Meu Anjo
“Meu anjo tem o encanto, a maravilha
Da espontânea canção dos passarinhos;
Tem os seios tão alvos, tão macios
Como o pêlo sedoso dos arminhos.
Triste de noite na janela a vejo
E de seus lábios o gemido escuto
É leve a criatura vaporosa
Como a frouxa fumaça de um charuto.
Parece até que sobre a fronte angélica
Um anjo lhe depôs coroa e nimbo...
Formosa a vejo assim entre meus sonhos
Mais bela no vapor do meu cachimbo.
Como o vinho espanhol, um beijo dela
Entorna ao sangue a luz do paraíso.
Dá morte num desdém, num beijo vida,
E celestes desmaios num sorriso!
Mas quis a minha sina que seu peito
Não batesse por mim nem um minuto,
E que ela fosse leviana e bela
Como a leve fumaça de um charuto!”
Álvares de Azevedo
Da espontânea canção dos passarinhos;
Tem os seios tão alvos, tão macios
Como o pêlo sedoso dos arminhos.
Triste de noite na janela a vejo
E de seus lábios o gemido escuto
É leve a criatura vaporosa
Como a frouxa fumaça de um charuto.
Parece até que sobre a fronte angélica
Um anjo lhe depôs coroa e nimbo...
Formosa a vejo assim entre meus sonhos
Mais bela no vapor do meu cachimbo.
Como o vinho espanhol, um beijo dela
Entorna ao sangue a luz do paraíso.
Dá morte num desdém, num beijo vida,
E celestes desmaios num sorriso!
Mas quis a minha sina que seu peito
Não batesse por mim nem um minuto,
E que ela fosse leviana e bela
Como a leve fumaça de um charuto!”
Álvares de Azevedo
Sagarana
“O grande êxito de Sagarana, do dr. J. Guimarães Rosa, não deixa de se prender às relações do público ledor com o problema do regionalismo e do nacionalismo literário. Há cerca de trinta anos, quando a literatura regionalista veio para a ribalta, gloriosa, avassaladora, passávamos um momento de extremo federalismo. Na intelligentzia, portanto, o patriotismo se afirmou como reação de unidade nacional. A Pátria, com pê sempre maiúsculo, latejou descompassadamente, e os escritores regionais eram procurados como afirmação nativista. Foi o tempo em que todo jovem promotor ou delegado, despachado para as cidadezinhas do interior, voltava com um volume de contos ou uma novela sertaneja, quase sempre lembrança de cenas, fatos e pessoas cujo pitoresco lhes assanhava a sensibilidade litorânea de nascimento ou educação.A reviravolta econômica nos grandes Estados, subseqüente à crise de 1929, alterou os termos de equação política, e a descentralização federalista, depois de alguns protestos nem sempre platônicos, foi cedendo passo à nova fase centralizadora, exigida quase pelo desenvolvimento da indústria. Processo cuja aberração foi o Estado Novo, assim como a constituição castilhista tinha sido a aberração do processo anterior.
Para compensar - como às vezes acontece -, a intelligentzia se virou para o bairrismo. Antes, quando a palavra de ordem política e o sentimento geral eram provincianos, foi chique ser nacionalista, e o porta-voz mais característico da tendência foi Olavo Bilac. Agora, que as forças unitárias predominam e já se vai generalizando um certo sentimento de todo - deste todo de repente vivo e existente por meio do rádio e do aeroplano -, agora a moda é ser bairrista, e o porta-voz mais autorizado da tendência é o sr. Gilberto Freyre, pai da voga atual da palavra "província". Todos falam na sua província, nas suas tradições etc etc, embora a maioria prefira fazer como seu Rui da canção, isto é, ela lá e eu aqui. Quando chega ao Rio, o jovem intelectual não mais se esforça por mudar a pronúncia e parecer familiarizado com a cidade; capricha o sotaque e escreve imediatamente sobre a negra velha que (diz ele) o criou, falando dos avós da pequena terra em ue nasceu etc. O maior elogio do dia é "sabor da terra", traduzindo do " francês, já se vê, e a maior ofensa dizer a um escritor que ele não tem raízes.
Natural, em meio semelhante, o alvoroço causado pelo sr. Guimarães Rosa, cujo livro vem cheio de "terra", fazendo arregalar os olhos aos intelectuais que não tiveram a sorte de morar ou nascer no interior (digo, na "província" ) ou aos que, tendo nela nascido, nunca souberam do nome da árvore grande do largo da igreja, coisa bem brasileira. Seguro do seu feito, o sr. Guimarães Rosa despeja nomes de tudo - plantas, bichos, passarinhos, lugares, modas - enrolados em locuções e construções de humilhar os citadinos. "Irra, que é talento demais", como o deputado português, mal comparando.
Mas Sagarana não vale apenas na medida em que nos traz um certo sabor regional, mas na medida em que constrói um certo sabor regional, isto é, em que transcende a região. A província do sr. Guimarães Rosa - no caso, Minas - é menos uma região do Brasil do que uma região da arte, com detalhes e locuções e vocabulário e geografia cosidos de maneira por vezes irreal, tamanha é a concentração com que trabalha o autor. Assim, veremos, numa conversa, os interlocutores gastarem meia dúzia de provérbios e outras tantas parábolas como se alguém falasse no mundo deste jeito. Ou, de outra vez, paisagens tão cheias de plantas, flores e passarinhos cujo nome o autor colecionou, que somos mesmo capazes de pensar que na região do sr. Guimarães Rosa o sistema fito-zoológico obedece ao critério da Arca de Noé. Por isso, sustento, e sustentarei mesmo que provem o meu erro, que Sagarana não é um livro regional como os outros, porque não existe região alguma igual à sua, criada livremente pelo autor com elementos caçados analiticamente e, depois, sintetizados na ecologia belíssima das suas histórias.
