Frases: Friedrich Nietzsche

“A vantagem de ter péssima memória é divertir-se muitas vezes com as mesmas coisas boas como se fosse a primeira vez.”

“Se uma mulher tem inclinações eruditas é porque, em geral, há algo de errado na sua sexualidade. A esterilidade predispõe a uma certa masculinidade do gosto; é que o homem, com vossa licença, é de fato «o animal estéril».”

“A vontade é impotente perante o que está para trás dela. Não poder destruir o tempo, nem a avidez transbordante do tempo, é a angústia mais solitária da vontade.”

“Os homens graves e melancólicos ficam mais leves graças ao que torna os outros pesados, o ódio e o amor, e assim surgem de vez em quando à sua superfície.”
Friedrich Nietzsche

Do Caderno H

“A Arte de Ler
O leitor que mais admiro é aquele que não chegou até a presente linha. Neste momento já interrompeu a leitura e está continuando a viagem por conta própria.

A Carta
Quando completei quinze anos, meu compenetrado padrinho me escreveu uma carta muito, muito séria: tinha até ponto-e-vírgula! Nunca fiquei tão impressionado na minha vida.

A Coisa
A gente pensa uma coisa, acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira coisa... e, enquanto se passa tudo isso, a coisa propriamente dita começa a desconfiar que não foi propriamente dita.


As Indagações
A resposta certa, não importa nada: o essencial é que as perguntas estejam certas.

A Voz
Ser poeta não é dizer grandes coisas, mas ter uma voz reconhecível dentre todas as outras.

Ars Longa
Um poema só termina por acidente de publicação ou de morte do autor.

Arte Poética
Esquece todos os poemas que fizeste. Que cada poema seja o número um.

Biografia
Era um grande nome — ora que dúvida! Uma verdadeira glória. Um dia adoeceu, morreu, virou rua... E continuaram a pisar em cima dele.

Cartaz para uma feira do livro
Os verdadeiros analfabetos são os que aprenderam a ler e não lêem.

Citação
De um autor inglês do saudoso século XIX: "O verdadeiro gentleman compra sempre três exemplares de cada livro: um para ler, outro para guardar na estante e o último para dar de presente."

Citação 2
E melhor se poderia dizer dos poetas o que disse dos ventos Machado de Assis: "A dispersão não lhes tira a unidade, nem a inquietude a constância."

Contradições
... mas o que eles não sabem levar em conta é que o poeta é uma criatura essencialmente dramática, isto é, contraditória, isto é, verdadeira.
E por isso, é que o bom de escrever teatro é que se pode dizer, como toda a sinceridade, as coisas mais opostas.
Sim, um autor que nunca se contradiz deve estar mentindo.

Cuidado
A poesia não se entrega a quem a define.

Das Escolas
Pertencer a uma escola poética é o mesmo que ser condenado à prisão perpétua.

Destino Atroz
Um poeta sofre três vezes: primeiro quando ele os sente, depois quando ele os escreve e, por último, quando declamam os seus versos.

Do Estilo
O estilo é uma dificuldade de expressão.

Dos Leitores
Há leitores que acham bom o que a gente escreve. Há outros que sempre acham que poderia ser melhor. Mas, na verdade, até hoje não pude saber qual das duas espécies irrita mais.

Dos Livros
Há duas espécies de livros: uns que os leitores esgotam, outros que esgotam os leitores.

Dupla Delícia
O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado.

Educação
O mais difícil, mesmo, é a arte de desler.

Fatalidade
O que mais enfurece o vento são esses poetas invertebrados que o fazem rimar com lamento.

Feira de Livro
O que os poetas escrevem agrada ao espírito, embeleza a cútis e prolonga a existência.

Leitura
Se é proibido escrever nos monumentos, também deveria haver uma lei que proibisse escrever sobre Shakespeare e Camões.

Leitura 2
Livro bom, mesmo, é aquele de que às vezes interrompemos a leitura para seguir — até onde? — uma entrelinha... Leitura interrompida? Não. Esta é a verdadeira leitura continuada.

Leituras
— Você ainda não leu O Significado do Significado? Não? Assim você nunca fica em dia.
— Mas eu estou só esperando que apareça. O Significado do Significado do Significado.

