Por que escrevo?

"Nos países já desenvolvidos, onde a cultura e a língua alcançam sua mais alta perfeição, estando muitas vezes já estratificadas, essa pergunta (por que escrevo?) é uma questão metafísica.

Em países como o Brasil, com mil e um problemas, entre os quais há ainda o de resolver problemas de língua, se um escritor se detém seriamente nessa pergunta, ele deve parar de escrever e se consagrar a um outro tipo de atividade que tenha resultados mais imediatos e mais positivos.

Nós brasileiros temos uma língua e uma literatura aculturadas nos trópicos, com elementos africanos e indígenas, ainda em plena fase de absorção. Talvez esteja aí um dos fascínios, a justificativa do fato de escrever. Nós colaboramos, na medida de nossa fraca capacidade, para o desenvolvimento da língua portuguesa e da literatura que nos veio sobretudo da Europa. O sentido dessa missão deve justificar o sofrimento que se consagra à escrita criativa em países como o nosso, com uma língua em desenvolvimento, como a que nós falamos e com a qual escrevemos. É este, a longo prazo, o papel social do escritor, que trabalha na e com a linguagem e torna possível o aperfeiçoamento e a ductilidade da língua para a tribo. Pessoalmente, como autor de romances e de novelas, já me propus essa pergunta inúmeras vezes. Para não cair na prostração e no desalento, eu decidi escrever para me compreender num ponto de vista existencial e para compreender o meu país. Assim, escrever é uma maneira de dar testemunho de meu país e de minha época. Não é porque ele escreve Coca-Cola, sobre foguetes espaciais e perigo atômico que um autor é moderno: de qualquer maneira, ele é sempre um testemunho, quer queira quer não. Ao falar da metamorfose de um homem em inseto, Kafka falou mais sobre a alienação do homem moderno do que os autores de inúmeras enciclopédias."
Autran Dourado
(Texto feito para a revista francesa Ilustration.)

O Possesso

Cobriu-se o sol de negro véu. Como ele, ó Lua
De minha vida, veste o luto de agonia;
Dorme ou fuma à vontade; sê muda e sombria,
E no abismo do Tédio esplêndida flutua;

Eu te amo assim! Se agora queres, todavia,
Como um astro a emergir da penumbra que o acua,
Pavonear-te no palco onde a Loucura atua,
Pois bem! Punhal sutil em teu estojo esfria!

Acende essa pupila no halo dos clarões!
Acende a cupidez no olhar dos grosseirões!
Em ti tudo é prazer, morboso ou petulante;

Seja o que for, escura noite ou rubra aurora;
Uma por uma, as fibras do meu corpo arfante
Gritam: Ó Belzebu, meu coração te adora!
Charles Baudelair

Escrever

"Escrever é cumprir uma sentença de vida. Só vale a pena se for uma vocação irresistível, daquelas que nem querendo se pode abandonar. Tarefa árdua, seu exercício toma muito tempo, projeta sonhos e expectativas que nem sempre atingem resultados compensadores, seja pelas limitações individuais, seja pelas dificuldades de se conseguir ser editado e lido. No entanto, é uma forma de se aproximar do outro, através da leitura e do diálogo, no mundo das multidões e da solidão irremediável. Escrever literatura é encantar com palavras, emocionar, chocar, impressionar com a revelação das vivências e experiências, através de discursos que articulam o sentir com o pensar. Como acreditava T.S. Eliot, o poeta é um guardião da sensibilidade humana, um elo entre gerações. A razão prática e a lógica do mercado dominam o mundo atual, mas enquanto os seres humanos cultivarem a capacidade de sugestionar, chocar e emocionar através das formas, das cores, das texturas, das sonoridades, das imagens e dos conceitos, haverá as artes e, entre elas, a literatura. O escritor cria e renova discursos, como testemunha de seu tempo, busca visibilidade e atenção; enfim, trabalha pela sobrevivência da própria arte literária."
Aleilton Fonseca

Desejo

"Desejo primeiro, que você ame,
e que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer
e esquecendo não guarde mágoa.
Desejo também que tenha amigos,
que mesmo maus e inconseqüentes,
sejam corajosos e fiéis,
e que em pelo menos num deles
você possa confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim,
desejo ainda que você tenha inimigos;
Nem muitos, nem poucos,
e que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
para que você não se sinta demasiado seguro.
Desejo ainda que você seja tolerante;
não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
mas com os que erram muito e irremediavelmente,
e que fazendo bom uso dessa tolerância,
você sirva de exemplo aos outros.
Desejo que você sendo jovem,
não amadureça depressa demais
e sendo maduro, não insista em rejuvenescer,
e que sendo velho não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor
e é preciso deixar que eles escorram por entre nós.
Desejo também, que você plante uma semente
por mais minúscula que seja,
e que acompanhe o seu crescimento
para que você saiba de quantas muitas vidas
é feita uma árvore.
Desejo por fim que você sendo um homem,
tenha uma boa mulher,
e que sendo uma mulher,
tenha um bom homem
e que se amem hoje, amanhã e no dia seguinte,
e que quando estiverem exaustos e sorridentes,
ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
não tenho mais nada a desejar.
Victor Hugo