Transcendendo o critério regional por meio de uma condensação do material observado (condensação mais forte do que qualquer outra em nossa literatura da "terra"), o sr. Guimarães Rosa como que iluminou, de repente, todo o caminho feito pelos antecessores. Sagarana significa, entre outras coisas, a volta triunfal do regionalismo do Centro. Volta o coroamento. De Bernardo Guimarães a ele, passando por Afonso Arinos, Valdomiro Silveira, Monteiro Lobato, Amadeu de Queirós, Hugo de Carvalho Ramos, assistimos a um longo movimento de tomada de consciência, através da exploração do meio humano e geográfico. É a fase do pitoresco e do narrativo, do regionalismo "entre aspas", se dão licença de citar uma expressão minha em artigo recente. Fase ultrapassada, cujos produtos envelheceram rapidamente, talvez à força de copiados e dessorados pelos minores. Fase, precisamente, em que os escritores trouxeram a região até o leitor, conservando, eles próprios, atitude de sujeito e objeto. O sr. Guimarães Rosa construiu um regionalismo muito mais autêntico e duradouro, porque criou uma experiência total em que o pitoresco e o exótico são animados pela graça de um movimento interior em que se desfazem as relações de sujeito e objeto pára ficar a obra de arte como integração total de experiência.
Sagarana nasceu universal pelo alcance e pela coesão da fatura. A língua parece finalmente ter atingido o ideal da expressão literária regionalista. Densa, vigorosa, foi talhada no veio da linguagem popular e disciplinada dentro das tradições clássicas. Mário de Andrade, se fosse vivo, leria comovido este resultado esplêndido da libertação lingüística, para que ele contribuiu com a libertinagem heróica da sua.
Além das convenções literárias, Sagarana se caracteriza por um soberano desdém das convenções. O sr. Guimarães Rosa - cuja vocação de virtuose é inegável - parece ter querido mostrar a possibilidade de chegar à vitória partindo de uma série de condições que conduzem, geralmente, ao fracasso. Ou melhor: todos os fracassos dos seus predecessores se transformaram, em suas mãos, noutros fatores de vitória.
Para começar, a própria temática, batida e aparentemente esgotada. Em matéria de regionalismo, só aceitamos, de uns vinte anos para cá, o nordestino, transformado, por sua vez e por força do uso, em arrabalde pacífico e já sem surpresas da nossa sensibilidade literária.
Em seguida, o exotismo do léxico, recurso geralmente fácil, abusado pelos escritores gaúchos. Depois, a tendência descritiva, quase de composição escolar, familiar a quem vive em contato com os pequenos jornais do interior e, em literatura, relegada a segundo plano pelas exigências tanto de ação quanto de introspecção do romance moderno. Finalmente, o capricho meio oratório do estilo, que há muito consideramos privativo da subliteratura.
Pois o sr. Guimarães Rosa partiu de todas estas condições, algumas das quais bastaram para fazer naufragar escritores de maior talento, como Monteiro Lobato, ou reduzir ás devidas proporções outros indevidamente valorizados, como o velho Afonso Arinos; não rejeitou nenhuma delas e ~hegou a verdadeiras obras-primas, como são alguns dos contos de Sagarana.
Passando a setor de ordem mais pessoal, talvez possamos dizer que a qualidade básica do autor escapa à crítica, porque só pode ser sugerida por meio de imprecisões como "capacidade de contar", "vigor narrativo" e outras coisas que, tudo exprimindo, nada dizem de positivo. O meu mestre e amigo Giuseppe Ungaretti usaria expressão mais direta, invocando razões de ordem hormonal em calão pitoresco, que eu não me atrevo a trazer para este bem comportado rodapé e que, segundo ele, são as únicas a exprimir a força criadora dos artistas poderosos como é o sr. Guimarães Rosa.
Sagarana se caracteriza pela paixão de contar. O autor chega a condescendência excessiva para com ela, a ponto de quebrar a espinha das suas histórias a fim de dar relevo a narrativas secundárias, terciárias, cujo conjunto resulta mais importante do que a narrativa central. Deixa-se ir ao sabor dos casos, não perdendo vasa para contá-los, acumulando detalhes, minuciando com pachorra, como quem dá a entender que, em arte, o fim não tem a mínima importância, porque o que importa são os meios. Todos os meios e até a ampliação retórica são bons, desde que nos arrebatem da vida, transportando-nos para a vida mais intensa da arte.
Já se vê por aí que o sr. Guimarães Rosa retorna, em grande estilo, à concepção do contista-contador, para o qual a verdade está na narração e na descrição, para o qual as facadas, os casos de amor, os estouros de boiada e os crepúsculos têm valor eterno, acima de quaisquer outros. Por outro lado, como ficou sugerido, a região, deixando de ser, para ele, simples localïzação da história, com funções de pitoresco e anedótico, passa a verdadeira personagem (se assim me posso exprimir), tanta é a persistência e a profundidade com que vém invocados a sua flora, a sua fauna, o seu relevo. Há, mesmo, certos contos, como "São Marcos", em que só ela redime o anedótico e garante o toque literário autêntico. Em "A hora e vez de Augusto Matraga" há uma certa entrada de primavera - verdadeiro Sacre du Printemps - em que a natureza nos comunica sentimento quase inefável, germinal e religioso.