Leituras 2
Não, não te recomendo a leitura de Joaquim Manuel de Macedo ou de José de Alencar . Que idéia foi essa do teu professor?
Para que havias tu de os ler, se tua avozinha já os leu? E todas as lágrimas que ela chorou, quando era moça como tu, pelos amores de Ceci e da Moreninha, ficaram fazendo parte do teu ser, para sempre.
Como vês, minha filha, a hereditariedade nos poupa muito trabalho.

Lógica & Linguagem
Alguém já se lembrou de fazer um estudo sobre a estatística dos provérbios? Este, por exemplo: "Quem cospe para o céu, na cara lhe cai". Tal desarranjo sintático faria a antiga análise lógica perder de súbito a razão.

O Assunto
E nunca me perguntes o assunto de um poema: um poema sempre fala de outra coisa.

O Poema
O poema essa estranha máscara mais verdadeira do que a própria face.

O Trágico Dilema
Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro.

Palavra Escrita
Por vezes, quando estou escrevendo este cadernos, tenho um medo idiota de que saiam póstumos. Mas haverá coisa escrita que não seja póstuma? Tudo que sai impresso é epitáfio.

Poema
Mas por que datar um poema? Os poetas que põem datas nos seus poemas me lembram essas galinhas que carimbam os ovos...

Poesia & Lenço
E essa que enxugam as lágrimas em nossos poemas com defluxos em lenços... Oh! tenham paciência, velhinhas... A poesia não é uma coisa idiota: a poesia é uma coisa louca!

Poesia & Peito
Qual Ioga, qual nada! A melhor ginástica respiratória que existe é a leitura, em voz alta, dos Lusíadas.

Refinamentos
Escrever o palavrão pelo palavrão é a modalidade atual da antiga arte pela arte.

Ressalva
Poesia não é a gente tentar em vão trepar pelas paredes, como se vê em tanto louco aí: poesia é trepar mesmo pelas paredes.


Sinônimos
Esses que pensam que existem sinônimos, desconfio que não sabem distinguir as diferentes nuanças de uma cor.

Sonho
Um poema que ao lê-lo, nem sentirias que ele já estivesse escrito, mas que fosse brotando, no mesmo instante, de teu próprio coração.

Tempo
Coisa que acaba de deixar a querida leitora um pouco mais velha ao chegar ao fim desta linha.

Veneração
Ah, esses livros que nos vêm às mãos, na Biblioteca Pública e que nos enchem os dedos de poeira. Não reclames, não. A poeira das bibliotecas é a verdadeira poeira dos séculos.


Vida
Só a poesia possui as coisas vivas. O resto é necropsia.”
Mário Quintana

Se eu fosse um padre

“Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,
não falaria em Deus nem no Pecado
— muito menos no Anjo Rebelado
e os encantos das suas seduções,

não citaria santos e profetas:
nada das suas celestiais promessas
ou das suas terríveis maldições...
Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,

Rezaria seus versos, os mais belos,
desses que desde a infância me embalaram
e quem me dera que alguns fossem meus!

Porque a poesia purifica a alma
...e um belo poema — ainda que de Deus se aparte —
um belo poema sempre leva a Deus!”
Mário Quintana

Pessoa

“Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e a arte de representar) entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida - umas porque usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana. Não é o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso.”
Fernando Pessoa

Oh! Terra de muro baixo

“O cego Damasceno fazia ponto no antigo Mercado Modelo da Praça Cayru. Mestiço de estatura mediana, ao que se sabe teria nascido em Maragogipe e veio a Salvador, pela primeira vez, ainda rapazote, junto a uma carga de potes e moringas trazida pelo saveiro Estrela do Oriente.

Depois da primeira viagem viciou. Vinha e voltava com um tio que fazia a linha entre o Recôncavo e a rampa do mercado, às vezes ficando dois, três dias na capital, entre uma viagem e outra.

A cada estada que fazia em Salvador ia gostando mais da cidade, fazendo amigos na rampa, conhecendo barraqueiros no interior do mercado, sempre cativando um e outro com suas brincadeiras e sobretudo com seu assovio.

