Sonho

Sonho. Não sei quem sou neste momento.
Durmo sentindo-me. Na hora calma
Meu pensamento esquece o pensamento,

Minha alma não tem alma.

Se existo é um erro eu o saber. Se acordo
Parece que erro. Sinto que não sei.
Nada quero nem tenho nem recordo.

Não tenho ser nem lei.

Lapso da consciência entre ilusões,
Fantasmas me limitam e me contêm.
Dorme insciente de alheios corações,
Coração de ninguém.
Fernando Pessoa

O rei burguês

"Meu amigo! O céu está opaco, o ar frio, o dia triste. Um conto alegre... assim como para divertir as brumosas e cinzentas melancolias, eis aqui:

Havia numa cidade imensa e brilhante um rei muito poderoso, ele tinha trajes pretensiosos e ricos, escravas nuas, brancas e pretas, cavalos de longas crinas, armas novíssimas, galgos rápidos e monteiros com chifres de bronze que enchiam o vento com suas fanfarras. Era um rei poeta? Não, meu amigo: era o Rei Burguês.

Era muito afeiçoado às artes o soberano, e favorecia com grande generosidade os seus músicos, os seus fazedores de ditirambos, pintores, escultores, boticários, barbeiros e mestres de esgrima.

Quando ia à floresta,junto ao cervo ou javali ferido e sangrento, fazia com que seus professores de retórica improvisassem canções alusivas; os criados enchiam as taças do vinho de ouro que ferve, e as mulheres batiam palmas com movimentos rítmicos e galhardos. Era um rei sol, na sua Babilônia cheia de músicas, de gargalhadas e de ruídos de festim. Quando se fartava da algazarra da cidade, saia à caça aturdindo o bosque com seus tropéis; e fazia sair dos ninhos as aves assustadas, e o vozerio ecoava no recôndito mais escondido das cavernas. Os cachorros de pés elásticos iam quebrando o ervaçal na corrida, e os caçadores, inclinados sobre o pescoço dos cavalos, faziam ondular os mantos púrpuras e levavam os rostos inflamados e as cabeleiras ao vento.

O rei tinha um palácio soberbo onde acumulara riquezas e objetos de arte maravilhosos. Chegava lá por entre grupos de lírios e extensos lagos sendo saudado pelos cisnes de pescoço branco, antes do que pelos arrogantes lacaios. Bom gosto. Subia pela escada cheia de colunas de alabastro e de esmaragdita, que tinha aos lados leões de mármore como os dos tronos salomônicos. Refinamento. Além dos cisnes, tinha um grande aviário, como amante da harmonia, do arrulho, do trinado; e perto dela ia alargando seu espírito, lendo romances de M. Ohnet, os belos livros que tratam das questões gramaticais, ou críticas graciosas. Isto sim: defensor tenaz da correção acadêmica nas letras, e do modo usual nas artes; alma sublime amante da lixa e da ortografia!

Japonerias! Chinerias! Por moda e mais nada. Bem que podia se dar ao luxo de uma sala digna do gosto de um Goncourt e dos milhões de um Creso: quimeras de bronze com as goelas abertas e os rabos enroscados, em grupos fantásticos e maravilhosos; lacas de Kioto com incrustações de folhas e galhos de uma flora monstruosa, e animais de uma fauna desconhecida, borboletas de raros leques junto às paredes; peixes e galos coloridos; máscaras de gestos infernais e com olhos como se fossem vivos; alabardas de folhas antiqüíssimas e empunhaduras com dragões devorando flores de lótus; e nas conchas de ovo, túnicas de seda amarela, como tecidas com teias de aranha, semeadas de garças vermelhas e de verdes ramalhetes de arroz; e jarros, porcelanas de muitos séculos, daquelas que exibem guerreiros tártaros com uma pele que os cobre até os rins, e que levam arcos esticados e ramos de flechas.

Além disso, tinha a sala grega, cheia de mármores: deusas, musas, ninfas e sátiros; a sala dos tempos galantes, com quadros do grande Watteau e do Chardin; dois, três, quatro, quantas salas?

