(...)
“Dei por as coisas acontecerem quando o Joãozinho começou a chorar. Eu estava no jardim preocupada com a febre das roseiras, a construir uma tenda que as protegesse do vento e do início não julguei que fosse a criança a chamar-me mas uma pomba viúva num cedro ou um ganso perdido no novelo dos buxos até que me puxaram a saia, eu sem me voltar
- Quieto Adamastor
o vento tombou de súbito, as pás do moinho calaram-se, os gerânios e as estrelícias deixaram de murmurar nos canteiros, escutava-se a bica da água na piscina e um risinho de corvo sobre as faias, o lobo da Alsácia, a gemer, arrepanhava-me a saia, eu enxotando o animal com o pé
- Quieto Adamastor
e uma vozinha sufocada de lágrimas lá em baixo, pendurando-se-me na roupa
- Não é o Adamastor Titina sou eu
de modo que lhe peguei ao colo, procurei um joelho esfolado que era o que sucedia a cada passo, tropeçar nos cubos dos guarda-sóis, bater numa estátua, magoar-se na pedra dos canteiros, separei-lhe a franja com medo de ver sangue
- O menino caiu?
e nem feridas, nem sangue, nem arranhões, nem um nódoa de lama sequer, só um dedo apontado, o nariz no meu pescoço, um estremeção de lágrimas
- A mãe o pai a mãe o pai
e portanto dei por as coisas acontecerem quando o Joãozinho começou a chorar. Hoje pergunto-me se não devia ter feito alguma coisa na época em que principiaram as questões entre o senhor doutor e a senhora dado que quer um quer outro me escutavam, a senhora por exemplo era rara a manhã em que não me pedia opinião sobre isto ou sobre aquilo, as criadas, as despesas, a casa
- O que achas Titina?
e o próprio senhor doutor, tão diferente do homem em que se tornou depois, me convocava ao escritório e me mandava sentar como se fosse igual a ele para falar do estábulo ou da horta ou das alterações no pomar
- Dá aqui uma ajuda Titina
o Joãozinho sem feridas, sem sangue, sem arranhões, sem uma nódoa de lama, só um dedo apontado, o nariz no meu pescoço, um estremeção de lágrimas
- A mãe o pai a mãe o pai
e caminhei para casa esquecida da febre das roseiras, com a minha sombra e a sombra da criança confundidas como se o menino fosse meu, como ainda hoje, que ele cresceu, teve filhos, o senhor doutor me expulsou da quinta, os do tribunal expulsaram o menino e deixei de o ver, continuo a pensar que era meu, que é meu, foi comigo que ele começou a andar e a falar, era comigo que adormecia, era por mim que a meio da noite chamava, apavorado com o escuro
- Estão ali os lobos Titina
eu a embalá-lo, a acariciar-lhe as mãos, a afagar- lhe a cara até os lobos se irem embora e os gatunos se sumirem, até julgar que ele dormia, lhe soltar devagarinho os dedos, me levantar, me aproximar da porta e a voz do Joãozinho
- Titina
o menino que me pertencia por preferir estar comigo a estar com o senhor doutor e a senhora, me acompanhava, pegado a mim, à cozinha, à sala de costura, ao correio, à confeitaria e ao mercado a Palmela, me fazia desenhos no livro das contas, me fazia barcos de papel com as facturas, a quem dava banho e levava ao médico, para quem descascava a fruta, a cortava aos bocadinhos e esmagava as aspirinas numa colher de açúcar, que limpava, que vestia, o Joãozinho que não pertencia aos pais, me pertencia, o filho que apesar de não ter tido era meu, agarrado a mim com toda a força que podia
- O que aconteceu Joãozinho?