Como padrão de arte objetiva e elaborada, perfeito na suficiência admirável dos meios, gostaria de indicar o conto "Duelo", das maiores peças de atmosfera da nossa atual novelístïca. Uma tensão envolvente, quase alucinante, alimentada sorrateiramente pelo autor com um ominoso vaivém cheio de detalhes geográficos e pequenos casos laterais.
Não é aí, todavia, que devemos procurar a obra-prima do livro mas no citado "Augusto Matraga", onde o autor, deixando de certo modo a objetividade da arte-pela-arte, entra em região quase épica de humanidade e cria um dos grandes tipos da nossa literatura, dentro do conto que será, daqui por diante, cantado entre os dez ou doze mais perfeitos da língua.
Não penso que Sagarana seja um bloco unido, nem que o sr. Guimarães Rosa tenha sabido, sempre, escapar a certo pendor verboso, a certa difusão de escrita e composição. Sei, porém, que, construindo em termos brasileiros certas experiências de uma altura encontrada geralmente apenas nas grandes literaturas estrangeiras, criando uma vivência poderosamente nossa e ao mesmo tempo universal, que valoriza e eleva a nossa arte, escrevendo contos como "Duelo", "Lalino Salãthiel", "O burrinho pedrês" e, sobre todos (muito sobre todos), "Augusto Matraga" - sei que por tudo isso o sr. Guimarães Rosa vai reto para a linha dos nossos grandes escritores.”
Antônio Cândido
Poema Negro
“Para iludir minha desgraça, estudo.
Intimamente sei que não me iludo.
Para onde vou (o mundo inteiro o nota)
Nos meus olhares fúnebres, carrego
A indiferença estúpida de um cego
E o ar indolente de um chinês idiota!
A passagem dos séculos me assombra.
Para onde irá correndo minha sombra
Nesse cavalo de eletricidade?!
Caminho, e a mim pergunto, na vertigem:
- Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?
E parece-me um sonho a realidade.
Em vão com o grito do meu peito impreco!
Dos brados meus ouvindo apenas o eco,
Eu torço os braços numa angústia douda
E muita vez, à meia-noite, rio
Sinistramente, vendo o verme frio
Que há de comer a minha carne toda!
É a Morte - esta carnívora assanhada -
Serpente má de língua envenenada
Que tudo que acha no caminho, come...
- Faminta e atra mulher que, a 1 de janeiro,
Sai para assassinar o mundo inteiro,
E o mundo inteiro não lhe mata a fome!
Nesta sombria análise das cousas,
Corro. Arranco os cadáveres das lousas
E as suas partes podres examino. . .
Mas de repente, ouvindo um grande estrondo,
Na podridão daquele embrulho hediondo
Reconheço assombrado o meu Destino!
Surpreendo-me, sozinho, numa cova.
Então meu desvario se renova...
Como que, abrindo todos os jazigos,
A Morte, em trajos pretos e amarelos,
Levanta contra mim grandes cutelos
E as baionetas dos dragões antigos!
E quando vi que aquilo vinha vindo
Eu fui caindo como um sol caindo
De declínio em declínio; e de declínio
Em declínio, com a gula de uma fera,
Quis ver o que era, e quando vi o que era,
Vi que era pó, vi que era esterquilínio!
Chegou a tua vez, oh! Natureza!
Eu desafio agora essa grandeza,
Perante a qual meus olhos se extasiam...
Eu desafio, desta cova escura,
No histerismo danado da tortura
Todos os monstros que os teus peitos criam.
Tu não és minha mãe, velha nefasta!
Com o teu chicote frio de madrasta
Tu me açoitaste vinte e duas vezes...
Por tua causa apodreci nas cruzes,
Em que pregas os filhos que produzes
Durante os desgraçados nove meses!
Semeadora terrível de defuntos,
Contra a agressão dos teus contrastes juntos
A besta, que em mim dorme, acorda em berros
Acorda, e após gritar a última injúria,
Chocalha os dentes com medonha fúria
Como se fosse o atrito de dois ferros!
Pois bem! Chegou minha hora de vingança.
Tu mataste o meu tempo de criança
E de segunda-feira até domingo,
Amarrado no horror de tua rede,
Deste-me fogo quando eu tinha sede...
Deixa-te estar, canalha, que eu me vingo!
Súbito outra visão negra me espanta!
Estou em Roma. É Sexta-feira Santa.
A treva invade o obscuro orbe terrestre.
No Vaticano, em grupos prosternados,
Com as longas fardas rubras, os soldados
Guardam o corpo do Divino Mestre.
Como as estalactites da caverna,
Cai no silêncio da Cidade Eterna
A água da chuva em largos fios grossos...
De Jesus Cristo resta unicamente
Um esqueleto; e a gente, vendo-o, a gente
Sente vontade de abraçar-lhe os ossos!
Não há ninguém na estrada da Ripetta.
Dentro da Igreja de São Pedro, quieta,
As luzes funerais arquejam fracas...
O vento entoa cânticos de morte.
Roma estremece! Além, num rumor forte,
Recomeça o barulho das matracas.
A desagregação da minha idéia
Aumenta. Como as chagas da morféa
O medo, o desalento e o desconforto
Paralisam-se os círculos motores.
Na Eternidade, os ventos gemedores
Estão dizendo que Jesus é morto!
Não! Jesus não morreu! Vive na serra
Da Borborema, no ar de minha terra,
Na molécula e no átomo... Resume
A espiritualidade da matéria
E ele é que embala o corpo da miséria
E faz da cloaca uma urna de perfume.