E Mecenas passeava por todas, com o rosto inundado de certa majestade, a barriga feliz e a coroa na cabeça, como um rei do baralho.

Um dia levaram-lhe uma rara espécie de homem perante o seu trono, onde se encontrava cercado de cortesãos, de retóricos e de mestres de equitação e de dança.

— O que é isso? — perguntou.

— Senhor, é um poeta.

O rei tinha cisnes no lago, canários, beija-flores, censotes no aviário: um poeta era algo novo e estranho.

— Deixai-o aqui.

E o poeta:

— Senhor, eu não tenho comido.

E o rei:

— Fala e comerás.

Começou:

— Senhor, há muito tempo que canto o verbo do porvir. Estendi minhas asas ao furacão; nasci no tempo do amanhecer; procuro a raça escolhida que deve esperar, com o hino na boca e a lira na mão, a saída do grande sol. Abandonei a inspiração da cidade malsã, a alcova cheia de perfumes, a musa de carne que enche a alma de pequenez e o rosto de pó-de-arroz. Quebrei a harpa lisonjeira das cordas frágeis, contra as taças de Boêmia e as jarras onde borbulha o vinho que embriaga sem dar fortaleza; joguei o manto que me fazia parecer bufo, ou mulher, e tenho me vestido de maneira selvagem e esplêndida: meu farrapo é de púrpura. Fui à floresta, onde me fiz vigoroso e farto de leite fecundo e licor de nova vida; e na beira do mar áspero, sacudindo a cabeça embaixo da forte e negra tempestade, como um anjo soberbo, ou como um semideus olímpico, ensaiei o jambo atirando ao esquecimento o madrigal.

Acarinhei a grande natureza, procurei no calor do ideal o verso que está no astro no fundo do céu, e o que está na pérola do profundo do oceano. Tentei ser pujante! Porque vem o tempo das grandes revoluções, com um Messias todo luz, todo agitação e potência, e é necessário receber seu espírito com o poema que seja arco triunfal, de estrofes de aço, de estrofes de ouro, de estrofes de amor.

Senhor, a arte não está nas frias coberturas do mármore, nem nos quadros pálidos, nem no excelente senhor Ohnet! Senhor! A arte não se veste de calças, nem fala burguês, nem coloca os pontos em todos os is. Ela é augusta, tem mantos de ouro ou de chamas, ou anda nua, e amassa a greda com febre, e pinta com luz, e é opulenta, e bate asas como as águias, ou lança farpadas como os leões. Senhor, entre um ApoIo e um ganso, prefere o ApoIo, ainda que um seja de terracota, e o outro de marfim.

Oh, a Poesia!

Muito bem! Os ritmos prostituem-se, cantam-se as pintas das mulheres, e fabricam-se xaropes poéticos. Além disso, Senhor, o sapateiro critica meus decassílabos, e o senhor professor de farmácia põe os pontos e vírgulas na minha inspiração. Senhor, e vós autorizais tudo isso!... O ideal, o ideal...

O rei interrompeu:

— Já ouvistes. O que fazer?

E um filósofo da moda:

— Se vós o permitis, senhor, ele pode ganhar a comida com uma caixa de música; podemos colocá-la no jardim, perto dos cisnes, para quando passeardes por lá.

— Sim — disse o rei, e dirigindo-se ao poeta: — Dareis voltas a uma manivela. Fechareis a boca. Fareis soar uma caixa de música que toca valsas, quadrilhas e galopas, se não preferis morrer de fome. Peça de música por pedaço de pão. Nada de geringonças, nem de ideais. Ide.

E desde aquele dia pôde-se ver, à beira do lago dos cisnes, o poeta faminto que dava voltas à manivela: tiriririn, tiriririn... envergonhado sob os olhares do grande sol! Passava o rei pelas proximidades?Tiriririn, tiriririn...! Tinha que encher o estômago? Tiriririn! Tudo em meio às gozações dos pássaros livres, que chegavam para beber o orvalho dos lírios em flor; entre o zunido das abelhas, que lhe mordiam o rosto e enchiam seus olhos de lágrimas, tiriririn...! Lágrimas amargas que rolavam por suas bochechas e caíam na terra preta!

