paulista.

Na orquestra o negro de casaco vermelho afastava o saxofone da beiçorra para gritar:

Dizem que Cristo nasceu em Belém...

Porque os pais não a haviam acompanhado (abençoado furúnculo inflamou o pescoço do Conselheiro José Bonifácio) ela estava achando um suco aquela vesperal do Paulistano. O namorado ainda mais.
Os pares dançarinos maxixavam colados. No meio do salão eram um bolo tremelicante. Dentro do círculo palerma de mamãs, moças feitas e moços enjoados. A orquestra preta tonitroava. Alegria de vozes e sons. Palmas contentes prolongaram o maxixe. O banjo é que ritmava os passos.

-Sua mãe me fez ontem uma desfeita na cidade.

-Não!

-Como não? Sim senhora. Virou a cara quando me viu.

... mas a história se enganou!

As meninas de ancas salientes riam porque os rapazes contavam episódios de farra muito engraçados. O professor da Faculdade de Direito citava Rui Barbosa para um sujeitinho de óculos. Sob a vaia do saxofone: turururu-turururum!

-Meu pai quer fazer um negócio com o seu.

-Ah sim?

Cristo nasceu na Bahia, meu bem...

O sujeitinho de óculos começou a recitar Gustave Le Bon mas a destra espalmada do catedrático o engasgou. Alegria de vozes e sons.

... e o baiano criou!

-Olhe aqui, Bonifácio: se esse carcamano vem pedir a mão da Teresa para o filho, você aponte o olho da rua para ele compreendeu?

-Já sei, mulher, já sei.”
Alcântara Machado/ Do livro Brás, Bexiga e Barra Funda

Uma visita ao campo

“Não sendo um "cockney" nato, não tenho quaisquer ilusões sobre o campo. As estradas onduladas e tortuosas, as sebes poeirentas, as valas com os seus cadáveres de cães, ortigas e nuvens de moscas venenosas, os grupos de crianças que trituram qualquer coisa, o camponês boçal e prematuramente envelhecido pelo trabalho, o vagabundo velhaco, os montões de estrume de cheiro nauseabundo, a cadeia de marcos miliários entre duas estalagens ou entre dois cemitérios; por tudo isto eu passo apressado e ansioso de avistar o primeiro poste telegráfico indicando-me estar próximo o comboio salvador. Da estrada do vilarejo à estação do caminho de ferro, vai um salto de cinco séculos, desde a brutal tirania da natureza sobre o Homem até ao domínio organizado deste sobre aquela.

E, contudo, na semana passada, deixei-me persuadir por dois amigos meus, Henry Salt e sua mulher, que não se cansavam de insistir para eu ir passar um "week-end" com eles, nas colinas de Surrey. Salt, um homem de excepcional inteligência em muitos assuntos, é um maníaco pelo campo e possui uma vivenda num buraco chamado Tilford, perto de Farnham, para a qual ele se retira, de tempos a tempos, alimentando-se dos fungos da vizinhança e escrevendo artigos a proclamarem o benefício da dieta e do ar puro. Sem dúvida, o meu amigo nutria a esperança de que Tilford converter-me-ia da rurofobia à rurolatria, e sendo uma companhia agradável para um passeio e uma conversa, consenti, por fim, na experiência, e acedi, mesmo, em ser conduzido ao cume de uma impostura cénica, denominada Hindhead, para dali avistar as planuras da Costa do Sul, a estrada de Portsmouth e, principalmente, o sítio onde três homens foram enforcados por terem assassinado alguém que os induzira a dar um passeio campestre na sua companhia.

