Remorso Póstumo

Dedico este poema a mim mesmo

Quando fores dormir, ó bela tenebrosa,
Em teu negro e marmóreo mausoléu, e não
Tiveres por alcova e refúgio senão
Uma cova deserta e uma tumba chuvosa;
Quando a pedra, a oprimir tua carne medrosa
E teus flancos sensuais de lânguida exaustão,
Impedir de querer e arfar teu coração,
E teus pés de correr por trilha aventurosa,
O túmulo, no qual em sonho me abandono
– Porque o túmulo há sempre de entender o poeta –,
Nessas noites sem fim em que nos foge o sono,
Dir-te-á: "De que valeu cortesã indiscreta,
Ao pé dos mortos ignorar o seu lamento?"
– E o verme te roerá como um remorso lento.
Charles Baudelaire

Fogo Morto, Segunda Parte

Seu Lula de Holanda

“O caso de Neném com o promotor crescia para ele cada dia. Uma desconfiança constante não o deixava descansado. Na tarde em que viu o rapaz passar pela sua porta, num cavalo muito bonito, com destino ao Santa Rosa, imaginou que lhe preparasse uma traição em casa. Neném e Amélia estariam combinadas para qualquer movimento contra ele. Viu-o sumir-se na estrada e foi ver se a filha estaria na janela do alpendre do jardim. Lá estava Neném, debruçada, com os cabelos louros soltos. Seu Lula, quando a viu, não teve força para andar para a frente, mas gritou-lhe:

- Hein, menina sem-vergonha? Eu bem sabia que tu estavas aí esperando aquele cachorro, hein?
Neném, estupefata, não teve coragem para uma palavra. Mas D. Amélia chegou-se para saber o que se passava.

- Tu chegaste aqui, hein? Tudo está combinado.

- Combinado o que, Lula?

- Hein, pensam que me enganam? Vai lá para dentro, Neném.

D. Amélia ficou só com ele. Fez-se um silêncio pesado entre os dois. Foi o marido quem começou :

- Eu sei de tudo, hein, Amélia? Vocês duas pensam que me enganam, não é, Amélia? Hein, Amélia?

D. Amélia, mansa, com a voz trêmula:

- Mas Lula, você não está vendo que não há coisa nenhuma? Que tudo isto é sonho seu?

- Sonho, hein, Amélia ? Ninguém me engana. E com a voz dura: Mato esta menina e ela não se casa com este cafajeste. Ouviste, Amélia ?

E saiu para o alpendre onde a tarde amaciava tudo. Era tarde de junho, de verde pelos matos, de campo coberto de flores. Pela estrada passava uma tropa de aguardenteiros. Um homem parou para falar com o Coronel Lula. Era um sujeito de Goiana, velho conhecido do capitão Tomaz.

- Coronel, tem açúcar sumeno?

Seu Lula fez um esforço tremendo para falar :

- Não tem não, seu Félix. Vendi tudo para o sertão.

Mas o homem queria falar mais.

- Coronel, não tem aqui uma terrinha que me ceda para um mano meu? É homem trabalhador, Coronel, mas anda muito perseguido lá em Goiana. Tudo por questão de uma filha a quem fizeram mal a ela. E o mano teve que fazer um serviço no freguês. Família é o diabo, meu Coronel.
Seu Lula despertou com aquela história e quis saber de tudo, por que o homem matara o sujeito.
- Coronel, o tal era casado. E desencabeçou a menina. Ora, um homem de sentimento não podia fazer outra coisa. Comeu o bicho na faca. Foi pra rua, mas estão perseguindo ele por causa dum senhor de engenho que protegia o canalha.

Seu Lula dava o sítio ao irmão do velho Félix. E quando ele se foi, começou a imaginar em Neném. Não deixaria que a sua filha, que ele criara com tanto mimo, se casasse com um tipo de rua, um filho de alfaiate. Não, tudo que estivesse em suas mãos ele faria para evitar. O pobre irmão de Félix tivera coragem para liquidar o miserável que desgraçara a filha inocente. Era o que faria também. Mataria, sim, mataria o atrevido. Estava só, era doente, não tinha a fortuna de José Paulino, mas saberia defender a sua filha com a vida, com a sua morte, se preciso fosse. A casa-grande estava ainda no escuro e a voz de sua cunhada começava a impotuná-lo. Era um falar rouco, com as mesmas palavras. Nunca se importava com o que ela dizia dias e noites seguidas, a falar sem que desse por isto; e no entanto, agora dera para crescer-lhe aos ouvidos como gritos. Amélia acendeu o candeeiro da sala de jantar e mosquitos rodeavam a luz em enxames. A lâmpada do quarto dos santos queimava o azeite da lamparina de prata. Seu Lula chegou-se para lá e viu a cara comprida, os braços estendidos, as mãos sangrando de Deus. Olhou bem para a cara de seu Cristo. Era uma cara que ele gostava de ver, de sentir a dor que ela exprimia. Deus fora assim na terra, torturado, surrado, morto pelos infiéis. A casa, no vazio de todos os seus. Ele só naquela casa sabia que Deus derramara seu sangue para que o mundo o amasse. Não. Não, ele não deixaria que a sua filha se perdesse, se entregasse ao camumbembe. Por que amava a sua filha um miserável daqueles? Que havia nela que a conduzisse para a degradação? Antes morta, antes no caixão que nos braços do camumbembe. Ajoelhou-se para rezar. Ali, só no quarto, com os santos pelas paredes, com a imagem descarnada de S. Francisco, com o corpo estendido no túmulo de S. Severino, ele se sentia na maior intimidade com o seu Deus, com a sua Providência. Rezou até tarde da noite. Uma dormência tomou-lhe a perna direita. Amélia chamou-o para a ceia, e só com a voz da mulher lembrou-se que estivera ali mais de duas horas.

Começara a chover forte. As portas da casa-grande estavam fechadas. Saiu para examinar os ferrolhos, as trancas. Tudo estava muito bem fechado. Neném não viera para a mesa do chá. Quis que ela viesse. Mandou que a mulher fosse chamá-la. E quando a viu de olhos vermelhos de chorar, com a cabeça baixa, imaginou o ódio que não lhe teria. Era pai, e pai era somente para agüentar as fraquezas dos filhos. Estava sereno. Deus lhe dera calma, força para vencer os tumultos de sua alma. Não falou Amélia parecia com medo de qualquer coisa. O vento batia nas portas, bulindo com os ferrolhos. Tudo estava muito bem trancado. Então, seu Lula pôde olhar para a sua filha como uma propriedade sua, que ninguém tocaria. Uma onda de ternura envolveu-o naquele instante. Teve vontade de acariciá-la, de tocar nos seus cabelos louros, de vê-los entre as suas mãos como nos tempos de menina. Por que não era mais aquela menina que ele punha nos joelhos, que ele criara como a uma santa? Por que amaria aquele tipo, por que fugia de sua casa, de seus olhos, de suas mãos? Seria castigo de Deus? Não podia ser castigo de Deus. Deus era seu amigo, era todo seu. Olhava para Neném, e via nela a imagem de Nossa Senhora, a imagem de manto azul, de cabelos compridos, aquela que não fora tocada pelos homens. Não, Neném não poderia se entregar a um camumbembe, um pobre diabo. Quando ele se levantou para ir para o quarto de dormir, lembrou-se da infância, das noites de chuva, quando ia botá-la na cama, tão mansa, tão serena, tão do céu naqueles instantes. Não, ele não permitiria que mãos de homens fossem magoar a sua filha.
[...]