a porta do quarto aberta e o senhor doutor e a senhora a discutirem, a senhora a tirar roupa das gavetas e a amontoá- la na cama, a tirar as escovas da cómoda, a arrancar vestidos dos cabides, a pisar blusas, a pisar êcharpes, a pisar aquelas calças lindas de cetim que usava quando tinha visitas e arrastava agora atrás de si presas a um salto, não uma senhora mas duas ou três senhoras reflectidas em ângulos diferentes nos espelhos, e o senhor doutor também dois ou três senhores doutores gesticulando uns com os outros como ese estivessem zangados consigo mesmos, não com a senhora, a impedirem-lhe a passagem e a senhora, que não a conhecia assim, ameaçando-os com os secador do cabelo
- Larga-me
a lutar com aqueles senhores doutores todos
- Larguem-me
o senhor doutor a agarrar no secador e a desfazê-lo no tampo da cómoda
- Quem é o tipo quero saber quem é o tipo Isabel
uma caixa de pó-de-arroz esmagada, frascos de perfume no chão, o abajur da mesinha de cabeceira em pedaçose e a senhora a procurar uma sandália, às punhadas ao senhor doutor
- Larga-me
os espelhos quebrados multiplicavam os dois ou três senhores doutores por dez ou vinte ou trinta que repetiam
- Quem é o tipo quero saber quem é o tipo Isabel
o senhor doutor a abaná-la até que um dos reflexos nos viu a mim e ao Joãozinho ao meu colo que não era filho deles, era meu, o único filho que tive, o reflexo a olhar para nós
- Desaparece Titina
a senhora a olhar-nos também como se o filho não fosse filho dela e não era filho dela, era meu, apertado contra mim de nariz no meu pescoço, a senhora ou uma fracção da senhora numa fracção de vidro, só as mãos, as pernas, a testa, um bocadinho de queixo, a olhar-nos um instante puxando um baú de encontro à cama e a enchê-lo de blusas, vestidos, sapatos, xailes, de permanente desalinhada, sem pintura nem bâton nem verniz nas unhas ao contrário de quando me explicava, a telefonar à companhia de táxis e a verificar a costura das meias
- Se perguntarem por mim fui às compras a Palmela
enquanto o marido estava no ministério em Lisboa, a senhora pela vereda de ciprestes abaixo e no fim da vereda, a seguir ao portão, um automóvel à espera nos olmos do largo, regressava a cantarolar, sem compras nenhumas, queria falar-lhe do jantar e ela, à cata dos sais, abrindo a água da banheira em passinhos de dança, a desabotoar o casaco e a girá-lo por cima da cabeça no vértice do dedo
- Faz o que quiseres Titina é-me indiferente falar-lhe do senhor doutor ou das criadas ou do governo da casa e ela a tirar a válvula com o pé e a jogar-me um piparote de espuma
- Agora não Titina tem paciência passa-me a toalha
azulejos embaciados de vapor, prateleiras embaciadas de vapor, a janela tão embaciada de vapor que não se distinguiam o pomar nem as gralhas, apenas manchas verdes para lá dos caixilhos e uma marca no peito que a disfarçava com creme a rir-se
- Um cachorrinho mordeu-me Titina um cachorrinho amoroso felpudo
a princípio as compras em Palmela eram uma ou duas vezes por semana e depois três e depois quatro e depois cinco, ao sábado e ao domingo o telefone tocava e se eu atendia desligavam, se o senhor doutor atendia desligavam, se a senhora atendia ficava que tempos aos cochichos, o senhor doutor perguntava quem era e a senhora, desembaraçadíssima, respondia que era uma condiscípula do colégio com quem eu não conversava há dez anos, imagina como o tempo voa, um dia destes vou visitá-la a Coimbra, podíamos passar umas feriazinhas em Coimbra não podíamos Francisco?, a ganhar confiança, fartinha de saber que o senhor doutor não largava o ministério, de maneira que era raro o fim-de-semana em que uma rapariga que eu não vejo há séculos não se lembrasse, morta de saudades, de telefonar para Palmela, a senhora às gargalhadinhas, aos meneios, aos segredos, a suspirar para o bocal, de olhos fechados
- Eu também
a voltar para a mesa como se flutuasse, a enrolar uma bolinha de pão esquecida de comer, os corvos a troçarem na horta, os gerânios a troçarem nos canteiros, o senhor doutor que gostava que as amigas da senhora gostassem dela, sem desconfiar de nada
- O peixe fica sem graça Isabel
em Agosto a senhora, radiante, tão radiante que até me deu um beijo e com tanta bagagem como se partisse por cem anos, foi um mês de férias a Coimbra sem deixar endereço
- Sei lá onde a Luísa mora eu depois telefono
a senhora a fazer uma festa ao menino
- Só me lembro do apelido de solteira que não serve de nada que interrogatório é esse Francisco?
a senhora que trocava o nome das amigas, lhes trocava as famílias, lhes trocava as histórias, se enganava nas anedotas do colégio, não telefonou, só escreveu uma vez de Espanha a contar que como estava em Coimbra aproveitou para dar um saltinho com a amiga a Madrid, o senhor doutor a sentir a falta dela que se lhe notava na cara, sozinho à mesa, sozinho na sala a estudar os livros dele ou a folhear o jornal, de mãos nos bolsos no corredor a fumar cigarrilhas para a frente e para trás como uma alma penada, a senhora chegou com um ar aborrecido, largou as malas na entrada, afundou-se logo no sofá, franzida de enjoo, sem cumprimentar ninguém
- Estou estafada
os corvos perdidinhos de riso, as rãs perdidinhas de riso, o senhor doutor a sentar-se-lhe ao lado dela e aela a distanciar-se como se a picassem
- Tem paciência Francisco estou estafada
olhando os quadros, os móveis, o piano como se detestasse tudo aquilo, como se tudo aquilo a irritasse, a pegar numa revista de moda, a largar a revista, a pegar num cigarro e a esquecer-se de acendê-lo, a apagar com um sopro o isqueiro que o senhor doutor lhe estendia
- Não me deixas em paz nem um momento Francisco?
