Sonetos

Dos astros não retiro entendimento
Embora eu tenha cá de astronomia,
Mas não para prever a sorte, o intento
Das estações, ou fome, epidemia;

Nem sei dizer o que será do instante;
Prever a alguém quer chuva, ou vento, ou raio;
se tudo há de sorrir ao governante
segundo as prediçoes que aos céus extraio.

De teus olhos provêm meus atributos
E, astros constantes, leio ali tal arte:
'Que a verdade e a beleza darão frutos

se tem ti deixas de tanto reservar-te'.
Ou um vaticínio sobre ti revelo:
Teu fim põe termo ao verdadeiro e ao belo.
William Shakespeare

Alessandra Ferri

Um Caso Médico

"Um telegrama enviado da fábrica dos Lialikov pedia ao professor que viesse o mais depressa possível.

A filha da Senhora Lialikov, que devia ser a proprietária da fábrica, estava doente; era tudo o que se podia perceber num longo telegrama mal redigido. Por isso o professor não esteve para se incomodar; contentou-se em enviar, para o substituir, o seu ajudante Koroliov.

Tinha que se descer na terceira estação para lá de Moscovo e andar em seguida, de carro, quatro "verstas". Na estação, esperava o ajudante um carro de três cavalos. O cocheiro tinha um chapéu de penas de pavão e, com voz vibrante, como um soldado, respondia sempre a todas as perguntas: "De modo algum!" ou "Exatamente!".

Era num sábado de tarde. Punha-se o Sol. Da fábrica para a estação vinham grupos de operários que cumprimentavam para o carro onde seguia o médico. Aquele fim de dia, os palacetes senhoriais e as casas de verão, dos dois lados da estrada, os amieiros, a calma impressão que de tudo se exalava, na hora em que, já quase a repousarem, os campos, os bosques e o Sol pareciam preparar-se para descansar e talvez até para rezar ao mesmo tempo que os operários - tudo isto encantava Koroliov.
Nascido e educado em Moscovo, o médico não conhecia o campo e nunca se tinha interessado pelas fábricas; nunca tinha visitado nenhuma; mas, depois do que tinha lido sobre este assunto, tinha-lhe acontecido estar em casa de proprietários e falar com eles. E, quando via de longe ou de perto uma fábrica, pensava que por fora tudo parecia calmo e pacífico, mas que lá dentro deviam reinar a impenetrável ignorância e o egoísmo obtuso dos proprietários, o trabalho aborrecido e insalubre dos operários, e as intrigas, e o "vodka" e a bicharia...

E agora, à medida que se afastavam do carro com respeito e medo, lia no rosto do operário, nos bonés, no andar, a porcaria, o alcoolismo, o enervamento, o atordoamento em que viviam.

Entrou pelo portão grande da fábrica. Apareceram de ambos os lados as pequenas casas dos operários, figuras de mulher, e, às cancelas da entrada, roupa branca e mantas. O cocheiro, sem segurar os cavalos, gritava: "Cuidado!".

Num pátio grande, sem o mínimo sinal de erva, levantavam-se cinco grandes corpos de edifícios com altas chaminés, afastados uns dos outros, com armazéns e alpendres, tudo mergulhado numa espécie de neblina cinzenta, como uma flor de poeira. Aqui e além, como os oásis no deserto, havia uns jardinzitos enfezados e os telhados verdes e vermelhos das casas da Administração. O cocheiro, sofreando de repente os cavalos, parou diante duma casa que fora há pouco pintada de cinzento. Os lilases do jardim estavam cobertos de poeira, e o pórtico, pintado de amarelo, cheirava fortemente a tinta.

- Faça favor de entrar, Senhor Doutor - disseram vozes de mulher à porta da entrada e no limiar da antecâmara.
Ouviram-se depois suspiros e murmúrios.
- Faça favor de entrar... Estamos à sua espera já há tanto tempo... Foi mesmo uma desgraça. Por aqui, faça favor...
A Senhora Lialikov, já de idade e corpulenta, vestida de seda negra e com mangas à moda, mas, pelo que parecia, simples e pouco instruída, olhava para o doutor com receio, sem se atrever a estender-lhe a mão; não ousava fazê-lo.

Perto dela, encontrava-se uma criatura de cabelos curtos, magra e já nada nova, que trazia uma blusa colorida e usava luneta. Os criados chamavam-lhe Cristina Dmitrievna e Koroliov adivinhou ser a governante.
Como era a única pessoa instruída da casa, tinham-na sem dúvida encarregado de receber o médico, porque logo se apressou a expor, com pormenores de todo inúteis, as causas da doença, mas sem dizer quem estava doente nem de que se tratava. Koroliov e a governante falavam sentados, enquanto a dona da casa esperava, Imóvel, junto da porta. No decurso da conversação, veio Koroliov a saber que a doente era uma rapariga de vinte anos, Lisa, filha única da Senhora Lialikov. Estava enferma há muito tempo e já a tinham tratado vários médicos. Na noite anterior, sentira, desde a tarde, tais palpitações que ninguém em casa tinha dormido; chegara-se a recear que morresse.

- Ela, na verdade, tem sido doentinha desde criança - contava Cristina Dmitrievna com uma voz cantada e limpando ininterruptamente os lábios com a mão. - Os médicos dizem que são nervos, mas ainda em pequena meteram-lhe para dentro os humores frios, e daí é que vem todo o mal, acho eu.

Passaram ao quarto da doente. Já mulher, alta, bem feita, mas feia, parecida com a mãe, com os mesmos olhitos e a parte inferior do rosto larga e exageradamente desenvolvida, despenteada, os cobertores puxados até ao queixo, a rapariga deu de princípio a Koroliov a impressão de uma pobre criatura, enferma, recolhida por piedade. Ninguém acreditaria que fosse a herdeira dos cinco enormes edifícios da fábrica.

- Venho tratar de si - disse Koroliov. - Bom dia, Menina.
Disse o nome e apertou-lhe a mão, mão grande, feia e fria. Ela soergueu-se e, já muito acostumada aos médicos, indiferente à nudez das espáduas e dos braços, deixou-se auscultar.

- Sinto umas palpitações - disse ela. - Toda a noite... foi uma coisa terrível... julguei que morria de medo. Dê-me qualquer coisa, a ver se isto acaba.
- Não tenha receio, vou já receitar.

Koroliov examinou-a e encolheu os ombros.

- O coração está bom - disse ele; - tudo vai bem, está tudo em ordem. Os nervos talvez um pouco abalados... mas é também coisa vulgar. A crise já passou, parece. Deite-se e veja se dorme...

Neste momento trouxeram um candeeiro. A doente piscou os olhos e, de repente, pousando a cabeça nas mãos, pôs-se a chorar.

E a impressão dum ser infeliz e feio desapareceu. Koroliov já não dava pelos olhos pequeninos nem pela parte do rosto anormalmente desenvolvida. Via uma suave expressão de sofrimento, muito comovedora e espiritual, e a rapariga, no conjunto, apareceu-lhe elegante, feminina e simples. E já a queria acalmar, não por medicamentos ou conselhos, mas por uma simples palavra graciosa. A mãe puxou a si a filha e beijou-lhe a testa. E na expressão da face, quanta tristeza, quanto desgosto!

Tinha criado e educado a filha sem se poupar a nada; tinha posto todo o cuidado em lhe mandar ensinar francês, música e dança. Tinha-lhe dado uma dúzia de mestres, tinha chamado os melhores médicos, tomado uma governante - e não compreendia donde vinham aquelas lágrimas e tantos sofrimentos! Não compreendia, atrapalhava-se e tinha uma expressão de culpabilidade; e andava desolada, inquieta, como se tivesse esquecido alguma coisa de muito urgente, como se tivesse tido alguma negligência, como se não tivesse chamado alguém. Quem? Não sabia...
- Lisaunka - disse ela, apertando a filha ao peito -, minha querida, minha pomba, minha filhinha, que tens tu? Diz à mãezinha... Tem pena de mim... Diz...
Ambas choravam amargamente. Koroliov, sentando-se na borda da cama, pegou na mão de Lisa.
- Vamos, não chore mais - disse-lhe ele com um tom de carícia -. Há lá razão para isso... Não há nada no mundo que seja digno dessas lágrimas. Vá, não chore mais. Assim não pode ser...

E pensou:
- Já era tempo de a casar...
- O médico da fábrica dava-lhe brometos - disse a governante - mas notei que só lhe faziam mal. Eu acho que para o coração o bom são umas gotas... ai, esquece-me o nome... Junquilho, hem?
E recomeçou com os seus pormenores. Interrompia Koroliov, impedia-o de falar e lia-se-lhe no rosto o tormento que lhe causava pensar que, sendo a mulher mais instruída da casa, devia falar sem interrupção com o médico - e falar de medicina, claro.

Koroliov estava embaraçado.
- Não acho nada de especial - disse ele à mãe ao sair do quarto. - Como o médico da fábrica tratou sua filha, pode continuar. O tratamento que lhe deu até aqui foi bom; não vejo que seja preciso mudar. Para quê? É uma doença vulgar; não tem nada de grave...
Falava sem pressa e ia calçando as luvas; a Senhora Lialikov olhava-o de lágrimas nos olhos, imóvel.

- Ainda tenho meia hora até o comboio das dez; terei tempo de apanhá-lo, não...?
- O Senhor Doutor não desejaria ficar? - perguntou a mãe, e de novo as lágrimas lhe correram pela cara
Custa-me tanto incomodá-lo; mas, pelo amor de Deus - continuou, a meia voz e voltando-se para a porta -, faça-me esse favor. Só tenho esta filha... Assustou-nos tanto a noite passada... Nem estou ainda em mim... Pelo amor de Deus, não se vá embora!

Koroliov ainda quis dizer que tinha muito que fazer em Moscovo, que a família estava à espera, que lhe era muito difícil passar uma tarde e uma noite fora da clínica; olhou para ela: suspirou e pôs-se a descalçar as luvas, silencioso.

Acenderam todas as velas e todos os candeeiros da sala e da saleta; sentado junto do piano de cauda, Koroliov folheou a música, depois foi contemplar os quadros e os retratos. Os quadros, com suas molduras douradas, eram vistas da Crimeia, um mar encapelado com um barquito, um monge católico com um cálice de licor - tudo pobre, lambido, sem talento... Nos retratos, nenhuma figura bela, interessante: faces largas, olhos espantados. Lialikov, o pai de Lisa, tinha a testa baixa e um ar satisfeito; o uniforme ficava-lhe como uma espécie de saco sobre o corpo grande e vulgar; no peito uma medalha e a insígnia da Cruz Vermelha. Cultura estreita, luxo de ocasião, um luxo que não tinha motivos nem vinha a propósito - como aquele uniforme. O brilho dos soalhos irrita, o lustre também; e pensa-se, nem se sabe porquê, na história do comerciante que ia tomar banho de medalha de honra ao pescoço... Na antecâmara havia murmúrios e alguém ressonava suavemente. De súbito, no pátio, ressoaram uns sons agudos, sacudidos, metálicos, que Koroliov nunca tinha ouvido e não soube explicar. Ecoaram na sua alma dum modo bem desagradável e estranho.
- Acho que não ficava aqui por nada deste mundo - pensou ele.
E tornou a folhear a música.