E o inverno chegou, e o pobre sentiu frio no corpo e na alma. E seu cérebro estava como petrificado, e os grandes hinos estavam esquecidos, e o poeta da montanha coroada de águias não era senão um pobre-diabo que dava voltas à manivela, tiriririn.

E quando a neve caiu esqueceram-se dele, o rei e seus vassalos; aos pássaros deram-lhes abrigo, e a ele deixaram-no ao léu glacial que lhe mordia as carnes e lhe açoitava o rosto, tiriririn!

E numa noite em que caía do alto uma chuva branca de peninhas cristalizadas, no palácio havia um festim, e a luz dos lustres ria alegre sobre os mármores e sobre as túnicas dos mandarins das velhas porcelanas. E aplaudiam-se até a loucura os brindes do senhor professor de retórica, perplexo de dátilos, de anapestos e de pirríquios, enquanto nas taças cristalinas fervia o champanhe com seu borbulhar luminoso e fugaz. Noite de inverno, noite de festa! E o desgraçado coberto de neve, perto do lago dando voltas à manivela para esquentar-se tiriririn, tiriririn! Tremendo e paralisado, insultado pelo vento, sob a brancura implacável e gelada, na noite sombria, fazendo ressoar entre as árvores sem folhas a música louca das galopas e quadrilhas; e ficou morto, tiriririn... pensando no sol do dia seguinte que nasceria, e com ele o ideal, tiriririn... e na arte que não ia vestir calças e sim mantos de chamas, ou de ouro... Até que, no dia seguinte, acharam-no o rei e seus cortesãos, ao pobre-diabo de poeta, como beija-flor que mata o gelo, com um sorriso amargo nos lábios, e ainda com a mão na manivela.

Oh, meu amigo! O céu está opaco, o ar frio, o dia triste. Flutuam brumosas e cinzentas melancolias...

Mas como esquenta a alma uma frase, um aperto de mãos a tempo! Até breve!”
Rubén Darío

Liberdade

Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto melhor é quando há bruma.
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca...
Fernando Pessoa

Cartas a um jovem poeta

(Primeira carta)

Paris, 17 de fevereiro de 1903
Prezadíssimo Senhor,

Sua carta alcançou-me apenas há poucos dias. Quero agradecer-lhe a grande e amável confiança. Pouco mais posso fazer. Não posso entrar em considerações acerca da feição de seus versos, pois sou alheio a toda e qualquer intenção crítica. Não há nada menos apropriado para tocar numa obra de arte do que palavras de crítica, que sempre resultam em mal-entendidos mais ou menos felizes. As coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizívies quanto se nos pretenderia fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra nunca pisou. Menos suscetíveis de expressão do que qualquer outra coisa são as obras de arte, — seres misteriosos cuja vida perdura, ao lado da nossa, efêmera.