atirando com a porta do quarto das visitas, a rodar a chave, a aparecer no dia seguinte, às onze, já estava o marido no ministério, a senhora em roupão, besuntada de pasta para as rugas, meneando a cabeça desgostosa no terraço onde o jardineiro aparava a vinha-virgem e os buxos
- Que feio que isto é meu Deus
eu que podia ajudá-la se tivesse inteligência, estudos, educação, se não tivesse ido servir aos doze anos para Paços de Ferreira, a senhora sem ligar ao menino, sem tocar no chá, a bater com a colher na compoteira, na manteigueira, no bule, a provar uma torrada e a abandoná-la no prato, resmungando em francês, as gralhas mudas a espreitarem-na do parapeito fingindo qeu catavam as penas, eu com vontade de as correr à vassourada que corrê-las à vassourada, graças a Deus ainda sei fazer e tenho corpo para isso, e de súbito o telefone a chamar e a senhora num pulo, soltando a colher, transfigurada
- Eu atendo Titina
o tractor mais perto, o moinho a girar com tanta velocidade que não se distinguiam as pás, só uma cintilação de metal enloquecida pelo vento, a senhora em lugar de suspiros para as condiscípulas do colégio
- Eu também
de sobrancelhas franzidas, estendendo um funil com a boca para que eu não escutasse
- Não aguento mais amor juro que não aguento mais tem de ser amanhã e a vida pareceu-lhe de novo alegre, bebeu o chá frio, comeu as torradas geladas, vestiu-se, arranjou-se, pintou-se, passou horas a envernizar as unhas, mandou vir um táxi e foi às compras a Palmela, eu nervosíssima a ralhar com as criadas, a pôr defeitos em tudo, a descompor a cozinheira, a descompor a modista, a discutir com o jardineiro por causa de um narciso murcho, o relógio a devorar horas num granizo de badaladas infinitas, o Joãozinho a choramingar de fome ou de sono atrás de mim
- Agora não menino
as faias escureceram, a vereda de ciprestes escureceu, os corvos sumiram-se nos eucaliptos do pântano, as luzes de Setúbal, as luzes da serra, uma espécie de halo do mar que se não via, um automóvel no pátio, um som de passos nos degraus, o senhor doutor intrigado, a pousar a pasta na mesa da entrada, a abrir a porta do quarto das visitas, a porta do quarto, a porta da sala, a pegar no menino ao colo que não era dele, era meu, era por mim que ele chamava se caía ou tinha medo do escuro, o senhor doutor alargando o nó da gravata
- A senhora Titina?
o senhor doutor na capela, na estufa, no roseiral, na horta, a dar a volta à casa e eu escutando-lhe as solas no cimento, no tijolo, no cascalho, na terra, o senhor doutor esgaseado e eu sem poder ajudá-lo porque não tinha inteligência, não tinha estudos, fui servir para Paços de Ferreira aos doze anos
- A senhora Titina?
a pegar no telefone, a hesitar, a prendê-lo no gancho, eu com vergonha mas não sei de queê, só sei que não me apetecia assistir àquilo, e nisto uma claridade de faróis pelos ciprestes acima, as árvores iluminadas uma a uma, um barulho de motor a crescer, os tacões da senhora nos degraus, o senhor doutor qeu dava pena vê-lo
- O que aconteceu Isabel?
que dava tanta pena vê-lo que se eu fosse a senhora não me ia embora por dó, a senhora sem reparar nele nem o ouvir
- O jantar está pronto Titina?
a sentar-se à mesa, a tirar o guardanapo da argola, a servir-se da água como se nada fosse, a sala de jantar pareceu-me de repente tristíssima, uma sala de jantar de pobres apesar do luxo dos móveis, o senhor doutor a levantar o jarro que tremia
- O que aconteceu Isabel?
