Seja qual for a diferença que exista entre os bons e os maus
exemplos, convenhamos que ambos dão mau resultado. Nem sequer sei se os crimes
de Tibério ou de Nero nos afastam mais dos vícios do que os exemplos
paradigmáticos dos grandes homens que supostamente nos encaminham para a
virtude. Veja-se como a valentia de Alexandre produziu gabarolas! Veja-se até
que ponto a glória de César permitiu actos antipáticos! Repare-se como Roma e
Esparta louvaram virtudes selvagens!
Diógenes criou tantos filósofos
importunos, Cícero citou tagarelas, Pompónio Ático citou pessoas medíocres e
preguiçosas, Mário e Sila, pessoas vingativas, Lucullus, pessoas voluptuosas,
Alcibíades e António citaram debochados e Capão citou pessoas teimosas! Todos
estes famosos protótipos produziram um número enorme de más reproduções. As
virtudes são vizinhas dos vícios. Os exemplos são guias que nos desencaminham
com frequência e, como estamos tão cheios de mentiras, não deixamos de usá-las
tanto para nos afastarmos do caminho da virtude como para segui-lo.
La Rochefoucauld, in 'Reflexões'
A Insociável Sociabilidade dos Homens
O meio que a natureza utiliza para levar a
bom termo o desenvolvimento de todas as suas disposições é o seu antagonismo no
interior da sociedade, na medida em que este é, no entanto, no final de contas,
a causa de uma organização regular dessa sociedade. Entendo aqui por
antagonismo a insociável sociabilidade dos homens, ou seja, a sua inclinação
para entrar em sociedade, inclinação que é contudo acompanhada de uma repulsa
geral a entrar em sociedade, que ameaça constantemente desagregá-la.
Emmanuel Kant, in 'Ideia de um História Universal de um Ponto de Vista Cosmopolita'
Emmanuel Kant, in 'Ideia de um História Universal de um Ponto de Vista Cosmopolita'
Ofício de Amar
já não necessito de ti
tenho a companhia nocturna dos animais e a peste
tenho o grão doente das cidades erguidas no princípio doutras
[galáxias, e
[o remorso
um dia pressenti a música estelar das pedras, abandonei-me ao silêncio
é lentíssimo este amor progredindo com o bater do coração
não, não preciso mais de mim
possuo a doença dos espaços incomensuráveis
e os secretos poços dos nómadas
ascendo ao conhecimento pleno do meu deserto
deixei de estar disponível, perdoa-me
se cultivo regularmente a saudade de meu próprio corpo
Al Berto, “O Medo”
tenho a companhia nocturna dos animais e a peste
tenho o grão doente das cidades erguidas no princípio doutras
[galáxias, e
[o remorso
um dia pressenti a música estelar das pedras, abandonei-me ao silêncio
é lentíssimo este amor progredindo com o bater do coração
não, não preciso mais de mim
possuo a doença dos espaços incomensuráveis
e os secretos poços dos nómadas
ascendo ao conhecimento pleno do meu deserto
deixei de estar disponível, perdoa-me
se cultivo regularmente a saudade de meu próprio corpo
Al Berto, “O Medo”
O Efeito do Ciúme
Quanto mais se fala do próprio ciúme, mais
os lugares que desagradaram aparecem de todos os lados; as menores
circunstâncias os mudam, e fazem sempre descobrir algo de novo.
Essas novidades fazem rever sob outros
aspectos o que se acreditava ter visto e pesado o suficiente; tenta-se apegar a
uma opinião e não se apega a nada; tudo o que é mais oposto e está mais apagado
apresenta-se a um só tempo; quer-se odiar e quer-se amar, mas ama-se ainda
quando se odeia, e odeia-se ainda quando se ama; acredita-se em tudo, e
duvida-se de tudo; tem-se vergonha e despeito por ter acreditado e duvidado;
trabalha-se incessantemente para deter a própria opinião, e nunca ela é
conduzida para um lugar fixo. (...)
Não se é feliz o bastante para ousar crer
no que se deseja, nem mesmo feliz o bastante também para ter a certeza do que
se teme mais. Fica-se sujeito a uma incerteza eterna, que nos apresenta
sucessivamente bens e males que nos escapam sempre.