Damasceno era especialista em assoviar. Dedicara-se desde pequeno a essa arte e tornara-se um craque, com interpretações brilhantes de músicas difíceis, tais como Tico-tico no fubá, Brasileirinho, Assustado e até peças de Ernesto Nazaré e de Pixinguinha. Possuía uma técnica especial e tirava trinados belíssimos, ora em repiques, como se fosse um canário da terra, ora em longos silvos, exibindo o seu fôlego.

Com o passar dos anos, Damasceno foi deixando a costela do tio e passou a morar em Salvador, no final de linha do Jardim Cruzeiro, depois que conheceu uma vendedora de mingau de tapioca e de lelê que fazia ponto numa das portas do mercado e se amasiou com ela. Aí, em vez de retornar à Maragogipe com o tio, ficava na capital para um salamaleque, um aconchego com a “Raimunda”, até que se estabeleceu de vez na casa da comadre.

Damasceno não era de se desprezar. É certo que não enxergava mas tinha outras virtudes as quais eram de muito agrado da freguesa do mingau. Além disso, possuía um bigodinho ralo e felpudo, considerado sensual e, com a arte de assoviar, ganhava algum dinheiro e até já fazia fama entre barraqueiros que o requisitavam para apresentações a turistas.

Criou até a roda do assovio e juntava gente naquele burburinho que era o mercado para ouvir sua flauta mágica interior. Nas apresentações, sempre terminava seus concertos executando o Hino Nacional estilizado ao seu modo, com uma abertura pomposa parecendo uma banda marcial e um grand-finalle arrebatador.

O escritor argentino Jorge Luís Borges dizia que ser cego tem suas vantagens. O dom artístico é uma delas e o prazer dos versos a seguinte. Em Blake, um soneto que escreveu para o livro A Cifra recita: “Onde estará a rosa que em tua mão/ pródiga, sem saber, íntimos dons?/ Não está na cor, porque a flor é cega/ nem na doce fragrância inesgotável,/ nem no peso da pétala”.

Damasceno era a Rosa Púrpura. Em pouco tempo, constituiu família e juntou o útil ao agradável. Quando o mingau de dona Didi terminava, a própria comparecia à roda do concerto para arrecadar os trocados que a população e os turistas ofertavam ao ceguinho. Corria o chapéu rebolando o traseiro e exibindo-se no alto de um tamanco de madeira com tiras de couro.

Na década de 60, com o incêndio do mercado, quase também ocorre uma tragédia na vida de Damasceno. Ficou desnorteado. As chamas destruíram o seu ponto de trabalho e, conseqüentemente, o seu ganho diário. Somados os anos, já estava há mais de 17 vivendo daquela prosa. Agora, onde iria encontrar os turistas, onde Didi venderia o mingau, onde tomaria sua pinga diária e até onde iria fazer suas necessidades fisiológicas. Mínimos detalhes que passavam por sua cabeça.

Orientado por Didi, estabeleceu-se nas portas do Elevador Lacerda, onde desciam e subiam milhares de passageiros diariamente. Não havia o charme nem o cheiro do mercado, do camarão seco e do peixe fresco, mas a possibilidade de ganho era real.

Assim Damasceno passou a dar um turno na entrada do Elevador, na Cayru, na Cidade Baixa, e o outro turno na saída, na Cidade Alta.

Certo dia, estava a fazer ponto na Praça Municipal quando lhe deu uma tremenda vontade de urinar. Estava no meio de uma apresentação e, de súbito, interrompeu o concerto. Aflito, tomou da bengala e saiu tateando em direção à Pastelaria Triunfo, na Ladeira da Praça, procurando, dessa forma, chegar ao mictório.

Um baiano caridoso, senhor de idade, vendo a aflição do ceguinho, aproximou-se e perguntou se o amigo estava precisando de alguma ajuda. Ao que Damasceno respondeu:

— Leve-me até a Triunfo pois necessito urgente tirar água do joelho.

O cidadão tomou o ceguinho pelo braço, deu umas duas ou três voltas na praça e, ao chegar no centro disse:

— Pode tirar a água do joelho neste local que ninguém está vendo. Há um muro alto e você não precisa ir até a pastelaria.

Damasceno não contou prosa: abriu a braguilha, retirou a “marinheira” e passou a aliviar-se.