A governante entrou e chamou a meia voz:
- Senhor Doutor, pode vir jantar...?
Koroliov seguiu-a.
A mesa, grande, estava coberta de aperitivos e de vinhos; mas só havia duas pessoas: ele e Cristina Dmitrievna. Ela bebia madeira, comia depressa e falava contemplando-o pela luneta.

- Os operários estão muito satisfeitos connosco. Todos os invernos dão nesta fábrica espectáculos em que eles próprios representam. Há também, naturalmente, conferências com projecções, uma sala de chá magnífica; e tudo o mais... Têm muita dedicação por nós; quando souberam que a Lisaunka estava pior, mandaram fazer umas rezas. São pouco instruídos mas têm muito bons sentimentos.

- Parece que não há nenhum homem em casa, não?
- Nenhum. Piotre Nikanorytch morreu há ano e meio e ficámos sozinhas. Vivemos as três, no Verão aqui, no Inverno em Moscovo. Já estou nesta casa há onze anos. É como se estivesse em minha casa.
Serviram esturjão, croquetes de frango e uma compota. Os vinhos eram caros, vinhos de França.

- Faça favor, Senhor Doutor... Não faça cerimónias... Coma - dizia Cristina Dmitrievna comendo e limpando a boca à mão (via-se que estava realmente à vontade). Faça favor de comer.

Depois do jantar, levou o médico a um quarto onde lhe tinham preparado uma cama. Mas não tinha sono; o quarto era quentíssimo e cheirava a tintas; vestiu o sobretudo e saiu.

Fora, havia fresco. Já havia um prenúncio de alvorada e, no ar húmido, desenhavam-se os cinco edifícios, com as chaminés, os barracões e os armazéns. Como era domingo, não se trabalhava; as janelas estavam escuras e só duas, num dos edifícios onde ainda estava aceso um forno, pareciam incendiadas; de quando em quando, saía lume pela chaminé, de mistura com o fumo. Ao longe, para lá do pátio, coaxavam rãs e um rouxinol cantava.

Ao olhar os casarões da fábrica e as barracas dos operários, Koroliov voltou aos seus pensamentos do costume. Tinham-se instituído espectáculos para os operários, projecções, médicos privativos, toda a espécie de melhoramentos: mas os operários que ele vira de tarde, na estrada, em nada diferiam dos que tinha visto na sua infância, quando não havia para eles nem espectáculos, nem melhoramentos.

Era médico e tinha sido obrigado a fazer uma ideia exacta das doenças crónicas, cuja causa inicial é incompreensível e incurável; considerava do mesmo modo as fábricas como um equívoco cujas causas são também obscuras e inelutáveis. Todos os melhoramentos da sorte dos operários não lhe apareciam, claro, como supérfluos, mas comparava-os ao tratamento das doenças incuráveis.

- Há certamente um engano nesta coisa toda... - pensou olhando as janelas purpúreas. Mil e quinhentos ou dois mil operários trabalham sem descanso, num ambiente insalubre, para fabricarem péssima chita. Vivem na fome e só de tempos a tempos a taberna os liberta do pesadelo. Uma centena de pessoas vigia-lhes o trabalho e a vida destes contramestres passa-se a aplicar multas, a proferir injúrias e a cometer injustiças. E só duas ou três pessoas, chamadas patrões, aproveitam com os lucros, apesar de não trabalharem e de terem desprezo pela chita ordinária. Mas que lucros! E de que maneira os aproveitam! A Lialikov e a filha são umas infelizes e mete pena vê-las. Só a solteirona, a estúpida Cristina Dmitrievna vive à vontade! E trabalha-se numa fábrica destas, com cinco oficinas, e vende-se má chita nos mercados do Oriente, para que uma Cristina Dmitrievna possa comer esturjão e beber madeira.

De repente, repetiram-se os sons estranhos que Koroliov tinha notado antes do jantar. Perto de um dos edifícios, alguém batia numa placa metálica e logo amortecia a ressonância, de modo que os sons eram breves, ásperos, mal definidos, qualquer coisa como "dê... dê.. dê...". Depois, meio minuto de silêncio. E, perto do outro edifício, outros sons sacudidos, mas mais baixos, graves: "dran... dran... dran...". Repetiram-nos onze vezes. Eram, evidentemente, os guardas a darem as onze horas. Junto do terceiro edifício, ouviu-se: "jak... jak... jak...". A mesma coisa diante de cada um dos edifícios, depois por detrás das barracas e às portas.

Parecia que, na calma da noite, os sons eram produzidos por um monstro de olhos de púrpura: o próprio Diabo, que era aqui o senhor de patrões e de operários e que a uns e outros enganava.
Koroliov saiu para os campos.

- Quem está aí? - gritaram-lhe, com voz grosseira.
- Exactamente como numa prisão - pensou ele.
E não respondeu nada.
Fora, ouviam-se melhor os rouxinóis e as rãs. Sentia-se o cheiro da noite de Maio. Da estação vinham ruídos de comboios; para outro lado, cantavam galos sonolentos; contudo, a noite estava calma: a natureza dormia pacificamente.

No campo, não longe da fábrica, erguia-se o esqueleto duma casa de toros; ao lado, encontravam-se materiais de construção. Koroliov sentou-se numas tábuas e continuou a pensar.
- Só a governante vive aqui a seu gosto e a fábrica trabalha para a satisfazer. Mas é apenas uma aparência; é uma personagem imaginária: o patrão para quem tudo se faz aqui é o Diabo.
E pensava no Diabo em que não acreditava. E voltava-se para as duas janelas que o lume iluminava.

Parecia-lhe que, por estes olhos de púrpura, o próprio Diabo o olhava: numa palavra, a força desconhecida que estabeleceu as relações entre os fracos e os fortes, o erro grosseiro que nada agora pode emendar. É necessário que o forte impeça o fraco de viver: tal é a lei da natureza. Mas isto não é compreensível e não entra facilmente no espírito senão à luz dum artigo de jornal ou dum manual. No tumultuar da vida quotidiana e no entrelaçar de todos os nadas de que se entretecem as relações humanas, não parece uma lei; é um absurdo lógico, no qual o forte e o fraco são vítimas das suas relações mútuas e se submetem involuntariamente a uma força condutora desconhecida, que reside fora da vida e é estranha ao homem.

Assim pensava Koroliov, sentado sobre as tábuas, invadido pouco a pouco pela impressão de que essa força desconhecida e misteriosa estava realmente perto dele e o contemplava.

Entretanto, o céu a leste empalidecia; os minutos precipitavam-se. Os cinco edifícios da fábrica e as chaminés tinham, sobre o fundo cinzento da madrugada, nessa hora em que não se via alma viva, em que tudo parecia morto, - os edifícios e as chaminés tinham um aspecto especial, diferente do de dia. Esquecia-se por completo que houvesse lá dentro motores a vapor, electricidade e telefones; mais depressa se pensava nas habitações lacustres e na cidade de pedra; sentia-se a presença de uma força grosseira, inconsciente...
E de novo se ouviu:
- Dê... dê... dê... dê...
Doze vezes.
Depois o silêncio - meio minuto de silêncio -, e, na outra extremidade do pátio:
- Dran... dran... dran...
- É bem desagradável, esta coisa... - pensou Koroliov.
E logo ouviu, num terceiro lugar:
- Jak... jak... jak...
O ruído era sacudido, áspero, exactamente como se estivesse aborrecido.
- Jak... jak...
Para dar a meia-noite foram precisos quatro minutos.
Depois, silêncio completo. E, de novo, a impressão de que tudo estava morto à volta.

Koroliov, depois de estar ainda algum tempo sentado, voltou para casa.
Mas ficou ainda muito tempo sem se deitar.
Nos quartos vizinhos conversava-se. Ouvia-se o perpassar de pantufas e de pés descalços.

- Será uma crise? - pensou o médico.
Saiu para ir ver a doente. No quarto havia lá muita claridade; na parede da sala tremia um fraco raio de sol, através do nevoeiro da manhã. A porta estava aberta e Lisa sentara-se numa poltrona perto do leito, de roupão, envolta num xale e com os cabelos caídos. Os estores das janelas estavam corridos.

- Como se sente? - perguntou-lhe Koroliov.
- Obrigada...
Tomou-lhe o pulso, depois arranjou-lhe os cabelos que tinha sobre a testa.
- Não dorme? Está um tempo limpo, é a Primavera... Lá fora cantam os rouxinóis, e a Menina fica aí sentada, às escuras, a pensar não se sabe em quê...

Ela escutava-o e olhava-o. Tinha uns olhos tristes, inteligentes e via-se que queria dizer qualquer coisa.
- Isto dá-lhe muitas vezes? - perguntou ele.
Ela mexeu os lábios e respondeu:
- Muitas vezes... Quase todas as noites me sinto mal.
Neste momento, os guardas, no pátio, começaram a dar as duas horas. Ouviu-se: "Dê... dê..." Lisa teve um sobressalto.

- Estes sons incomodam-na? - perguntou o médico.
- Não sei... - respondeu ela, reflectindo - . . aqui tudo me incomoda, tudo me aborrece. Sinto compaixão na sua voz; pareceu-me desde o primeiro minuto, não sei porquê, que consigo podia falar de tudo...
- Fale, faça favor.

- Vou dar-lhe a minha opinião. Parece-me que não estou doente, mas atormento-me e tenho medo porque isto tem que ser assim e não pode ser de outra maneira. O ser mais saudável não pode deixar de inquietar-se quando um bandido lhe ronda a porta. Têm todos os cuidados comigo - continuou baixando os olhos e sorrindo timidamente. Estou muito reconhecida e não contesto a utilidade da medicina; mas desejaria falar, não com um médico, mas com alguém que estivesse perto do meu espírito: um amigo que me compreendesse e me demonstrasse que tenho ou não tenho razão.
- Não tem amigos?
- Sinto-me só... Tenho minha mãe e gosto dela. Mas sinto-me só. Calhou assim a minha vida... Quem está só lê muito, mas fala pouco e ouve pouco também; a vida é-lhe misteriosa. É-se místico e vê-se o Diabo onde ele não está; a Tamara de Lermontov era só e via o Demônio.
- Lê muito?
- Muito. Tenho todo o tempo livre, de manhã à noite. De dia leio, à noite tenho a cabeça vazia; em lugar de ideias, passam-me vagas sombras...
- Vê qualquer coisa de noite? - perguntou Koroliov.
- Não... mas sinto.

Sorriu de novo e levantou os olhos para o médico. O seu olhar era cheio de melancolia e cheio de inteligência. Pareceu a Koroliov que Lisa tinha confiança nele, lhe queria falar sinceramente e tinha pensamentos semelhantes aos seus. Mas ela calara-se e esperava talvez que ele falasse.
E sabia bem o que tinha a dizer-lhe. Era evidente que se tornava necessário que ela abandonasse o mais depressa possível os cinco edifícios da fábrica e o seu milhão, se acaso o tinha, e deixasse aquele Diabo que de noite a olhava. Era igualmente claro para Koroliov que ela também o pensava e que esperava que lho dissesse alguém em quem ela tivesse confiança.
Mas o médico não sabia por onde começar... Como havia de ser?... É difícil perguntar aos condenados por que razão os condenaram; e é também aborrecido perguntar aos ricos por que motivo têm necessidade de tanto dinheiro; por que fazem tão mau uso da sua riqueza, por que não a deixam, mesmo quando vêem que aí reside a sua infelicidade... E se se começa a falar disto a conversação é geralmente embaraçada e longa.