La Rochefoucauld, in 'Máximas'
La Rochefoucauld, in 'Máximas'
Mais Nada se Move em Cima do Papel
mais nada se move em cima do papel
nenhum olho de tinta iridescente pressagia
o destino deste corpo
os dedos cintilam no húmus da terra
e eu
indiferente à sonolência da língua
ouço o eco do amor há muito soterrado
encosto a cabeça na luz e tudo esqueço
no interior desta ânfora alucinada
desço com a lentidão ruiva das feras
ao nervo onde a boca procura o sul
e os lugares dantes povoados
ah meu amigo
demoraste tanto a voltar dessa viagem
o mar subiu ao degrau das manhãs idosas
inundou o corpo quebrado pela serena desilusão
assim me habituei a morrer sem ti
com uma esferográfica cravada no coração
Al Berto, “O Medo”
nenhum olho de tinta iridescente pressagia
o destino deste corpo
os dedos cintilam no húmus da terra
e eu
indiferente à sonolência da língua
ouço o eco do amor há muito soterrado
encosto a cabeça na luz e tudo esqueço
no interior desta ânfora alucinada
desço com a lentidão ruiva das feras
ao nervo onde a boca procura o sul
e os lugares dantes povoados
ah meu amigo
demoraste tanto a voltar dessa viagem
o mar subiu ao degrau das manhãs idosas
inundou o corpo quebrado pela serena desilusão
assim me habituei a morrer sem ti
com uma esferográfica cravada no coração
Al Berto, “O Medo”
O Outro como Motivo da nossa Infelicidade
Pergunta-se por que todos os homens juntos
não compõem uma única nação e não quiseram falar uma única língua, viver sob as
mesmas leis, combinar entre eles os mesmos costumes e um mesmo culto; e eu,
pensando na contrariedade dos espíritos, dos gostos e dos sentimentos,
surpreendo-me ao ver até sete ou oito pessoas reunirem-se sob um mesmo tecto,
num mesmo recinto e compor uma única família.
(...) Buscamos a nossa felicidade fora de nós mesmos e na opinião de homens que sabemos aduladores, pouco sinceros, sem equidade, cheios de inveja, de caprichos e preconceitos. Que extravagância!
Jean de La Bruyére, in 'Do Homem'
(...) Buscamos a nossa felicidade fora de nós mesmos e na opinião de homens que sabemos aduladores, pouco sinceros, sem equidade, cheios de inveja, de caprichos e preconceitos. Que extravagância!
Jean de La Bruyére, in 'Do Homem'
Foram Breves e Medonhas as Noites de Amor
foram breves e medonhas as noites de amor
e regressar do âmago delas esfiapava-lhe o corpo
habitado ainda por flutuantes mãos
estava nu
sem água e sem luz que lhe mostrasse como era
ou como poderia construir a perfeição
os dias foram-se sumindo cor de chumbo
na procura incessante doutra amizade
que lhe prolongasse a vida
e uma vez acordou
caminhou lentamente por cima da idade
tão longe quanto pôde
onde era possível inventar outra infância
que não lhe ferisse o coração
Al Berto, “O Medo”
habitado ainda por flutuantes mãos
estava nu
sem água e sem luz que lhe mostrasse como era
ou como poderia construir a perfeição
os dias foram-se sumindo cor de chumbo
na procura incessante doutra amizade
que lhe prolongasse a vida
e uma vez acordou
caminhou lentamente por cima da idade
tão longe quanto pôde
onde era possível inventar outra infância
que não lhe ferisse o coração
Al Berto, “O Medo”
O Futuro é dos Virtuosos e dos Capazes
É preciso confessar, o presente é dos
ricos, e o futuro é dos virtuosos e dos capazes. Homero ainda vive, e viverá
sempre; os recebedores de direitos, os publicanos, não existem mais: existiram
algum dia? A sua pátria, os seus nomes, são conhecidos? Houve arrecadores de
impostos na Grécia? Que fim levaram essas personagens que desprezavam Homero,
que só pensavam, na rua, em evitá-lo, não correspondiam à sua saudação, ou o
saudavam pelo nome, desdenhavam associá-lo à sua mesa, olhavam-no como um home
que não era rico e fazia um livro?
O mesmo orgulho que faz elevar-se
altivamente acima dos seus inferiores, faz rastejar vilmente diante dos que
estão acima de si. É próprio deste vício, que não se funda sobre o mérito
pessoal nem sobre a virtude, e sim sobre as riquezas, cargos, crédito, e sobre
ciências vãs, levar-nos igualmente a desprezar os que têm menos essa espécie de
bens do que nós e a apreciar demais aqueles que têm uma medida que excede a
nossa.