Frase

"Não me interessa apenas escrever poesia. Quero é me colocar no estado de poesia. Ser uma antena, hipersensível. Feroz, como uma pantera. Suave, como um vaga-lume. Intenso, como um vendaval."
Ademir Assunção

Canção

Mulher, quando em meus braços
Te escuto uma canção,
Não vês nos meus abraços
Profunda comoção?
É que o teu canto à mente
Me traz vida melhor...
Ah!
Cantai continuamente,
Cantai, ó meu amor!

Quando sorris, assume
Teu rosto uma expressão,
Que o mais feroz ciúme
Se desvanece então.
Sorriso tal desmente
Um coração traidor...
Ah!
Sorri continuamente.
Sorri, ó meu amor!

Quando tranqüila e pura,
Te estou a ver dormir
Que sonhos se afigura
Teu hálito exprimir?
Contemplo então contente
Teu corpo encantador...
Ah!
Dormi continuamente,
Dormi, ó meu amor!
Victor Hugo
Trad. de João de Deus

Sobre um segredo inviolável

"Até então o segredo inviolável. O mundo em branco à sua frente: a folha com seus espaços. Entre o homem que escreve e a instigação dos cães, pousa e repousa um universo de convenções ainda não decifrado. O detalhe que se foi, a página que se recusou à escrita. A mansidão do tempo desenovelando-se e tornando-se matéria viva e estável. Diante desse mundo estático, o homem movimenta-se asperamente por caminhos que nenhum outro se aventurou. Nem ele próprio é capaz de gritar antes do pano descer por completo. O que se faz então é somente um ato de domador.

A fera de cada sílaba numa jaula que não mais lhe pertence. Deflagrada, a fera acua-se, lança-se e fica a contemplar ironicamente os seus visitantes. Nenhum deles leva o seu segredo. Por ela, poderá simplesmente descobrir os seus segredos de homem. Ela, a fera, não sai de si mesma. O que transpira é muito pouco para denunciá-la ao seu dono. Embora lamentando a sua ferocidade, ela é dócil e deixa-se devorar por quem lançar-se dentro de seu gradil armado em pleno parque.”
Antonio Carlos Viana, “Brincar de Manja

Foto: Alfred Eisenstaedt / LIFE (1936)

As Queixas de um Ícaro

Os rufiões das rameiras são
Ágeis, felizes e devassos;
Quanto a mim, fraturei os braços
Por ter-me alçado além do chão.

É graças aos mais raros astros,
Que o céu envolvem num lampejo,
Que, agora cego, já não vejo
Dos sóis senão os turvos rastros.

Eu quis do espaço em toda parte
Achar em vão o fim e o meio;
Não sei sob que olho de ígneo veio
Minha asa eu sinto que se parte;

E porque o belo ardeu comigo,
Perdi a glória e o benefício
De dar meu nome ao precipício
Que há de servir-me de jazigo.
Charles Baudelaire

Caligrafia

"ao Flávio Carneiro

Alcançar primeiro com os olhos a mesa branca da varanda onde miserável se esquece um caderno pautado em cuja carne abortaram-se alguns resumos, pé ante pé, dissimuladamente, transpor o piso de cerâmica da sala, transpô-la, a sala, ato que torna-se muito mais evidente e concreto na imagem dos pés sobre o piso de cerâmica, apoiar a mão direita com preciosismo (em nenhuma hipótese a esquerda) sobre uma cadeira-obstáculo que adormeceu no caminho, debruçar mais um sorriso sobre a capa do caderno onde se lê big explosion em caracteres irregulares coloridos e recordar que era o mais barato da papelaria, empunhar a caneta de tinta azul sobre o canto superior esquerdo da primeira página disponível e observar que um traço magoa a sisudez das pautas nuas, desenvolver o traço em curvas e retas e círculos de acordo com as regras há muito assimiladas numa caligrafia dita elegante e satisfatoriamente legível, decantar o oco da página com uma torrente delas, palavras, entrecortadas por suspiros virgulares e respirações profundas, mas, importante, tudo num único ímpeto que culmine na sombra então possível de um ponto redentor, encerrando questões, enterrando idéias e imagens e simulacros, o ponto final da vitória ou da derrota, tanto faz, o ponto final depois de uma assepsia sem parágrafo ou ponto-e-vírgula, o ponto final que recolhe imagens aleijadas e abençoa um ditongo decrescente que escorre moribundo, o ponto final dos pulmões vazios e dos olhos marejados, o ponto final do fim.”
Adriana Lisboa