a senhora a fitá-lo e a desinteressar-se dele
- A sopa Titina o Joãozinho a choramingar a pedir colo, a pedir rebuçados, a pedir chichi sem que ninguém lhe ligasse, sem que nem eu lhe ligasse
- Titina
as criadas saltitando de curiosidade na cozinha, empurrando-se umas às outras na excitação das desgraças
- Ele vai bater-lhe não vai dona Titina ele vai bater-lhe quanto queres apostar que vai bater-lhe
as criadas tão contentes como as graalhas acotovelando-se de êxtase
- Ele vai bater-lhe não via dona Titina ele vai bater-lhe quanto queres apostar que vai bater-lhe
principiou a chover porque se escutavam as janelas, o telhado, as laranjeiras e os anjos de pedra a chamarem por mim com voz de gente
- Titina
havia adeuses de asas e de ramos nos caixilhos, a senhora trancou-se sem uma palavra no quarto dos hóspedes com o primeiro relâmpago, tão próximo de nós que apagou as lâmpadas da casa e os compartimentos se transformaram num labirinto de trevas cheio de volumes de armários e de espelhos ocos, vazios nas molduras de talha de onde todos os rostos se retiraram, um segundo relâmpago, um terceiro, os uivos dos cães, os ganidos de dor dos castanheiros, e no espaço instantâneo de uma descarga de trevas o senhor doutor na porta do quarto de hóspedes como um crucificado de igreja
- Isabel
o menino a choramingar no escuro a pedir colo, rebuçados, chichi, e Deus me perdõe mas quem me apetecia nesse momento pegar ao colo não era o Joãozinho, era o pai, pegar-lhe ao colo, afastar-me do quarto de hóspedes com ele apertado no peito, de nariz no meu pescoço, despi-lo, deitá-lo na cama, tapá-lo com a coberta, e ficar de mão dada, a balouçar devagarinho o corpo até o senhor doutor adormecer.”
Lobo Antunes
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Não Entres tão Depressa Nessa Noite Escura
“O meu pai nunca me deixou entrar aqui. Devia sentar-se na cadeira de baloiço e olhar do postigo o jardim lá em baixo, o portão, a rua, eu pequena a brincar às fadas com a minha irmã no rebordo do lago. Aos domingos abria a gaveta da cómoda, remexia papéis até escutarmos o tilintar da argola, subia as escadas do sótão a procurar a chave no meio das outras chaves
(tal como hoje, agora que ninguém me proíbe, abri a gaveta, remexi papéis até escutar o tilintar da argola e subi as escadas a procurar a chave no meio das outras chaves)
e ficava horas seguidas na cadeira de baloiço
(entendo neste momento que era a cadeira de baloiço pelo ruído das molas)
a olhar do postigo o jardim lá em baixo, o portão, a rua, eu a brincar às fadas com a minha irmã no rebordo do lago
não, não acredito que se interessasse pela rua ou por nós, pela rua não se interessava nunca e quanto a nós o mais que nos oferecia era um aborrecimento mudo, a minha mãe mostrava-lhe os boletins do colégio e ele recusava-os com as costas da mão, fazíamos-lhe perguntas e continuava a mastigar, mudavam-nos o penteado e não reparava sequer, uma tarde, durante a lição de piano
a professora voltava a página da música (...)”
Lobo Antunes
(tal como hoje, agora que ninguém me proíbe, abri a gaveta, remexi papéis até escutar o tilintar da argola e subi as escadas a procurar a chave no meio das outras chaves)
e ficava horas seguidas na cadeira de baloiço
(entendo neste momento que era a cadeira de baloiço pelo ruído das molas)
a olhar do postigo o jardim lá em baixo, o portão, a rua, eu a brincar às fadas com a minha irmã no rebordo do lago
não, não acredito que se interessasse pela rua ou por nós, pela rua não se interessava nunca e quanto a nós o mais que nos oferecia era um aborrecimento mudo, a minha mãe mostrava-lhe os boletins do colégio e ele recusava-os com as costas da mão, fazíamos-lhe perguntas e continuava a mastigar, mudavam-nos o penteado e não reparava sequer, uma tarde, durante a lição de piano
a professora voltava a página da música (...)”
Lobo Antunes
O fim do mundo
“...Isto pode ter acabado mas não sou tão parvo que vá chorar à tua frente. Pelo contrário: apareço-te com um sorriso como se não fosse nada,sento-me à mesa, ponho o guardanapo ao pescoço por causa dos salpicos na camisa (a minha mãe, coitada, que já vê mal, vê-se grega com as nódoas)digo- Boa noite Manuela
e como a sopa até ao fim, a falar disto e daquilo, sem dar a entender que estou triste, que tenho um nó na garganta, que sinto a minha vida em cacos porque juro-te que não sou tão parvo que vá chorar à tua frente. Tu levantas-te, tiras-me a colher, pões o meu prato em cima do teu, trazes o arroz de coelho da cozinha e eu a abrir uma garrafa de cerveja que às vezes sempre ajuda um bocadinho a dissolver a tristeza e o nó na garganta e enquanto me sirvo do arroz fico à espera que me fales do Carlos.