Seu Lula estirou-se no marquesão. Nisto ouviu passos de cavalo rondando a casa-grande. Acertou bem o ouvido e na calçada do alpendre batiam cascos de cavalos. De repente lhe veio à cabeça a idéia de um rapto. Sem dúvida que o promotor haveria combinado o furto de Neném. Estremeceu com aquela idéia, e quando deu por si já estava com o velho clavinote. Foi ao quarto da filha e esta ainda estava vestida, de vela acesa, lendo um livro de orações. A sua cara devia ser de uma fúria desesperada, porque Neném se levantou com medo. Não lhe disse nada, mas chamou Amélia que se recolhera.

- Amélia, hein, Amélia, daqui ela não sai.

A mulher alarmada procurou falar e não pôde. Seu Lula de arma nas mãos andava de um lado para outro, como se estivesse acossado, pronto para um ataque de vida ou morte.

- Mato estes cachorros, hein, Amélia, tudo estava preparado.

Na porta da sala de visita parou para escutar numa posição de caçador que espreita. Ouviram-se muito bem as passadas de um cavalo.

O miserável pensa que estou dormindo. Mas este desgraçado vai ver quem sou, hein?
As negras tremiam. D. Amélia correra para o oratório, e Neném chorava alto, enquanto D. Olívia no quarto chamava pela escrava que a criara.

- Ó Dorotéia, ó Dorotéia, vem me catar, Dorotéia.

Ouvia bem a voz de D. Amélia, rezando alto.

- Pára Amélia, pára. O desgraçado vai ver.

Aí seu Lula levantou a voz, como se falasse com o inimigo a dois passos:

- Miserável, sai de minha porta.

A chuva intensa e as passadas do cavalo continuavam na calçada do alpendre.

Seu Lula gritou outra vez com mais força.

- Eu te mato, miserável.

Fez-se outra vez silêncio. Só a chuva roncava com ventania que batia nas portas. O cavalo continuava pisando forte na calçada. D. Amélia chegara-se para perto do marido para contê-lo. Seu Lula empurrou-a para o lado.

- Eu mato este cachorro.

E num esforço desesperado, chegou-se para a porta, e abriu o ferrolho de ferro. O cavalo batia no tijolo da calçada. Seu Lula, com a porta aberta, correu para o alpendre e se ouviu o disparo rouco do clavinote. Com o tiro houve uma correria para o terreiro da casa-grande. Pouco depois o boleeiro Macário chegou espantado. Saíram com uma lamparina e encontraram estendida no chão, banhada em sangue, uma das bestas da almanjarra que havia saída do curral e se abrigara no alpendre, com o frio da noite. Seu Lula estava lívido, em pé, como se tivesse voltado dum imenso perigo. Não via nada e com o corpo todo estendeu-se no chão, com o ataque.”
José Lins do Rego

O Mandarim

Prólogo
1º Amigo
(bebendo conhaque e soda, debaixo de árvores, num terraço, à beira-d'água).
Camarada, por estes calores do Estio que embotam a ponta da sagacidade, repousemos do áspero estudo da Realidade humana... Partamos para os campos do Sonho, vaguear por essas azuladas colinas românticas onde se ergue a torre abandonada do Sobrenatural, e musgos frescos recobrem as ruínas do Idealismo... Façamos fantasia!...

2º Amigo
Mas sobriamente, camarada, parcamente!... E como nas sábias e amáveis alegorias da Renascença, misturando-lhe sempre uma Moralidade discreta...
(Comédia imédita)


I

Eu chamo-me Teodoro - e fui amanuense do Ministério do Reino.
Nesse tempo vivia eu à Travessa da Conceição nº 106, na casa de hóspedes da D. Augusta, a esplêndida D. Augusta, viúva do major Marques. Tinha dois companheiros: o Cabrita, empregado na Administração do Bairro Central, esguio e amarelo como uma tocha de enterro; e o possante, o exuberante tenente Couceiro, grande tocador de viola francesa.

A minha existência era bem equilibrada e suave. Toda a semana, de mangas de lustrina à carteira da minha repartição, ia lançando, numa formosa letra cursiva, sobre o papel "Tojal" do Estado, estas frases fáceis: "Il.mo e Ex.mo Sr. - Tenho a honra de comunicar a V. Ex.a... Tenho a honra de passar às mãos de V. Ex.a, Il.mo e Ex.mo Sr..."

Aos domingos repousava: instalava-me então no canapé da sala de jantar, de cachimbo nos dentes, e admirava a D. Augusta, que, em dias de missa, costumava limpar com clara de ovo a caspa do tenente Couceiro. Esta hora, sobretudo no Verão, era deliciosa: pelas janelas meio cerradas penetrava o bafa da soalheira, algum repique distante dos sinos da Conceição Nova e o arrulhar das rolas na varanda; a monótona sussurração das moscas balançava-se sobre a velha cambraia, antigo véu nupcial da Madame Marques, que cobria agora no aparador os pratos de cerejas bicais; pouco a pouco o tenente, envolvido, num lençol como um ídolo no seu manto, ia adormecendo, sob a fricção mole das carinhosas mãos da D. Augusta; e ela, arrebitando o dedo mínimo branquinho e papudo, sulcava-lhe as repas lustrosas com o pentezinho dos bichos... Eu então, enternecido, dizia à deleitosa senhora:
- Ai D. Augusta, que anjo que é!

Ela ria; chamava-me enguiço! Eu sorria, sem me escandalizar. "Enguiço" era com efeito o nome que me davam na casa - por eu ser magro, entrar sempre as portas com o pé direito, tremer de ratos, ter à cabeceira da cama uma litografia de Nossa Senhora das Dores que pertencera à mamã, e corcovar. Infelizmente corcovo - do muito que verguei n espinhaço, na Universidade, recuando como uma pega assustada diante dos senhores lentes; na repartição, dobrando a fronte ao pó perante os meus directores-gerais. Esta atitude de resto convém ao bacharel; ela mantém a disciplina num Estado bem organizado; e a mim garantia-me a tranqüilidade dos domingos, o uso de alguma roupa branca, e vinte mil réis mensais.

Não posso negar, porém, que nesse tempo eu era ambicioso - como o reconheciam sagazmente a Madame Marques e o lépido Couceiro. Não que me revolvesse o peito o apetite heróico de dirigir, do alto de um trono, vastos rebanhos humanos; não que a minha louca alma jamais aspirasse a rodar pela Baixa em trem da Companhia, seguida de um correio choutando; - mas pungia-me o desejo de poder jantar no Hotel Central com champanhe, apertar a mão mimosa de viscondessas, e, pelo menos duas vezes por semana, adormecer, num êxtase mudo, sobre o seio fresco de Vénus. Oh! moços que vos dirigíeis vivamente a S. Carlos, atabafados em paletós caros onde alvejava a gravata de soirée! Oh! tipóias, apinhadas de andaluzas, batendo galhardamente para os touros - quantas vezes me fizestes suspirar! Porque a certeza de que os meus vinte mil réis por mês e o meu jeito encolhido de enguiço, me excluíam para sempre dessas alegrias sociais, vinha-me então ferir o peito - como uma frecha que se crava num tronco, e fica muito tempo vibrando!