Na agonia de tantos pesadelos
Uma dor bruta puxa-me os cabelos,
Desperto. É tão vazia a minha vida!
No pensamento desconexo e falho
Trago as cartas confusas de um baralho
E um pedaço de cera derretida!
Dorme a casa. O céu dorme. A árvore dorme.
Eu, somente eu, com a minha dor enorme
Os olhos ensangüento na vigília!
E observo, enquanto o horror me corta a fala,
O aspecto sepulcral da austera sala
E a impassibilidade da mobília.
Meu coração, corno um cristal, se quebre
O termômetro negue minha febre,
Torne-se gelo o sangue que me abrasa,
E eu me converta na cegonha triste
Que das ruínas duma casa assiste
Ao desmoronamento de outra casa!
Ao terminar este sentido poema
Onde vazei a minha dor suprema
Tenho os olhos em lágrimas imersos...
Rola-me na cabeça o cérebro oco.
Por ventura, meu Deus, estarei louco?!
Daqui por diante não farei mais versos.”
Augusto dos Anjos
Intimamente sei que não me iludo.
Para onde vou (o mundo inteiro o nota)
Nos meus olhares fúnebres, carrego
A indiferença estúpida de um cego
E o ar indolente de um chinês idiota!
A passagem dos séculos me assombra.
Para onde irá correndo minha sombra
Nesse cavalo de eletricidade?!
Caminho, e a mim pergunto, na vertigem:
- Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?
E parece-me um sonho a realidade.
Em vão com o grito do meu peito impreco!
Dos brados meus ouvindo apenas o eco,
Eu torço os braços numa angústia douda
E muita vez, à meia-noite, rio
Sinistramente, vendo o verme frio
Que há de comer a minha carne toda!
É a Morte - esta carnívora assanhada -
Serpente má de língua envenenada
Que tudo que acha no caminho, come...
- Faminta e atra mulher que, a 1 de janeiro,
Sai para assassinar o mundo inteiro,
E o mundo inteiro não lhe mata a fome!
Nesta sombria análise das cousas,
Corro. Arranco os cadáveres das lousas
E as suas partes podres examino. . .
Mas de repente, ouvindo um grande estrondo,
Na podridão daquele embrulho hediondo
Reconheço assombrado o meu Destino!
Surpreendo-me, sozinho, numa cova.
Então meu desvario se renova...
Como que, abrindo todos os jazigos,
A Morte, em trajos pretos e amarelos,
Levanta contra mim grandes cutelos
E as baionetas dos dragões antigos!
E quando vi que aquilo vinha vindo
Eu fui caindo como um sol caindo
De declínio em declínio; e de declínio
Em declínio, com a gula de uma fera,
Quis ver o que era, e quando vi o que era,
Vi que era pó, vi que era esterquilínio!
Chegou a tua vez, oh! Natureza!
Eu desafio agora essa grandeza,
Perante a qual meus olhos se extasiam...
Eu desafio, desta cova escura,
No histerismo danado da tortura
Todos os monstros que os teus peitos criam.
Tu não és minha mãe, velha nefasta!
Com o teu chicote frio de madrasta
Tu me açoitaste vinte e duas vezes...
Por tua causa apodreci nas cruzes,
Em que pregas os filhos que produzes
Durante os desgraçados nove meses!
Semeadora terrível de defuntos,
Contra a agressão dos teus contrastes juntos
A besta, que em mim dorme, acorda em berros
Acorda, e após gritar a última injúria,
Chocalha os dentes com medonha fúria
Como se fosse o atrito de dois ferros!
Pois bem! Chegou minha hora de vingança.
Tu mataste o meu tempo de criança
E de segunda-feira até domingo,
Amarrado no horror de tua rede,
Deste-me fogo quando eu tinha sede...
Deixa-te estar, canalha, que eu me vingo!
Súbito outra visão negra me espanta!
Estou em Roma. É Sexta-feira Santa.
A treva invade o obscuro orbe terrestre.
No Vaticano, em grupos prosternados,
Com as longas fardas rubras, os soldados
Guardam o corpo do Divino Mestre.
Como as estalactites da caverna,
Cai no silêncio da Cidade Eterna
A água da chuva em largos fios grossos...
De Jesus Cristo resta unicamente
Um esqueleto; e a gente, vendo-o, a gente
Sente vontade de abraçar-lhe os ossos!
Não há ninguém na estrada da Ripetta.
Dentro da Igreja de São Pedro, quieta,
As luzes funerais arquejam fracas...
O vento entoa cânticos de morte.
Roma estremece! Além, num rumor forte,
Recomeça o barulho das matracas.
A desagregação da minha idéia
Aumenta. Como as chagas da morféa
O medo, o desalento e o desconforto
Paralisam-se os círculos motores.
Na Eternidade, os ventos gemedores
Estão dizendo que Jesus é morto!
Não! Jesus não morreu! Vive na serra
Da Borborema, no ar de minha terra,
Na molécula e no átomo... Resume
A espiritualidade da matéria
E ele é que embala o corpo da miséria
E faz da cloaca uma urna de perfume.
Na agonia de tantos pesadelos
Uma dor bruta puxa-me os cabelos,
Desperto. É tão vazia a minha vida!
No pensamento desconexo e falho
Trago as cartas confusas de um baralho
E um pedaço de cera derretida!
Dorme a casa. O céu dorme. A árvore dorme.
Eu, somente eu, com a minha dor enorme
Os olhos ensangüento na vigília!