Depois de feito este reparo, dir-lhe-ei ainda que seus versos não possuem feição própria, somente acenos discretos e velados de personalidade. É o que sinto com a maior clareza no último poema Minha alma. Aí, algo de peculiar procura expressão e forma. No belo poema A Leopardi talvez uma espécie de parentesco com esse grande solitário esteja apontando. No entanto, as poesias nada têm ainda de próprio e de independente, nem mesmo a última, nem mesmo a dirigida a Leopardi. Sua amável carta que as acompanha não deixou de me explicar certa insuficiência que senti ao ler seus versos sem que a pudesse definir explicitamente. Pergunta se os seus versos são bons. Pergunta-o a mim, depois de o ter perguntado a outras pessoas. Manda-os a periódicos, compara-os com outras poesias e inquieta-se quando suas tentativas são recusadas por um ou outro redator. Pois bem — usando da licença que me deu de aconselhá-lo — peço-lhe que deixe tudo isso. O senhor está olhando para fora, e é justamente o que menos deveria fazer neste momento. Ninguém o pode aconselhar ou ajudar, — ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite: "Sou mesmo forçado a escrever?” Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples "sou", então construa a sua vida de acordo com esta necessidade. Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal pressão. Aproxime-se então da natureza. Depois procure, como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde. Não escreva poesias de amor. Evite de início as formas usais e demasiado comuns: são essas as mais difíceis, pois precisa-se de uma força grande e amadurecida para se produzir algo de pessoal num domínio em que sobram tradições boas, algumas brilhantes. Eis por que deve fugir dos motivos gerais para aqueles que a sua própria existência cotidiana lhe oferece; relate suas mágoas e seus desejos, seus pensamentos passageiros, sua fé em qualquer beleza — relate tudo isto com íntima e humilde sinceridade. Utilize, para se exprimir, as coisas do seu ambiente, as imagens dos seus sonhos e os objetos de sua lembrança. Se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair as suas riquezas. Para o criador, com efeito, não há pobreza nem lugar mesquinho e indiferente. Mesmo que se encontrasse numa prisão, cujas paredes impedissem todos os ruídos do mundo de chegar aos seus ouvidos, não lhe ficaria sempre sua infância, esta esplêndida e régia riqueza, esse tesouro de recordações? Volte a atenção para ela. Procure soerguer as sensações submersas deste longínquo passado: sua personalidade há de reforçar-se, sua solidão há de alargar-se e transformar-se numa habitação entre o lusco e fusco diante do qual o ruído dos outros passa longe, sem nela penetrar. Se depois desta volta para dentro, deste ensimesmar-se, brotarem versos, não mais pensará em perguntar seja a quem for se são bons. Nem tão pouco tentará interessar as revistas por esses seus trabalhos, pois há de ver neles sua querida propriedade natural, um pedaço e uma voz de sua vida. Uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade. Neste caráter de origem está o seu critério, — o único existente. Também, meu prezado Senhor, não lhe posso dar outro conselho fora deste: entrar em si e examinar as profundidades de onde jorra sua vida; na fonte desta é que encontrará resposta à questão de saber se deve criar. Aceite-a tal como se lhe apresentar à primeira vista sem procurar interpretá-la. Talvez venha significar que o Senhor é chamado a ser um artista. Nesse caso aceite o destino e carregue-o com seu peso e a sua grandeza, sem nunca se preocupar com recompensa que possa vir de fora. O criador, com efeito, deve ser um mundo para si mesmo e encontrar tudo em si e nessa natureza a que se aliou.

Mas talvez se dê o caso de, após essa decida em si mesmo e em seu âmago solitário, ter o Senhor de renunciar a se tornar poeta. (Basta como já disse, sentir que se poderia viver sem escrever para não mais se ter o direito de fazê-lo). Mesmo assim, o exame de sua consciência que lhe peço não terá sido inútil. Sua vida, a partir desse momento, há de encontrar caminhos próprios. Que sejam bons, ricos e largos é o que lhe desejo, muito mais do que lhe posso exprimir.

Que mais lhe devo dizer? Parece-me que tudo foi acentuado segundo convinha. Afinal de contas, queria apenas sugerir-lhe que se deixasse chegar com discrição e gravidade ao termo de sua evolução. Nada a poderia perturbar mais do que olhar para fora e aguardar de fora respostas a perguntas a que talvez somente seu sentimento mais íntimo possa responder na hora mais silenciosa.

Foi com alegria que encontrei em sua carta o nome do professor Horacek; guardo por este amável sábio uma grande estima e uma gratidão que desafia os anos. Fale-lhe, por favor, neste meu sentimento. É bondade dele lembrar-se ainda de mim; e eu sei apreciá-la.

Restituo-lhe ao mesmo tempo os versos que me veio confiar amigavelmente. Agradeço-lhe mais uma vez a grandeza e a cordialidade de sua confiança. Procurei por meio desta resposta sincera, feita o melhor que pude, tornar-me um pouco mais digno dela do que realmente sou, em minha qualidade de estranho.

Com todo o devotamento e toda a simpatia,
Rainer Maria Rilke

Frases: "As melhores de Bernard Shaw"

“-De uma pequena tolice e uma enorme curiosidade resultam muitos casamentos.