Ainda assim, eu não me considerava sombriamente um "pária". A vida humilde tem doçuras: é grato, numa manhã de sol alegre, com o guardanapo ao pescoço, diante do bife de grelha, desdobrar o "Diário de Notícias"; pelas tardes de Verão, nos bancos gratuitos do Passeio, gozam-se suavidades de idílio; é saboroso à noite no Martinho, sorvendo aos goles um café, ouvir os verbosos injuriar a pátria... Depois, nunca fui excessivamente infeliz - porque não tenho imaginação: não me consumia, rondando e almejando em torno de paraísos fictícios, nascidos da minha própria alma desejosa como nuvens da evaporação de um lago; não suspirava, olhando as lúcidas estrelas, por um amor à Romeu ou por uma glória social à Camors. Sou um positivo. Só aspirava ao racional, ao tangível, ao que já fora alcançado por outros no meu bairro, ao que é acessível ao bacharel. E ia-me resignando, como quem a uma table d'hôte mastiga a bucha de pão seco à espera que lhe chegue o prato rico da charlotte russe. As felicidades haviam de vir: e para as apressar eu fazia tudo o que devia como português e como constitucional: - pedia-as todas as noites a Nossa Senhora das Dores, e comprava décimos da lotaria.

No entanto procurava distrair-me. E como as circunvoluções do meu cérebro me não habilitavam a compor odes, à maneira de tantos outros ao meu lado que se desforravam assim do tédio da profissão; como o meu ordenado, paga a casa e o tabaco, me não permitia um vício - tinha tomado o hábito discreto de comprar na Feira da Ladra antigos volumes desirmanados, e à noite, no meu quarto, repastava-me dessas leituras curiosas. Eram sempre obras de títulos ponderosos: "Galera da Inocência", "Espelho Milagroso", "Tristeza dos Mal-Deserdados"... O tipo venerando, o papel amarelado com picadas de traça, a grave encadernação freirática, a fitinha verde marcando a página - encantavam-me! Depois, aqueles dizeres ingénuos em letra gorda davam uma pacificação a todo o meu ser, sensação comparável à paz penetrante de uma velha cerca de mosteiro, na quebrada de um vale, por um fim suave de tarde, ouvindo o correr da água triste...

Uma noite, há anos, eu começara a ler, num desses in-fólios vetustos, um capítulo intitulado "Brecha das Almas"; e ia caindo numa sonolência grata, quando este período singular se me destacou do tom neutro e apagado da página, com o relevo de uma medalha de ouro nova brilhando sobre um tapete escuro: copio textualmente:

"No fundo da China existe um mandarim mais rico que todos os reis de que a fábula ou a história contam. Dele nada conheces, nem o nome, nem o semblante, nem a seda de que se veste. Para que tu herdes os seus cabedais infindáveis, basta que toques essa campainha, posta a teu lado, sobre um livro. Ele soltará apenas um suspiro, nesses confins da Mongólia. Será então um cadáver: e tu verás a teus pés mais ouro do que pode sonhar a ambição de um avaro. Tu, que me lês e és um homem mortal, tocarás tu a campainha?"

Estaquei, assombrado, diante da página aberta: aquela interrogação "homem mortal, tocarás tu a campainha?" parecia-me faceta, picaresca, e todavia perturbava-me prodigiosamente. Quis ler mais; mas as linhas fugiam, ondeando como cobras assustadas, e no vazio que deixavam, de uma lividez de pergaminho, lá ficava, rebrilhando em negro, a interpelação estranha - "tocarás tu a campainha?"
Se o volume fosse de uma honesta edição Michel-Levy, de capa amarela, eu, que por fim não me achava perdido numa floresta de balada alemã, e podia da minha sacada ver branquejar à luz do gás o correame da patrulha - teria simplesmente fechado o livro, e estava dissipada a alucinação nervosa. Mas aquele sombrio in-fólio parecia exalar magia; cada letra afectava a inquietadora configuração desses sinais da velha cabala, que encerram um atributo fatídico; as vírgulas tinham o retorcido petulante de rabos de diabinhos, entrevistos numa alvura de luar; no ponto de interrogação final eu via o pavoroso gancho com que o Tentador vai fisgando as almas que adormeceram sem se refugiar na inviolável cidadela da Oração!... Uma influência sobrenatural apoderando-se de mim, arrebatava-me devagar para fora da realidade, do raciocínio: e no meu espírito foram-se formando duas visões - de um lado um mandarim decrépito, morrendo sem dor, longe, num quiosque chinês, a um ti-li-tim de campainha; do outro toda uma montanha de ouro cintilando aos meus pés! Isto era tão nítido, que eu via os olhos oblíquos do velho personagem embaciarem-se, como cobertos de uma ténue camada de pó; e sentia o fino tinir de libras rolando juntas. E imóvel, arrepiado, cravava os olhos ardentes na campainha, pousada pacatamente diante de mim sobre um dicionário francês - a campainha prevista, citada no mirífico in-fólio...

Foi então que, do outro lado da mesa, uma voz insinuante e metálica me disse, no silêncio:

- Vamos, Teodoro, meu amigo, estenda a mão, toque a campainha, seja um forte!
O abat-jour verde da vela punha uma penumbra em redor. Ergui-o, a tremer. E vi, muito pacificamente sentado, um indivíduo corpulento, todo vestido de preto, de chapéu alto, com as duas mãos calçadas de luvas negras gravemente apoiadas ao cabo de um guarda-chuva. Não tinha nada de fantástico. Parecia tão contemporâneo, tão regular, tão classe média como se viesse da minha repartição...
Toda a sua originalidade estava no rosto, sem barba, de linhas fortes e duras; o nariz brusco, de um aquilino formidável, apresentava a expressão rapace e atacante de um bico de águia; o corte dos lábios, muito firme, fazia-lhe como uma boca de bronze; os olhos, ao fixar-se, assemelhavam dois clarões de tiro, partindo subitamente de entre as sarças tenebrosas das sobrancelhas unidas; era lívido - mas, aqui e além na pele, corriam-lhe raiações sanguíneas como num velho mármore fenício.

Veio-me à idéia de repente que tinha diante de mim o Diabo: mas logo todo o meu raciocínio se insurgiu resolutamente contra esta imaginação. Eu nunca acreditei no Diabo - como nunca acreditei em Deus. Jamais o disse alto, ou o escrevi nas gazetas, para não descontentar os poderes públicos, encarregados de manter o respeito por tais entidades: mas que existam estes dois personagens, velhos como a Substância, rivais bonacheirões, fazendo-se mutuamente pirraças amáveis, - um de barbas nevadas e túnica azul, na toilette do antigo Jove, habitando os altos luminosos, entre uma corte mais complicada que a de Luís XIV; e o outro enfarruscado e manhoso, ornado de cornos, vivendo nas chamas inferiores, numa imitação burguesa do pitoresco Plutão - não acredito. Não, não acredito! Céu e Inferno são concepções sociais para uso da plebe - e eu pertenço à classe média. Rezo, é verdade, a Nossa Senhora das Dores: porque, assim como pedi o favor do senhor doutor para passar no meu acto; assim como, para obter os meus vinte mil réis, implorei a benevolência do senhor deputado; igualmente para me subtrair à tísica, à angina, à navalha de ponta, à febre que vem da sarjeta, à casca da laranja escorregadia onde se quebra a perna, a outros males públicos, necessito ter uma protecção extra-humana. Ou pelo rapapé ou pelo incensador, o homem prudente deve ir fazendo assim uma série de sábias adulações, desde a Arcada até ao Paraíso. Com um compadre no bairro, e uma comadre mística nas alturas - o destino do bacharel está seguro.