Londres estava fresca, limpa e seca quando me dirigi para a estação de Waterloo, apôs ter saído da cama, às sete horas de uma manhã de Domingo. Abrindo um livro, esforcei-me por não olhar para a janela, entre as estações. Depois de termos atravessado um cemitério enorme e um campo imenso, chegámos finalmente, a Farnham. Como é vulgar no campo, chovia a cântaros. Perguntei o caminho para Tilford, e fui informado de que ficava a quatro milhas em linha recta. Como não quisera de forma alguma ofender os sentimentos de Salt, mostrando-lhe a minha suspeita pelo seu paraíso rústico, não trouxera guarda-chuva, e aquele paraíso, é claro, tirava a máxima vantagem de tal omissão. Não sei o que são as planuras da Costa do Sul, mas posso garantir as subidas e descidas das estradas de Surrey. Entre Farnham e Tilford, há, pelo menos, meia dúzia de colinas e nem um só viaduto. Subi as suas vertentes nas pontas dos pés e amassei os calcanhares, ao descê-las, fazendo, a cada passo, um charco de lama pegajosa. À medida que a paisagem se tornava menos hospitaleira, a chuva aumentava a sua violência, reduzindo o meu livro a uma polpa e transferindo o vermelho da capa para o meu já saturado casaco cinzento. Pássaros à prova de água, soltaram de uma vedação, trinados de troça, fazendo-me compreender melhor do que até então, o motivo porque é permitido caçá-los a tiro. Em determinado momento, a estrada passou por um pinheiral, com um gorgeante tapete de musgo húmido, e um aviso proibindo o estacionamento ali, sob pena de punição para os transgressores. Vale bem a pena caminhar trinta milhas, para ter de voltar para trás perante a mesquinhez de um proprietário rural. Já tinha os punhos da camisa colados aos pulsos. Deixando pender os braços, com desconsolo, afim de minorar a desagradável sensação, olhei para as joelheiras das calças e, instantaneamente, as abas do meu chapéu despejaram meio litro de água da chuva tingida de preto. Então não me contive mais e soltei uma daquelas gargalhadas que os condenados ao martírio da roda largavam ao segundo golpe do martelo. Uma milha ou duas mais de marcha forçada por caminhos lamacentos, levou-me aos subúrbios de uma vila, com um rio correndo sobre um leito pedregoso e atravessado por uma ponte construída sob o princípio da arquitectura gótica, isto é: de forma a exigir dos cavalos o máximo esforço, quer a puxar as carroças de um lado, quer a impedir de serem atropelados por elas, quando em sentido contrário, roçam, precipitadamente, uns pelos outros.

Chegara a Tilford, habitada pelo que pude ver, por um único homem e em cujo olhar espantado pude ler, melhor do que o faria num livro, a sua admiração por me ver ali. Após ter ultrapassado uma nova colina, palmilhei uma estrada onde a chuva e o vento desencadearam um último e violento ataque contra mim. Salt está enganado ao pensar que vive em Tilford, pois, de facto, vive muito para além da vila. Eu já estava a ponto de voltar para trás afim de aproveitar o resto da resistência de que ainda dispunha, para regressar a Londres, quando ouvi um grito de Salt "Ele aí vem!", e o meu amigo veio receber-me, satisfeitíssimo, como se eu tivesse surgido fresco e sorridente. Em menos tempo do que leva a descrever, as minhas roupas fumegavam na cozinha e eu, metido num fato pertencente ao cunhado de Salt, um poeta prometedor cuja figura é um tanto ou quanto diferente da minha, enchia o estômago com as últimas descobertas do meu hospedeiro, na fungologia local.

