Por Maíra Vasconcelos, GGN
Estive alegre e relaxada demais. Perco-me tanto quando bebo da alegria
doce de viver. Perco-me, como se o estado hipnótico da concentração
cobrasse em mim sua moradia, tão constante. Como se mesmo quando não
escrevo, também devesse cada segundo de vida ao passo da palavra. E às
vezes a palavra apenas se parece a uma tristeza cansada de gritar.
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Saber Esperar sapo
Quem sabe esperar o bem que deseja não toma
a decisão de se desesperar se ele não chega; aquele que, pelo contrário, deseja
uma coisa com grande impaciência, põe nisso demasiado de si mesmo para que o
sucesso seja recompensa suficiente. Há pessoas que querem tão ardente e
determinantemente certa coisa, que por medo de perdê-la, não esquecem nada do
que é preciso fazer para perdê-la. As coisas mais desejadas não acontecem; ou
se acontecem, não é no tempo nem nas circunstâncias em que teriam causado
extraordinário prazer.
Jean de La Bruyére, in "Os Caracteres"
Jean de La Bruyére, in "Os Caracteres"
O Espírito da Conversação
Há pessoas que falam um momento antes de
pensar; há outras que prestam fraca atenção ao que dizem, e com as quais
sofremos, na conversação, todo o trabalho que a sua inteligência tem; estão
como amassados de frases e jeitos de expressão, concertados nos gestos e em
toda a sua atitude.
O espírito da conversação consiste muito menos em mostrar muito espírito que em fazer com que os outros o achem: quem sai de uma palestra contente consigo mesmo e com o seu espírito, sai perfeitamente contente com o orador. Os homens não gostam de admirar; querem agradar: procuram menos ser instruídos, e mesmo satisfeitos, que serem apreciados e aplaudidos; e o prazer mais delicado que há é o de causar o dos outros.
Jean de La Bruyére, in "Os Caracteres"
O espírito da conversação consiste muito menos em mostrar muito espírito que em fazer com que os outros o achem: quem sai de uma palestra contente consigo mesmo e com o seu espírito, sai perfeitamente contente com o orador. Os homens não gostam de admirar; querem agradar: procuram menos ser instruídos, e mesmo satisfeitos, que serem apreciados e aplaudidos; e o prazer mais delicado que há é o de causar o dos outros.
Jean de La Bruyére, in "Os Caracteres"
Ignorância Atrevida sapo
É a ignorância profunda que inspira o tom
dogmático. Aquele que nada sabe pensa ensinar aos outros o que acaba de
aprender; aquele que sabe muito mal chega a pensar que o que diz possa ser
ignorado, e fala com maior indiferença. As maiores coisas só precisam de ser
ditas de forma simples; elas estragam-se com a ênfase: é preciso dizer
nobremente as pequenas; elas só se sustentam pela expressão, pelo tom e pela
maneira.
Jean de La Bruyére, in "Os Caracteres"
Jean de La Bruyére, in "Os Caracteres"
Descer ao Nível do Outro sapo
Há certas pessoas de certo estofo ou
carácter com as quais nunca nos devemos meter, das quais não nos devemos
queixar senão o menos que pudermos, contra as quais não é permitido termos
razão.
Entre duas pessoas que tiveram uma violenta discussão, na qual uma tem razão e a outra não, o que a maior parte das pessoas que assistiram à discussão nunca deixam de fazer, para se dispensarem de julgar, ou por temperamento que sempre me pareceu deslocado, é condenar os dois: lição importante, motivo urgente e indispensável para fugir a oriente quando o tolo está no ocidente, a fim de evitar dividir com ele o mesmo agravo.
Jean de La Bruyére, in "Os Caracteres"
Entre duas pessoas que tiveram uma violenta discussão, na qual uma tem razão e a outra não, o que a maior parte das pessoas que assistiram à discussão nunca deixam de fazer, para se dispensarem de julgar, ou por temperamento que sempre me pareceu deslocado, é condenar os dois: lição importante, motivo urgente e indispensável para fugir a oriente quando o tolo está no ocidente, a fim de evitar dividir com ele o mesmo agravo.
Jean de La Bruyére, in "Os Caracteres"
Na Sociedade é a Razão a Primeira a Ser Vencida
Na sociedade é a razão a primeira a ser
vencida. Os mais ajuizados são frequentemente dirigidos pelo mais louco e
extravagante: estuda-se o seu ponto fraco, o seu humor, os seus caprichos;
acomoda-se a ele; evita-se feri-lo; todo o mundo cede a ele: a menor serenidade
que aparece na sua fisionomia basta para lhe atrair elogios; acham-no óptimo
por não ser sempre insuportável. É temido, considerado, obedecido, e às vezes
amado. Só aqueles que tiveram velhos parentes colaterais, ou que os têm ainda,
dos quais se espera herdar, podem dizer o que isso custa.