-Um homem sem endereço é vagabundo; com dois endereços é libertino.

-Quando um idiota faz alguma coisa de que se envergonha, diz que está cumprindo um dever.

-O dever de qualquer mulher é casar o mais cedo possível; o de todo homem, continuar solteiro pelo tempo que puder.

-Os melhores reformistas do mundo são os que começaram por reformar-se.

-Quem sabe faz; quem não sabe, ensina.

-De quanto mais coisas um homem se envergonha, mais respeitável se torna.

-A juventude é tão maravilhosa que chega a ser criminoso desperdiçá-la em crianças.

-Há duas tragédias na vida. Uma é não fazer o que o coração deseja. A outra é fazer.”
Roberto Duailibi

A árvore dos sexos

"— Sabes fazer as coisas como devem ser feitas? perguntou a professora, ainda tímida e ruborizada, mas já mais afoita.

Fechara a porta devagar. O rapaz, um brutamontes na aparência, só tinha por si a força revigoradora da natureza. A cara de alarve abonava pouco, com aquelas sobrancelhas bovinas e os orifícios do nariz abertos e dilatados, como se farejasse a distância. Mas era robusto e jovem, e a professora, que até aí se mantivera intacta, dir-se-ia perturbada ao último extremo só ao adivinhar a biloba. Como se as raízes lhe envolvessem o corpo, lhe cocegassem as partes mais íntimas.

— Já estou habituado — orgulhou-se o rapaz. "Sempre será menos burro do que foi a aprender a ler", pensou ela. Com vinte e sete anos, encontrou-se na fase crítica de quem não agüenta mais. E daí talvez agüentasse, não fosse aquele grande desejo que sentira ao apanhar o fruto e ao manuseá-lo. Toda a potencialidade efervescente de vida e prazer havia-se então solto do pequenino sexo. Aquecera-lhe as mãos, e sentira um calor estranho a percorrer-lhe as pernas, um formigueiro como dantes sentia, após andar ao frio quatro quilômetros, de casa até à escola. Ignorante, esmagou o fruto por cima do vestido e os seus dedos ficaram úmidos e viscosos. No dia seguinte provou o fruto. E o desejo aumentou mais ainda. Um desejo diferente dos outros, que lhe secava a garganta e lhe oprimia o peito. Do conjunto de sensações até aí ignoradas, sobressaía o apelo visceral que vence todos os medos. Mal dormiu essa noite, às voltas na cama. Ouvia a chuva, os gemidos do vento, que ela se perguntava se seriam idênticos aos do amor. Tentou ler. Mas as linhas entrecruzavam-se como os fios elétricos vistos do trem. Adormeceu muito tarde, recordando algumas palavras de Mantegazza, que dizia que o pudor é belo, é necessário e humano, mas que devia também ser uma sebe para defender o amor, sem contudo impedir a entrada. Isto é: uma sebe que, picando as mãos, nunca constituísse uma fortaleza impossível de tomar.

Não sendo de uma beleza fora do comum, a professora era, todavia, uma mulher bem fornida e bonita, que já por várias vezes despertara em Dom Inocêncio instintos nada edificantes. Soubera até aí defender-se e, mais importante ainda, ser capaz de se manter sem atacar, suportando uma existência pouco emotiva, alheada que estava dos grandes centros onde tudo sucede sem preparação e sem cálculos. Estivera um dia à beira de um casamento de circunstância, mas tudo ficou por essa beira, e até os beijos que se trocam, temerosos mas violentos, nesses prenúncios de delírio, dera-os e recebera ela à superfície, sem aquela força e profundeza que enrola as línguas frementes na volta para uma etapa final.

Atraíra-o à escola, a pretexto de um pequeno serviço. A sala da aula estava mergulhada numa semipenumbra, com as carteiras desalinhadas e vazias. Junto ao quadro, via-se um velho divã que ela, alguns minutos antes, trouxera da arrecadação. (Vencido esse transe, a ponte estava lançada.) Por menos experiência que se tenha há sempre uma noção exata de posições mais cômodas. E se a verticalidade assenta bem em certos atos, noutros a horizontalidade traz benefícios respeitáveis. A professora conhecia o mar mas jamais havia mergulhado.