As minhas roupas secaram rapidamente. De tarde, ao envergá-las de novo, observei que embora tivessem encolhido umas duas polegadas, estavam quentes e enxutas. Apesar disso, fartei-me de espirrar e Mrs. Salt, na mais amável das intenções, foi buscar uma garrafa de espírito de cânfora. Não familiarizado com a violenta natureza deste remédio, engoli, descuidado, uma colher de sopa cheia. Senti-me morrer, mas tive a alegria, após ter voltado a respirar, de saber que, certamente, o bacilo da gripe não sobrevivera. Como a chuva já cessara de cair, fomos dar um passeio e seguimos por uma estrada que serpenteava por umas colinas lembrando montões de turfa molhada, sob o céu cinzento. De vez em quando, atravessávamos planaltos onde a lama era substituída por areia movediça e tojo, já secos pelo vento agreste que soprava do mar do Norte. O Lago Frensham, como um enorme depósito de abastecimento público de água, desnudado de maquinaria, jazia a sotavento e a sua superfície enrugava-se de um extremo a outro, a cada aguaceiro. Simpatizei com ele e olhei furtivamente para Salt para ver se a inefável tristeza daquele espectáculo não o envergonhava. Mas o meu amigo já estava habituado a tudo aquilo e quando chegámos a casa, começou a planear um passeio para a manhã seguinte, até Hindhead. Só a simples sugestão de novo passeio trouxe-me um desejo irreprimível de espirrar. Não obstante, neguei-me com firmeza, a tomar mais cânfora, e Mrs. Salt ministrou-me em sua substituição, uma vulgar geleia preta com água a ferver que eu ingeri de boa vontade.

Na manhã seguinte, levantei-me às oito horas, na intenção de ver o nascer do sol e de ouvir o chilrear dos pássaros. Percebi, contudo, que me levantara antes deles, pois não vi o nascer do sol nem ouvi os pássaros, senão quando regressei à metrópole. Salt estava radiante porque o vento soprava do nordeste, o que tornava a chuva impossível. Assim, após o pequeno almoço, pusemo-nos a caminho de Hindhead, através dum nevoeiro que fazia as vacas parecerem mamutes e os espinhaços, a cordilheira dos Alpes. Quando não se avistava um único abrigo, a chuva começou a cair. Salt assegurou-me que não seria nada, pois a chuva não se poderia aguentar contra um vento nordeste. No entanto, tal não aconteceu.

Quando, após termos subido e descido por sítios que Salt denominava atalhos, mas que eram, de facto, leitos de torrentes de lama, chegámos por fim a Hindhead, (que era igual às outras colinas), onde mal nos podíamos distinguir um ao outro e muito menos a Costa do Sul, em virtude do nevoeiro cerrado que fazia. Vi o sítio onde os três homens foram enforcados e não posso negar que senti uma certa satisfação vingativa ao pensar que alguém fora assassinado ali, por induzir semelhantes seus a passeios campestres.

Quando regressámos, Salt estava no auge do entusiasmo. A descoberta de um dia chuvoso com um vento nordeste alegrava-o tanto como a descoberta de um cometa alegraria um astrónomo. Quanto a Mrs. Salt, a conclusão que ela tirou de tudo aquilo, foi que eu devia voltar. A chuva incomodava-a tanto, como se em vez de mulher, fosse um peixe, e não pude deixar de pensar se o seu vestido de passeio não seria na realidade, um fato de banho habilmente confeccionado.

Ela parecia felicíssima, embora os carneiros balissem tristemente para o céu e uma vaca, a quem eu dei uma palmada amigável nos flancos, estivesse tão saturada em água, que eu fiquei com o braço encharcado até ao sovaco. O tema principal de Mrs. Salt, enquanto estivemos nas colinas, era a doçura do seu cão de guarda, cujos movimentos na direcção do rebanho eram cuidadosamente frustados pelo meu amigo. Antes de chegarmos a casa, as minhas roupas continham três vezes o volume de água do dia anterior. Foram postas novamente a secar e quando voltei a envergá-las, pareciam ter sido emprestadas, numa emergência, por um irmão muito mais novo.

Não preciso de descrever o meu regresso a Farnham, após o jantar. Choveu todo o caminho. Mas, pelo menos, eu aproximava-me de Londres. Mudara de ares e estou certo de que eliminei os seus efeitos dentro de quinze dias. Se a minha experiência puser de sobreaviso algum incauto londrino, tentado a gozar os prazeres vernais nas colinas de Surrey, então nem todo o meu sofrimento terá sido em vão.”
George Bernard Shaw
“Chamava-se Chico. De quê? Ele mesmo não sabia...
– Gente pobre não tem nome... – costumava dizer.
Tinha sete anos. De dia vendia jornais, de noite apanhava bordoada do irmão mais velho, o Zico, que vivia embriagado.

