Na Ilha por vezes habitada

“Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,
manhãs e madrugadas em que não precisamos de
morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente e entra
em nós uma grande serenidade, e dizem-se as
palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas
mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a
vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o
sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do
mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos
ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.”
José Saramago

Pesadelo

"Quando o muro separa uma ponte une
Se a vingança encara o remorso pune
Você vem me agarra, alguém vem me solta
Você vai na marra, ela um dia volta
E se a força é tua ela um dia é nossa
Olha o muro, olha a ponte, olhe o dia de ontem chegando
Que medo você tem de nós, olha aí

Você corta um verso, eu escrevo outro
Você me prende vivo, eu escapo morto
De repente olha eu de novo
Perturbando a paz, exigindo troco
Vamos por aí eu e meu cachorro
Olha um verso, olha o outro
Olha o velho, olha o moço chegando
Que medo você tem de nós, olha aí

O muro caiu, olha a ponte
Da liberdade guardiã
O braço do Cristo, horizonte
Abraça o dia de amanhã, olha aí”
Maurício Tapajós / Paulo César Pinheiro

Bale de Rua, “Reedição do Vídeo PPN”

Exilados em Fernando de Noronha

(O moleque Ricardo - Trecho)
“Eles iam para Fernando de Noronha. O governo caíra em cima dos centros operários com uma fúria de ciclone. Não ficou um que não fosse arrebentado e que os seus diretores não comessem virola e cadeia. O Dr. Pestana, metido em prisão por umas horas, teve a mulher para gritar por ele, habeas-corpus que o livrasse dos constrangimentos. Os chefes operários iriam para Fernando. Lá estavam os ladrões e criminosos curtindo penas. Para lá iriam os operários. Sebastião e o povo da padaria de seu Alexandre estavam na lista para seguirem. Diziam os jornais que Sebastião era um perigoso agitador e a padaria onde ele trabalhava um foco terrível. Fernando de Noronha com eles.

Seu Lucas andava triste. Foi ao desembargador que ele curara da mulher, mas o homem lhe desenganou. Ninguém fosse falar ao governo em favor de operário. O governador queria fazer uma limpeza na cidade, porque a canalha não deixava ninguém descansar com esta história de greve todos os dias. Ele estava perdendo o tempo. E a mulher de Jesuíno e os filhos nas grades do jardim do seu Lucas, chorando.

- Vai para casa, mulher! - dizia o pai-de-terreiro. Ele volta! Um dia ele volta!

E os fihos de Deodato e os de Simão pedindo notícias a seu Alexandre:

- Foram para os infernos! Perderam-se porque quiseram! Agora que agüentem!

Mas seu Alexandre se lastimava. Os homens sabiam trabalhar de verdade. Os outros que tinham vindo substituí-los não valiam nada. Onde encontrar um boca-de-fogo como Deodato, um pãozeiro como Ricardo, um masseiro como Simão? Seu Antônio foi ao patrão e disse mesmo:

- Precisas fazer voltar esses homens senão eu me retiro.

- Voltar como, homem de Deus? Já falei com o Dr. Demócrito. O governo faz questão de castigar, de dar um termo a esta greve.

Não havia mesmo jeito. Os homens iriam mesmo para Fernando. Seu Lucas, no jardim, andava triste, debruçava-se sobre as roseiras sem entusiasmo. Os negros iriam para Fernando. Jesuíno e Ricardo na ilha com os ladrões e criminosos. O jardineiro olhava o chão pensando nos homens. O que tinham feito eles demais? Jesuíno e Ricardo não mataram ninguém, não tiraram o alheio. Iam para Fernando. Seu Lucas viu o sol nas suas plantas sem saber o que o sol fazia. Botava água nos canteiros, sem saber o que a água fazia. Os amigos dele seriam mandados de navio para o mar, para o meio do mar, com ladrões e assassinos. E os outros? Simão e Deodato? Eram bons também, as mulheres também chorariam de fome. Por que não mandavam o Dr. Pestana? De cócoras, mexendo na terra molhada, o velho censurava as coisas, o velho sentia a miséria das coisas. Aquilo era uma ruindade sem tamanho.

Numa manhã, os homens saíram para Fernando. Ricardo, Deodato, Simão, Jesuíno para um canto do navio olhavam o Recife coberto ainda de sombras da madrugada. Viam vapores grandes no cais, catraieiros trabalhando àquela hora. Mas havia um silêncio grande, um silêncio medonho nos barcos dormindo e nas águas do rio. Eles olhavam para o lado do cais e viam as casas e a terra que iam deixar. Simão para um lado, triste, de cabeça baixa, Deodato dizendo:

- Se ao menos eu pudesse ver os meninos!
E o negro Jesuíno sentado em cima de umas cordas. Sebastião só fazia dizer:
- A gente volta. Um dia a gente volta.