No momento em que começou a irrigar a praça, populares que iam passando em direção ao elevador começaram a fazer blague: "Ei!, ai não é lugar, meu irmão", "Oh! Bahêa, toma vergonha na cara", "Praça não é pinico".

Damasceno, que estava muito apertado, não deu a menor atenção aos dichotes. Pacientemente, molhou a praça e, com calma, balançou a “frasqueira”, esperou que os pingos finais do xixi não molhassem sua calça e colocou-a para dentro. Em seguida, tateando em direção à Rua Chile, como retratou o poeta Milton: In this dark world and wide (neste mundo escuro e vasto) que é justamente o mundo dos cegos quando estão a sós, saiu a resmungar:

— Oh! terra de muro baixo.”
Tasso Franco

O próximo candidato

"Ainda jovem (mas já viúva) disfarça, com o desplante de uma cocotte, o grande e belo sorriso que Da Vinci consideraria ingênuo. É um belo sorriso que lhe banha a costa ocidental do rosto e abre uma covinha a nordeste. Tudo nela reflete o louco desejo de vir a ser viúva mais vezes. Consegui-lo-á porque, mulheres destas, persistentes e argutas, fazem amiúde da pertinácia uma fonte de inesgotáveis receitas.

Junto dela, enlevado e quase tímido, o próximo candidato. É um homem normal, o que é difícil afirmar de alguém que está vestido. Quando fala é como se procurasse as palavras num grande bolso cheio de dentes.

— Tem um lindo gato, minha senhora.

A jovem viúva retifica:

— Não é bem gato. Pertence à família dos Félidas.

O próximo candidato rebusca na memória.

— Félidas? Desconheço. Estou, aliás, como sabe, há dois dias na cidade. Mas seja como for, o gato passa ótimamente por gato.

— Mas não é. O paladar é totalmente diferente. O gato é mais doce.

— Sim, — concorda o homem, disposto de antemão a concordar com tudo — sobremaneira o siamês. Já o angorá é meio seco. E o persa, bruto. Diz então a senhora que não é gato?

A jovem viúva abana negativamente a cabecinha.

— Posso garantir-lhe. Foi o meu defunto que o trouxe da Índia.

— Antes de morrer, presumo.

— Bom. Nessa altura ainda não falecera. Mas já estava morto. Dormi quatro anos com um morto.

— Devia ter sido horrível.

Após dizer isso, e desvanecido com o animal, o próximo candidato reforça a idéia engatilhada:

— Pois em qualquer lado que o visse, afirmaria: eis aqui um estupendo, um formidável gato. No entanto, a senhora está certa: o gato é mais doce. Mesmo bastante mais doce do que o cão. A não ser o bull-dog. Gosta?

— Só com muito picante.

Após essa confissão, a juvem viúva enrubece ligeiramente, mantendo-se quieta e direita ao canto do sofá forrado de sarapilheira com frívolas flores campesinas estampadas.

— Não é então um gato?

Movimentos oscilatórios negativos da bela cabeça.

— Não, é tigre. Tigre de Bengala.

— Eis, pois, como eu gosto dos tigres: de Benegala. Já tive um, famélico e velho. Uma fraca figura. Um tigre de província.

A jovem viúva solta uma curta gargalhadinha, que já não fica mal seis meses após o óbito.

— E alimenta-se com prodigalidade, este seu tigre que imita tão bem um gato?

A airosa cabecinha mexe-se para cima e para baixo — um curioso sino de ouro, silencioso mas retumbante. E logo:

— Um tanto esquisito nas ementas, mas quando gosta, como que é um prazer observá-lo. A última coisa que comeu com muito agrado foi meu marido.

— Ah, sim?

— Sim.

— E de uma só vez?

— Oh, não. Pedaço a pedaço. Há ainda um bom naco no congelador.

O candidato ao amor da jovem viúva sorri num crescendo de enlevo e inquire com ar científico:

— Duro de roer, talvez, o ex-marido da senhora?

— Um pouco. Mas o meu tigre tem uma bela dentadura natural que faz inveja à opinião dos médicos de todo o mundo. Quer experimentar?

— Que prazer...

A jovem viúva chama o tigre, como quem chama um bichano. O animal aproxima-se do homem.