- Como hei-de dizê-lo? - pensava Koroliov. - E será preciso?
E disse o que queria, não directamente, mas com uns desvios:
- A Menina está descontente da sua situação de proprietária de fábrica e de herdeira rica; não acredita nos seus direitos e não dorme. É seguramente melhor do que se estivesse satisfeita e dormisse profundamente pensando que tudo vai bem. A sua insónia é respeitável e, seja o que for, é bom sinal. Com seus pais seria impossível uma conversa semelhante àquela que hoje temos aqui. De noite, não conversavam, dormiam profundamente; mas nós, os desta geração, dormimos mal. Preguiçamos, falamos muito, e consideramos continuamente se temos ou não temos razão. Para os nossos filhos e para os nossos netos já essa questão estará resolvida. Verão mais claro do que nós. Dentro de cinquenta anos, a vida será bela; é pena que não possamos viver até lá. Devia ser bem interessante...

- Que farão então os nossos filhos e os nossos netos? - perguntou Lisa.
- Não sei... Talvez deixem tudo e partam...
- Para onde?
- Para onde? Mas para onde quiserem - disse Koroliov a rir-se. - Há poucos lugares para onde possa ir um homem bom e inteligente?
Olhou para o relógio.

- Já nasceu o Sol. É tempo que durma. Dispa-se e repouse à vontade. Tenho muito prazer em a ter conhecido - disse-lhe ele, apertando-lhe a mão. - É interessante e simpática. Boa noite!
Voltou para o quarto e deitou-se.

No dia seguinte de manhã, quando trouxeram o carro, toda a gente veio acompanhar o médico à porta. Lisa, de vestido branco como num dia de festa, tinha uma flor nos cabelos. Pálida, lânguida, contemplava Koroliov, como de noite, com ar triste e inteligente. Sorria e falava sempre com a mesma expressão de lhe querer dizer alguma coisa de particular, de grave, alguma coisa que fosse só para ele. Ouviram-se as cotovias cantar, os sinos tocavam. As janelas da fábrica brilhavam alegremente. Ao atravessar o pátio e enquanto o conduziam à estação, Koroliov já não pensava nos operários nem nas habitações lacustres, nem no Diabo. Pensava no tempo, já talvez próximo, em que a vida seria tão luminosa e alegre como essa manhã calma de Maio. E pensava em como era agradável, em semelhante manhã de Primavera, viajar num bom carro, com os seus três cavalos, e aquecer-se ao sol.”
Anton Tchekhov

Sonetos

Quando a hora dobra em triste e tardo toque
E em noite horrenda vejo escoar-se o dia,
Quando vejo esvair-se a violeta, ou que
A prata a preta têmpora assedia;

Quando vejo sem folha o tronco antigo
Que ao rebanho estendia a sombra franca
E em feixe atado agora o verde trigo
Seguir o carro, a barba hirsuta e branca;

Sobre tua beleza então questiono
Que há de sofrer do Tempo a dura prova,
Pois as graças do mundo em abandono

Morrem ao ver nascendo a graça nova.
Contra a foice do Tempo é vão combate,
Salvo a prole, que o enfrenta se te abate.
William Shakespeare

A Terra de que Precida um Homem

“Uma mulher veio visitar sua irmã mais nova que vivia no campo; a primeira estava casada com um mercador da cidade, a outra com um camponês da aldeia; quando estavam a tomar o chá, começou a mais velha a gabar a vida da cidade, dizendo que se vivia por lá com todo o conforto, que toda a gente andava bem arranjada, que as filhas tinham vestidos lindíssimos, que se bebiam e comiam coisas magníficas e que se ia ao teatro, a passeios e a festas. A irmã mais nova, um pouco despeitada, mostrou todos os inconvenientes da vida do comércio e exaltou as vantagens da existência dos camponeses.

- Não trocaria a minha vida pela vossa; é certo que vivemos com alguma rudeza, mas, pelo menos, não estamos sempre ansiosos; vocês vivem com mais conforto e mais elegância, mas ganham muitas vezes mais do que precisam e estão sempre em riscos de perder tudo; lá diz o ditado: "Estão juntos na merca o ganho e a perca"; quem está rico num dia pode, no dia seguinte, andar a pedir pão pelas portas; a nossa vida é mais segura; se não é farta é, pelo menos, comprida; nunca seremos ricos, mas sempre teremos bastante que comer.

A irmã mais velha replicou com zombaria:
- Bastante? Sim, bastante, se vocês se contentarem com a vida dos porcos e das vitelas. Que sabem vocês de elegância e de boas maneiras? Por mais que o teu marido trabalhe como um escravo, vocês hão-de morrer como têm vivido - num monte de estrume; e os vossos filhos na mesma.

Bem, e depois? - retorquiu-lhe a outra. - Não nego que o nosso trabalho seja rude e grosseiro; mas em compensação é seguro e não precisamos de nos curvar diante de ninguém; vocês, na cidade, vivem rodeados de tentações; hoje tudo corre bem, mas amanhã o Diabo pode tentar o teu marido com a bebida, o jogo ou as mulheres - e lá se vai tudo. Bem sabes que é o que sucede muitas vezes.

Pahóm, o dono da casa, estava deitado à lareira e escutava a conversa das mulheres.

- "É realmente assim - pensava ele -. Os lavradores ocupados desde meninos no amanho da terra não têm tempo para pensar em tolices; só o que nos consome é não termos terra bastante; se tivesse toda a terra que quero, nem o Diabo seria capaz de meter-me medo."

As mulheres acabaram o chá, palraram ainda um bocado de vestidos, depois arrumaram a louça e deitaram-se a dormir. Mas o Diabo tinha estado sentado num desvão da lareira e tinha ouvido tudo o que se dissera; ficara contentíssimo quando vira que a mulher do camponês arrastara o marido para a gabarolice e quando percebera que o homem pensava que, se tivesse terra à vontade, não temeria o Diabo.
- "Muito bem! - pensou o Diabo. Vamos lutar um com o outro; dou-te toda a terra que quiseres e há-de ser por essa terra que te hei-de apanhar."
II
Perto da aldeia vivia uma senhora, pequena proprietária, que possuía um terreno de cerca de 120 desiatines(1). Tinha mantido sempre com os camponeses excelentes relações, até o dia em que tomou como feitor um antigo soldado que se pôs a multar toda a gente. Por mais cuidado que Pahóm tivesse, ora um cavalo lhe fugia para os campos de aveia da senhora, ora uma vaca ia para os jardins, ora as vitelas andavam pelos prados; e a multa lá vinha.

Pahóm pagava, resmungava e, irritado, tratava mal a família; todo o Verão, o camponês teve conflitos com o feitor e só o alegrou a chegada do Inverno em que o gado tinha de ir para o estábulo; dava-lhe a ração de má vontade, mas ao menos estava livre de sustos. Durante o Inverno, correu que a senhora ia vender as terras e que o estalajadeiro se preparava para lhas comprar; toda a aldeia ficou alarmada.

- Bem - pensavam os camponeses - se o estalajadeiro comprar as terras, as multas serão mais fortes ainda; o caso é sério.

Foram então, em nome da Comuna, pedir à senhora que não vendesse as terras ao estalajadeiro, porque estavam dispostos a pagar-lhe melhor; a senhora concordou e os camponeses reuniram-se para que o campo fosse comprado por todos e cultivado por todos; houve duas assembleias, mas o Diabo semeava a discórdia e não chegaram a nenhuma combinação; cada um compraria a terra que pudesse; a senhora acedeu de novo.
Pahóm ouviu dizer que um seu vizinho ia comprar 20 desiatines e que a proprietária receberia metade em dinheiro e esperaria um ano pela outra metade; sentiu inveja e pensou:

- "Ora vejam isto; vão comprar toda a terra e eu não apanho nenhuma." Falou depois à mulher:

- Toda a gente está a comprar terras; vamos nós comprar também uns 10 desiatines; a vida assim é impossível; o feitor mata-nos com multas.
A mulher concordou e consideraram sobre a maneira de realizar o seu desejo; tinham uns cem rublos de parte; venderam um potro e metade das abelhas, meteram um filho a jornaleiro, recebendo a soldada adiantada, e pediram emprestado a um cunhado o que faltava para perfazer metade da quantia necessária.
Feito isto, escolheu Pahóm um campo de uns quinze desiatines, com um pouco de bosque, e foi ter com a senhora para tratarem do negócio; chegaram a acordo e o camponês pagou adiantada uma certa quantia; depois foram à cidade e assinaram a escritura em que ficava estabelecido pagar ele logo metade da quantia e entregar o resto dentro de dois anos.
Agora tinha Pahóm terra sua; pediu sementes emprestadas, semeou-as na terra que comprara; como a colheita foi boa, pôde, dentro de um ano, pagar ao cunhado e à senhora; tornou-se assim proprietário, lavrando e semeando a sua terra, fazendo feno na sua terra, abatendo as suas árvores, alimentando o seu gado nos seus pastos. Sentia-se cheio de contentamento quando ia lavrar ou olhava para os trigais ou para os prados; a erva que ali crescia e as flores que ali desabrochavam pareciam-lhe diferentes de todas as outras; a princípio parecera-lhe que a sua terra era igual a qualquer outra; agora, porém, via-a totalmente diversa.
III
O contentamento de Pahóm teria sido completo se os vizinhos não lhe atravessassem as searas e os prados; falou-lhes muito delicadamente, mas os homens continuaram; umas vezes eram os pastores da comuna que deixavam ir as vacas para as suas pastagens, outras vezes os cavalos que se soltavam à noite e lhe iam para as searas. Pahóm enxotava-os, perdoava aos donos e, durante muito tempo, não fez queixa de ninguém; por fim, perdeu a paciência e queixou-se ao tribunal; bem sabia que era a falta de terra dos camponeses e não qualquer má intenção que os fazia proceder daquele modo, mas pensava: "Se não tomo cuidado, dão-me cabo de tudo; tenho que lhes dar uma lição."

Foi o que fez: deu-lhes uma lição, depois segunda, e dois ou três camponeses foram multados; ao fim de certo tempo, os vizinhos tinham-lhe raiva e era de propósito que lhe metiam o gado pelas terras; houve mesmo um que, uma noite, lhe cortou cinco limoeiros para lhes tirar a casca; Pahóm passou pelo bosque e viu umas coisas brancas: aproximou-se e deu com os troncos sem casca estendidos no chão; quase ao lado estavam os cepos; Pahóm, furioso, pensou: "Já bastaria para mal que este patife tivesse cortado uma árvore aqui e além; mas foi logo uma fila inteira; ah! se o apanho!..."
Pôs-se a ver quem poderia ter sido; finalmente, disse consigo: "Deve ter sido o Simão; ninguém mais ia fazer uma coisa destas." Deu uma volta pelas propriedades de Simão, mas nada viu e só arranjou a zangar-se com o vizinho; tinha, no entanto, a certeza que era ele e apresentou queixa; Simão foi chamado, julgado e absolvido porque não havia provas; Pahóm ficou ainda mais furioso e voltou-se contra os juizes:

- A gatunagem unta-vos as mãos; se aqui houvesse vergonha, não iam os ladrões em paz.