Ricardo olhava para todos. Ele sentia uma vontade desesperada de vomitar, aquele cheiro aborrecido de bordo lhe embrulhava o estômago. Iam para Fernando. Conhecera no engenho um homem, um assassino que estivera em Fernando de Noronha. Chamava-se Noé e contava tanta coisa triste de lá. Fernando de Noronha, ninho de tudo que era homem sem remédio e sem jeito. Ele ia para lá e não sabia o mal que tivesse feito.

- Homem, dizia Jesuíno para Simão, o governo só faz isto porque não tem família.
- Eu até nem penso mais nos meninos, respondia Simão. Vai se perder tudo, Jesuíno. Vai se perder tudo.

Deodato era mais forte:

- Não faz mal, eles arranjam jeito de viver.
Sebastião, de pé:

- É isto mesmo. Se a gente esmorecer, sofre mais.
Ricardo se lembrava da mãe Avelina. Com que alegria ela recebera a carta dizendo que ele ia! Os negros todos da rua se assanharam na certa com a notícia. Ricardo ia chegar calçado de botina e de gravata no pescoço, como o José Ludovina no dia da eleição. Ricardo no Recife não tirava a botina dos pés, mas agora era isto que estava se vendo. Cercado de água por todos os lados, para o resto da vida. Morreriam por lá.

Agora o sol já cobria o cais, já os sobrados altos se mostravam para eles. E o navio ia sair com pouco mais, com as máquinas dando sinal. Eles viram então seu Lucas em pé no cais. O vapor já não estava atracado. Seu Lucas dava com as mãos para eles. O negro velho em pé, com o sol na cabeça branca, dando com os braços para eles. Ricardo olhava para o amigo.Sempre ele tinha o que lhe perguntar nas grades de seu jardim. O negro velho gostava dele. E o vapor ia saindo devagarinho. Simão botava as mãos na cabeça para chorar. Deodato firme e Jesuíno gritando:

- Lá está pai Lucas! Pai Lucas, toma conta dos menino!

Sebastião não dizia nada. O vapor ia virando para o outro lado e eles correram para dar com as mãos para o velho amigo. O negro velho em pé como uma estaca de cercado no cais de cimento.
Os negros bons iam para Fernando. O que tinham feito eles? dizia seu Lucas voltando para casa. O que tinham feito eles, os negros que não faziam mal a ninguém? Jesuíno era uma besta de bondade, Ricardo tão bom! Os outros deviam ser também. O que tinham feito eles para ir pra Fernando? Seu Lucas não sabia. Queriam de comer, queriam de vestir, queriam viver. E seu Lucas chegou no jardim com esta dor no coração. Vira os seus negros no vapor mandados para Fernando. Murchassem as roseiras, cortassem as formigas as folhinhas das plantas, secassem os canteiros. Os seus negrinhos iam pra Fernando. Que tinham feito eles para ir pra Fernando? Seu Lucas cuidava das plantas. Os trens passavam roncando pelas grades de seu jardim. Passavam vendedores cantando as suas vendagens. O homem da vassoura parou para falar:

- Soube, seu Lucas, o navio saiu hoje cheio de gente. Da minha rua foi um. Ninguém fez nada não. Foi por causa da greve.

Seu Lucas não disse nada e o homem se foi. O feiticeiro sentiu uma cousa de fora entrando dentro dele. Era bem diferente da entrada de Deus em seu corpo. Era uma coisa que nunca tinha sentido em sua vida. Tinha sofrido muito neste mundo de Deus. Prisões, cadeia, mas tudo ele agüentava com fé, agüentava sabendo que era bom para ele sofrer. Agora não. Uma coisa de fora mexia com o negro velho. O sol queimava as folhas de suas plantas, as roseiras abriam-se para o sol. Seu Lucas não via o jardim, a sua cássia-régia gloriosa, as dálias cheias de vida. Não olhava, não via. Os seus negrinhos iam para Fernando. Num mar navegando, num mar carregados para o cativeiro. Ficou pensando. Uma coisa esquisita entrava pelo seu corpo. Que fizeram os negros? Que fizeram Ricardo e Jesuíno? Mataram? Roubaram? O governo mandara os infelizes pra Fernando.

Seu Lucas ficou assim até de noite. Era noite de culto, noite de rezar para o seu Deus.
Os cantos das negras, os passos das negras, no Fundão, tiniam no terreiro com os instrumentos roncando. Naquela noite o negro velho vestia as suas vestes sagradas sem saber o que ia fazer. Todos já estavam prontos para os ofícios, para as rezas familiares. Seu Lucas de lado tirava as rezas. Era o cantar mais triste que um homem podia tirar de sua garganta. Os negros respondiam no mesmo tom. E foi crescendo a mágoa e foi subindo a queixa para o céu estrelado do Fundão. O sapatear dos negros estremecia o chão, os instrumentos acompanhavam as queixas, os lamentos. E com pouco seu Lucas começou a dizer o que não queria, o que sentia. As palavras do ritual não eram aquelas que lhe queriam sair da boca. Deus estava no céu. Ogum no céu com S. Sebastião. Ele queria cantar outra coisa que não aquilo que ele cantava todas as noites. E os negros na dança iam ouvindo o que pai Lucas dizia. O mestre falava dos negros que iam pra Fernando.