Em breve, porém, nadava de bruços, deixando-se afogar nas dores de uma asfixia breve, sem lutas desnecessárias ou o esbracejar dos inaptos, com algumas palavras soltas e queixumes confusos que se perdem na violência de um exercício que sempre se praticou com os mesmos riscos e idênticas vantagens. A princípio nervoso e apressado, o matulão soube, não obstante, comportar-se como um gentleman, não lhe rasgando as roupas e executando tudo tão certinho que a professora, antes de exalar o último suspiro de prazer, pensou que nesse instante era ela a aluna e ele o professor. Resfolegava como uma máquina, mas atuava como um homem que sabe de mecânica, mexendo onde deve ser, friccionando, premindo, aliviando, carregando, oleando, exercendo a atividade do operário que não tem pressas de acabar o serviço.

Por cima do quadro, havia representadas em pequenos cartões as sete cenas alusivas aos pecados mortais. "Soberba não é", pensaria ela, de olhos semicerrados. "Contento-me com um pedaço de felicidade. Sem arrogância. Avareza, também não: estou a gastar tudo o que tenho de mim. Não se trata de luxúria, porque à sensualidade deve opor-se um ato necessário. Tampouco há ira, pois estou calma, cada vez mais calma. Nem inveja. Pelo contrário, neste momento gostaria que todas as mulheres não realizadas pudessem estar assim como eu, numa sala de aula, onde cheira ainda às crianças e pairam ainda as suas gargalhadas. Não há gula, mas sim, e apenas, aquela dose de prazer que deve caber a cada uma. Nem preguiça, já que o meu desejo é de movimento, percorrer distâncias sem sair, porém, do mesmo lugar."

E como não havia nada disso, entregou-se com noventa partes de corpo e dez de alma à fome violenta e retraída do rapaz, que já não era bruto, nem alarve, mas o homem que cumpre uma missão e que ele pela terceira vez cumpria, cada vez com maior consciência profissional.

A chuva batia nos vidros. Caíra a noite. A professora tinha aquelas lágrimas nos olhos que se têm quando se passa no exame. Afagou os cabelos revoltos do rapaz e desceu lentamente a mão trêmula até ao diploma.”
Santos Fernando

Idolatria

“Eu olhava para a estrada e tinha a impressão de que jamais na vida chegaríamos a Nhuporã. Que pedaço brabo. O camaleão se esfregava no chassi e o pai praguejava:

— Caminho do diabo!

Nosso Chevrolet era um trinta e oito de carroceria verde-oliva e cabina da mesma cor, só um nadinha mais escura. No pára-choque havia uma frase sobre amor de mãe e em cima da cabina uma placa onde o pai anunciava que fazia carreto na cidade, fora dela e ele garantia, de boca, que até fora do estado, pois o Chevrolet não se acanhava nas estradas desse mundo de Deus.

Mas o caminho era do diabo, ele mesmo tinha dito. A pouco mais de légua de Nhuporã o caminhão derrapou, deu um solavanco e tombou de ré na valeta. O pai acelerou, a cabina estremeceu. Ouvíamos os estalos da lataria e o gemido das correntes no barro e na água, mas o caminhão não saiu do lugar. Ele deu um murro no guidom.

— Puta merda.

Quis abrir a porta, ela trancou no barranco.

— Abre a tua.

A minha também trancava e ele se arreliou:

— Como é, ô Moleza!

Empurrou-a com violência.

— Me traz aquelas pedras. E vê se arranca um feixe de alecrim, anda.

Agachou-se junto às rodas e começou a fuçar, jogando grandes porções de barro para os lados. Mal ele tirava, novas porções vinham abaixo, afogando as rodas. Com a testa molhada, escavava sem parar, suspirando, praguejando, merda isso e merda aquilo, e de vez em quando, com raiva, mostrava o punho para o caminhão.