As zangas com os juizes e com os vizinhos trouxeram como resultado ameaças de lhe queimarem a casa; Pahóm tinha mais terra do que dantes, mas vivia muito pior. E foi por esta altura que se levantou o rumor de que muita gente ia sair da terra. "Por mim, não tenho que me mexer - pensou Pahóm -. Mas se os outros se fossem embora, haveria mais terra para nós; havia de comprá-la e de arredondar a minha propriedadezinha; então é que era viver à farta; assim, ainda estou muito apertado."

Estava um dia Pahóm sentado em casa quando calhou de entrar um camponês que ia de viagem; deu-lhe licença para passar ali a noite e, à ceia, puseram-se de conversa; Pahóm perguntou-lhe donde vinha e o forasteiro respondeu que de além-Volga, onde tinha estado a trabalhar; depois disse o homem que havia muita gente que se estava a fixar por aqueles lados, mesmo lavradores da sua aldeia; tinham entrado na comuna e obtinham setenta e cinco desiatines; a terra era tão boa que o centeio crescia à altura de um cavalo e era tão basto que com meia dúzia de foiçadas se fazia um feixe; havia um camponês que tinha chegado de mãos a abanar e possuía agora seis cavalos e duas vacas.

O peito de Pahóm inflamava-se de cobiça: "Para que hei-de eu continuar neste buraco se noutra parte se pode viver tão bem? Vou vender tudo e, com o dinheiro, vou começar a vida de novo; aqui há muita gente e sempre sarilhos; mas, primeiro, vou eu mesmo saber as coisas ao certo."
Pelos princípios do Verão, preparou-se e partiu; desceu o Volga de vapor até Samara, depois andou a pé noventa léguas; por fim chegou; era exactamente o que o forasteiro tinha dito; os camponeses tinham imensa terra: cada homem possuía os setenta e cinco desiatines que a comuna lhe dera e, se tivesse dinheiro, podia comprar as terras que quisesse, a três rublos o desiatine. Informado de tudo o que queria saber, voltou Pahóm a casa no Outono e começou a vender o que lhe pertencia; vendeu a terra com lucro, vendeu a casa e o gado, saiu da comuna; esperou pela Primavera e largou com a família para os novos campos.
IV
Logo que chegaram à nova residência, pediu Pahóm que o admitissem na comuna de uma grande aldeia; tratou com os dirigentes e deram-lhe os documentos necessários; depois, concederam-lhe cinco talhões de terra para ele e para o filho, isto é, trezentos e setenta e cinco desiatines em campos diferentes, além do direito aos pastos comuns. Pahóm construiu as casas precisas e comprou gado; só de terra da comuna tinha ele três vezes mais do que dantes e toda ela era excelente para trigo; estava incomparavelmente melhor, com terra de cultivo e de pastagem, e podia ter as cabeças de gado que quisesse.

A principio, enquanto durou o trabalho de se estabelecer, tudo satisfazia Pahóm, mas, quando se habituou, começou a pensar que ainda não tinha bastante terra; no primeiro ano, semeou trigo na terra da comuna e obteve boa colheita; queria continuar a semear trigo, mas a terra não chegava e a que já tinha não servia porque, naquela região, era costume semear o trigo em terra virgem, durante um ou dois anos, depois deixar o campo de pousio, até se cobrir de novo de ervas de prado. Havia muitos que desejavam estas terras e não havia bastantes para todos, o que provocava conflitos; os mais ricos queriam-nas para semear trigo e os que eram pobres para as alugar a negociantes, de modo a terem dinheiro para pagar os impostos. Pahóm queria semear mais trigo e tomou uma terra de renda por um ano; semeou muito, teve boa colheita, mas a terra era longe da aldeia e o trigo tinha de ir de carro umas três léguas. Certo tempo depois, notou Pahóm que alguns camponeses viviam em herdades não comunais e enriqueciam; pensou consigo: "Se eu pudesse comprar terra livre e arranjar casa, então é que as coisas me haviam de correr bem."

A questão de comprar terra livre preocupava-o sempre; mas continuou durante três anos a arrendar campos e a cultivar trigo; os anos foram bons, as colheitas excelentes, começou a pôr dinheiro de lado. Podia ter continuado a viver assim, mas sentia-se cansado de ter que arrendar terras de outros todos os anos e ainda por cima disputando-as; mal aparecia uma terra boa todos os camponeses se precipitavam para a tomarem, de modo que, ou se andava ligeiro, ou se ficava sem nada. Ao terceiro ano, aconteceu que ele e um negociante arrendaram juntos a uns camponeses uma pastagem: já a tinham amanhado quando se levantou qualquer disputa, os camponeses foram para o tribunal e todo o trabalho se perdeu. "Se fosse terra minha - pensou Pahóm - já eu era independente e não me via metido nestas maçadas."

E começou a procurar terra de compra; encontrou um camponês que tinha adquirido uns quinhentos desiatines mas que, por causa de dificuldades, os queria vender barato; Pahóm regateou com o homem e assentaram por fim num preço de 1 500 rublos, metade a pronto, a outra metade a pagar depois. Tinham arrumado o negócio, quando se deteve em casa de Pahóm um comerciante que queria forragem para os cavalos; tomou chá com Pahóm e travou-se conversa; o comerciante disse que voltava da terra dos Baquires, que era muito longe, e onde tinha comprado cinco mil desiatines de terra por 1000 rublos. Pahóm fez-lhe mais perguntas e o negociante respondeu:
- Basta fazer-nos amigos dos chefes. Dei-lhes coisa de cem rublos de vestidos de seda e de tapetes, além duma caixa de chá, e mandei distribuir vinho por quem o quisesse; e arranjei a terra a cinco kopeks(2) o desiatine.
E, mostrando a Pahóm as escrituras, acrescentou:
- A terra é perto dum rio e toda ela virgem.
Pahóm continuou a interrogá-lo e o homem respondeu:
- Há por lá mais terra do que aquela que se poderia percorrer num ano de marcha; e toda ela pertence aos Baquires. São como cordeirinhos e arranja-se a terra que se quer, quase de graça.

- "Bem - pensou Pahóm - para que hei-de eu, com os meus mil rublos, arranjar só os quinhentos desiatines e aguentar ainda por cima com uma dívida? Na outra terra compro eu dez vezes mais, e pelo mesmo dinheiro."
V
Perguntou Pahóm de que maneira havia de ir lá ter e, logo que o negociante o deixou, preparou-se para empreender a viagem; ficou a mulher a tomar conta da casa e ele partiu com o criado; pararam numa cidade e compraram uma caixa de chá, vinho e outros presentes, conforme o conselho do negociante. Foram andando sempre até que, já percorridas mais de noventa léguas, chegaram ao lugar em que os Baquires tinham levantado as suas tendas; era exactamente como o homem tinha dito: viviam nas estepes, junto dum rio, em tendas de feltro; não lavravam a terra, nem comiam pão: o gado e os cavalos andavam em rebanhos pelos pastos da estepe; os potros estavam peados atrás das tendas e duas vezes por dia lhes levavam as éguas; ordenhavam-nas e do leite faziam kumiss(3); eram as mulheres quem preparavam o kumiss e faziam queijo; quanto aos homens, passavam o seu tempo a beber kumiss e chá, a comer carneiro e a tocar gaitas-de-foles; eram gordanchudos e prazenteiros, e, durante todo o Verão, nem pensavam em trabalhar; eram ignorantes de todo, não sabiam falar russo, mas eram de boa qualidade.

Mal viram Pahóm, saíram das tendas e juntaram-se à volta do visitante; apareceu um intérprete e Pahóm disse-lhes que tinha vindo à procura de terra; os Baquires, segundo parecia, ficaram muito contentes; levaram Pahóm para uma das melhores tendas onde o fizeram sentar numas almofadas de pernas postas num tapete, sentando-se eles também à volta; deram-lhe chá e kumiss, mataram um carneiro para a refeição; Pahóm tirou os presentes do carro, distribuiu-os pelos Baquires e dividiu também o chá; os Baquires ficaram encantados; conversaram muito uns com os outros e depois disseram ao intérprete que traduzisse:

- O que eles estão a dizer é que gostaram de ti e que é nosso costume fazermos tudo o que podemos para agradar aos hóspedes e lhes pagar os presentes; tu deste presentes: tens que dizer agora que te agrada mais de tudo o que possuímos, para que to entreguemos.
- O que me agrada mais - respondeu Pahóm - é a vossa terra. A nossa está cheia de gente e os campos já não dão; vocês têm muita e boa; nunca vi coisa assim.

O intérprete traduziu. Os Baquires falaram um bocado, sem que Pahóm compreendesse o que diziam; mas percebeu que estavam muito divertidos e viu que gritavam e se riam; depois calaram-se e olharam para Pahóm, enquanto o intérprete dizia:

- O que eles me mandam dizer é que, em troca dos teus presentes, te darão a terra que quiseres; é só apontá-la a dedo.

Os Baquires puseram-se outra vez a falar e discutiram; Pahóm perguntou o motivo da discussão e o intérprete respondeu que uns eram de opinião que não deviam resolver nada na ausência do chefe e outros que não havia necessidade de esperarem que voltasse.
VI
Enquanto os Baquires discutiam, entrou um homem com um barrete de pele de raposa; todos se levantaram em silêncio e o intérprete disse:
- É o chefe!

Pahóm foi logo buscar o melhor vestuário e cinco libras de chá e ofereceu tudo ao chefe; o chefe aceitou, sentou-se no lugar de honra e os Baquires começaram a contar-lhe qualquer coisa; o chefe escutou, depois fez um sinal com a cabeça para que se calassem e, dirigindo-se a Pahóm, disse-lhe em russo:

- Está bem. Escolhe a terra que queres; há bastante por aí.
- "A que eu quiser ?- pensou Pahóm - Como é isso possível? Tenho que fazer uma escritura para que não voltem com a palavra atrás." Depois disse alto:
- Muito obrigado pelas suas boas palavras: os senhores têm muita terra, e eu só quero uma parte; mas que seja bem minha; podiam talvez medi-la e entregá-la. Há morrer e viver... Os senhores, que são bons, dão-ma, mas os vossos filhos poderiam querer tirar-ma.
- Tens razão - disse o chefe -; vamos doar-te a terra.
- Soube que esteve cá um negociante - continuou Pahóm - e que os senhores lhe deram umas terras, com uns papéis assinados... Era assim que eu gostava.

O chefe compreendeu:
- Bem, isso é fácil; temos aí um escrivão e podemos ir à cidade para ficar tudo em ordem.