- Que fizeram eles? Que fizeram eles?

- Ninguém sabe não.

Que fizeram os negros que iam pra Fernando? A voz de Lucas vibrava. Todo o seu corpo se estremecia.
- Que fizeram eles que vão pra Fernando?
E os negros respondiam misturando a língua da reza deles com as perguntas do sacerdote, de braços estendidos para o céu.

- Que fizeram eles? Ninguém sabe não!

E o canto subia, subia com uma força desesperada. As negras sacudiam os braços para os lados como se sacudissem para fora do corpo. Os peitos, as carnes se movimentando numa impetuosidade alucinante. A terra do Fundão estremecia. Pés de doidos, de furiosos furavam a terra. E seu Lucas com a boca para cima misturando as mágoas com as suas rezas:

- Que fizeram ele que vão pra Fernando? Ninguém sabe não!
O sacerdote quebrando o ritual para deixar escapar a sua dor. Seu Lucas era mais um Deus naquela hora. Como um homem qualquer ele falava pelos pobres que no mar se perdiam. O canto dele varava a noite, varava o mundo:

- Que fizeram eles que vão pra Fernando? Ninguém sabe não!”
José Lins do Rego

Sonetos

Dos amores - de paz e desespero -
Eu tenho que me inspiram noite e dia:
Meu anjo bom é um homem puro e vero;
O mau, uma mulher de tez sombria.

Para levar a tentação a cabo,
O feminino atrai meu anjo e vive
A querer tranformá-lo em diabo,
Tentando-lhe a pureza com a lascívia.

Se há de meu anjo corromper-se em demo
Suspeito apenas, sem dizer que seja;
Mas sendo ambos tão meus, e amigos, temo

Que o anjo no fogo já do outro esteja.
Nunca sabê-lo, embora desconfie,
Até que o meu anjo contagie.
William Shakespeare