No fundo pode ser que a culpa seja minha por adiar constantemente o casamento contigo, vir aqui às segundas e as quintas e ir-me embora à uma da manhã com a desculpa de que a velhota precisa da minha ajuda, que com a idade deixa a porta aberta e se esquece do gás, que sou filho único e só me tem a mim quando a verdade é que os compromissos me assustam, me assusta a idéia de quereres ter crianças (não tenho jeito nenhum para crianças) e com tantas desculpas e tantos adiamentos era mais que certo que acabavas por te cansar e se não fosse o Carlos era outro, o Carlos pelo menos é um rapaz sossegado, gosta de ti, a mãe dele é quinze anos mais nova do que a minha e tem uma saúde de ferro e uma mulher não pode passar a vida inteira à espera que um fulano se decida, passar a maior parte das noites sem companhia a ver vídeos na televisão, uma mulher precisa de companhia, de conversar, de um homem para tomar conta e eu não sirvo para isso, Manuela, levo o serão a olhar para o relógio com receio de perder o barco, despeço-me à pressa com um beijo na testa, telefono de fugida do emprego até que na semana passada me avisaste
- Preciso imenso de falar contigo
e eu entendi que me querias explicar que o Carlos estava disposto a dar-te o que eu nunca te dei, que não ligava com o teu feitio ficares sozinha, ires sozinha à praia, ires sozinha ao cinema, agüentar as anginas sem ninguém ao pé, oiço a minha voz
- O coelho está óptimo
farto de saber que não era isso que tu querias ouvir, farto de saber que o que querias ouvir era
-Eu caso-me contigo esquece o Carlos
mas não consigo, não sou capaz, gosto de ti e no entanto não me vejo, percebes, a viver contigo, o amor é uma coisa tão esquisita Manuela, garanto-te que tenho amor por ti, garanto--te que adorava pegar-te na mão
- Eu caso-me contigo esquece o Carlos
e as palavras não saem, tu à espera e as palavras não saem, tu a garantires-me em silencio
- Se ficares quero lá saber do Carlos
e tudo o que sou capaz, que idiotice, e elogiar-te o coelho em lugar de te elogiar a ti, te pegar na mão, te jurar
-Amo-te
porque te amo, porque não conheço quem faça macrame tão bem, quem tenha a casa tão limpa, a roupa tão asseada, nem um grão de pó na mobília, não conheço quem me trate como tu me tratas, acho que o Carlos tem uma sorte danada, acho que vou sentir a tua falta a doer-me cá dentro e todavia não sou tão parvo que vá chorar à tua frente, falo contigo como se não fosse nada, enfio o guardanapo na argola, levanto-me, abotoou o casaco e
tu
- Preciso imenso de falar contigo
eu, que não sou tão parvo que vá chorar à tua frente, a agarrar a maçaneta da porta
- Amanhã amanhã
sabendo perfeitamente que não vou vir amanhã, que não vou vir nunca mais, que se viesse encontrava a mesa posta e o Carlos sentado no meu lugar a comer o meu arroz de coelho e a propor-te
- Vamos tratar da papelada no Registro
sabendo perfeitamente que daqui a dois ou três meses vou espreitar ao jardim da Gulbenkian, e lá estarão vocês e os padrinhos a tirarem fotografias junto à estatua, junto ao lago, e pode ser que me vejas, Manuela, que me distingas no meio dos arbustos, pode ser que olhes para mim como agora olhas
- Preciso imenso de falar contigo
só que não dirás nada porque é tarde, não podes passar o resto da vida aires sozinha à praia, ao cinema, a agüentar as anginas sem ninguém ao pé, talvez me acenes, talvez eu te acene e apanhe logo o autocarro porque a velhota necessita de mim, com a idade deixa a porta aberta e esquece-se do gás, ao entrar a minha mãe, preocupada
-Vens pálido Jorginho
eu muito depressa
- Não é nada mãe
e sento-me no quintal das traseiras até ser noite e sem chorar, claro, não sou tão parvo que comece a chorar, que mariquice chorar, eu não choro, não penses que choro, não choro, sento-me no quintal das traseiras até ser noite a dar milho às galinhas, a dar milho às
galinhas, a dar milho às galinhas.”
Lobo Antunes
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