Por isso, livre de torpes superstições, disse familiarmente ao indivíduo vestido de negro:

- Então, realmente, aconselha-me que toque a campainha?

Ele ergueu um pouco o chapéu, descobrindo a fronte estreita, enfeitada de
uma gaforinha crespa e negrejante como a do fabuloso Alcides, e respondeu,
palavra a palavra:

- Aqui está o seu caso, estimável Teodoro. Vinte mil réis mensais são uma vergonha social! Por outro lado, há sobre este globo coisas prodigiosas: há vinhos de Borgonha, como por exemplo o Romanée-Conti de 58 e o Chambertin, de 61, que custam, cada garrafa, de dez a onze mil réis; e quem bebe o primeiro cálice, não hesitará, para beber o segundo, em assassinar seu pai... Fabricam-se em Paris e em Londres carruagens de tão suaves molas, de tão mimosos estofos, que é preferível percorrer nelas o Campo Grande, a viajar, como os antigos deuses, pelos céus, sobre os fofos coxins das nuvens... Não farei à sua instrução a ofensa de o informar que se mobilam hoje casas, de um estilo e de um conforto, que são elas que realizam superiormente esse regalo fictício, chamado outrora a "bem-aventurança". Não lhe falarei, Teodoro, de outros gozos terrestres: como, por exemplo, o Teatro do Palais Royal, o baile Laborde, o Café Anglais... Só chamarei a sua atenção para este facto: existem seres que se chamam Mulheres - diferentes daqueles que conhece, e que se denominam Fêmeas. Estes seres, Teodoro, no meu tempo, a páginas 3 da Bíblia, apenas usavam exteriormente uma folha de vinha. Hoje, Teodoro, é toda uma sinfonia, todo um engenhoso e delicado poema de rendas, baptistes, cetins, flores, jóias, caxemiras, gazes e veludos... Compreende a satisfação inenarrável que haverá, para os cinco dedos de um cristão, em percorrer, palpar estas maravilhas macias; - mas também percebe que não é com o troco de uma placa honesta de cinco tostões que se pagam as contas destes querubins... Mas elas possuem melhor, Teodoro: são os cabelos cor do ouro ou cor da treva, tendo assim nas suas tranças a aparência emblemática das duas grandes tentações humanas - a fome do metal precioso e o conhecimento do absoluto transcendente. E ainda têm mais: são os braços cor de mármore, de uma frescura de lírio orvalhado; são os seios, sobre os quais o grande Praxíteles modelou a sua Taça, que é a linha mais pura e mais ideal da Antiguidade... Os seios, outrora (na ideia desse ingénuo Ancião que os formou, que fabricou o mundo, e de quem uma inimizade secular me veda de pronunciar o nome), eram destinados à nutrição augusta da humanidade; sossegue porém, Teodoro; hoje nenhuma mamã racional os expõe a essa função deterioradora e severa; servem só para resplandecer, aninhados em rendas, ao gás das soirées, - e para outros usos secretos. As conveniências impedem-me de prosseguir nesta exposição radiosa das belezas que constituem o fatal feminino... De resto as suas pupilas já rebrilham... Ora todas estas coisas, Teodoro, estão para além, infinitamente para além dos seus vinte mil réis por mês... Confesse, ao menos, que estas palavras têm o venerável selo da verdade!...

Eu murmurei, com as faces abrasadas:

- Têm.

E a sua voz prosseguiu, paciente e suave:

- Que me diz a cento e cinco, ou cento e seis mil contos? Bem sei, é uma bagatela... Mas enfim, constituem um começo; são uma ligeira habilitação pára conquistar a felicidade. Agora pondere estes factos: o Mandarim, esse Mandarim do fundo da China, está decrépito e está gotoso: como homem, como funcionário do Celeste Império, é mais inútil em Pequim e na humanidade, que um seixo na boca de um cão esfomeado. Mas a transformação da Substância existe: garanto-lha eu, que sei o segredo das coisas... Porque a terra é assim: recolhe aqui um homem apodrecido, e restitui-o além ao conjunto das formas como vegetal viçoso. Bem pode ser que ele, inútil como mandarim no Império do Meio, vá ser útil noutra terra como rosa perfumada ou saboroso repolho. Matar, meu filho, é quase sempre equilibrar as necessidades universais. É eliminar aqui a excrescência para ir além suprir a falta. Penetre-se destas sólidas filosofias. Uma pobre costureira de Londres anseia por ver florir, na sua trapeira, um vaso cheio de terra negra: uma flor consolaria aquela deserdada; mas na disposição dos seres, infelizmente, nesse momento, a Substância que lá devia ser rosa é aqui na Baixa homem de Estado... Vem então o fadista de navalha aberta, e fende o estadista; o enxurro leva lhe os intestinos; enterram-no, com tipóias atrás; a matéria começa a desorganizar-se, mistura-se à vasta evolução dos átomos - e o supérfluo homem de governo vai alegrar, sob a forma de amor-perfeito, a água-furtada da loura costureira. O assassino é um filantropo! Deixe-me resumir, Teodoro: a morte desse velho Mandarim idiota traz-lhe à algibeira alguns milhares de contos. Pode desde esse momento dar pontapés nos poderes públicos: medite na intensidade deste gozo! - É desde logo citado nos jornais: reveja-se nesse máximo da glória humana! E agora note: é só agarrar a campainha, e fazer ti-li-tim. Eu não sou um bárbaro: compreendo a repugnância de um gentleman em assassinar um contemporâneo: o espirrar do sangue suja vergonhosamente os punhos, e é repulsivo o agonizar de um corpo humano. Mas aqui, nenhum desses espectáculos torpes... É como quem chama um criado... E são cento e cinco ou cento e seis mil contos; não me lembro, mas tenho-o nos meus apontamentos... O Teodoro não duvida de mim. Sou um cavalheiro: - provei-o, quando, fazendo a guerra a um tirano na primeira insurreição da justiça, me vi precipitado de alturas que nem Vossa Senhoria concebe... Um trambolhão considerável, meu caro senhor! Grandes desgostos! O que me consola é que o outro está também muito abalado: porque, meu amigo, quando um Jeová tem apenas contra si um Satanás, tira-se bem de dificuldades mandando carregar mais uma legião de arcanjos; mas quando o inimigo é um homem, armado de uma pena de pato e de um caderno de papel branco - está perdido... Enfim são seis mil contos. Vamos, Teodoro, ai tem a campainha, seja um homem.

Eu sei o que deve a si mesmo um cristão. Se este personagem me tivesse levado ao cume de uma montanha na Palestina, por uma noite de lua cheia, e aí, mostrando-me cidades, raças e impérios adormecidos, sombriamente me dissesse: "Mata o mandarim, e tudo o que vês em vale e colina será teu", eu saberia replicar-lhe, seguindo um exemplo ilustre, e erguendo o dedo às profundidades consteladas: "O meu reino não é deste mundo!" Eu conheço os meus autores. Mas eram cento e tantos mil contos, oferecidos à luz de uma vela de estearina, na Travessa da Conceição, por um sujeito de chapéu alto, apoiado a um guarda-chuva...
Então não hesitei. E, de mão firme, repeniquei a campainha. Foi talvez uma ilusão; mas pareceu-me que um sino, de boca tão vasta como o mesmo céu, badalava na escuridão, através do universo, num tom temeroso que decerto foi acordar sóis que faziam nené e planetas pançudos ressonando sobre os seus eixos...
O indivíduo levou um dedo à pálpebra, e limpando a lágrima que enevoara um instante o seu olho rutilante:

- Pobre Ti Chin-Fu!...