Manual dos Inquisidores

(...)
“Dei por as coisas acontecerem quando o Joãozinho começou a chorar. Eu estava no jardim preocupada com a febre das roseiras, a construir uma tenda que as protegesse do vento e do início não julguei que fosse a criança a chamar-me mas uma pomba viúva num cedro ou um ganso perdido no novelo dos buxos até que me puxaram a saia, eu sem me voltar
- Quieto Adamastor
o vento tombou de súbito, as pás do moinho calaram-se, os gerânios e as estrelícias deixaram de murmurar nos canteiros, escutava-se a bica da água na piscina e um risinho de corvo sobre as faias, o lobo da Alsácia, a gemer, arrepanhava-me a saia, eu enxotando o animal com o pé
- Quieto Adamastor
e uma vozinha sufocada de lágrimas lá em baixo, pendurando-se-me na roupa
- Não é o Adamastor Titina sou eu
de modo que lhe peguei ao colo, procurei um joelho esfolado que era o que sucedia a cada passo, tropeçar nos cubos dos guarda-sóis, bater numa estátua, magoar-se na pedra dos canteiros, separei-lhe a franja com medo de ver sangue
- O menino caiu?
e nem feridas, nem sangue, nem arranhões, nem um nódoa de lama sequer, só um dedo apontado, o nariz no meu pescoço, um estremeção de lágrimas
- A mãe o pai a mãe o pai
e portanto dei por as coisas acontecerem quando o Joãozinho começou a chorar. Hoje pergunto-me se não devia ter feito alguma coisa na época em que principiaram as questões entre o senhor doutor e a senhora dado que quer um quer outro me escutavam, a senhora por exemplo era rara a manhã em que não me pedia opinião sobre isto ou sobre aquilo, as criadas, as despesas, a casa
- O que achas Titina?
e o próprio senhor doutor, tão diferente do homem em que se tornou depois, me convocava ao escritório e me mandava sentar como se fosse igual a ele para falar do estábulo ou da horta ou das alterações no pomar
- Dá aqui uma ajuda Titina
o Joãozinho sem feridas, sem sangue, sem arranhões, sem uma nódoa de lama, só um dedo apontado, o nariz no meu pescoço, um estremeção de lágrimas
- A mãe o pai a mãe o pai
e caminhei para casa esquecida da febre das roseiras, com a minha sombra e a sombra da criança confundidas como se o menino fosse meu, como ainda hoje, que ele cresceu, teve filhos, o senhor doutor me expulsou da quinta, os do tribunal expulsaram o menino e deixei de o ver, continuo a pensar que era meu, que é meu, foi comigo que ele começou a andar e a falar, era comigo que adormecia, era por mim que a meio da noite chamava, apavorado com o escuro
- Estão ali os lobos Titina
eu a embalá-lo, a acariciar-lhe as mãos, a afagar- lhe a cara até os lobos se irem embora e os gatunos se sumirem, até julgar que ele dormia, lhe soltar devagarinho os dedos, me levantar, me aproximar da porta e a voz do Joãozinho
- Titina
o menino que me pertencia por preferir estar comigo a estar com o senhor doutor e a senhora, me acompanhava, pegado a mim, à cozinha, à sala de costura, ao correio, à confeitaria e ao mercado a Palmela, me fazia desenhos no livro das contas, me fazia barcos de papel com as facturas, a quem dava banho e levava ao médico, para quem descascava a fruta, a cortava aos bocadinhos e esmagava as aspirinas numa colher de açúcar, que limpava, que vestia, o Joãozinho que não pertencia aos pais, me pertencia, o filho que apesar de não ter tido era meu, agarrado a mim com toda a força que podia
- O que aconteceu Joãozinho?
a porta do quarto aberta e o senhor doutor e a senhora a discutirem, a senhora a tirar roupa das gavetas e a amontoá- la na cama, a tirar as escovas da cómoda, a arrancar vestidos dos cabides, a pisar blusas, a pisar êcharpes, a pisar aquelas calças lindas de cetim que usava quando tinha visitas e arrastava agora atrás de si presas a um salto, não uma senhora mas duas ou três senhoras reflectidas em ângulos diferentes nos espelhos, e o senhor doutor também dois ou três senhores doutores gesticulando uns com os outros como ese estivessem zangados consigo mesmos, não com a senhora, a impedirem-lhe a passagem e a senhora, que não a conhecia assim, ameaçando-os com os secador do cabelo
- Larga-me
a lutar com aqueles senhores doutores todos
- Larguem-me
o senhor doutor a agarrar no secador e a desfazê-lo no tampo da cómoda
- Quem é o tipo quero saber quem é o tipo Isabel
uma caixa de pó-de-arroz esmagada, frascos de perfume no chão, o abajur da mesinha de cabeceira em pedaçose e a senhora a procurar uma sandália, às punhadas ao senhor doutor
- Larga-me
os espelhos quebrados multiplicavam os dois ou três senhores doutores por dez ou vinte ou trinta que repetiam
- Quem é o tipo quero saber quem é o tipo Isabel
o senhor doutor a abaná-la até que um dos reflexos nos viu a mim e ao Joãozinho ao meu colo que não era filho deles, era meu, o único filho que tive, o reflexo a olhar para nós