- E o preço? - perguntou Pahóm.
- O nosso preço é sempre o mesmo: mil rublos por dia.
- Por dia? Que medida é essa? Quantos desiatines?
- Não sabemos; vendemos terra a dia; fica a pertencer-te toda a terra a que puderes dar volta, a pé, num dia; e são mil rublos por dia.
Pahóm ficou surpreendido.
- Mas num dia pode-se andar muito!...
O chefe riu-se:

- Pois será toda tua! Com uma condição: se não voltares no mesmo dia ao ponto donde partiste, perdes o dinheiro.
- Mas como hei-de eu marcar o caminho?
- Vamos ao sítio que te agradar e ali ficamos. Tu começas a andar com uma pá; onde achares necessário fazes um sinal; a cada volta cavas um buraco e empilhas os torrões; depois nós vamos com um arado de buraco a buraco. Podes dar a volta que quiseres, mas antes do sol-posto tens que voltar; toda a terra que rodeares será tua.

Pahóm ficou contentíssimo e decidiu-se partir na manhã seguinte; falaram ainda um bocado, depois beberam mais kumiss, comeram mais carneiro, tomaram mais chá; em seguida, caiu a noite; deram a Pahóm uma cama de penas e os Baquires dispersaram-se, depois de terem combinado reunir-se ao romper da madrugada e cavalgar antes que o Sol nascesse.
VII
Pahóm estava deitado, mas não podia dormir, a pensar na terra.
"Que bom bocado vou marcar! - pensava ele. - Faço bem dez léguas por dia; os dias são compridos e, dentro de dez léguas, quanta terra! Vendo a pior ou arrendo-a a camponeses e faço uma herdade na melhor; compro duas juntas e arranjo dois jornaleiros; ponho aí sessenta desiatines a campo, o resto a pastagens.

Ficou acordado toda a noite e só dormitou pela madrugada; mal fechava os olhos, teve um sonho; sonhou que estava deitado na tenda e que ouvia fora uma espécie de cacarejo; pôs-se a pensar o que seria e resolveu sair: viu então o chefe dos Baquires a rir-se como um doido, de mãos na barriga; Pahóm aproximou-se e perguntou: "De que se está a rir?" Mas viu que já não era o chefe: era o negociante que tinha ido a sua casa e lhe falara da terra. Ia Pahóm a perguntar-lhe: "Está aqui há muito?" quando viu que já não era o negociante: era o camponês que regressava do Volga; nem era o camponês, era o próprio Diabo, com cascos e cornos, sentado, a cacarejar: diante dele estava um homem descalço, deitado no chão, só com umas calças e uma camisa; e Pahóm sonhou que olhava mais atentamente, para ver que homem era aquele ali deitado e via que estava morto e que era ele próprio; acordou cheio de horror. "Que coisas a gente vai sonhar" - pensou ele.
Olhou em volta e viu, pela abertura da tenda, que a manhã rompia. "É tempo de os ir acordar; já devíamos estar de abalada". Levantou-se, acordou o criado, que estava a dormir no carro, e mandou-o aparelhar; depois foi chamar os Baquires:

- Vamos para a estepe medir a terra.
Os Baquires levantaram-se, juntaram-se e o chefe apareceu também; depois, beberam kumiss e ofereceram chá a Pahóm, mas ele não quis esperar mais:
- Se querem ir, vamos; já é tempo.
VIII
Os Baquires aprontaram-se e partiram; uns iam a cavalo, outros de carro; Pahóm ia no seu carrinho, com o criado e uma pá; quando chegaram à estepe, já se via no céu o rosado da aurora; subiram a um cabeço, a que os Baquires chamavam shikhan, e, apeando-se dos carros e dos cavalos, juntaram-se num sítio. O chefe veio ter com Pahóm e, estendendo o braço para a planície:

- Olha para isto - disse ele -, tudo o que vês é nosso; poderás ficar com o que quiseres.

Os olhos de Pahóm rebrilharam: era tudo terra virgem, plana como a palma da mão, negra como semente de papoila; e as diferentes espécies de erva cresciam à altura do peito.
O chefe tirou o barrete de pele de raposa, colocou-o no chão e disse:

- O sinal é este; partes daqui e voltas aqui; é tua toda a terra a que deres volta.

Pahóm puxou do dinheiro e pô-lo no barrete; depois tirou o casaco e ficou em colete; desapertou o cinto e ajustou-o logo por baixo do estômago, pôs um saquinho de pão ao peito, atou um cantil de água ao cinto, puxou os canos das botas, pediu a pá ao criado e ficou pronto a largar; considerou por alguns momentos sobre o caminho que havia de tomar, mas era uma tentação por toda a parte.

- Não faz mal - concluiu -; vou para o nascente.
Voltou-se para leste, espreguiçou-se e esperou que o Sol aparecesse acima do horizonte.

- Não há tempo a perder - disse ele - e é melhor ir já pela fresquinha.
Mal apareceu o primeiro raio de sol, desceu Pahóm a colina, de pá ao ombro; nem ia devagar, nem depressa; ao fim de um quilómetro, parou, fez um buraco e pôs os torrões uns sobre os outros; depois continuou e, como ia aquecendo, apressou o passo; ao fim de um certo tempo, fez outra cova. Pahóm olhou para trás: a colina estava distintamente iluminada pelo Sol e viam-se os Baquires e os aros cintilantes das rodas; Pahóm calculou que teria andado uma légua; como o calor apertava, tirou o colete, pô-lo ao ombro e continuou a caminhar; estava quente a valer: olhou para o Sol e viu que eram horas de pensar no almoço.

- A primeira tirada está feita; mas posso ainda fazer mais três, porque é cedo para voltar; o que tenho é de tirar as botas.

Sentou-se, descalçou as botas, pendurou-as ao cinto e continuou; agora, andava à vontade. "Mais uma leguazita - pensou ele -; depois volto para a esquerda; este bocado é tão bom que era uma pena perdê-lo; quanto mais se anda, melhor a terra parece." Avançou a direito durante algum tempo e, quando olhou à volta, viu que a colina mal se enxergava e que os Baquires pareciam formiguinhas; e havia qualquer coisa que brilhava.
- Já andei bastante para este lado - pensou Pahóm -, é tempo de voltar; e já estou a suar e com sede.

Parou, cavou um grande buraco e amontoou os torrões; depois, desatou o cantil, sorveu um gole e voltou à esquerda; foi andando, andando sempre; a erva era alta, o sol quentíssimo. Começou a sentir-se cansado: olhou para o Sol e viu que era meio-dia.

- Bem, vou descansar um bocado.
Sentou-se, comeu um naco de pão, bebeu uma pinga de água; mas não se deitou, com medo de adormecer; depois de estar sentado uns momentos, levantou-se e continuou. A princípio, andava bem: a comida tinha-lhe dado forças; mas o calor aumentava, sentia sono; apesar de tudo, continuava, e repetia consigo:

- Um dia de dor, uma vida de amor.
Andou muito tempo na mesma direcção e estava para rodar à esquerda, quando viu um sítio húmido: "Era uma pena deixar isto; o linho deve dar-se bem aqui." Deu uma volta, cavou um buraco e olhou para a colina; com o calor, o ar tremia e a colina tremia também, mal se vendo os Baquires.
"Os outros lados ficaram muito grandes; tenho que fazer este mais curto." E pôs-se a andar mais depressa. Olhou para o Sol: estava quase a meio caminho do horizonte e não tinha ainda andado três quilómetros do lado novo; e ainda lhe faltavam três léguas para a colina.
- "Bem - pensou ele - não me fica a terra quadrada, mas agora tenho que ir a direito; podia ir longe de mais e assim já tenho terra bastante." Abriu um buraco a toda a pressa e partiu em direcção à colina.
IX
Ia sempre a direito, mas caminhava com dificuldade. Estava tonto de calor, tinha os pés cortados e moídos e as pernas a fraquejarem; estava ansioso por descansar, mas era impossível fazê-lo se queria chegar antes do sol-posto; o Sol não espera por ninguém e cada vez ia mais baixo.
- Justos céus! Oxalá não tenha querido de mais! E se chego tarde?
Olhou para a colina e para o Sol; Pahóm estava ainda longe do seu objectivo e o Sol perto do horizonte. Continuou a andar; era custoso a valer, mas cada vez andava mais depressa; estugou o passo, mas estava longe ainda; começou a correr, atirou fora o casaco, as botas, o cantil e o barrete e ficou só com a pá, a que se apoiava, de quando em quando.

- Santo Deus! Abarquei de mais e perdi tudo; já não chego antes de o Sol se pôr.

O medo cortava-lhe a respiração; Pahóm continuava a correr, mas a transpiração colava-lhe ao corpo as calças e a camisa; tinha a boca seca e o peito arquejava como um fole de ferreiro; o coração batia que nem um martelo e as pernas quase nem pareciam dele; Pahóm sentia-se aterrorizado à ideia de morrer de fadiga. Apesar do medo da morte, não podia parar. "Se depois de ter corrido tudo isto, parasse agora, chamavam-me doido". E corria mais e mais e já estava mais próximo e já ouvia os Baquires a gritar; os gritos mais lhe faziam pulsar o coração; reuniu as últimas forças e deu mais uma carreira. O Sol estava já perto do horizonte e, envolvido na névoa, parecia enorme e vermelho como sangue. Ia-se a pôr, o Sol! Estava já muito baixo, mas ele também estava perto da meta; podia ver os Baquires na colina, a agitarem os braços, para que se apressasse; podia ver o barrete no chão com o dinheiro em cima e o chefe, sentado, e de mãos nas ilhargas. Pahóm lembrou-se do sonho.

- Tenho terra bastante, mas permitirá Deus que eu viva nela? Perdi a vida, perdi a vida! Já não chego àquele lugar.

Pahóm olhou para o Sol que já tinha atingido o horizonte: um lado já tinha desaparecido; com a força que lhe restava atirou-se para a frente, com o corpo tão inclinado que as pernas mal podiam conservar o equilíbrio; ao chegar à colina, tudo escureceu: o Sol pusera-se; deu um grito: "Tudo em vão!" e ia parar, quando ouviu os brados dos Baquires e se lembrou de que eles ainda viam o Sol, lá de cima do outeiro; tomou um hausto de ar e trepou pela colina; ainda havia luz: no cimo lá estava o barrete e o chefe a rir-se, de mãos na barriga; outra vez Pahóm lembrou o sonho; soltou um grito, as pernas falharam-lhe e foi com as mãos que agarrou o barrete.

- Grande homem, grande homem! - gritou o chefe. - A terra que ele ganhou!
O criado de Pahóm veio a correr e tentou levantá-lo, mas viu que o sangue lhe corria da boca. Pahóm morrera!

Os Baquires davam estalos com a língua, para mostrar a pena que sentiam. O criado pegou na pá, fez uma cova em que coubesse Pahóm e meteu-o dentro; sete palmos de terra: não precisava de mais.”
Leo N. Tolstoi

Notas:
1 O desiatine vale aproximadamente um hectare.
2 O kopek é a centésima parte da rublo.
3 Leite fermentado.

Sonetos

Quando no assédio de quarenta invernos
Se cavarem as linhas de teu rosto,
Da juventude os teus galões supernos
Pobres adrajos se tiverem posto,

Se então te perguntarem pelo fausto
De teus dias de glória e de beleza,
Dizer que tudo jaz no olhar exausto,
Opróbio fora, encômio sem grandeza.