O pai era alto, forte, tinha o cabelo preto e o bigode espesso. Não era raro ele ficar mais de mês em viagem e nem assim a gente se esquecia da cara dele, por causa do nariz, chato como o de um lutador. Bastava lembrar o nariz e o resto se desenhava no pensamento.

— Vamos com essas pedras!

Por que falava assim comigo, tão danado? As pedras, eu as sentia dentro do peito, inamovíveis.

— Não posso, estão enterradas.

— Ah, Moleza.

Meteu as mãos na terra e as arrancou uma a uma. Carreguei-as até o caminhão, enquanto ele se embrenhava no capinzal para pegar o alecrim.

— Pai, pai, o caminhão tá afundando!

A cabeça dele apareceu entre as ervas.

— Não vê que é a água que tá subindo, ô pedaço de mula?

E riu. Ficava bonito quando ria, os dentes bem parelhos e branquinhos.

— Tá com fome?

— Não.

— Vem cá.

Tirou do bolso uma fatia de pão.

— Toma.

— Não quero.

— Toma logo, anda.

— E tu?

— Eu o quê? Come isso.

Trinquei o pão endurecido. Estava bom e minha boca se encheu de saliva.

— Acho que não vamos conseguir nada por hoje. De manhãzinha passa a patrola do DAER*, eles puxam a gente.

Atirou a erva longe e entrou na cabina.

— Ô Moleza, vamos tomar um chimarrão?

Fiz que sim. Ao me aproximar, ele me jogou sua japona.

— Veste isso, vai esfriar.

A japona me dava nos joelhos e ele riu de novo, mostrando os dentes.

— Que bela figura.

A cara dele era tão boa e tão amiga que eu tinha uma vontade enorme de me atirar nos seus braços, de lhe dar um beijo. Mas receava que dissesse: como é, Moleza, tá ficando dengoso? Então agüentei firme ali no barro, com as abas da japona me batendo nas pernas, até que ele me chamou outra vez:

— Como é, vens ou não?

Aí eu fui.”
Sérgio Faraco

Romeu e Julieta

(minificções)

1

Ele a esperou na porta do colégio. Com quinze anos, era a primeira vez que se aproximava de uma garota. O rosto queimado, ele conseguiu perguntar se podia acompanhá-la. Ela disse que sim.

Sentindo-se ridículo e nervoso, ele perguntou se ela estava com pressa. Ela falou que não. Então ele perguntou se ela queria ir ao cinema. Ela disse que sim.

Não conseguindo concentrar-se no filme, ele olhava disfarçadamente para ela. Seus olhos se encontraram e ela sorria, dando-lhe a mão.

E ele perguntou, de repente, se podia beijá-la. Ela disse que sim. Então seu coração bateu mais forte, porque ele tinha certeza de que, finalmente, as coisas começariam a acontecer.

2

Eles se aproximavam dos sessenta anos e não mais se procuravam na cama. Mas faziam companhia um ao outro e se gostavam, do modo como as pessoas conseguem se gostar nesta idade.

Mas uma noite ele foi até o armário e pegou uma camisa colorida e escolheu sua melhor calça. E depois ela o surpreendeu passando perfume no corpo e penteando com cuidado que restava o que restava do cabelo. Ele saiu dizendo que ia visitar um amigo, mas ela entendeu logo que era caso de mulher.

Deitada, ela se preparou para uma longa espera. Uma hora mais tarde, porém, ele chegou em casa. Jogando-se na cama, acendeu um cigarro e depois outro, olhando fixamente para o teto. Ela o conhecia em todos os gestos e detalhes e soube, desde o primeiro instante, que ele havia falhado. Ela lhe estendeu uma das mãos, que ele apertou com força.

3

Entre arbustos e gangorras, a primeira vez foi num parque municipal. Ela simulou um orgasmo, para que ele não se decepcionasse. Mas nunca sentiu tanto medo, por causa das pessoas que passavam por perto e principalmente por causa dos guardas noturnos.

Depois ela foi para casa e verificou que havia folhas agarradas a sua pele e pequenas dores no corpo. E até hoje, apesar do medo, ela se lembra daquela noite como a melhor de sua vida.