- Morreu?

- Estava no seu jardim, sossegado, armando, para o lançar ao ar, um papagaio de papel, no passatempo honesto de um mandarim retirado, - quando o surpreendeu este ti-li-tim da campainha. Agora jaz à beira de um arroio cantante, todo vestido de seda amarela, morto, de pança ao ar, sobre a relva verde: e nos braços frios tem o seu papagaio de papel, que parece tão morto como ele. Amanhã são os funerais. Que a sabedoria de Confúcio, penetrando-o, ajude a bem emigrar a sua alma!
E o sujeito, erguendo-se, tirou respeitosamente o chapéu, saiu, com o seu guarda-chuva debaixo do braço.

Então, ao sentir bater a porta, afigurou-se-me que emergia de um pesadelo. Saltei ao corredor. Uma voz jovial falava com a Madame Marques; e a cancela da escada cerrou-se sutilmente.

- Quem é que saiu agora, ó D. Augusta? - perguntei, num suor.
- Foi o Cabritinha que vai um bocadinho à batota...
Voltei ao quarto: tudo lá repousava tranqüilo, idêntico, real. O in-fólio ainda estava aberto na página temerosa. Reli-a: agora parecia-me apenas a prosa antiquada de um moralista caturra; cada palavra se tornara como um carvão apagado...
Deitei-me: - e sonhei que estava longe, para além de Pequim, nas fronteiras da Tartária, no quiosque de um convento de lamas, ouvindo máximas prudentes e suaves que escorriam, com um aroma fino de chá, dos lábios de um Buda vivo.
Eça de Queirós

Na Ilha por vezes habitada

“Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,
manhãs e madrugadas em que não precisamos de
morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente e entra
em nós uma grande serenidade, e dizem-se as
palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas
mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a
vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o
sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do
mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos
ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.”
José Saramago

Pesadelo

"Quando o muro separa uma ponte une
Se a vingança encara o remorso pune
Você vem me agarra, alguém vem me solta
Você vai na marra, ela um dia volta
E se a força é tua ela um dia é nossa
Olha o muro, olha a ponte, olhe o dia de ontem chegando
Que medo você tem de nós, olha aí

Você corta um verso, eu escrevo outro
Você me prende vivo, eu escapo morto
De repente olha eu de novo
Perturbando a paz, exigindo troco
Vamos por aí eu e meu cachorro
Olha um verso, olha o outro
Olha o velho, olha o moço chegando
Que medo você tem de nós, olha aí

O muro caiu, olha a ponte
Da liberdade guardiã
O braço do Cristo, horizonte
Abraça o dia de amanhã, olha aí”
Maurício Tapajós / Paulo César Pinheiro

Bale de Rua, “Reedição do Vídeo PPN”

Exilados em Fernando de Noronha

(O moleque Ricardo - Trecho)
“Eles iam para Fernando de Noronha. O governo caíra em cima dos centros operários com uma fúria de ciclone. Não ficou um que não fosse arrebentado e que os seus diretores não comessem virola e cadeia. O Dr. Pestana, metido em prisão por umas horas, teve a mulher para gritar por ele, habeas-corpus que o livrasse dos constrangimentos. Os chefes operários iriam para Fernando. Lá estavam os ladrões e criminosos curtindo penas. Para lá iriam os operários. Sebastião e o povo da padaria de seu Alexandre estavam na lista para seguirem. Diziam os jornais que Sebastião era um perigoso agitador e a padaria onde ele trabalhava um foco terrível. Fernando de Noronha com eles.

Seu Lucas andava triste. Foi ao desembargador que ele curara da mulher, mas o homem lhe desenganou. Ninguém fosse falar ao governo em favor de operário. O governador queria fazer uma limpeza na cidade, porque a canalha não deixava ninguém descansar com esta história de greve todos os dias. Ele estava perdendo o tempo. E a mulher de Jesuíno e os filhos nas grades do jardim do seu Lucas, chorando.

- Vai para casa, mulher! - dizia o pai-de-terreiro. Ele volta! Um dia ele volta!

E os fihos de Deodato e os de Simão pedindo notícias a seu Alexandre:

- Foram para os infernos! Perderam-se porque quiseram! Agora que agüentem!

Mas seu Alexandre se lastimava. Os homens sabiam trabalhar de verdade. Os outros que tinham vindo substituí-los não valiam nada. Onde encontrar um boca-de-fogo como Deodato, um pãozeiro como Ricardo, um masseiro como Simão? Seu Antônio foi ao patrão e disse mesmo:

- Precisas fazer voltar esses homens senão eu me retiro.

- Voltar como, homem de Deus? Já falei com o Dr. Demócrito. O governo faz questão de castigar, de dar um termo a esta greve.

Não havia mesmo jeito. Os homens iriam mesmo para Fernando. Seu Lucas, no jardim, andava triste, debruçava-se sobre as roseiras sem entusiasmo. Os negros iriam para Fernando. Jesuíno e Ricardo na ilha com os ladrões e criminosos. O jardineiro olhava o chão pensando nos homens. O que tinham feito eles demais? Jesuíno e Ricardo não mataram ninguém, não tiraram o alheio. Iam para Fernando. Seu Lucas viu o sol nas suas plantas sem saber o que o sol fazia. Botava água nos canteiros, sem saber o que a água fazia. Os amigos dele seriam mandados de navio para o mar, para o meio do mar, com ladrões e assassinos. E os outros? Simão e Deodato? Eram bons também, as mulheres também chorariam de fome. Por que não mandavam o Dr. Pestana? De cócoras, mexendo na terra molhada, o velho censurava as coisas, o velho sentia a miséria das coisas. Aquilo era uma ruindade sem tamanho.

Numa manhã, os homens saíram para Fernando. Ricardo, Deodato, Simão, Jesuíno para um canto do navio olhavam o Recife coberto ainda de sombras da madrugada. Viam vapores grandes no cais, catraieiros trabalhando àquela hora. Mas havia um silêncio grande, um silêncio medonho nos barcos dormindo e nas águas do rio. Eles olhavam para o lado do cais e viam as casas e a terra que iam deixar. Simão para um lado, triste, de cabeça baixa, Deodato dizendo:

- Se ao menos eu pudesse ver os meninos!
E o negro Jesuíno sentado em cima de umas cordas. Sebastião só fazia dizer:
- A gente volta. Um dia a gente volta.

Ricardo olhava para todos. Ele sentia uma vontade desesperada de vomitar, aquele cheiro aborrecido de bordo lhe embrulhava o estômago. Iam para Fernando. Conhecera no engenho um homem, um assassino que estivera em Fernando de Noronha. Chamava-se Noé e contava tanta coisa triste de lá. Fernando de Noronha, ninho de tudo que era homem sem remédio e sem jeito. Ele ia para lá e não sabia o mal que tivesse feito.

- Homem, dizia Jesuíno para Simão, o governo só faz isto porque não tem família.
- Eu até nem penso mais nos meninos, respondia Simão. Vai se perder tudo, Jesuíno. Vai se perder tudo.