Mais mérito terias nessa usança
Se puderes dizer: "Meu filho há de
saldar-me a dívida, exculpar-me a idade",

Provando que a beleza é tua herança.
Fora tornar em novo as coisas velhas
E ver o sangue quente enquanto engelhas.
William Shakespeare

Memória

"Nós acampamos no mato, e ficamos esperando o vento nas folhas das árvores, para ver se ele ensina uma cantiga nova, um canto cerimonial novo, se ele ensina, e você ouve, você repete muitas vezes esse canto, até você apreender......Sonho de verdade é quando você sente, comunica, recupera a memória da criação do mundo onde o fundamento da vida e o sentido do caminho do homem no mundo é contado para você......Não existiu uma criação do mundo e acabou! Todo instante, todo momento, o tempo todo é a criação do mundo.....Elas foram todas fundadas a partir da palavra que foi ordenando a criação do mundo, que quando nós narramos as histórias antigas nós criamos o mundo de novo, limpamos o mundo......E que humanidade é essa que precisa depositar sua memória nos museus, nos caixotes?..... Ela não sabe sonhar mais. Então ela precisa guardar depressa as anotações dessa memória........Quando os homens trabalham de dia, de noite, de dia, de noite, qualquer hora, eles estão se parecendo muito com a criação dos homens mesmo, que são as maquinas, mas muito pouco parecido com o criador do homem que é espírito........Essa humanidade que esta cada vez mais ocidental, civilizada e tecnológica, lembre, ela também, dessa memória comum que os humanos têm da criação do mundo, e que consigam dar uma medida para a sua historia, para a sua historia que esta guardada, registrada nos livros, nos museus, nas datas, porque, se esta sociedade se reportar a uma memória, nós podemos ter alguma chance......E, entre a história e a memória, eu quero ficar com a memória.”
Fragmentos do texto elaborado a partir de exposição oral de Ailtom Krenak, contidos na coleção: Tempo e História.

Sonetos

Dos seres ímpares ansiamos prole
Para que a flor do belo não extinga,
E se a rosa madura o Tempo colhe,
Fresco botão sua memória vinga.

Mas tu, que só com os olhos contrais,
Nutres o ardor com as próprias energias
Causando fome onde a abundância jaz,
Cruel rival, que o próprio crucias.

Tu, que do mundo és hoje galardão,
Arauto da festiva Natureza,
Matas o teu prazer inda em botão

E, sovina, esperdiças na avareza.
Piedade, senão ides, tu e o fundo
Do chão, comer o que é devido ao mundo.
William Shakespeare

Polina Seminova

Estácio

"Se alguém quer matar-me de amor
Que me mate no Estácio
Bem no compasso, bem junto ao passo
Do passista da escola de samba
Do Largo do Estácio
O Estácio acalma o sentido dos erros que eu faço
Trago não traço, faço não caço
O amor da morena maldita do Largo do Estácio
Fico manso, amanso a dor
Holliday é um dia de paz
Solto o ódio, mato o amor
Luiz Melodia

A Condecoração

“Após a cerimónia, nem sequer foi servida uma simples merenda. Os recém-casados beberam uma taça de champanhe, mudaram de fato e dirigiram-se à estação. Nem baile de casamento, nem banquete, nem música; e agora lá partiam para uma viagem de mais de duzentas verstas.

Muitos dos presentes aprovaram esta ausência de formalidades. Com efeito, para Modeste Alexeivitch, que ocupava na sociedade um lugar de destaque e já não era jovem, uma boda ruidosamente festejada estaria pouco indicada. Além disso, um homem de cinquenta e dois anos, que desposara uma rapariga de dezoito, decerto se enfadaria com a música. Dizia-se ainda que o noivo, homem de princípios, organizara esta peregrinação a um convento para fazer ver à sua jovem esposa que ele, não só no casamento, como em todos os actos da sua vida, dava o primeiro lugar à religião e à moral.
Acompanharam os noivos à estação. Colegas e parentes, todos exibiam uma taça de champanhe para, à partida do comboio, gritarem um "hurra".

O pai da noiva, Piotre Leonntievitch, com o uniforme de professor, de chapéu alto, muito pálido e já embriagado, estava constantemente a erguer-se nos bicos dos pés, à porta da carruagem, com a sua taça na mão, e dizia à filha, numa voz suplicante:

- Anazinha, Anita, escuta! Só uma palavra!
Ana inclinou-se para o pai, que lhe segredou qualquer coisa que ela não entendeu, soprando-lhe o seu hálito avinhado para a cara. Entretanto, com os olhos brilhantes de lágrimas e a voz entrecortada, fazia-lhe o sinal-da-cruz na cara, no peito e nas mãos.

Pétia e Andrioucha, estudantes do liceu e irmãos de Ana, puxavam o pai pelas abas do fraque, dizendo um pouco envergonhados:
- Basta, paizinho. Deixe-a lá.

Quando o comboio abalou, Ana viu o pai, que titubeava, correndo ao longo da carruagem, a entornar a taça; de expressão infeliz mas bondosa, gritava num tom de lamento: "Hurra"!

Os noivos ficaram finalmente sós. Modeste Alexeivitch examinou o compartimento, arrumou a bagagem na rede e, sentando-se na frente dela, sorriu-lhe.

Era um homem de estatura mediana, bastante gordo, anafado, de longas patilhas, mas não tinha bigode. O queixo, redondo, bem barbeado, de contornos nítidos, lembrava um tacão de sapato. O que de mais característico havia na sua cara era sem dúvida a ausência do bigode. Os lábios nus iam confundir-se-lhe pouco a pouco com as faces que, gordas e tremebundas, pareciam geleia.

Tinha um porte correcto, movimentos lentos e maneiras untuosas.
- Não posso de deixar de lhe contar uma coisa - disse ele, sorrindo. - Há cerca de cinco anos, quando Kossorotov foi condecorado com a Cruz de Sant'ana, que se usa pendurada no pescoço, e apresentou os seus agradecimentos a Sua Excelência (1), este disse-lhe: "Você, a partir de agora, passa a ter três Anas, uma na lapela e duas no pescoço". Devo esclarecer que, nessa altura, a mulher de Kossorotov, volúvel e provocante, chamada Ana, se tinha reconciliado com o marido. Espero que, quando chegar a minha vez de receber a medalha de segunda-classe, Sua Excelência não tenha de me dizer a mesma coisa.

Os olhos dele sorriram-lhe e Ana sorriu também, comovendo-se ante a ideia de que aquele homem, de lábios grossos, a pudesse em qualquer altura beijar, sem que lhe fosse possível evitá-lo.

Os melífluos movimentos do seu corpo roliço assustavam-na e provocavam-lhe uma sensação de nojo. Modeste Alexeivitch ergueu-se lentamente, tirou a condecoração, despiu o fraque e o colete e pôs-se de roupão.
- Ora bem! - disse-lhe, sentando-se ao seu lado.

Ana recordou-se naquele instante do martírio que fora a cerimónia do seu casamento. Dir-se-ia que tanto o padre como os convidados e todas as pessoas presentes na igreja a olhavam com compaixão e se interrogavam acerca do motivo que levara uma rapariga nova e simpática a casar-se com homem tão pouco interessante. A parte da manhã desse mesmo dia tinha-a passado numa espécie de encantamento, por ver que tudo corria de forma maravilhosa. Mas, durante a cerimónia e agora ali, na carruagem, sentia-se culpada e ridícula.

Casara com um homem rico, mas ela não tinha dinheiro. O seu vestido de noiva fora comprado a crédito e quando, há pouco, o pai e os irmãos a haviam acompanhado, compreendera imediatamente que lhes não restava sequer um vintém. Jantariam naquele dia? E no seguinte? Parecia-lhe que, sem ela, morreriam de fome, voltando a atormentá-los a mesma angústia que todos haviam sentido após o enterro da mãe.

"Oh! como sou desgraçada! - pensava. - Que mal fiz eu para merecer isto?"
Com a falta de jeito de um homem grave, pouco habituado a tratar com mulheres, Modeste Alexeivitch abraçava-a pela cintura e dava-lhe pancadinhas no ombro; ela, entretanto, só pensava na falta de dinheiro, na mãe e na morte desta.

Depois de a mãe morrer, o pai, professor de desenho e caligrafia, começou a beber. A miséria bateu-lhes à porta. Os irmãos ficaram sem ter que calçar. Piotre Leonntievitch era constantemente intimado a comparecer perante o juiz de paz e até o oficial de diligências lhes acabara por penhorar os móveis... Que vergonha!...

Ana tinha de aturar as bebedeiras do pai, de coser as meias dos irmãos, de ir à praça. Quando lhe gabavam a beleza, a juventude e as maneiras delicadas, parecia-lhe que toda a gente reparava também no seu chapéu ordinário e nas esmurradelas das botas disfarçadas com tinta.

Para ela as noites eram de pranto. Torturava-a a ideia obcecante de que o pai, por causa do vício, não tardaria a ser expulso do liceu, e depois, não resistindo à decadência, acabaria por morrer como a mãe.
Foi então que as amigas mais íntimas, apiedadas da sua triste sorte, se empenharam em procurar-lhe um bom marido. E não tardou que descobrissem Modeste Alexeivitch, que não era novo nem bonito, mas no entanto rico. "Tem cinco mil rublos no banco", diziam-lhe as amigas, "e um património que se está valorizando. É um homem de princípios, muito bem visto por Sua Excelência. Não lhe custará nada interceder junto do governador ou mesmo do curador para que o seu pai não seja despedido."
Estava Ana totalmente entregue a estas recordações quando foi despertada pelo som de música e pelo ruído de vozes que entravam, pela janela. O comboio parara numa pequena estação. Destacavam-se as notas alegres de um acordeão e de um violino barato. E, por detrás dos altos choupos, das bétulas e das casas de verão banhadas pela luz da Lua, soavam os acordes de uma banda militar. Tudo indicava tratar-se de um baile. Na plataforma passeavam os habitantes da terra e das redondezas, atraídos pelo bom ar que ali se respirava. Também se encontrava presente Artynov, um homem alto, forte, muito semelhante a um arménio, de olhos salientes, o dono da colónia de verão. Este usava uma camisa aberta no peito, botas altas com esporas, e uma capa negra, presa nos ombros, que arrastava pelo chão como uma cauda. Seguiam-no dois galgos que farejavam a terra com os longos focinhos.

Nos olhos de Ana ainda brilhavam as lágrimas, mas agora já não pensava na mãe, no dinheiro, no marido. Apertava as mãos dos estudantes e oficiais seus conhecidos, que riam alegremente e falavam muito depressa.
- Boa noite! Como está?