E observo, enquanto o horror me corta a fala,
O aspecto sepulcral da austera sala
E a impassibilidade da mobília.
Meu coração, corno um cristal, se quebre
O termômetro negue minha febre,
Torne-se gelo o sangue que me abrasa,
E eu me converta na cegonha triste
Que das ruínas duma casa assiste
Ao desmoronamento de outra casa!
Ao terminar este sentido poema
Onde vazei a minha dor suprema
Tenho os olhos em lágrimas imersos...
Rola-me na cabeça o cérebro oco.
Por ventura, meu Deus, estarei louco?!
Daqui por diante não farei mais versos.”
Augusto dos Anjos
A Sociedade
“-Filha minha não casa com filho de carcamano!A esposa do Conselheiro José Bonifácio de Matos e Arruda disse isso e foi brigar com o italiano das batatas.
Teresa Rita misturou lágrimas com gemidos e entrou no seu quarto batendo a porta.
O Conselheiro José Bonifácio limpou as unhas com o palito, suspirou e saiu de casa abotoando o fraque.
O esperado grito do cláxon fechou o livro de Henri Ardel e trouxe Teresa Rita do escritório para o terraço.
O Lancia passou como quem não quer. Quase parando.
A mão enluvada cumprimentou com o chapéu Borsalino.
Uiiiiia-uiiiiia! Adriano Meli calcou o acelerador. Na primeira esquina fez a curva. Veio voltando. Passou de novo. Continuou. Mais duzentos metros. Outra curva. Sempre na mesma rua. Gostava dela. Era a Rua da Liberdade. Pouco antes do número 259-C sabe: uiiiiia-uiiiiia!
-O que você está fazendo aí no terraço, menina?
-Então nem tomar um pouco de ar eu posso mais?
Lancia Lambda, vermelhinho, resplendente, pompeando na rua. Vestido de Camilo, verde, grudado à pele, serpejando no terraço.
-Entre já para dentro ou eu falo com seu pai quando ele chegar!
-Ah meu Deus, meu Deus, que vida, meu Deus!
Adriano Melli passou outras vezes ainda. Estranhou. Desapontou. Tocou para a Avenida Paulista.
Na orquestra o negro de casaco vermelho afastava o saxofone da beiçorra para gritar:
Dizem que Cristo nasceu em Belém...
Porque os pais não a haviam acompanhado (abençoado furúnculo inflamou o pescoço do Conselheiro José Bonifácio) ela estava achando um suco aquela vesperal do Paulistano. O namorado ainda mais.
Os pares dançarinos maxixavam colados. No meio do salão eram um bolo tremelicante. Dentro do círculo palerma de mamãs, moças feitas e moços enjoados. A orquestra preta tonitroava. Alegria de vozes e sons. Palmas contentes prolongaram o maxixe. O banjo é que ritmava os passos.
-Sua mãe me fez ontem uma desfeita na cidade.
-Não!
-Como não? Sim senhora. Virou a cara quando me viu.
... mas a história se enganou!
As meninas de ancas salientes riam porque os rapazes contavam episódios de farra muito engraçados. O professor da Faculdade de Direito citava Rui Barbosa para um sujeitinho de óculos. Sob a vaia do saxofone: turururu-turururum!
-Meu pai quer fazer um negócio com o seu.
-Ah sim?
Cristo nasceu na Bahia, meu bem...
O sujeitinho de óculos começou a recitar Gustave Le Bon mas a destra espalmada do catedrático o engasgou. Alegria de vozes e sons.
... e o baiano criou!
-Olhe aqui, Bonifácio: se esse carcamano vem pedir a mão da Teresa para o filho, você aponte o olho da rua para ele compreendeu?
-Já sei, mulher, já sei.”
Alcântara Machado/ Do livro Brás, Bexiga e Barra Funda
Solitário
“Como um fantasma que se refugia
Na solidão da natureza morta,
Por trás dos ermos túmulos, um dia,
Eu fui refugiar-me à tua porta!
Fazia frio e o frio que fazia
Não era esse que a carne nos conforta
Cortava assim como em carniçaria
O aço das facas incisivas corta!
Mas tu não vieste ver minha Desgraça!
E eu saí, como quem tudo repele,
- Velho caixão a carregar destroços -
Levando apenas na tumbas carcaça
O pergaminho singular da pele
E o chocalho fatídico dos ossos!”
Augusto dos Anjos
Na solidão da natureza morta,
Por trás dos ermos túmulos, um dia,
Eu fui refugiar-me à tua porta!
Fazia frio e o frio que fazia
Não era esse que a carne nos conforta
Cortava assim como em carniçaria
O aço das facas incisivas corta!
Mas tu não vieste ver minha Desgraça!
E eu saí, como quem tudo repele,
- Velho caixão a carregar destroços -
Levando apenas na tumbas carcaça
O pergaminho singular da pele
E o chocalho fatídico dos ossos!”