Deodato era mais forte:

- Não faz mal, eles arranjam jeito de viver.
Sebastião, de pé:

- É isto mesmo. Se a gente esmorecer, sofre mais.
Ricardo se lembrava da mãe Avelina. Com que alegria ela recebera a carta dizendo que ele ia! Os negros todos da rua se assanharam na certa com a notícia. Ricardo ia chegar calçado de botina e de gravata no pescoço, como o José Ludovina no dia da eleição. Ricardo no Recife não tirava a botina dos pés, mas agora era isto que estava se vendo. Cercado de água por todos os lados, para o resto da vida. Morreriam por lá.

Agora o sol já cobria o cais, já os sobrados altos se mostravam para eles. E o navio ia sair com pouco mais, com as máquinas dando sinal. Eles viram então seu Lucas em pé no cais. O vapor já não estava atracado. Seu Lucas dava com as mãos para eles. O negro velho em pé, com o sol na cabeça branca, dando com os braços para eles. Ricardo olhava para o amigo.Sempre ele tinha o que lhe perguntar nas grades de seu jardim. O negro velho gostava dele. E o vapor ia saindo devagarinho. Simão botava as mãos na cabeça para chorar. Deodato firme e Jesuíno gritando:

- Lá está pai Lucas! Pai Lucas, toma conta dos menino!

Sebastião não dizia nada. O vapor ia virando para o outro lado e eles correram para dar com as mãos para o velho amigo. O negro velho em pé como uma estaca de cercado no cais de cimento.
Os negros bons iam para Fernando. O que tinham feito eles? dizia seu Lucas voltando para casa. O que tinham feito eles, os negros que não faziam mal a ninguém? Jesuíno era uma besta de bondade, Ricardo tão bom! Os outros deviam ser também. O que tinham feito eles para ir pra Fernando? Seu Lucas não sabia. Queriam de comer, queriam de vestir, queriam viver. E seu Lucas chegou no jardim com esta dor no coração. Vira os seus negros no vapor mandados para Fernando. Murchassem as roseiras, cortassem as formigas as folhinhas das plantas, secassem os canteiros. Os seus negrinhos iam pra Fernando. Que tinham feito eles para ir pra Fernando? Seu Lucas cuidava das plantas. Os trens passavam roncando pelas grades de seu jardim. Passavam vendedores cantando as suas vendagens. O homem da vassoura parou para falar:

- Soube, seu Lucas, o navio saiu hoje cheio de gente. Da minha rua foi um. Ninguém fez nada não. Foi por causa da greve.

Seu Lucas não disse nada e o homem se foi. O feiticeiro sentiu uma cousa de fora entrando dentro dele. Era bem diferente da entrada de Deus em seu corpo. Era uma coisa que nunca tinha sentido em sua vida. Tinha sofrido muito neste mundo de Deus. Prisões, cadeia, mas tudo ele agüentava com fé, agüentava sabendo que era bom para ele sofrer. Agora não. Uma coisa de fora mexia com o negro velho. O sol queimava as folhas de suas plantas, as roseiras abriam-se para o sol. Seu Lucas não via o jardim, a sua cássia-régia gloriosa, as dálias cheias de vida. Não olhava, não via. Os seus negrinhos iam para Fernando. Num mar navegando, num mar carregados para o cativeiro. Ficou pensando. Uma coisa esquisita entrava pelo seu corpo. Que fizeram os negros? Que fizeram Ricardo e Jesuíno? Mataram? Roubaram? O governo mandara os infelizes pra Fernando.

Seu Lucas ficou assim até de noite. Era noite de culto, noite de rezar para o seu Deus.
Os cantos das negras, os passos das negras, no Fundão, tiniam no terreiro com os instrumentos roncando. Naquela noite o negro velho vestia as suas vestes sagradas sem saber o que ia fazer. Todos já estavam prontos para os ofícios, para as rezas familiares. Seu Lucas de lado tirava as rezas. Era o cantar mais triste que um homem podia tirar de sua garganta. Os negros respondiam no mesmo tom. E foi crescendo a mágoa e foi subindo a queixa para o céu estrelado do Fundão. O sapatear dos negros estremecia o chão, os instrumentos acompanhavam as queixas, os lamentos. E com pouco seu Lucas começou a dizer o que não queria, o que sentia. As palavras do ritual não eram aquelas que lhe queriam sair da boca. Deus estava no céu. Ogum no céu com S. Sebastião. Ele queria cantar outra coisa que não aquilo que ele cantava todas as noites. E os negros na dança iam ouvindo o que pai Lucas dizia. O mestre falava dos negros que iam pra Fernando.

- Que fizeram eles? Que fizeram eles?

- Ninguém sabe não.

Que fizeram os negros que iam pra Fernando? A voz de Lucas vibrava. Todo o seu corpo se estremecia.
- Que fizeram eles que vão pra Fernando?
E os negros respondiam misturando a língua da reza deles com as perguntas do sacerdote, de braços estendidos para o céu.

- Que fizeram eles? Ninguém sabe não!

E o canto subia, subia com uma força desesperada. As negras sacudiam os braços para os lados como se sacudissem para fora do corpo. Os peitos, as carnes se movimentando numa impetuosidade alucinante. A terra do Fundão estremecia. Pés de doidos, de furiosos furavam a terra. E seu Lucas com a boca para cima misturando as mágoas com as suas rezas:

- Que fizeram ele que vão pra Fernando? Ninguém sabe não!
O sacerdote quebrando o ritual para deixar escapar a sua dor. Seu Lucas era mais um Deus naquela hora. Como um homem qualquer ele falava pelos pobres que no mar se perdiam. O canto dele varava a noite, varava o mundo:

- Que fizeram eles que vão pra Fernando? Ninguém sabe não!”
José Lins do Rego

Sonetos

Dos amores - de paz e desespero -
Eu tenho que me inspiram noite e dia:
Meu anjo bom é um homem puro e vero;
O mau, uma mulher de tez sombria.

Para levar a tentação a cabo,
O feminino atrai meu anjo e vive
A querer tranformá-lo em diabo,
Tentando-lhe a pureza com a lascívia.

Se há de meu anjo corromper-se em demo
Suspeito apenas, sem dizer que seja;
Mas sendo ambos tão meus, e amigos, temo

Que o anjo no fogo já do outro esteja.
Nunca sabê-lo, embora desconfie,
Até que o meu anjo contagie.
William Shakespeare