Saiu da carruagem banhada pelo luar, e pôs-se de maneira a que todos a vissem, admirassem o seu elegante vestido, o chapéu novo.
- Porque estamos aqui parados? - perguntou ela.
- É um entroncamento. Tem de se esperar pelo rápido.
Dando-se conta de que Artynov não lhe tirava os olhos de cima, numa atitude de conquistador, piscou provocantemente os olhos, pôs-se a falar muito alto em francês. Talvez porque lhe agradasse o som da sua própria voz, o ritmo da música, a lua reflectir-se na lagoa, o facto de Artynov, esse Don Juan, a fixar com insistência ou ainda por ver toda a gente satisfeita, a verdade é que sentiu uma alegria repentina. Quando o comboio retomou a marcha, os oficiais saudaram-na em continência. Ana voltou para o seu compartimento, a trautear uma polca, imitando a orquestra invisível atrás das árvores; sentia-se muito tranquila, como se, naquela paragem, lhe tivessem assegurado que, apesar de tudo, iria ser feliz.
Os noivos passaram dois dias no mosteiro e depois voltaram para a cidade. Ocupavam uma casa do Estado. Enquanto o marido ia para o escritório, Ana tocava piano, chorava de tédio, ou deitava-se no sofá, lendo romances ou folheando figurinos.

Ao jantar, Modeste Alexeivitch comia com apetite, falava de política, de promoções, de transferências, de gratificações, e declarava que era preciso trabalhar, pois a vida de família não é um prazer mas sim um dever; que os kopecks se transformavam em rublos e que, acima de tudo, estava a religião e a moral. Erguendo a faca como uma espada, afirmava:
- Toda a gente deve ter a noção dos seus deveres.

Ana escutava-o e temia-o. Não conseguia comer e, geralmente, acabava por se levantar da mesa, cheia de fome.

Depois do jantar, Modeste Alexeivitch dormia a sesta e ressonava muito alto. A mulher ia visitar a família.

O pai e os irmãos recebiam-na de uma maneira estranha como se, antes da sua chegada, tivessem estado a falar dela, censurando-a por se haver casado unicamente por interesse com um homem velho que não amava. Desgostava-os e humilhava-os o seu vestido roçagante, as pulseiras e o seu ar de grande senhora. Nem sequer sabiam do que lhe falar, embora no íntimo lhe quisessem muito e não se tivessem ainda habituado a jantar sem ela. Ana sentava-se à mesa e comia com eles pão de centeio e batatas fritas em banha de carneiro que cheirava a sebo. Piotre Leonntievitch, com as mãos trémulas, pegava na garrafinha de vodca, enchia um copo que bebia de um trago. Depois um segundo e um terceiro. Pétia e Andrioucha, pálidos e magros, de olhos famintos, tiravam a garrafa da mesa e diziam:
- Basta, paizinho!... Já chega...

Ana, igualmente alarmada, suplicava-lhe que não bebesse mais, mas ele, dando grandes punhadas na mesa, gritava:

- Não admito a ninguém que me vigie! Seus fedelhos! Uma garota! Hei-de pô-los a todos na rua!

Mas a sua voz, na qual transparecia a bondade e a fraqueza, não amedrontava ninguém. Normalmente, depois do jantar, costumava arranjar-se com esmero. Pálido, de queixo bem escanhoado, esticava o pescoço magro e permanecia meia hora a olhar-se ao espelho. Penteava-se, retorcia os bigodes pretos, perfumava-se, dava o nó na gravata, calçava as luvas, punha a cartola e ia dar explicações.
Nos dias feriados ficava em casa. Pintava a óleo ou tocava harmónio-flauta. O instrumento silvava e gemia, mas ele, que tentava a todo o custo extrair dele acordes e sons harmoniosos, ao ver os seus esforços baldados, chamava os filhos e dizia-lhes:

- Marotos! Patifes! Desafinaram-me o instrumento!
Todas as tardes o marido de Ana jogava as cartas com os colegas que moravam sob o mesmo telhado que ele, no prédio do Estado. Ao serão reuniam-se as esposas dos funcionários, todas elas muito feias, vestidas com mau gosto, e grosseiras como mulheres a dias. Começava então um desfile de intrigas tão pouco bonitas e ordinárias como elas.

Por vezes, Modeste Alexeivitch ia ao teatro com a mulher. Nos intervalos não a deixava um momento sequer sozinha. Levantava-se, dava-lhe o braço e passeavam assim nos corredores do salão. Ao cumprimentar alguém, segredava-lhe: "É conselheiro do Estado... Frequenta a casa de Sua Excelência..." Ou então: "É capitalista... Vive em casa própria..." Quando passavam pelo bufete, apetecia a Ana comer qualquer coisa. Gostava imenso de chocolate e de doce de maçã, mas não tinha dinheiro, e envergonhava-se de o pedir ao marido. Este pegava numa pêra, apalpava-a, inquirindo, hesitante:

- Quanto custa?
- Vinte e cinco kopecks.
- Não, de maneira nenhuma.

Tornava a pôr a pêra no lugar; mas, sentindo-se mal por não comprar nada, pedia água de Seltz e bebia o sifão todo, até as lágrimas lhe virem aos olhos. Ana, nestes momentos, odiava-o profundamente.
Outras vezes, muito corado, dizia-lhe a toda a pressa:

- Olha, cumprimenta essa senhora.
- Mas eu não a conheço.
- Não importa. É a esposa de um director de ministério. Já te disse que a cumprimentasses - insistia ele. - Não te vai cair a cabeça por causa disso.
Ana saudava, fazendo uma vénia, e de facto a cabeça não lhe caía. Mas isto amargurava-a. Fazia tudo o que o marido queria e irritava-se consigo mesma, pensando que se deixara enganar como uma parva. Só casara com ele por dinheiro, mas hoje tinha bem menos do que em solteira. Antigamente o pai dava-lhe de quando em quando vinte kopecks, mas agora, não tinha nem um vintém. Tirar dinheiro às escondidas ou pedi-lo ao pai, isso não podia, tinha medo. Toda ela tremia diante do marido. Havia muito que receava no íntimo este homem. Durante a infância, a força que mais temia, tal como uma espécie de nuvem negra que avança sobre nós ou uma locomotiva prestes a esmagar-nos, era o reitor do liceu. Agora, Sua Excelência, de quem se falava um pouco a medo, atemorizava-a da mesma forma. Haviam outrora existido para ela outras forças menos poderosas: os professores, de lábios cerrados, severos, inexoráveis. Mas receava sobretudo Modeste Alexeivitch, homem de princípios, que até chegava a ter semelhanças com o reitor do liceu. Todas estas forças se confundiam na imaginação de Ana numa só, como se fora um enorme urso branco que pretendesse aniquilar os fracos e os culpados como seu pai. Receava dizer alguma coisa fora de propósito e sorria contrafeita, mostrando uma alegria fictícia quando o marido a acariciava brutalmente ou a abraçava, metendo-lhe nojo.

Só uma vez o pai de Ana se atreveu a pedir a Modeste Alexeivitch cinquenta rublos emprestados para pagar uma dívida muito incómoda. Quanto lhe custou isto, porém!

- Sim, senhor. Empresto-lhe os cinquenta rublos - respondeu o genro, depois de reflectir. - Mas desde já o previno de que, se entretanto não deixar de beber, nunca mais o ajudarei. Para um homem que serve o Estado essa fraqueza é uma vergonha. Não posso deixar de, a propósito, lhe recordar a seguinte verdade: a embriaguez tem perdido muitas pessoas que, caso tivessem sabido dominar-se, poderiam, com o tempo, vir a ocupar lugares importantes.

A isto seguiu-se um longo cortejo de palavras, admoestações sublinhadas com muitos "na medida em que"... "em consequência do que acabo de lhe dizer"..., "em face da situação". E o pobre Piotre Leonntievitch escutava-o suportando esta humilhação, e sentia uma forte vontade de beber um gole.
Os irmãos de Ana, que a iam visitar de sapatos rotos e calças cheias de buracos, tinham de ouvir esses discursos cheios de moralidade.

- Todos nós - dizia-lhes Modeste Alexeivitch - devemos cumprir os nossos deveres.

Não dava dinheiro a ninguém mas, em compensação, enchia a mulher de anéis, pulseiras e alfinetes, dizendo-lhe sempre que era muito bom ter estas coisas para uma ocasião de necessidade. E, para se certificar de que as jóias não tinham desaparecido, passava revista de quando em quando à cómoda de Ana.
II
Entretanto, chegou o Inverno. Muito antes do Natal, a gazeta da terra anunciou que no dia 29 de Dezembro, no salão nobre da Assembleia, teria lugar o baile do ano. Todas as noites, depois de jogar as cartas, Modeste Alexeivitch falava em voz baixa com os colegas e olhava para Ana. Caminhava em largas passadas pelo aposento, muito pensativo. Por fim, certa noite, já bastante tarde, parou de repente diante dela e disse-lhe:
- Ouve, tens de mandar fazer um vestido de baile. Entendeste? Mas recomendo-te que te aconselhes com a Maria Grigorievna e a Natália Kouzminichna.

E deu-lhe cem rublos.

Ana guardou o dinheiro, mas não recorreu ao conselho de ninguém. Apenas conversou com o pai, tentando imaginar de que maneira sua mãe, se fosse viva, iria vestida a este baile. Ela era uma senhora de bom gosto que andava sempre no rigor da moda. Ocupava-se sempre muito da filha, escolhendo para ela os modelos mais recentes e enfeitando-a como a uma boneca. Até lhe mandara ensinar francês, dançar com perfeição a mazurca (tinha sido, antes do casamento, durante cinco anos, dama de companhia). Hoje, Ana, tal como a mãe, sabia transformar um vestido velho num vestido novo, limpar as luvas com benzina, alugar jóias, e ainda, como ela também, semicerrar os olhos, ciciar as palavras, assumir atitudes bonitas, ficar, quando era preciso, excitada, ou então parecer triste e misteriosa. Do pai herdara as pupilas e os cabelos negros, o nervosismo e a distinção das maneiras.

Quando, meia hora antes do baile, Modeste Alexeivitch entrou no quarto dela em mangas de camisa, para, diante do espelho, pendurar a condecoração ao pescoço, ficou maravilhado com a beleza e o esplendor do seu vaporoso vestido. Disse-lhe com muita satisfação, não lhe regateando elogios:
- Ah! Que linda mulher eu tenho, Anita! Que mulher!
E continuou em tom grave:

- Tenho feito a tua felicidade; agora é a tua vez de fazeres a minha. Peço-te que te apresentes à mulher de Sua Excelência. Pelo amor de Deus! Através dela eu posso conseguir o lugar de chefe dos referendários.