— Um verdadeiro gato de mansidão — diz, estendendo a destra até à boca do tigre. — Pronto, já me papou dois dedos. Que rapidez.

A jovem viúva finge-se comovida. O homem, afoito, determina:

— Vou dar-lhe os outros três dedos, para não ficar com a mão defeituosa. — Tira o anel. — Poderia partir um molar... Que limpeza! — e num rasgo de carinho: — Agora que fiquei sem mão, é altura de lhe pedir a sua.

A jovem viúva faz-se de um escarlate de reposteiro de veludo e simula segurar um peito que está longe de cair com medíocres números de fantasia. Muda o fio da conversa:

— Quer ver como ele é obediente?

(Não é o peito, senhores, é o tigre!)

— Estou vendo — suspira —, estou vendo. — Obediente e firme.

(Talvez ele agora se não referisse ao tigre!)

— É um animal que não come nada sem autorização. Repare... Agora, o queridinho não toca neste senhor.
O tigre lambe uma pata e fica muito quieto.

Um autêntico gato.

— O queridinho, agora, pode comer uma orelha a este senhor.

O tigre soergue-se, por segundos. Parece deliciar-se numa carícia vaga.

— Colossal. Mesmo pela base. Permite que lhe dê a outra?


— Por quem é. Ele adora orelhas. Já no que diz respeito a narizes, é um niquento. Detesta-os.

— Um autêntico gato.

— Que não arranha ninguém, aliás.

— Pode afirmá-lo, minha senhora. Levou-me ambas as orelhas sem uma única arranhadela. Este animal num circo...

— O meu marido fez a experiência. Mas o tigre comia os domadores e os espectadores gordos das primeiras filas. É um desses animaizinhos predestinados a atuar em família.

— Um autêntico gato.

— É pena andar um pouco triste — murmura a jovem viúva. — Morreu-lhe a fêmea, há poucos dias. Alivia agora o seu luto de fera. Ainda ontem comeu um mulato que veio aí para soldar um cano.

O futuro candidato solta uma longa exclamação, perguntando respeitosamente:

— E quais são os pratos favoritos deste tigre que parece mesmo um gato?

A jovem viúva baixa a voz e sopra junto das ex-orelhas do seu atual pretendente:

— Perna de padeiro, às segundas. Mão de cobrador, às terças. Braço de carteiro, às quartas. Pé de vendedor ambulante, às quintas. Às sextas, dia de peixe, nem peixe nem carne, adora mastigar políticos.

— Das direitas?

— De qualquer lado.

— E ao sábado e ao domingo? — o homem quer saber tudo, como se fosse casar com o tigre.
E ela, acessível nas explicações:

— Aos sábados e domingos, é vegetariano. Só come jardineiro ao natural e hortelão com salada russa.

— Um perfeito cavalheiro, este animal — confessa respeitoso o futuro candidato. — E as pessoas cá do prédio? Ninguém reclama por a senhora ter um tigre de Bengala em casa?

— Ah, sim. Às vezes vêm aí, batem à porta e a criada abre. Se é de manhã, o tigre toma o seu pequeno almoço de vizinho do segundo esquerdo. Se é à tarde, o tigre toma o seu lanche de vizinha do primeiro direito.

— E à noite, ao jantar?

— Já não há reclamações.

— Não? Por quê?

— Porque já não há vizinhos.

O tigre dá uma marradinha no colo da dona. A jovem viúva suspira profundamente como se lesse o "Kama Soutra".

— Um autêntico gatinho — diz o futuro candidato.

— Cuidado — aconselha a viúva. — A sua cabeça está muito perto da boca do tigre.

— Não tem importância — exclama o futuro candidato. — Trata-se de um autêntico ga...”
Santos Fernando

Esperança

“Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...”
Mário Quintana

O Outro

"Eu chegava todo dia no meu escritório às oito e trinta da manhã. O carro parava na porta do prédio e eu saltava, andava dez ou quinze passos, e entrava.

Como todo executivo, eu passava as manhãs dando telefone¬mas, lendo memorandos, ditando cartas à minha secretária e me exasperando com problemas. Quando chegava a hora do almoço, eu havia trabalhado duramente. Mas sempre tinha a impressão de que não havia feito nada de útil.