Manual dos Inquisidores

(...)
“Dei por as coisas acontecerem quando o Joãozinho começou a chorar. Eu estava no jardim preocupada com a febre das roseiras, a construir uma tenda que as protegesse do vento e do início não julguei que fosse a criança a chamar-me mas uma pomba viúva num cedro ou um ganso perdido no novelo dos buxos até que me puxaram a saia, eu sem me voltar
- Quieto Adamastor
o vento tombou de súbito, as pás do moinho calaram-se, os gerânios e as estrelícias deixaram de murmurar nos canteiros, escutava-se a bica da água na piscina e um risinho de corvo sobre as faias, o lobo da Alsácia, a gemer, arrepanhava-me a saia, eu enxotando o animal com o pé
- Quieto Adamastor
e uma vozinha sufocada de lágrimas lá em baixo, pendurando-se-me na roupa
- Não é o Adamastor Titina sou eu
de modo que lhe peguei ao colo, procurei um joelho esfolado que era o que sucedia a cada passo, tropeçar nos cubos dos guarda-sóis, bater numa estátua, magoar-se na pedra dos canteiros, separei-lhe a franja com medo de ver sangue
- O menino caiu?
e nem feridas, nem sangue, nem arranhões, nem um nódoa de lama sequer, só um dedo apontado, o nariz no meu pescoço, um estremeção de lágrimas
- A mãe o pai a mãe o pai
e portanto dei por as coisas acontecerem quando o Joãozinho começou a chorar. Hoje pergunto-me se não devia ter feito alguma coisa na época em que principiaram as questões entre o senhor doutor e a senhora dado que quer um quer outro me escutavam, a senhora por exemplo era rara a manhã em que não me pedia opinião sobre isto ou sobre aquilo, as criadas, as despesas, a casa
- O que achas Titina?
e o próprio senhor doutor, tão diferente do homem em que se tornou depois, me convocava ao escritório e me mandava sentar como se fosse igual a ele para falar do estábulo ou da horta ou das alterações no pomar
- Dá aqui uma ajuda Titina
o Joãozinho sem feridas, sem sangue, sem arranhões, sem uma nódoa de lama, só um dedo apontado, o nariz no meu pescoço, um estremeção de lágrimas
- A mãe o pai a mãe o pai
e caminhei para casa esquecida da febre das roseiras, com a minha sombra e a sombra da criança confundidas como se o menino fosse meu, como ainda hoje, que ele cresceu, teve filhos, o senhor doutor me expulsou da quinta, os do tribunal expulsaram o menino e deixei de o ver, continuo a pensar que era meu, que é meu, foi comigo que ele começou a andar e a falar, era comigo que adormecia, era por mim que a meio da noite chamava, apavorado com o escuro
- Estão ali os lobos Titina
eu a embalá-lo, a acariciar-lhe as mãos, a afagar- lhe a cara até os lobos se irem embora e os gatunos se sumirem, até julgar que ele dormia, lhe soltar devagarinho os dedos, me levantar, me aproximar da porta e a voz do Joãozinho
- Titina
o menino que me pertencia por preferir estar comigo a estar com o senhor doutor e a senhora, me acompanhava, pegado a mim, à cozinha, à sala de costura, ao correio, à confeitaria e ao mercado a Palmela, me fazia desenhos no livro das contas, me fazia barcos de papel com as facturas, a quem dava banho e levava ao médico, para quem descascava a fruta, a cortava aos bocadinhos e esmagava as aspirinas numa colher de açúcar, que limpava, que vestia, o Joãozinho que não pertencia aos pais, me pertencia, o filho que apesar de não ter tido era meu, agarrado a mim com toda a força que podia
- O que aconteceu Joãozinho?
a porta do quarto aberta e o senhor doutor e a senhora a discutirem, a senhora a tirar roupa das gavetas e a amontoá- la na cama, a tirar as escovas da cómoda, a arrancar vestidos dos cabides, a pisar blusas, a pisar êcharpes, a pisar aquelas calças lindas de cetim que usava quando tinha visitas e arrastava agora atrás de si presas a um salto, não uma senhora mas duas ou três senhoras reflectidas em ângulos diferentes nos espelhos, e o senhor doutor também dois ou três senhores doutores gesticulando uns com os outros como ese estivessem zangados consigo mesmos, não com a senhora, a impedirem-lhe a passagem e a senhora, que não a conhecia assim, ameaçando-os com os secador do cabelo
- Larga-me
a lutar com aqueles senhores doutores todos
- Larguem-me
o senhor doutor a agarrar no secador e a desfazê-lo no tampo da cómoda
- Quem é o tipo quero saber quem é o tipo Isabel
uma caixa de pó-de-arroz esmagada, frascos de perfume no chão, o abajur da mesinha de cabeceira em pedaçose e a senhora a procurar uma sandália, às punhadas ao senhor doutor
- Larga-me
os espelhos quebrados multiplicavam os dois ou três senhores doutores por dez ou vinte ou trinta que repetiam
- Quem é o tipo quero saber quem é o tipo Isabel
o senhor doutor a abaná-la até que um dos reflexos nos viu a mim e ao Joãozinho ao meu colo que não era filho deles, era meu, o único filho que tive, o reflexo a olhar para nós
- Desaparece Titina
a senhora a olhar-nos também como se o filho não fosse filho dela e não era filho dela, era meu, apertado contra mim de nariz no meu pescoço, a senhora ou uma fracção da senhora numa fracção de vidro, só as mãos, as pernas, a testa, um bocadinho de queixo, a olhar-nos um instante puxando um baú de encontro à cama e a enchê-lo de blusas, vestidos, sapatos, xailes, de permanente desalinhada, sem pintura nem bâton nem verniz nas unhas ao contrário de quando me explicava, a telefonar à companhia de táxis e a verificar a costura das meias
- Se perguntarem por mim fui às compras a Palmela
enquanto o marido estava no ministério em Lisboa, a senhora pela vereda de ciprestes abaixo e no fim da vereda, a seguir ao portão, um automóvel à espera nos olmos do largo, regressava a cantarolar, sem compras nenhumas, queria falar-lhe do jantar e ela, à cata dos sais, abrindo a água da banheira em passinhos de dança, a desabotoar o casaco e a girá-lo por cima da cabeça no vértice do dedo
- Faz o que quiseres Titina é-me indiferente falar-lhe do senhor doutor ou das criadas ou do governo da casa e ela a tirar a válvula com o pé e a jogar-me um piparote de espuma
- Agora não Titina tem paciência passa-me a toalha
azulejos embaciados de vapor, prateleiras embaciadas de vapor, a janela tão embaciada de vapor que não se distinguiam o pomar nem as gralhas, apenas manchas verdes para lá dos caixilhos e uma marca no peito que a disfarçava com creme a rir-se
- Um cachorrinho mordeu-me Titina um cachorrinho amoroso felpudo
a princípio as compras em Palmela eram uma ou duas vezes por semana e depois três e depois quatro e depois cinco, ao sábado e ao domingo o telefone tocava e se eu atendia desligavam, se o senhor doutor atendia desligavam, se a senhora atendia ficava que tempos aos cochichos, o senhor doutor perguntava quem era e a senhora, desembaraçadíssima, respondia que era uma condiscípula do colégio com quem eu não conversava há dez anos, imagina como o tempo voa, um dia destes vou visitá-la a Coimbra, podíamos passar umas feriazinhas em Coimbra não podíamos Francisco?, a ganhar confiança, fartinha de saber que o senhor doutor não largava o ministério, de maneira que era raro o fim-de-semana em que uma rapariga que eu não vejo há séculos não se lembrasse, morta de saudades, de telefonar para Palmela, a senhora às gargalhadinhas, aos meneios, aos segredos, a suspirar para o bocal, de olhos fechados
- Eu também
a voltar para a mesa como se flutuasse, a enrolar uma bolinha de pão esquecida de comer, os corvos a troçarem na horta, os gerânios a troçarem nos canteiros, o senhor doutor que gostava que as amigas da senhora gostassem dela, sem desconfiar de nada