Augusto dos Anjos
Uma visita ao campo
“Não sendo um "cockney" nato, não tenho quaisquer ilusões sobre o campo. As estradas onduladas e tortuosas, as sebes poeirentas, as valas com os seus cadáveres de cães, ortigas e nuvens de moscas venenosas, os grupos de crianças que trituram qualquer coisa, o camponês boçal e prematuramente envelhecido pelo trabalho, o vagabundo velhaco, os montões de estrume de cheiro nauseabundo, a cadeia de marcos miliários entre duas estalagens ou entre dois cemitérios; por tudo isto eu passo apressado e ansioso de avistar o primeiro poste telegráfico indicando-me estar próximo o comboio salvador. Da estrada do vilarejo à estação do caminho de ferro, vai um salto de cinco séculos, desde a brutal tirania da natureza sobre o Homem até ao domínio organizado deste sobre aquela.E, contudo, na semana passada, deixei-me persuadir por dois amigos meus, Henry Salt e sua mulher, que não se cansavam de insistir para eu ir passar um "week-end" com eles, nas colinas de Surrey. Salt, um homem de excepcional inteligência em muitos assuntos, é um maníaco pelo campo e possui uma vivenda num buraco chamado Tilford, perto de Farnham, para a qual ele se retira, de tempos a tempos, alimentando-se dos fungos da vizinhança e escrevendo artigos a proclamarem o benefício da dieta e do ar puro. Sem dúvida, o meu amigo nutria a esperança de que Tilford converter-me-ia da rurofobia à rurolatria, e sendo uma companhia agradável para um passeio e uma conversa, consenti, por fim, na experiência, e acedi, mesmo, em ser conduzido ao cume de uma impostura cénica, denominada Hindhead, para dali avistar as planuras da Costa do Sul, a estrada de Portsmouth e, principalmente, o sítio onde três homens foram enforcados por terem assassinado alguém que os induzira a dar um passeio campestre na sua companhia.
Londres estava fresca, limpa e seca quando me dirigi para a estação de Waterloo, apôs ter saído da cama, às sete horas de uma manhã de Domingo. Abrindo um livro, esforcei-me por não olhar para a janela, entre as estações. Depois de termos atravessado um cemitério enorme e um campo imenso, chegámos finalmente, a Farnham. Como é vulgar no campo, chovia a cântaros. Perguntei o caminho para Tilford, e fui informado de que ficava a quatro milhas em linha recta. Como não quisera de forma alguma ofender os sentimentos de Salt, mostrando-lhe a minha suspeita pelo seu paraíso rústico, não trouxera guarda-chuva, e aquele paraíso, é claro, tirava a máxima vantagem de tal omissão. Não sei o que são as planuras da Costa do Sul, mas posso garantir as subidas e descidas das estradas de Surrey. Entre Farnham e Tilford, há, pelo menos, meia dúzia de colinas e nem um só viaduto. Subi as suas vertentes nas pontas dos pés e amassei os calcanhares, ao descê-las, fazendo, a cada passo, um charco de lama pegajosa. À medida que a paisagem se tornava menos hospitaleira, a chuva aumentava a sua violência, reduzindo o meu livro a uma polpa e transferindo o vermelho da capa para o meu já saturado casaco cinzento. Pássaros à prova de água, soltaram de uma vedação, trinados de troça, fazendo-me compreender melhor do que até então, o motivo porque é permitido caçá-los a tiro. Em determinado momento, a estrada passou por um pinheiral, com um gorgeante tapete de musgo húmido, e um aviso proibindo o estacionamento ali, sob pena de punição para os transgressores. Vale bem a pena caminhar trinta milhas, para ter de voltar para trás perante a mesquinhez de um proprietário rural. Já tinha os punhos da camisa colados aos pulsos. Deixando pender os braços, com desconsolo, afim de minorar a desagradável sensação, olhei para as joelheiras das calças e, instantaneamente, as abas do meu chapéu despejaram meio litro de água da chuva tingida de preto. Então não me contive mais e soltei uma daquelas gargalhadas que os condenados ao martírio da roda largavam ao segundo golpe do martelo. Uma milha ou duas mais de marcha forçada por caminhos lamacentos, levou-me aos subúrbios de uma vila, com um rio correndo sobre um leito pedregoso e atravessado por uma ponte construída sob o princípio da arquitectura gótica, isto é: de forma a exigir dos cavalos o máximo esforço, quer a puxar as carroças de um lado, quer a impedir de serem atropelados por elas, quando em sentido contrário, roçam, precipitadamente, uns pelos outros.
Chegara a Tilford, habitada pelo que pude ver, por um único homem e em cujo olhar espantado pude ler, melhor do que o faria num livro, a sua admiração por me ver ali. Após ter ultrapassado uma nova colina, palmilhei uma estrada onde a chuva e o vento desencadearam um último e violento ataque contra mim. Salt está enganado ao pensar que vive em Tilford, pois, de facto, vive muito para além da vila. Eu já estava a ponto de voltar para trás afim de aproveitar o resto da resistência de que ainda dispunha, para regressar a Londres, quando ouvi um grito de Salt "Ele aí vem!", e o meu amigo veio receber-me, satisfeitíssimo, como se eu tivesse surgido fresco e sorridente. Em menos tempo do que leva a descrever, as minhas roupas fumegavam na cozinha e eu, metido num fato pertencente ao cunhado de Salt, um poeta prometedor cuja figura é um tanto ou quanto diferente da minha, enchia o estômago com as últimas descobertas do meu hospedeiro, na fungologia local.