- Desaparece Titina
a senhora a olhar-nos também como se o filho não fosse filho dela e não era filho dela, era meu, apertado contra mim de nariz no meu pescoço, a senhora ou uma fracção da senhora numa fracção de vidro, só as mãos, as pernas, a testa, um bocadinho de queixo, a olhar-nos um instante puxando um baú de encontro à cama e a enchê-lo de blusas, vestidos, sapatos, xailes, de permanente desalinhada, sem pintura nem bâton nem verniz nas unhas ao contrário de quando me explicava, a telefonar à companhia de táxis e a verificar a costura das meias
- Se perguntarem por mim fui às compras a Palmela
enquanto o marido estava no ministério em Lisboa, a senhora pela vereda de ciprestes abaixo e no fim da vereda, a seguir ao portão, um automóvel à espera nos olmos do largo, regressava a cantarolar, sem compras nenhumas, queria falar-lhe do jantar e ela, à cata dos sais, abrindo a água da banheira em passinhos de dança, a desabotoar o casaco e a girá-lo por cima da cabeça no vértice do dedo
- Faz o que quiseres Titina é-me indiferente falar-lhe do senhor doutor ou das criadas ou do governo da casa e ela a tirar a válvula com o pé e a jogar-me um piparote de espuma
- Agora não Titina tem paciência passa-me a toalha
azulejos embaciados de vapor, prateleiras embaciadas de vapor, a janela tão embaciada de vapor que não se distinguiam o pomar nem as gralhas, apenas manchas verdes para lá dos caixilhos e uma marca no peito que a disfarçava com creme a rir-se
- Um cachorrinho mordeu-me Titina um cachorrinho amoroso felpudo
a princípio as compras em Palmela eram uma ou duas vezes por semana e depois três e depois quatro e depois cinco, ao sábado e ao domingo o telefone tocava e se eu atendia desligavam, se o senhor doutor atendia desligavam, se a senhora atendia ficava que tempos aos cochichos, o senhor doutor perguntava quem era e a senhora, desembaraçadíssima, respondia que era uma condiscípula do colégio com quem eu não conversava há dez anos, imagina como o tempo voa, um dia destes vou visitá-la a Coimbra, podíamos passar umas feriazinhas em Coimbra não podíamos Francisco?, a ganhar confiança, fartinha de saber que o senhor doutor não largava o ministério, de maneira que era raro o fim-de-semana em que uma rapariga que eu não vejo há séculos não se lembrasse, morta de saudades, de telefonar para Palmela, a senhora às gargalhadinhas, aos meneios, aos segredos, a suspirar para o bocal, de olhos fechados
- Eu também
a voltar para a mesa como se flutuasse, a enrolar uma bolinha de pão esquecida de comer, os corvos a troçarem na horta, os gerânios a troçarem nos canteiros, o senhor doutor que gostava que as amigas da senhora gostassem dela, sem desconfiar de nada
- O peixe fica sem graça Isabel
em Agosto a senhora, radiante, tão radiante que até me deu um beijo e com tanta bagagem como se partisse por cem anos, foi um mês de férias a Coimbra sem deixar endereço
- Sei lá onde a Luísa mora eu depois telefono
a senhora a fazer uma festa ao menino
- Só me lembro do apelido de solteira que não serve de nada que interrogatório é esse Francisco?
a senhora que trocava o nome das amigas, lhes trocava as famílias, lhes trocava as histórias, se enganava nas anedotas do colégio, não telefonou, só escreveu uma vez de Espanha a contar que como estava em Coimbra aproveitou para dar um saltinho com a amiga a Madrid, o senhor doutor a sentir a falta dela que se lhe notava na cara, sozinho à mesa, sozinho na sala a estudar os livros dele ou a folhear o jornal, de mãos nos bolsos no corredor a fumar cigarrilhas para a frente e para trás como uma alma penada, a senhora chegou com um ar aborrecido, largou as malas na entrada, afundou-se logo no sofá, franzida de enjoo, sem cumprimentar ninguém
- Estou estafada
os corvos perdidinhos de riso, as rãs perdidinhas de riso, o senhor doutor a sentar-se-lhe ao lado dela e aela a distanciar-se como se a picassem
- Tem paciência Francisco estou estafada
olhando os quadros, os móveis, o piano como se detestasse tudo aquilo, como se tudo aquilo a irritasse, a pegar numa revista de moda, a largar a revista, a pegar num cigarro e a esquecer-se de acendê-lo, a apagar com um sopro o isqueiro que o senhor doutor lhe estendia
- Não me deixas em paz nem um momento Francisco?
atirando com a porta do quarto das visitas, a rodar a chave, a aparecer no dia seguinte, às onze, já estava o marido no ministério, a senhora em roupão, besuntada de pasta para as rugas, meneando a cabeça desgostosa no terraço onde o jardineiro aparava a vinha-virgem e os buxos
- Que feio que isto é meu Deus