A mãe havia muitos anos que estava atirada sobre um colchão velho, paralítica, cadavérica, tendo a todas as horas do dia, diante dos olhos baços e sem expressão, o mesmo quadro de misé-ria e desalento: as paredes sórdidas do quarto, donde pendiam molambos, o teto carcomido e cheio de teias de aranha, a janela sem batentes, eterna-mente escancarada, mostrando uma nesga de céu em que nas noites claras se vislumbrava, como uma esmola luminosa, a claridade fugidia de estrelas...

O pai – Chico mal se lembrava disto – morrera por um dia triste de inverno, de peste, e se fora, quase nu, dentro duma carroça velha que ia fazendo tóc-tóc-tóc-tóc. . ., aos solavancos, pela estrada barrenta e sinuosa que ia dar no cemitério.

Chico ouvia sempre dizer que havia lá em cima, no céu, um Deus muito bom e muito severo. que não queria que as crianças dissessem nomes feios nem desobedecessem aos mais velhos. Era um homem muito poderoso, que punha empenho em que todas as cousas na terra andassem direitas e bem feitas.
Surgia, então, na cabecinha do garoto um pro-blema intrincado e insolúvel.

Chico via no mundo (mundo era a cidade em que ele, Chico, morava) gente feliz, rica, alegre; crianças que andavam bem vestidas, que tinham brinquedos surpreendentes e que comiam os doces mais saborosos desta vida. Via, ao mesmo tempo, de Outro lado, os infelizes, os desprotegidos da fortuna, os que rolam pão duro e andavam a ferir os pés descalços no pedregulho das ruas. E o pequeno não podia compreender a razão de tanta desigualdade de sorte no mundo. Como era que Deus, tão bom e tão justo, consentia em que exis-tissem crianças felizes e protegidas, ao mesmo passo que existiam outras, desgraçadas e sós, que, pra ganhar alguns tostões, – magríssimos tostões –, tinham de andar vendendo jornais pelas ruas, à luz adustiva do sol?...

E Chico não compreendia... Não compreendia e ficava pensando, pensando...”

Mas não se detinha por muito tempo em tais cogitações, que adivinhava inúteis. A vida ensinara-o a ser prático. Bem sabia que com sonhos e lucubrações não ganharia o seu salário. Por isso se atirava ao trabalho.
– O'ia o Correio da Manhã! O Correeeeio! E assim ia vivendo...”
Érico Veríssimo