Jean de La Bruyére, in "Os Caracteres"
Jean de La Bruyére, in "Os Caracteres"
Saber Falar e Calar sapo
É grande miséria não ter bastante
inteligência para falar bem, nem bastante juízo para se calar. Eis o princípio
de toda a impertinência. Dizer de uma coisa, modestamente, que é boa ou que é
má, e as razões por que assim é, requer bom senso e expressão; é um problema. É
mais cómodo pronunciar, em tom decisivo, não importa se prova aquilo que
afirma, que ela é execrável ou que é miraculosa.
Jean de La Bruyére, in "Os Caracteres"
Jean de La Bruyére, in "Os Caracteres"
Ninguém Gosta de Ser Considerado Vaidoso
No seu coração, os homens desejam ser
estimados, mas eles cuidadosamente ocultam esse desejo porque querem passar
por virtuosos e porque o desejo de receber da virtude qualquer vantagem além
dela mesma não seria ser virtuoso, mas amar a estima e o elogio — ou seja, ser
vaidoso. Os homens são muito vaidosos, mas não há nada que eles mais detestem
do que serem considerados vaidosos.
Jean de La Bruyére, in "Os Caracteres"
Jean de La Bruyére, in "Os Caracteres"
Leitura Subjectiva ou Ignorante?
Os tolos lêem um livro e não o entendem; os
espíritos medíocres crêem entendê-lo perfeitamente; os grandes espíritos às
vezes não o entendem por inteiro: acham obscuro o que é obscuro, como acham
claro o que é claro; os espíritos afectados querem achar obscuro o que não o é,
e não entender o que é muito intelegível.
Jean de La Bruyére, in 'Os Caracteres'
Jean de La Bruyére, in 'Os Caracteres'
A Verdadeira Bondade do Homem
A verdadeira bondade do homem só pode
manifestar-se em toda a sua pureza e em toda a sua liberdade com aqueles que
não representam força nenhuma. O verdadeiro teste moral da humanidade (o teste
mais radical, aquele que por se situar a um nível tão profundo nos escapa ao
olhar) são as suas relações com quem se encontra à sua mercê: isto é, com os
animais. E foi aí que se deu o maior fracasso do homem, o desaire fundamental
que está na origem de todos os outros.
Milan Kundera, in "A Insustentável Leveza do Ser"
Milan Kundera, in "A Insustentável Leveza do Ser"
O Pobre Diabo Face à Guerra
Se tivessem contado ao diabo, que sempre
teve uma enorme paixão pela guerra, que um dia haveria homens para quem a
continuação desta representa um interesse comercial, que eles nem se dão ao
trabalho de disfarçar e cujo produto ainda os ajuda a ocupar um lugar de
destaque na sociedade, ele teria dito para irem contar isso à avó dele. Mas
depois, quando se tivesse convencido do facto, o inferno teria ficado abrasado
de vergonha e ele não teria outro remédio senão reconhecer que toda a vida fora
um pobre diabo!
Karl Kraus, in 'O Archote'
Karl Kraus, in 'O Archote'
Somos Sempre Mais Que a Soma das Nossas Ideias
Há muitos que partilham das minhas ideias.
Eu é que não as partilho com eles. Se alguém perfilha todas as minhas ideias,
isso não quer dizer necessariamente que a adição resulte num todo. Mesmo que eu
próprio não tivesse nenhuma das minhas ideias, ainda seria mais do que um outro
que perfilha todas as minhas ideias.
Karl Kraus, in "O Archote"
Karl Kraus, in "O Archote"
Concordar mas Sempre em Desacordo
A maioria das pessoas só se convencem de
ter razão depois que outras pessoas concordam com elas. Mas alguns de nós não
achamos nada mais perturbador do que as nossas próprias palavras ditas por
outros.