eu que podia ajudá-la se tivesse inteligência, estudos, educação, se não tivesse ido servir aos doze anos para Paços de Ferreira, a senhora sem ligar ao menino, sem tocar no chá, a bater com a colher na compoteira, na manteigueira, no bule, a provar uma torrada e a abandoná-la no prato, resmungando em francês, as gralhas mudas a espreitarem-na do parapeito fingindo qeu catavam as penas, eu com vontade de as correr à vassourada que corrê-las à vassourada, graças a Deus ainda sei fazer e tenho corpo para isso, e de súbito o telefone a chamar e a senhora num pulo, soltando a colher, transfigurada
- Eu atendo Titina
o tractor mais perto, o moinho a girar com tanta velocidade que não se distinguiam as pás, só uma cintilação de metal enloquecida pelo vento, a senhora em lugar de suspiros para as condiscípulas do colégio
- Eu também
de sobrancelhas franzidas, estendendo um funil com a boca para que eu não escutasse
- Não aguento mais amor juro que não aguento mais tem de ser amanhã e a vida pareceu-lhe de novo alegre, bebeu o chá frio, comeu as torradas geladas, vestiu-se, arranjou-se, pintou-se, passou horas a envernizar as unhas, mandou vir um táxi e foi às compras a Palmela, eu nervosíssima a ralhar com as criadas, a pôr defeitos em tudo, a descompor a cozinheira, a descompor a modista, a discutir com o jardineiro por causa de um narciso murcho, o relógio a devorar horas num granizo de badaladas infinitas, o Joãozinho a choramingar de fome ou de sono atrás de mim
- Agora não menino
as faias escureceram, a vereda de ciprestes escureceu, os corvos sumiram-se nos eucaliptos do pântano, as luzes de Setúbal, as luzes da serra, uma espécie de halo do mar que se não via, um automóvel no pátio, um som de passos nos degraus, o senhor doutor intrigado, a pousar a pasta na mesa da entrada, a abrir a porta do quarto das visitas, a porta do quarto, a porta da sala, a pegar no menino ao colo que não era dele, era meu, era por mim que ele chamava se caía ou tinha medo do escuro, o senhor doutor alargando o nó da gravata
- A senhora Titina?
o senhor doutor na capela, na estufa, no roseiral, na horta, a dar a volta à casa e eu escutando-lhe as solas no cimento, no tijolo, no cascalho, na terra, o senhor doutor esgaseado e eu sem poder ajudá-lo porque não tinha inteligência, não tinha estudos, fui servir para Paços de Ferreira aos doze anos
- A senhora Titina?
a pegar no telefone, a hesitar, a prendê-lo no gancho, eu com vergonha mas não sei de queê, só sei que não me apetecia assistir àquilo, e nisto uma claridade de faróis pelos ciprestes acima, as árvores iluminadas uma a uma, um barulho de motor a crescer, os tacões da senhora nos degraus, o senhor doutor qeu dava pena vê-lo
- O que aconteceu Isabel?
que dava tanta pena vê-lo que se eu fosse a senhora não me ia embora por dó, a senhora sem reparar nele nem o ouvir
- O jantar está pronto Titina?
a sentar-se à mesa, a tirar o guardanapo da argola, a servir-se da água como se nada fosse, a sala de jantar pareceu-me de repente tristíssima, uma sala de jantar de pobres apesar do luxo dos móveis, o senhor doutor a levantar o jarro que tremia
- O que aconteceu Isabel?
a senhora a fitá-lo e a desinteressar-se dele
- A sopa Titina o Joãozinho a choramingar a pedir colo, a pedir rebuçados, a pedir chichi sem que ninguém lhe ligasse, sem que nem eu lhe ligasse
- Titina
as criadas saltitando de curiosidade na cozinha, empurrando-se umas às outras na excitação das desgraças
- Ele vai bater-lhe não vai dona Titina ele vai bater-lhe quanto queres apostar que vai bater-lhe
as criadas tão contentes como as graalhas acotovelando-se de êxtase
- Ele vai bater-lhe não via dona Titina ele vai bater-lhe quanto queres apostar que vai bater-lhe
principiou a chover porque se escutavam as janelas, o telhado, as laranjeiras e os anjos de pedra a chamarem por mim com voz de gente
- Titina
havia adeuses de asas e de ramos nos caixilhos, a senhora trancou-se sem uma palavra no quarto dos hóspedes com o primeiro relâmpago, tão próximo de nós que apagou as lâmpadas da casa e os compartimentos se transformaram num labirinto de trevas cheio de volumes de armários e de espelhos ocos, vazios nas molduras de talha de onde todos os rostos se retiraram, um segundo relâmpago, um terceiro, os uivos dos cães, os ganidos de dor dos castanheiros, e no espaço instantâneo de uma descarga de trevas o senhor doutor na porta do quarto de hóspedes como um crucificado de igreja
- Isabel
o menino a choramingar no escuro a pedir colo, rebuçados, chichi, e Deus me perdõe mas quem me apetecia nesse momento pegar ao colo não era o Joãozinho, era o pai, pegar-lhe ao colo, afastar-me do quarto de hóspedes com ele apertado no peito, de nariz no meu pescoço, despi-lo, deitá-lo na cama, tapá-lo com a coberta, e ficar de mão dada, a balouçar devagarinho o corpo até o senhor doutor adormecer.”
Lobo Antunes