O fim do mundo

“...Isto pode ter acabado mas não sou tão parvo que vá chorar à tua frente. Pelo contrário: apareço-te com um sorriso como se não fosse nada,sento-me à mesa, ponho o guardanapo ao pescoço por causa dos salpicos na camisa (a minha mãe, coitada, que já vê mal, vê-se grega com as nódoas)digo
- Boa noite Manuela
e como a sopa até ao fim, a falar disto e daquilo, sem dar a entender que estou triste, que tenho um nó na garganta, que sinto a minha vida em cacos porque juro-te que não sou tão parvo que vá chorar à tua frente. Tu levantas-te, tiras-me a colher, pões o meu prato em cima do teu, trazes o arroz de coelho da cozinha e eu a abrir uma garrafa de cerveja que às vezes sempre ajuda um bocadinho a dissolver a tristeza e o nó na garganta e enquanto me sirvo do arroz fico à espera que me fales do Carlos.
No fundo pode ser que a culpa seja minha por adiar constantemente o casamento contigo, vir aqui às segundas e as quintas e ir-me embora à uma da manhã com a desculpa de que a velhota precisa da minha ajuda, que com a idade deixa a porta aberta e se esquece do gás, que sou filho único e só me tem a mim quando a verdade é que os compromissos me assustam, me assusta a idéia de quereres ter crianças (não tenho jeito nenhum para crianças) e com tantas desculpas e tantos adiamentos era mais que certo que acabavas por te cansar e se não fosse o Carlos era outro, o Carlos pelo menos é um rapaz sossegado, gosta de ti, a mãe dele é quinze anos mais nova do que a minha e tem uma saúde de ferro e uma mulher não pode passar a vida inteira à espera que um fulano se decida, passar a maior parte das noites sem companhia a ver vídeos na televisão, uma mulher precisa de companhia, de conversar, de um homem para tomar conta e eu não sirvo para isso, Manuela, levo o serão a olhar para o relógio com receio de perder o barco, despeço-me à pressa com um beijo na testa, telefono de fugida do emprego até que na semana passada me avisaste
- Preciso imenso de falar contigo
e eu entendi que me querias explicar que o Carlos estava disposto a dar-te o que eu nunca te dei, que não ligava com o teu feitio ficares sozinha, ires sozinha à praia, ires sozinha ao cinema, agüentar as anginas sem ninguém ao pé, oiço a minha voz
- O coelho está óptimo
farto de saber que não era isso que tu querias ouvir, farto de saber que o que querias ouvir era
-Eu caso-me contigo esquece o Carlos
mas não consigo, não sou capaz, gosto de ti e no entanto não me vejo, percebes, a viver contigo, o amor é uma coisa tão esquisita Manuela, garanto-te que tenho amor por ti, garanto--te que adorava pegar-te na mão
- Eu caso-me contigo esquece o Carlos
e as palavras não saem, tu à espera e as palavras não saem, tu a garantires-me em silencio
- Se ficares quero lá saber do Carlos
e tudo o que sou capaz, que idiotice, e elogiar-te o coelho em lugar de te elogiar a ti, te pegar na mão, te jurar
-Amo-te
porque te amo, porque não conheço quem faça macrame tão bem, quem tenha a casa tão limpa, a roupa tão asseada, nem um grão de pó na mobília, não conheço quem me trate como tu me tratas, acho que o Carlos tem uma sorte danada, acho que vou sentir a tua falta a doer-me cá dentro e todavia não sou tão parvo que vá chorar à tua frente, falo contigo como se não fosse nada, enfio o guardanapo na argola, levanto-me, abotoou o casaco e
tu
- Preciso imenso de falar contigo
eu, que não sou tão parvo que vá chorar à tua frente, a agarrar a maçaneta da porta
- Amanhã amanhã
sabendo perfeitamente que não vou vir amanhã, que não vou vir nunca mais, que se viesse encontrava a mesa posta e o Carlos sentado no meu lugar a comer o meu arroz de coelho e a propor-te
- Vamos tratar da papelada no Registro
sabendo perfeitamente que daqui a dois ou três meses vou espreitar ao jardim da Gulbenkian, e lá estarão vocês e os padrinhos a tirarem fotografias junto à estatua, junto ao lago, e pode ser que me vejas, Manuela, que me distingas no meio dos arbustos, pode ser que olhes para mim como agora olhas
- Preciso imenso de falar contigo
só que não dirás nada porque é tarde, não podes passar o resto da vida aires sozinha à praia, ao cinema, a agüentar as anginas sem ninguém ao pé, talvez me acenes, talvez eu te acene e apanhe logo o autocarro porque a velhota necessita de mim, com a idade deixa a porta aberta e esquece-se do gás, ao entrar a minha mãe, preocupada
-Vens pálido Jorginho
eu muito depressa
- Não é nada mãe
e sento-me no quintal das traseiras até ser noite e sem chorar, claro, não sou tão parvo que comece a chorar, que mariquice chorar, eu não choro, não penses que choro, não choro, sento-me no quintal das traseiras até ser noite a dar milho às galinhas, a dar milho às
galinhas, a dar milho às galinhas.”
Lobo Antunes