As minhas roupas secaram rapidamente. De tarde, ao envergá-las de novo, observei que embora tivessem encolhido umas duas polegadas, estavam quentes e enxutas. Apesar disso, fartei-me de espirrar e Mrs. Salt, na mais amável das intenções, foi buscar uma garrafa de espírito de cânfora. Não familiarizado com a violenta natureza deste remédio, engoli, descuidado, uma colher de sopa cheia. Senti-me morrer, mas tive a alegria, após ter voltado a respirar, de saber que, certamente, o bacilo da gripe não sobrevivera. Como a chuva já cessara de cair, fomos dar um passeio e seguimos por uma estrada que serpenteava por umas colinas lembrando montões de turfa molhada, sob o céu cinzento. De vez em quando, atravessávamos planaltos onde a lama era substituída por areia movediça e tojo, já secos pelo vento agreste que soprava do mar do Norte. O Lago Frensham, como um enorme depósito de abastecimento público de água, desnudado de maquinaria, jazia a sotavento e a sua superfície enrugava-se de um extremo a outro, a cada aguaceiro. Simpatizei com ele e olhei furtivamente para Salt para ver se a inefável tristeza daquele espectáculo não o envergonhava. Mas o meu amigo já estava habituado a tudo aquilo e quando chegámos a casa, começou a planear um passeio para a manhã seguinte, até Hindhead. Só a simples sugestão de novo passeio trouxe-me um desejo irreprimível de espirrar. Não obstante, neguei-me com firmeza, a tomar mais cânfora, e Mrs. Salt ministrou-me em sua substituição, uma vulgar geleia preta com água a ferver que eu ingeri de boa vontade.
Na manhã seguinte, levantei-me às oito horas, na intenção de ver o nascer do sol e de ouvir o chilrear dos pássaros. Percebi, contudo, que me levantara antes deles, pois não vi o nascer do sol nem ouvi os pássaros, senão quando regressei à metrópole. Salt estava radiante porque o vento soprava do nordeste, o que tornava a chuva impossível. Assim, após o pequeno almoço, pusemo-nos a caminho de Hindhead, através dum nevoeiro que fazia as vacas parecerem mamutes e os espinhaços, a cordilheira dos Alpes. Quando não se avistava um único abrigo, a chuva começou a cair. Salt assegurou-me que não seria nada, pois a chuva não se poderia aguentar contra um vento nordeste. No entanto, tal não aconteceu.
Quando, após termos subido e descido por sítios que Salt denominava atalhos, mas que eram, de facto, leitos de torrentes de lama, chegámos por fim a Hindhead, (que era igual às outras colinas), onde mal nos podíamos distinguir um ao outro e muito menos a Costa do Sul, em virtude do nevoeiro cerrado que fazia. Vi o sítio onde os três homens foram enforcados e não posso negar que senti uma certa satisfação vingativa ao pensar que alguém fora assassinado ali, por induzir semelhantes seus a passeios campestres.
Quando regressámos, Salt estava no auge do entusiasmo. A descoberta de um dia chuvoso com um vento nordeste alegrava-o tanto como a descoberta de um cometa alegraria um astrónomo. Quanto a Mrs. Salt, a conclusão que ela tirou de tudo aquilo, foi que eu devia voltar. A chuva incomodava-a tanto, como se em vez de mulher, fosse um peixe, e não pude deixar de pensar se o seu vestido de passeio não seria na realidade, um fato de banho habilmente confeccionado.
Ela parecia felicíssima, embora os carneiros balissem tristemente para o céu e uma vaca, a quem eu dei uma palmada amigável nos flancos, estivesse tão saturada em água, que eu fiquei com o braço encharcado até ao sovaco. O tema principal de Mrs. Salt, enquanto estivemos nas colinas, era a doçura do seu cão de guarda, cujos movimentos na direcção do rebanho eram cuidadosamente frustados pelo meu amigo. Antes de chegarmos a casa, as minhas roupas continham três vezes o volume de água do dia anterior. Foram postas novamente a secar e quando voltei a envergá-las, pareciam ter sido emprestadas, numa emergência, por um irmão muito mais novo.
Não preciso de descrever o meu regresso a Farnham, após o jantar. Choveu todo o caminho. Mas, pelo menos, eu aproximava-me de Londres. Mudara de ares e estou certo de que eliminei os seus efeitos dentro de quinze dias. Se a minha experiência puser de sobreaviso algum incauto londrino, tentado a gozar os prazeres vernais nas colinas de Surrey, então nem todo o meu sofrimento terá sido em vão.”
George Bernard Shaw
Canção Louca
“A brava brisa brame
E a noite é fria;
Vem a mim, Sono,
E abraça minha agonia.
Mas arre! O dia prenhe
Preenche já o leste,
E as aves sonoras da aurora
Da terra se escarnecem.
Arre! Para os ares
Da cúpula celeste
Minhas notas partem,
Fartas de pesares.
Elas batem no ouvido da noite,
Molham os olhos do dia
Brincam com tempestades
Enlouquecem a ventania.
Como um demônio na nuvem
Em uivo agudo,
Pela noite eu procuro,
E com a noite me curvo;
Não me serve o leste
Onde o consolo acresce,
Pois a luz agarra meu cérebro
Com dor frenética.”
William Blake / Tradução: Regina de Barros Carvalho
E a noite é fria;
Vem a mim, Sono,
E abraça minha agonia.
Mas arre! O dia prenhe
Preenche já o leste,
E as aves sonoras da aurora
Da terra se escarnecem.
Arre! Para os ares
Da cúpula celeste
Minhas notas partem,
Fartas de pesares.
Elas batem no ouvido da noite,
Molham os olhos do dia
Brincam com tempestades
Enlouquecem a ventania.
Como um demônio na nuvem
Em uivo agudo,
Pela noite eu procuro,
E com a noite me curvo;
Não me serve o leste
Onde o consolo acresce,
Pois a luz agarra meu cérebro
Com dor frenética.”