Sonetos

Que eu não veja empecilho na sincera
União de duas almas. Não amor
É o que encontrando alterações se altera
Ou diminui se o atinge o desamor.

Oh, não! amor é ponto assaz constante
Que ileso os bravos temporais defronta.
É a estrela guia do baixel errante,
De brilho certo, mas valor sem conta.

O Amor não é jogral do Tempo, embora
Em seu declínio os lábios nos entorte.
O Amor não muda com o dia e a hora,

Mas persevera ao limiar da Morte.
E, se prova que num erro estou,
Nunca fiz versos nem jamais se amou.
William Shakespeare

Pavarotti/Ghiaurov, “Verdi Réquiem” (1967)

Ensaio sobre a Cegueira

"Temos que ver se há por aqui alguma pá ou alguma enxada, seja o que for que possa servir para cavar, disse o médico. Era manhã, tinham trazido com grande esforço o cadáver para a cerca interior, puseram-no no chão, entre o lixo e as folhas mortas das árvores. Agora era preciso enterrá-lo. Só a mulher do médico sabia o estado em que se encontrava o morto, a cara e o crânio rebentados pela descarga, três buracos de balas no pescoço e na região do esterno. Também sabia que em todo o edifício não havia nada com que se pudesse abrir uma cova. Percorrera toda a área que lhes tinha sido destinada e não encontrara mais que uma vara de ferro. Ajudaria, mas não era suficiente. E vira, por trás das janelas fechadas do corredor que seguia ao longo da ala reservada aos suspeitos de contágio, mais baixas deste lado da cerca, rostos atemorizados, de pessoas à espera da sua hora, do momento inevitável em que teriam de dizer às outras Ceguei, ou quando, se tivessem tentado ocultar-lhes o sucedido, as denunciasse um gesto errado, um mover de cabeça à procura duma sombra, um tropeção injustificado em quem tem olhos. Tudo isto também o sabia o médico, a frase que lançara fazia parte do disfarce combinado por ambos, a partir de agora a mulher já poderia dizer, E se pedíssemos aos soldados que nos atirassem cá para dentro uma pá, A ideia é boa, experimentemos, e todos estiveram de acordo, que sim, que era uma boa ideia, só a rapariga dos óculos escuros não pronunciou palavra sobre esta questão de enxada ou pá, todo o seu falar, por enquanto, eram lágrimas e lamentos, A culpa foi minha, chorava ela, e era verdade, não se podia negar, mas também é certo, se isso lhe serve de consolação, que se antes de cada acto nosso nos puséssemos a prever todas as consequências dele, a pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar. Os bons e os maus resultados dos nossos ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma forma bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprová-lo, para congratular-nos ou pedir perdão, aliás, há quem diga que isso é que é a imortalidade de que tanto se fala, Será, mas este homem está morto e é preciso enterrá-lo. Foram portanto o médico e a mulher a parlamentar, a rapariga dos óculos escuros, inconsolada, disse que ia com eles. Por dor da consciência. Mal apareceram à vista, na entrada da porta, um soldado gritou-lhes, Alto, e como se temesse que a intimação verbal, ainda que enérgica, não fosse acatada, disparou um tiro para o ar. Assustados, recuaram para a protecção da sombra do átrio, por trás das madeiras grossas da porta aberta. Depois a mulher do médico avançou sozinha, donde estava podia ver os movimentos do soldado e resguardar-se a tempo, se fosse necessário, Não temos com que enterrar o morto, disse, precisamos de uma pá. Ao portão, mas do lado oposto onde o cego tinha caído, apareceu outro militar. Sargento era, mas não o de antes, Que querem, gritou, Precisamos de uma pá, ou uma enxada, Não há cá disso, ponham-se andar, Temos de enterrar o corpo, Não enterrem, deixem-no aí a apodrecer, Se o deixarmos fica a contaminar a atmosfera, Pois que contamine e vos faça bom proveito, A atmosfera não está parada, tanto está aqui como vai para aí. A pertinência do argumento obrigou o militar a reflectir. Tinha vindo Substituir o outro sargento, que cegara e fora imediatamente levado para onde estavam a ser concentrados os enfermos pertencentes às forças armadas de terra. Escusado será dizer que a aviação e a marinha dispunham também, cada uma, das suas próprias instalações, mas estas de menor tamanho e importância, por serem mais reduzidos os efectivos destas armas. A mulher tem razão, reconsiderou o sargento, num caso como este não há dúvida de que todos os cuidados são poucos. Como prevenção, dois soldados, munidos de máscaras antigases, já haviam despejado sobre o sangue dois garrafões inteiros de amónia, cujos últimos vapores ainda faziam lacrimejar o pessoal e lhes picavam as mucosas da garganta e do nariz. O sargento declarou, enfim, Vou ver o que se pode arranjar, E a comida, aproveitou a mulher do médico a ocasião para recordar-lhe, A comida ainda não chegou, Só do nosso lado já há mais de cinquenta pessoas, temos fome, o que estão a mandar não chega para nada, Isso da comida não é com o exército, Alguém tem de resolver a situação, o governo comprometeu-se a alimentar-nos, Voltem lá para dentro, não quero ver ninguém nessa porta, A enxada, ainda gritou a mulher do médico, mas o sargento tinha- se ido embora. A manhã estava em meio quando se ouviu a voz do altifalante na camarata, Atenção, atenção, os internados alegraram- se, pensaram que era o anúncio da comida, mas não, tratava-se da enxada, Alguém que a venha buscar, mas nada de grupos, só sai uma pessoa, Vou eu, que já falei com eles antes, disse a mulher do médico. Logo que saiu ao patamar exterior viu a enxada. Pela posição e pela distância a que se encontrava, mais perto do portão do que da escada, devia ter sido atirada de fora, Não me posso esquecer de que estou cega, pensou a mulher do médico, Onde está, perguntou, Desce a escada, que já te irei guiando, respondeu o sargento, muito bem, agora anda na direcção em que estás, assim, assim, alto, vira-te um pouco para a direita, não, para a esquerda, menos, menos do que isso, agora em frente, se não te desviares vais dar com o nariz mesmo em cima dela, quente, a escaldar, merda, eu disse que não te desviasses, frio, frio, está a aquecer outra vez, quente, cada vez mais quente, pronto, agora dá meia volta que eu torno a guiar-te, não quero que fiques para aí como uma burra à nora, às voltas, e me venhas parar ao portão, Não estejas tão preocupado, pensou ela, irei daqui à porta em linha recta, no fim de contas tanto faz, ainda que ficasses a desconfiar de que não estou cega, a mim que me importa, não virás cá dentro buscar-me. Pôs a enxada ao ombro, como um cavador que vai ao seu trabalho, e caminhou na direcção da porta sem se desviar um passo, Nosso sargento, já viu aquilo, exclamou um dos soldados, até parece ela que tem olhos, Os cegos aprendem depressa a orientar-se, explicou, convicto, o sargento.