Almoçava em uma hora, às vezes uma hora e meia, num dos restaurantes das proximidades, e voltava para o escritório. Havia dias em que eu falava mais de cinqüenta vezes ao telefone. As cartas eram tantas que a minha secretária, ou um dos assistentes, assinava por mim. E, sempre, no fim do dia, eu tinha a impressão de que não havia feito tudo o que precisava ser feito. Corria contra o tempo. Quando havia um feriado, no meio da semana, eu me irritava, pois era menos tempo que eu tinha. Levava diariamente trabalho para casa, em casa podia produzir melhor, o telefone não me chamava tanto.

Um dia comecei a sentir uma forte taquicardia. Aliás, nesse mesmo dia, ao chegar pela manhã ao escritório surgiu ao meu lado, na calçada, um sujeito que me acompanhou até a porta dizendo "doutor, doutor, será que o senhor podia me ajudar?". Dei uns trocados a ele e entrei. Pouco de¬pois, quando estava falando ao telefone para São Paulo, o meu coração disparou. Durante alguns minutos ele bateu num ritmo fortíssimo, me deixando extenuado. Tive que deitar no sofá, até passar. Eu estava tonto, suava muito, quase desmaiei.

Nessa mesma tarde fui ao cardiologista. Ele me fez um exame minucioso, inclusive um eletrocardiograma de esforço, e, no final, disse que eu precisava diminuir de peso e mudar de vida. Achei graça. Então, ele recomendou que eu parasse de trabalhar por algum tempo, mas eu disse que isso, também, era impossível. Afinal, me prescreveu um regime alimentar e mandou que eu caminhasse pelo menos duas vezes por dia.

No dia seguinte, na hora do almoço, quando fui dar a caminhada receitada pelo médico, o mesmo sujeito da véspera me fez parar pedindo dinheiro. Era um homem branco, forte, de cabelos castanhos compridos. Dei a ele algum dinheiro e prossegui.

O médico havia dito, com franqueza, que se eu não tomasse cuidado poderia a qualquer momento ter um enfarte. Tomei dois tranqüilizantes, naquele dia, mas isso não foi suficiente para me deixar totalmente livre da tensão. À noite não levei trabalho para casa. Mas o tempo não passava. Tentei ler um livro, mas a minha atenção estava em outra parte, no escritório. Liguei a televisão mas não consegui agüentar mais de dez minutos. Voltei da minha caminhada, depois do jantar, e fiquei impaciente sentado numa poltrona, lendo os jornais, irritado.}

Na hora do almoço o mesmo sujeito emparelhou comigo, pedindo dinheiro. "Mas todo dia?", perguntei. "Doutor", ele respondeu, "minha mãe está morrendo, precisando de remédio, não conheço ninguém bom no mundo, só o senhor." Dei a ele cem cruzeiros.

Durante alguns dias o sujeito sumiu. Um dia, na hora do almoço, eu estava caminhando quando ele apareceu subitamente ao meu lado. "Doutor, minha mãe morreu”. Sem parar, e apressando o passo, respondi, "sinto muito". Ele alargou as suas passadas, mantendo-se ao meu lado, e disse "morreu". Tentei me desvencilhar dele e comecei a andar rapidamente, quase correndo. Mas ele correu atrás de mim, dizendo "morreu, morreu, morreu", estendendo os dois braços contraídos numa expectativa de esforço, como se fossem colocar o caixão da mãe sobre as palmas de suas mãos. Afinal, parei ofegante e perguntei, "quanto é?". Por cinco mil cruzeiros ele enterrava a mãe. Não sei por que, tirei um talão de cheques do bolso e fiz ali, em pé na rua, um cheque naquela quantia. Minhas mãos tremiam. "Agora chega!”, eu disse.

No dia seguinte eu não saí para dar a minha volta. Almocei no escritório. Foi um dia terrível, em que tudo dava errado: papéis não foram encontrados nos arquivos, uma importante concorrência foi perdida por diferença mínima; um erro no planejamento financeiro exigiu que novos e complexos cálculos orçamentários tivessem que ser elaborados em regime de urgência. À noite, mesmo com os tranqüilizantes, mal consegui dormir.

De manhã fui para o escritório e, de certa forma, as coisas melhoraram um pouco. Ao meio-dia saí para dar a minha volta.