Walter Kaufmann, in 'Crítica da Religião e da Filosofia'
Walter Kaufmann, in 'Crítica da Religião e da Filosofia'
A Soma e Substância de Toda a Filosofia
Se te casas, arrependes-te; se não te casa,
arrependes-te também; cases-te ou não te cases, arrependes-te sempre. Ri-te das
loucuras do mundo e irás arrepender-te; chora sobre elas, e arrependes-te
também; ri-te das loucuras do mundo ou chora sobre elas, e de ambas as coisas
te arrependes; quer te rias das loucuras do mundo, quer chores sobre elas irás
sempre arrepender-te. Acredita numa mulher, e irás arrepender-te, não acredites
nela e arrependes-te também; acredites ou não numa mulher, arrependes-te de
ambas as coisas. Enforca-te, e arrependes-te; não te enforques, e na mesma te
arrependes. É esta, meus senhores, a soma e substância de toda a filosofia.
Soren Kierkegaard, in 'Ou/Ou'
Soren Kierkegaard, in 'Ou/Ou'
Saber Avaliar a Novidade sapo
A ideia de que somente é belo o que é novo
e jovem envenena as nossas relações com o passado e com o nosso próprio futuro.
Impede-nos de compreender as nossas raízes e as maiores obras da nossa cultura
e das outras culturas. Faz-nos também recear o que está à nossa frente e leva
muita gente a fugir à realidade.
Walter Kaufmann, in 'O Tempo é um Artista'
Walter Kaufmann, in 'O Tempo é um Artista'
O Efeito do Afastamento no Tempo
O afastamento no tempo engana o sentido do
espírito como o afastamento no espaço provoca o erro dos sentidos. O
contemporâneo não vê a necessidade do que vem a ser, mas, quando há séculos
entre o vir a ser e o observador, então ele vê a necessidade, como aquele que
vê à distância o quadrado como algo redondo.
Soren Kierkegaard, in 'Migalhas Filosóficas'
Soren Kierkegaard, in 'Migalhas Filosóficas'
Os Germes da Natureza
Numa floresta, as árvores, justamente pelo
facto de que uma tenta arrebatar da outra o ar e o sol, esforçam-se à porfia
por se ultrapassarem umas às outras e, portanto, crescem belas e erectas.
Porém, pelo contrário, as que lançam em liberdade os seus ramos segundo a sua
vontade, afastadas de outras árvores, crescem mirradas, contorcidas e curvadas.
Toda a cultura, toda a arte, que ornamentam a humanidade, assim como a ordem
social mais bela, são frutos da falta de sociabilidade, que é forçada por si
mesma a disciplinar-se e a desabrochar com isso por completo, impondo-se tal
artifício, os germes da natureza.
Emmanuel Kant, in 'Ideia de uma História Universal de um Ponto de Vista Cosmopolita'
Emmanuel Kant, in 'Ideia de uma História Universal de um Ponto de Vista Cosmopolita'
Raramente Lemos um Livro que nos Dão
Raramente lemos um livro que nos dão; e
poucos nos são dados. A maneira de espalhar uma obra é vendê-la a um preço
baixo. Pois ninguém comprará algo ainda que custe apenas alguns cêntimos, se
não tiver a intenção de lê-la.
Samuel Johnson, in 'A Vida de Johnson, de Boswell'
Samuel Johnson, in 'A Vida de Johnson, de Boswell'
Mau Feitio
Amo demasiado o universo para viver com um
único ser. Como entender-me com um ser humano sem o ofender em nome de todos?
Demónio, não consigo entender-me com Deus; anjo, com o demónio. Como
entender-me contigo, se comigo próprio me não entendo? Onde me refugiar, se céu
e inferno me são tão inacessíveis quanto a Terra?
Max Jacob, in 'O Copo dos Dados'
Max Jacob, in 'O Copo dos Dados'
O Limite da Lógica
O critério simplesmente lógico da verdade,
isto é, o acordo de um conhecimento com as leis gerais e formais do
entendimento e da razão, é, decerto, a condition sine qua non e, portanto, a
condição negativa de qualquer verdade; mas a lógica não pode ir mais além;
nenhuma pedra de toque lhe permite descobrir o erro que atinge não a forma, mas
o conteúdo.
Emmanuel Kant, in 'Crítica da Razão Pura'
Emmanuel Kant, in 'Crítica da Razão Pura'
A Liberdade não Existe na Natureza
A liberdade é uma simples ideia cuja
realidade objectiva não pode ser evidenciada de nenhuma maneira segundo as leis
da natureza, portanto em nenhuma experiência possível, que, em consequência,
justamente porque jamais se pode colocar um exemplo sob ela, segundo alguma
analogia, jamais pode ser compreendida nem mesmo apenas percebida.
Emmanuel Kant, in 'Fundamentos da Metafísica dos Costumes'
Emmanuel Kant, in 'Fundamentos da Metafísica dos Costumes'
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