- O peixe fica sem graça Isabel
em Agosto a senhora, radiante, tão radiante que até me deu um beijo e com tanta bagagem como se partisse por cem anos, foi um mês de férias a Coimbra sem deixar endereço
- Sei lá onde a Luísa mora eu depois telefono
a senhora a fazer uma festa ao menino
- Só me lembro do apelido de solteira que não serve de nada que interrogatório é esse Francisco?
a senhora que trocava o nome das amigas, lhes trocava as famílias, lhes trocava as histórias, se enganava nas anedotas do colégio, não telefonou, só escreveu uma vez de Espanha a contar que como estava em Coimbra aproveitou para dar um saltinho com a amiga a Madrid, o senhor doutor a sentir a falta dela que se lhe notava na cara, sozinho à mesa, sozinho na sala a estudar os livros dele ou a folhear o jornal, de mãos nos bolsos no corredor a fumar cigarrilhas para a frente e para trás como uma alma penada, a senhora chegou com um ar aborrecido, largou as malas na entrada, afundou-se logo no sofá, franzida de enjoo, sem cumprimentar ninguém
- Estou estafada
os corvos perdidinhos de riso, as rãs perdidinhas de riso, o senhor doutor a sentar-se-lhe ao lado dela e aela a distanciar-se como se a picassem
- Tem paciência Francisco estou estafada
olhando os quadros, os móveis, o piano como se detestasse tudo aquilo, como se tudo aquilo a irritasse, a pegar numa revista de moda, a largar a revista, a pegar num cigarro e a esquecer-se de acendê-lo, a apagar com um sopro o isqueiro que o senhor doutor lhe estendia
- Não me deixas em paz nem um momento Francisco?
atirando com a porta do quarto das visitas, a rodar a chave, a aparecer no dia seguinte, às onze, já estava o marido no ministério, a senhora em roupão, besuntada de pasta para as rugas, meneando a cabeça desgostosa no terraço onde o jardineiro aparava a vinha-virgem e os buxos
- Que feio que isto é meu Deus
eu que podia ajudá-la se tivesse inteligência, estudos, educação, se não tivesse ido servir aos doze anos para Paços de Ferreira, a senhora sem ligar ao menino, sem tocar no chá, a bater com a colher na compoteira, na manteigueira, no bule, a provar uma torrada e a abandoná-la no prato, resmungando em francês, as gralhas mudas a espreitarem-na do parapeito fingindo qeu catavam as penas, eu com vontade de as correr à vassourada que corrê-las à vassourada, graças a Deus ainda sei fazer e tenho corpo para isso, e de súbito o telefone a chamar e a senhora num pulo, soltando a colher, transfigurada
- Eu atendo Titina
o tractor mais perto, o moinho a girar com tanta velocidade que não se distinguiam as pás, só uma cintilação de metal enloquecida pelo vento, a senhora em lugar de suspiros para as condiscípulas do colégio
- Eu também
de sobrancelhas franzidas, estendendo um funil com a boca para que eu não escutasse
- Não aguento mais amor juro que não aguento mais tem de ser amanhã e a vida pareceu-lhe de novo alegre, bebeu o chá frio, comeu as torradas geladas, vestiu-se, arranjou-se, pintou-se, passou horas a envernizar as unhas, mandou vir um táxi e foi às compras a Palmela, eu nervosíssima a ralhar com as criadas, a pôr defeitos em tudo, a descompor a cozinheira, a descompor a modista, a discutir com o jardineiro por causa de um narciso murcho, o relógio a devorar horas num granizo de badaladas infinitas, o Joãozinho a choramingar de fome ou de sono atrás de mim
- Agora não menino
as faias escureceram, a vereda de ciprestes escureceu, os corvos sumiram-se nos eucaliptos do pântano, as luzes de Setúbal, as luzes da serra, uma espécie de halo do mar que se não via, um automóvel no pátio, um som de passos nos degraus, o senhor doutor intrigado, a pousar a pasta na mesa da entrada, a abrir a porta do quarto das visitas, a porta do quarto, a porta da sala, a pegar no menino ao colo que não era dele, era meu, era por mim que ele chamava se caía ou tinha medo do escuro, o senhor doutor alargando o nó da gravata
- A senhora Titina?
o senhor doutor na capela, na estufa, no roseiral, na horta, a dar a volta à casa e eu escutando-lhe as solas no cimento, no tijolo, no cascalho, na terra, o senhor doutor esgaseado e eu sem poder ajudá-lo porque não tinha inteligência, não tinha estudos, fui servir para Paços de Ferreira aos doze anos
- A senhora Titina?
a pegar no telefone, a hesitar, a prendê-lo no gancho, eu com vergonha mas não sei de queê, só sei que não me apetecia assistir àquilo, e nisto uma claridade de faróis pelos ciprestes acima, as árvores iluminadas uma a uma, um barulho de motor a crescer, os tacões da senhora nos degraus, o senhor doutor qeu dava pena vê-lo
- O que aconteceu Isabel?
que dava tanta pena vê-lo que se eu fosse a senhora não me ia embora por dó, a senhora sem reparar nele nem o ouvir
- O jantar está pronto Titina?
a sentar-se à mesa, a tirar o guardanapo da argola, a servir-se da água como se nada fosse, a sala de jantar pareceu-me de repente tristíssima, uma sala de jantar de pobres apesar do luxo dos móveis, o senhor doutor a levantar o jarro que tremia
- O que aconteceu Isabel?
a senhora a fitá-lo e a desinteressar-se dele
- A sopa Titina o Joãozinho a choramingar a pedir colo, a pedir rebuçados, a pedir chichi sem que ninguém lhe ligasse, sem que nem eu lhe ligasse
- Titina
as criadas saltitando de curiosidade na cozinha, empurrando-se umas às outras na excitação das desgraças
- Ele vai bater-lhe não vai dona Titina ele vai bater-lhe quanto queres apostar que vai bater-lhe
as criadas tão contentes como as graalhas acotovelando-se de êxtase
- Ele vai bater-lhe não via dona Titina ele vai bater-lhe quanto queres apostar que vai bater-lhe
principiou a chover porque se escutavam as janelas, o telhado, as laranjeiras e os anjos de pedra a chamarem por mim com voz de gente
- Titina
havia adeuses de asas e de ramos nos caixilhos, a senhora trancou-se sem uma palavra no quarto dos hóspedes com o primeiro relâmpago, tão próximo de nós que apagou as lâmpadas da casa e os compartimentos se transformaram num labirinto de trevas cheio de volumes de armários e de espelhos ocos, vazios nas molduras de talha de onde todos os rostos se retiraram, um segundo relâmpago, um terceiro, os uivos dos cães, os ganidos de dor dos castanheiros, e no espaço instantâneo de uma descarga de trevas o senhor doutor na porta do quarto de hóspedes como um crucificado de igreja
- Isabel
o menino a choramingar no escuro a pedir colo, rebuçados, chichi, e Deus me perdõe mas quem me apetecia nesse momento pegar ao colo não era o Joãozinho, era o pai, pegar-lhe ao colo, afastar-me do quarto de hóspedes com ele apertado no peito, de nariz no meu pescoço, despi-lo, deitá-lo na cama, tapá-lo com a coberta, e ficar de mão dada, a balouçar devagarinho o corpo até o senhor doutor adormecer.”
Lobo Antunes

Sonetos

Que eu não veja empecilho na sincera
União de duas almas. Não amor
É o que encontrando alterações se altera
Ou diminui se o atinge o desamor.

Oh, não! amor é ponto assaz constante
Que ileso os bravos temporais defronta.
É a estrela guia do baixel errante,
De brilho certo, mas valor sem conta.

O Amor não é jogral do Tempo, embora
Em seu declínio os lábios nos entorte.
O Amor não muda com o dia e a hora,

Mas persevera ao limiar da Morte.
E, se prova que num erro estou,
Nunca fiz versos nem jamais se amou.
William Shakespeare

Pavarotti/Ghiaurov, “Verdi Réquiem” (1967)