William Blake / Tradução: Regina de Barros Carvalho
O cego
"Isabel Pervin estava à escuta de dois sons: do som das rodas na estrada, lá fora, e do rumor dos passos do marido, no vestíbulo. O seu amigo mais velho e estimado, um homem que parecia quase indispensável à sua vida, devia chegar naquele anoitecer chuvoso de fins de Novembro. A carripana tinha ido buscá-lo à estação. E o marido, que tinha perdido a vista na Flandres e apresentava na fronte uma cicatriz que o desfigurava, devia entrar em casa, vindo dos barracões.Fazia agora um ano que regressara a casa, completamente cego. E, contudo, tinham sido muito felizes. A Granja era propriedade de Maurício. Na parte traseira ficava a quinta com edifícios, onde os Wernhams, que viviam desse lado, trabalhavam como quinteiros. Na bonita residência da frente vivia Isabel com o marido. Ambos tinham passado quase inteiramente sós, desde que ele fora ferido. Conversavam, cantavam e liam juntos, numa esplêndida e inefável intimidade. Depois, satisfazendo um velho interesse, ela fazia a crítica de livros para um jornal escocês, e ele ocupava-se bastante da herdade. Embora privado da vista, discutia tudo com Wernham e fazia também muito trabalho por ali - trabalho miúdo, é certo, mas que lhe dava satisfação. Mungia as vacas, transportava para dentro os baldes, movia a desnatadeira e tratava dos porcos e cavalos. A vida era ainda bem cheia e estranhamente serena para o cego, pacificado pela paz quase incompreensível do contacto imediato com as coisas, nas trevas. Na mulher possuía então um mundo completo, rico, real e invisível.
Eram felizes, de uma maneira nova e vaga. E ele nem sequer lamentava a perda da vista, nesses tempos de sombria, palpável alegria. Inflamava-lhe a alma uma suave exultação.
Mas à medida que o tempo se escoava, acontecia por vezes que este precioso encantamento lhes fugia. Algumas vezes, depois de meses desta intensidade, uma sensação de peso se apoderava de Isabel, um cansaço, um terrível ennui, naquela casa silenciosa a que conduzia uma dupla colunada de pinheiros alterosos. Então julgava que ia enlouquecer, pois não podia suportar tal coisa. Outras vezes, acometiam-no devastadores acessos de depressão, que pareciam ir destruir todo o seu ser. Era pior do que a depressão - era um sofrimento sombrio em que toda a sua vida se transformava numa tortura para ele e a sua presença se tornava insuportável para a mulher. A esta, um pavor lhe penetrava até às raízes da alma, quando chegavam estes dias sombrios. Numa espécie de pânico, procurava então consubstanciar-se ainda mais com o marido. E forçava a velha satisfação e alegria espontâ ;nea a continuar. Mas o esforço que isso lhe custava era quase insustentável. Sabia que o não podia aguentar. Sentia que essa tensão lhe iria arrancar gritos, e daria tudo para o evitar. Ansiava por possuir totalmente o marido; dava-lhe uma alegria desordenada tê-lo inteiramente para si. E contudo, quando de novo ele se deixava apoderar por um sofrimento sombrio e maciço, não podia suportá-lo, não podia suportar-se a si própria. Desejava então desaparecer de vez da face da terra, tudo menos viver a tal custo.
Atordoada, procurava então uma saída. Convidava pessoas amigas, procurava dar-lhe qualquer nova ligação com o mundo exterior. Mas de nada valia. Depois de toda a sua alegria e sofrimento, depois do seu sombrio, do seu longo ano de cegueira, solidão e indizível proximidade, as outras pessoas pareciam-lhes, a ambos, superficiais, tagarelas, bastante impertinentes. A tagarelice superficial parecia-lhes balofa. Ele ficava impaciente e irritado, ela cansada. E então recaíam na solidão, pois a preferiam.”
David Herbert Lawrence
Versos Inscritos numa Taça Feita de um Crânio
“Não, não te assustes: não fugiu o meu espírito
Vê em mim um crânio, o único que existe
Do qual, muito ao contrário de uma fronte viva,
Tudo aquilo que flui jamais é triste.
Vivi, amei, bebi, tal como tu; morri;
Que renuncie e terra aos ossos meus
Enche! Não podes injuriarme; tem o verme
Lábios mais repugnantes do que os teus.
Onde outrora brilhou, talvez, minha razão,
Para ajudar os outros brilhe agora e;
Substituto haverá mais nobre que o vinho
Se o nosso cérebro já se perdeu?
Bebe enquanto puderes; quando tu e os teus
Já tiverdes partido, uma outra gente
Possa te redimir da terra que abraçar-te,
E festeje com o morto e a própria rima tente.
E por que não? Se as fontes geram tal tristeza
Através da existência-curto dia-,
Redimidas dos vermes e da argila
Ao menos possam ter alguma serventia.”
Lord Byron
Vê em mim um crânio, o único que existe
Do qual, muito ao contrário de uma fronte viva,
Tudo aquilo que flui jamais é triste.
Vivi, amei, bebi, tal como tu; morri;
Que renuncie e terra aos ossos meus
Enche! Não podes injuriarme; tem o verme
Lábios mais repugnantes do que os teus.
Onde outrora brilhou, talvez, minha razão,
Para ajudar os outros brilhe agora e;
Substituto haverá mais nobre que o vinho
Se o nosso cérebro já se perdeu?
Bebe enquanto puderes; quando tu e os teus
Já tiverdes partido, uma outra gente
Possa te redimir da terra que abraçar-te,
E festeje com o morto e a própria rima tente.
E por que não? Se as fontes geram tal tristeza
Através da existência-curto dia-,
Redimidas dos vermes e da argila
Ao menos possam ter alguma serventia.”
Lord Byron
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