Vi que o sujeito que me pedia dinheiro estava em pé, meio escondido na esquina, me espreitando, esperando eu passar. Dei a volta e caminhei em sentido contrario. Pouco depois ouvi o barulho de saltos de sapatos batendo na calçada como se alguém estivesse correndo atrás de mim. Apressei o passo, sentindo um aperto no coração, era como se eu estivesse sendo perseguido por alguém, um sentimento infantil de medo contra o qual tentei lutar, mas neste instante ele chegou ao meu lado, dizendo, "doutor, doutor". Sem parar, eu perguntei, "agora o quê?". Mantendo-se ao meu lado, ele disse, "doutor, o senhor tem que me ajudar, não tenho ninguém no mundo". Respondi com toda autoridade que pude colocar na voz, "arranje um emprego". Ele disse, "eu não sei fazer nada, o senhor tem que me ajudar". Corríamos pela rua. Eu tinha a impressão de que as pessoas nos observavam com estranheza. "Não tenho que ajudá-lo coisa alguma", respondi. "Tem sim, senão o senhor não sabe o que pode acontecer", e ele me segurou pelo braço e me olhou, e pela primeira vez vi bem como era o seu rosto, cínico e vingativo. Meu coração batia, de nervoso e cansaço. "É a última vez", eu disse, parando e dando dinheiro para ele, não sei quanto.

Mas não foi a última vez. Todos os dias ele surgia, repentina¬mente, súplice e ameaçador, caminhando ao meu lado, arruinando a minha saúde, dizendo é a última vez doutor, mas nunca era. Minha pressão subiu ainda mais, meu coração explodia só de pensar nele. Eu não queria mais ver aquele sujeito, que culpa eu tinha de ele ser pobre?

Resolvi parar de trabalhar uns tempos. Falei com os meus colegas de diretoria, que concordaram com a minha ausência por dois meses.

A primeira semana foi difícil. Não é simples parar de repente de trabalhar. Eu me senti perdido, sem saber o que fazer. Mas aos poucos fui me acostumando. Meu apetite aumentou. Passei a dormir melhor e a fumar menos. Via televisão, lia, dormia depois do almoço e andava o dobro do que andava antes, sentindo-me ótimo. Eu estava me tornando um homem tranqüilo e pensando seriamente em mudar de vida, parar de trabalhar tanto.

Um dia saí para o meu passeio habitual quando ele, o pedinte, surgiu inesperadamente. Inferno, como foi que ele descobriu o meu endereço? "Doutor, não me abandone!" Sua voz era de mágoa e ressentimento. "Só tenho o senhor no mundo, não faça isso de novo comigo, estou precisando de um dinheiro, esta é a última vez, eu juro!" — e ele encostou o seu corpo bem junto ao meu, enquanto caminhávamos, e eu podia sentir o seu hálito azedo e podre de faminto. Ele era mais alto do que eu, forte e ameaçador.

Fui na direção da minha casa, ele me acompanhando, o rosto fixo virado para o meu, me vigiando curioso, desconfiado, implacável, até que chegamos na minha casa. Eu disse, "espere aqui".

Fechei a porta, fui ao meu quarto. Voltei, abri a porta e ele ao me ver disse "não faça isso, doutor, só tenho o senhor no mundo". Não acabou de falar ou se falou eu não ouvi, com o barulho do tiro. Ele caiu no chão, então vi que era um menino franzino, de espinhas no rosto e de uma palidez tão grande que nem mesmo o sangue, que foi cobrindo a sua face, conseguia esconder.”
Rubem Fonseca

Eu queria trazer-te uns versos muito lindos

"Eu queria trazer-te uns versos muito lindos
colhidos no mais íntimo de mim...
Suas palavras
seriam as mais simples do mundo,
porém não sei que luz as iluminaria
que terias de fechar teus olhos para as ouvir...
Sim! Uma luz que viria de dentro delas,
como essa que acende inesperadas cores
nas lanternas chinesas de papel!
Trago-te palavras, apenas... e que estão escritas
do lado de fora do papel... Não sei, eu nunca soube o que dizer-te
e este poema vai morrendo, ardente e puro, ao vento
da Poesia...
como
uma pobre lanterna que incendiou!”
Mario Quintana