Foi trabalhoso abrir a cova. A terra estava dura, calcada, havia raízes a um palmo do chão. Cavaram à vez o motorista, os dois polícias e o primeiro cego. Perante a morte, o que se espera da natureza é que percam os rancores a força e o veneno, é certo que se diz que o ódio velho não cansa, e disso não faltam provas na literatura e na vida, mas isto aqui, no fundo, a bem dizer, não era ódio, e de velho nada, pois que vale o roubo de um automóvel ao lado do morto que o tinha roubado, e menos ainda no mísero estado em que se encontra, que não são precisos olhos para saber que esta cara não tem nariz nem boca. Não puderam cavar mais fundo que três palmos. Fosse o morto gordo e ter-lhe-ia ficado de fora a barriga, mas o ladrão era magro, um autêntico pau-de-virar-tripas, pior depois do jejum destes dias, a cova bastaria para dois como ele. Não houve orações. Podia-se pôr-lhe uma cruz, lembrou ainda a rapariga dos óculos escuros, foi o remorso que a fez falar, mas ninguém ali tinha notícia do que o falecido pensara em vida dessas histórias de Deus e da religião, o melhor era calar, se é que outro procedimento tem justificação perante a morte, além disso, leve-se em consideração que fazer uma cruz é muito menos fácil do que parece, sem falar do tempo que ela se iria aguentar, como todos estes cegos que não vêem onde põem os pés. Voltaram à camarata. Nos sítios mais frequentados, desde que não seja em campo aberto, como a cerca, a gente já não se perde, com um braço esticado à frente e uns dedos a mover-se como antenas de insectos chega-se a toda a parte, é mesmo provável que nos cegos mais dotados não tarde a desenvolver-se aquilo a que chamamos visão frontal. A mulher do médico, por exemplo, é extraordinário como ela consegue movimentar-se e orientar-se por este verdadeiro quebra-cabeças de salas, desvãos e corredores, como sabe virar uma esquina no ponto exacto, como pára diante de uma porta e a abre sem hesitação, como não precisa ir contando as camas até chegar à sua. Agora está sentada na cama do marido, conversa com ele, baixinho como de costume, vê-se que são pessoas de educação, e têm sempre alguma coisa para dizer um ao outro, não são o mesmo que o outro casal, o primeiro cego e a mulher, depois daquelas comovedoras efusões do reencontro quase não têm falado, é que, neles, provavelmente, tem podido mais a tristeza de agora do que o amor de antes, com o tempo hão-de habituar- se. Quem não se cansa a repetir que tem fome é o rapazito estrábico, apesar de a rapariga dos óculos escuros, praticamente, ter tirado a comida à sua boca para a dar a ele. Há muitas horas que o mocinho não pergunta pela mãe, mas decerto voltará a sentir-lhe a falta depois de ter comido, quando o corpo se encontrar liberto das brutidões egoístas que resultam da simples, porém imperiosa, necessidade de manter-se. Fosse por causa do que acontecera de madrugada, fosse por motivos alheios à nossa vontade, a verdade é que não tinham chegado a ser trazidas as caixas com a refeição da manhã. Agora está-se a aproximar a hora do almoço, é quase uma hora no relógio que a mulher do médico disfarçadamente acaba de consultar, não deverá portanto estranhar-se que a impaciência dos sucos gástricos tenha decidido uns quantos cegos, tanto desta ala como da outra, a irem esperar no átrio a chegada da comida, e isto por duas excelentes razões, a pública, de uns, porque desta maneira se ganharia tempo, a reservada, de outros, porque é sabido que quem chega primeiro melhor se serve. Ao todo, não serão menos de dez os cegos atentos ao ruído que o portão exterior fará ao ser aberto, aos passos dos soldados que hão-de trazer as abençoadas caixas. Por sua vez, temerosos de uma súbita cegueira que pudesse resultar da proximidade imediata dos cegos que esperavam no átrio, os contagiados da ala esquerda não se atreveram a sair, mas alguns deles estão a espreitar pela frincha da porta, ansiosos por que chegue a sua vez. O tempo foi passando. Cnasados de esperar, alguns cegos tinham-se sentado no chão, mais tarde dois ou três regressaram às camaratas. Foi pouco depois que se ouviu o ranger inconfundível do portão. Excitados, os cegos, atropelando-se uns aos outros, começaram a mover-se para onde, pelos sons de fora, calculavam que estava a porta, mas, de súbito, tomados por uma vaga inquietação que não iriam ter tempo de definir e explicar, pararam e logo confusamente retrocederam, enquanto começavam já a perceber-se distintamente os passos dos soldados que traziam a comida e da escolta armada que os acompanhava.”
José Saramago

Sonetos

Não lamentes por mim quando eu morrer
Senão enquanto o surdo sino diz
Ao mundo vil que o deixo e vou viver
Em meio aos vermes que inda são mais vis.

Nem te recorde o verso comovido
A mão que o escreveu, pois te amo tanto
Que antes achar em tua mente olvido
Quer ser lembrado e te causar o pranto.

Ah! peço-te que ao leres esta queixa
Quando for minha carne consumida,
Não te refiras ao meu nome e deixa

Que morra o teu amor com minha vida.
Não veja o mundo e zombe desta dor
Por minha causa, quando morto eu for.
William Shakespeare

Charlie Chaplin, “Table Ballet”

Eu luminoso não sou

“Eu luminoso não sou. Nem sei que haja
Um poço mais remoto, e habitado
De cegas criaturas, de histórias e assombros.
Se, no fundo poço, que é o mundo
Secreto e intratável das águas interiores,
Uma roda de céu ondulando se alarga,
Digamos que é o mar: como o rápido canto
Ou apenas o eco, desenha no vazio irrespirável
O movimento de asas. O musgo é um silêncio,
E as cobras-d'água dobram rugas no céu,
Enquanto, devagar, as aves se recolhem.”
José Saramago