Saíram para o baile. Eis o clube da Nobreza, a entrada e o respectivo porteiro. O vestíbulo cheio de cabides, casacos de pele, criados numa roda-viva, senhoras muito decotadas protegendo-se, com os leques, das correntes de ar. Havia um cheiro a gás. Quando, subindo a grande escadaria, pelo braço do marido, Ana ouviu a música e se avistou de corpo inteiro reflectida no espelho, iluminada por mil luzes, a alegria despertou no seu coração. Experimentava novamente aquela sensação de felicidade que tivera certa noite enluarada na pequena estação de caminho de ferro. Avançava, altiva, segura de si, não como uma rapariga, mas como uma autêntica mulher. E, maquinalmente, assumiu a atitude da mãe. Pela primeira vez na vida sentia-se rica e feliz. Agora, a presença do marido já não a perturbava. O instinto fez-lhe compreender que a companhia de um marido já de certa idade não a inferiorizava; pelo contrário, conferia-lhe um interesse muito do agrado dos homens. No salão já soava a orquestra e o baile tinha começado. Vendo-se fora de casa, banhada pela luz, pelas cores, pelo barulho e pela música, Ana lançou um olhar pelo salão e pensou: "Ah, como é belo!" E, de súbito, distinguiu na multidão todos os seus conhecidos, todos a quem antes havia encontrado em festas e passeios, oficiais, professores, advogados, funcionários, Sua Excelência, Artynov e as senhoras da alta sociedade, muito enfeitadas, decotadas, belas e feias, que ocupavam já os seus lugares nas barracas e tômbolas da festa de caridade, para começarem a venda a favor dos pobres. Um oficial muito alto (conhecera-o na rua Vieille-de-Kiev, quando andava no liceu, e de cujo nome não se recordava) surgiu como que do chão e convidou-a para uma valsa. Separou-se do marido e em breve lhe pareceu que vogava num barco à vela, em plena tempestade, e que Piotre Alexeivitch estava a mil léguas dali, na outra margem. Dançava, com entusiasmo, valsas, polcas, quadrilhas, passando de uns braços para outros, embriagada pela música, pelo barulho, falando ora em russo, ora em francês. Causou sensação entre os homens, nem outra coisa seria de esperar. Sufocava de emoção, apertava nervosamente o leque entre os dedos, ardia de sede. O pai, metido numa casaca amarrotada que cheirava a benzina, aproximou-se dela trazendo-lhe um gelado num prato.

- Estás encantadora esta noite - disse-lhe, fitando-a com entusiasmo. - Nunca lamentei tanto como hoje o teres-te casado tão cedo... Porque fizeste isso? Sei que foi por nossa causa, mas... - Com as mãos trémulas tirou do bolso um pacotinho de notas e disse: - Recebi hoje isto de umas lições; peço-te que pagues a minha dívida a teu marido.
Ela devolveu-lhe o prato e deixou-se arrastar por alguém que a convidara. Por cima do ombro do cavalheiro, viu o pai que, enlaçando uma senhora, deslizava pelo salão.

"Como é delicado quando não bebe!", pensou.
Dançou a mazurca com o mesmo oficial alto. Grave e solene, este movia-se pesadamente, cheio de importância, saracoteando os ombros e o peito, quase não marcando o compasso, sem vontade nenhuma de dançar, enquanto ela, pelo contrário, girava à sua volta, provocando-o com a sua beleza, com o seu colo nu. Os olhos brilhavam-lhe de malícia, os movimentos eram sensuais, mas ele, cada vez mais indiferente, estendia-lhe as mãos condescendentemente, como um rei.

- Bravo! Bravo!... - ouvia-se bradar entre a assistência.
Mas, pouco a pouco, o corpulento oficial foi perdendo a indolência. Animou-se e, cheio de entusiasmo, deixou-se dominar pelo encanto, ao passo que ela, agora, só mexia os ombros, olhando-o maliciosamente como se fosse rainha e ele seu escravo. Parecia-lhe que toda a sala os fitava e invejava. Logo que o enorme oficial agradeceu, a multidão afastou-se de súbito, assumindo os homens uma atitude marcial... Sua Excelência, de casaca, com duas condecorações, avançava para Ana. Sim, Sua Excelência, que já a havia fixado demoradamente, avançava para ela a sorrir-lhe com afecto, mexendo os lábios, o que sempre fazia ao ver mulheres bonitas.

- Muito prazer, muito prazer... - disse-lhe ele. - O seu marido merece ser preso por nos haver privado tanto tempo de tão raro tesouro. Venho da parte de minha mulher - prosseguiu, dando-lhe o braço. - E preciso que nos ajude... Sim, garanto... Tem que se conceder um prémio à sua beleza... como fazem os americanos... Sim... os americanos... Minha mulher espera-a com impaciência.

Acompanhou-a a uma barraca, onde já estava uma senhora de idade, cuja mandíbula inferior era tão saliente, que dir-se-ia ter na boca uma enorme pedra.

- Venha ajudar-nos - disse-lhe a senhora com uma voz cantante - todas as mulheres bonitas colaboram nesta festa de caridade; a senhora é a única que assim não faz. Porque é que não quer colaborar connosco?

Ela foi-se embora e Ana ocupou o seu lugar, atrás do samovar e das taças de prata. A venda tornou-se imediatamente rendosa. Ana não pedia menos de um rublo por cada chávena de café de chá. Obrigou o grande oficial a beber três. Artynov, o ricaço, de olhos à flor do rosto, que sofria de asma, aproximou-se da barraca. Já não vestia aquele estranho fato com que Ana o vira na primeira vez, mas trazia, como toda a gente, casaca. Sem despregar os olhos da vendedora, pediu-lhe uma taça de champanhe, pela qual pagou cem rublos. Depois bebeu uma chávena de chá e tornou a pagar com outros cem. Fazia tudo isto calado, pois a asma impedia-o de articular nem que fosse uma palavra. Ana atraía os compradores, cobrava-lhes o dinheiro, e estava plenamente convencida de que os seus sorrisos e olhares só proporcionavam prazer a toda a gente. Convenceu-se de que nascera para aquela vida agitada, onde tudo é fausto, ruído, risos, danças e admiradores. Os seus antigos receios perante aquela força que avançava, ameaçando esmagá-la, pareciam-lhe agora ridículos. Não temia ninguém e apenas lamentava que sua mãe ali não estivesse, para partilhar com ela os seus êxitos.

Piotre Leonntievitch, já pálido, mas ainda firme nas pernas, aproximou-se da barraca e pediu-lhe um copo de conhaque. Ana perturbou-se, com receio de ele dizer alguma tolice (sentia vergonha de ter um pai tão pobre e tão vulgar). Mas ele bebeu, tirou da algibeira uma nota de dez rublos, deu-lha e afastou-se solenemente, em silêncio. Momentos depois, Ana viu o pai rodeado de senhoras. Já não estava em completo equilíbrio e gritava alguma coisa com grande susto do seu par. E a filha lembrou-se de que, certa tarde, havia três anos, num baile, já a cambalear como agora, também começara a gritar em voz alta. E a cena findara com a intervenção de um polícia que o conduzira a casa, obrigando-o a deitar-se. No dia seguinte o reitor ameaçou-o com a expulsão. Como lhe era desagradável esta lembrança!

Quando os samovares se apagaram e as benfeitoras, fatigadas, foram entregar o lucro das vendas à senhora que parecia ter um calhau na boca, Artynov ofereceu o braço a Ana e conduziu-a à sala onde foi servida uma ceia a todos os participantes da venda de caridade. Embora não estivessem ali mais de vinte pessoas, a ceia decorreu num ambiente muito animado. Sua Excelência fez o seguinte brinde: "Nesta linda sala de jantar temos de beber em honra dos refeitórios populares, aos quais se destina a receita de hoje." O general de bigodes propôs-se beber: "Pela força perante a qual se curva até própria artilharia". E todos se levantaram para brindar com as senhoras. Estava tudo muito animado.

Quando acompanharam Ana a casa era dia e as cozinheiras já se dirigiam para a praça. Muito contente, embriagada e plena de novas sensações, despiu-se, atirou-se para cima da cama e adormeceu imediatamente...
Pelas duas de tarde foi acordada pela criada de quarto que lhe anunciou a visita de Artynov. Vestiu-se num instante e foi para a sala. Pouco depois de Artynov, chegou Sua Excelência para vir agradecer a tão gentil vendedeira. Beijou-lhe a mão, fitou-a com um olhar adocicado e, mexendo os lábios como se mastigasse, pediu-lhe licença para voltar. Depois retirou-se. Ana permaneceu no meio do salão, surpreendida e encantada, não podendo acreditar que tão extraordinária mudança na sua vida se tivesse operado com tal rapidez.

Precisamente nesta altura entrou o marido. Modeste Alexeivitch usava agora para com a mulher a mesma expressão adocicada e respeitosa que ela se acostumara a ver-lhe apenas diante dos poderosos e dos nobres. Então, segura de que dali em diante tudo lhe seria permitido e perdoado, disse-lhe num rasgo de entusiasmo, com desprezo e indignação, destacando bem cada sílaba:

- Fora daqui, imbecil!
A partir deste momento Ana não voltou a ter um dia livre. Começou a tomar parte em todos os passeios, em todos os piqueniques e em todos os espectáculos. Voltava sempre para casa já de madrugada, deitava-se no meio do salão e depois contava a toda a gente que só dormia coberta de flores.

Para esta vida era-lhe necessário muito dinheiro, mas, como já não temia o marido, dispunha da fortuna dele como se esta lhe pertencesse. Não lhe pedia nem exigia nada. Mandava-lhe simplesmente as facturas, ou bilhetes deste género: "Entrega cem rublos ao portador" ou "paga imediatamente cem rublos".

Pela Páscoa, Modeste Alexeivitch foi agraciado com a medalha de Sant'ana, de segunda classe. Ao agradecer a Sua Excelência, o governador pousou o jornal de lado e disse-lhe, afundando-se na poltrona:
- Quer dizer que agora o senhor tem três Anas: uma na lapela e duas ao pescoço.

Modeste Alexeivitch pôs os dedos na boca para conter o riso e disse:
- Resta-nos esperar a vinda ao mundo de um pequeno Vladimir. Será demasiada ousadia atrever-me a pedir que Vossa Excelência seja o seu padrinho?

Ele queria referir-se à Ordem de Vladimir, de quarta classe, e já imaginava como iria contar a toda a gente este jogo de palavras tão hábil e arrojado. Quis acrescentar ainda mais algum dito espirituoso, mas Sua Excelência, fazendo-lhe um ligeiro aceno de cabeça, enfronhou-se novamente na leitura do jornal.

Ana continuava a passear-se de troika, ia à caça com Artynov, representava peças em um acto, ceava fora de casa e visitava os seus cada vez com menos frequência. Estes, agora, jantavam sós. Piotre Leonntievitch bebia mais do que nunca. O dinheiro faltava e o harmónio-flauta fora vendido para pagar uma dívida. Os filhos proibiam-no de sair sozinho de casa e tinham de o amparar para que não se estatelasse no chão.

Quando, certo dia, passeavam na rua Vieille-de-Kiev, cruzaram-se com Ana num carro puxado a dois cavalos, com um criado ao lado e Artynov a fazer de cocheiro. Piotre Leonntievitch tirou o chapéu, preparando-se para gritar alguma coisa, mas Pétia e Andrioucha seguraram-no pelos braços, e pedindo-lhe num tom suplicante:

- Não deve fazer isso, paizinho!... Basta, paizinho...
Notas:
1 Quer dizer, o seu chefe, que tinha o posto de general.”
Anton Tchekhov

Sonetos

"Um dia nos meus versos quem há de crer?
Se eu nele derramar meus dons mais puros?
No entanto sabe o céu que eles são muros
Que a tua vida ocultam por metade.

Dissera o que de teu olhar emana,
Teus dons em nova métrica medira,
Que acharia o porvir então: "Mentira!
Tais tratos não retratam face humana".

Que mofem pois deste papel fanado
Qual dos velhos loquazes, e a teu ente
Chamem de pura exaltação da mente

E a meu verso exageros do passado.
Mas se chegar tua estirpe a tanto,
Em dobro hás de viver: nela e em meu canto."
William Shakespeare