4

Juntamente com outros mendigos, ela dorme sob um dos viadutos da cidade. Suas roupas estão sujas e rasgadas e seu corpo cheira mal. Quando o homem veio para perto e começou a acariciá-la, ela não chegou a consentir, mas também não o recusou. Então ele foi até o fim, afastando-se, depois, em silêncio. Ela nada obteve que se assemelhasse a um prazer, pois a única coisa que estava apta a sentir, além da fome, era um tremendo cansaço.

5

Quando o noivo chegou, ela percebeu mais uma vez que ele era muito gordo e estava sempre transpirando.

Quando ele a beijou na boca, ela o sentiu repulsivo e teve certeza de que iria traí-lo depois do casamento.

Quando ele falou num sistema de prestações, para comprar os móveis, ela pensou que ele era muito chato.

Quando a irmã veio cumprimentá-los, ela se aconchegou a ele de um modo diferente. Porque nunca admitiria que se percebesse o triste fracasso que eles eram.

E quando, finalmente, ele foi embora, ela meteu-se debaixo do chuveiro, ensaboando-se com cuidado, para tirar o cheiro dele. E pensou que gostaria de ser uma outra pessoa. Bem mais jovem e com todas as possibilidades e que tivesse a força de abandoná-lo. Mas ela não era outra pessoa e foi dormir, sabendo que ele voltaria no dia seguinte.

6

Ele deu um beijo nela, na boca. E depois no pescoço e no ouvido. Ela mostrou para ele a pele toda arrepiada. De cima para baixo, ele foi tirando a roupa dela, enquanto a beijava em todas as partes do corpo. Quando chegou lá embaixo, ela enterrou as unhas nos ombros dele e disse que nunca fizera aquilo antes e que aquilo era muito bom.

7

No vigésimo aniversário de casamento, eles foram jantar num dos melhores restaurantes da cidade. Comeram lagosta e tomaram vinho, voltando para casa levemente embriagados. De brincadeira, ele a carregou nos braços, para a cama. Com um vestido na moda, ela se encontrava bastante desejável para uma mulher de mais de quarenta anos. E ele foi tirando a roupa dela, peça por peça. Explorando-a inteiramente nua, como se fosse pela primeira vez, ele verificou que o corpo dela mostrava uma porção de estrias e veias azuis. Ele bem que tentou o máximo, aquela noite, mas simplesmente não conseguiu afastar seu pensamento daquelas veias azuis.”
Sérgio Sant'Anna

A fruta aberta

“Agora sei quem sou.
Sou pouco, mas sei muito,
porque sei o poder imenso
que morava comigo,
mas adormecido como um peixe grande
no fundo escuro e silencioso do rio
e que hoje é como uma árvore
plantada bem alta no meio da minha vida.

Agora sei as coisa como são.
Sei porque a água escorre meiga
e porque acalanto é o seu ruído
na noite estrelada
que se deita no chão da nova casa.
Agora sei as coisas poderosas
que valem dentro de um homem.

Aprendi contigo, amada.
Aprendi com a tua beleza,
com a macia beleza de tuas mãos,
teus longos dedos de pétalas de prata,
a ternura oceânica do teu olhar,
verde de todas as cores
e sem nenhum horizonte;
com tua pele fresca e enluarada,
a tua infância permanente,
tua sabedoria fabulária
brilhando distraída no teu rosto.


Grandes coisas simples aprendi contigo,
com o teu parentesco com os mitos mais terrestres,
com as espigas douradas no vento,
com as chuvas de verão
e com as linhas da minha mão.
Contigo aprendi
que o amor reparte
mas sobretudo acrescenta,
e a cada instante mais aprendo
com o teu jeito de andar pela cidade
como se caminhasses de mãos dadas com o ar,
com o teu gosto de erva molhada,
com a luz dos teus dentes,
tuas delicadezas secretas,
a alegria do teu amor maravilhado,
e com a tua voz radiosa
que sai da tua boca
inesperada como um arco-íris
partindo ao meio e unindo os extremos da vida,
e mostrando a verdade
como uma fruta aberta.”
Thiago de Mello