Há almas sujas, amassadas com lama e sujidade, tomadas pelo desejo de ganho e interesse, como as belas almas o são pelo da glória e da virtude: capazes de uma única volúpia, que é a de adquirir ou de não perder; ansiosas e ávidas pela décima prestação, a baixa dos preços, a queda do curso das moedas, mergulhadas e como que submersas nos contratos, títulos, pergaminhos. Gente dessa marca não é parente, nem amigo, nem concidadão, nem cristão, nem pode ser homem: é feita de dinheiro.
Jean de La Bruyére, in "Os Caracteres"
Há almas sujas, amassadas com lama e sujidade, tomadas pelo desejo de ganho e interesse, como as belas almas o são pelo da glória e da virtude: capazes de uma única volúpia, que é a de adquirir ou de não perder; ansiosas e ávidas pela décima prestação, a baixa dos preços, a queda do curso das moedas, mergulhadas e como que submersas nos contratos, títulos, pergaminhos. Gente dessa marca não é parente, nem amigo, nem concidadão, nem cristão, nem pode ser homem: é feita de dinheiro.
Jean de La Bruyére, in "Os Caracteres"
Se ao Mundo Predissesses teu Morrer
Se ao mundo predissesses teu morrer
na morte a natureza ir-te-ia à frente
volvendo com mandado intransigente
no eterno esquecimento o próprio ser
O céu se rosaria docemente
por do teu corpo a roupa enfim descer
florestas tingiria o teu sofrer
de negro e a noite o mar barca silente
Luto sem nome com estrelas mede
a estela ao teu olhar no arco celeste
e a escuridão de espesso muro impede
que a luz da nova primavera preste
A estação vê nos astros que pararam
as cisternas que a morte te espelharam.
Walter Benjamin, in "Sonetos"
na morte a natureza ir-te-ia à frente
volvendo com mandado intransigente
no eterno esquecimento o próprio ser
O céu se rosaria docemente
por do teu corpo a roupa enfim descer
florestas tingiria o teu sofrer
de negro e a noite o mar barca silente
Luto sem nome com estrelas mede
a estela ao teu olhar no arco celeste
e a escuridão de espesso muro impede
que a luz da nova primavera preste
A estação vê nos astros que pararam
as cisternas que a morte te espelharam.
Walter Benjamin, in "Sonetos"
A Tranquilidade do Assumir da Nossa Condição
Temos pelos nobres e para as pessoas de
destaque um cíume estéril, ou um ódio impotente que não nos vinga de seu
esplendor e elevação, e só faz acrescentar à nossa própria miséria o peso
insuportável da felicidade alheia: que fazer contra uma doença de alma tão
inveterada e contagiosa? Contentemo-nos com pouco e com menos ainda, se
possível; saibam perder na ocasião; a receita é infalível, e concordo em
experimentá-la: evito com isso ser empurrado na porta pela multidão de clientes
ou cortesãos que a casa de um ministro despeja diversas vezes por dia; penar na
sala de audiência, pedir tremendo ou balbuciando uma coisa justa; suportar a
gravidade do ministro, o seu riso amargo, e o seu laconismo. Então não o odeio
mais, e não o invejo mais; ele não me faz nenhuma súplica, eu não lhe faço
nenhuma; somos iguais, a não ser no facto dele não estar tranquilo, e eu estar.
(...) Deve-se silenciar sobre os poderosos; há quase sempre adulação ao dizer bem deles; há perigo em dizer mal enquanto vivem, e cobardia quando já morreram.
Jean de La Bruyére, in "Os Caracteres"
(...) Deve-se silenciar sobre os poderosos; há quase sempre adulação ao dizer bem deles; há perigo em dizer mal enquanto vivem, e cobardia quando já morreram.
Jean de La Bruyére, in "Os Caracteres"
A Mão que a Seu Amigo Hesita em Dar-se
Perguntaste se eu amo o meu amigo?
como rompendo um demorado açude
na tua voz quis hausto que transmude
todo o cristal dos ímpetos consigo
Neste meu choro enevoado abrigo
pôs-me a palavra o peito em alaúde
que uma doce pergunta tua ajude
no sim furtivo que eu levei comigo
Mas a meu lábio lento em confessar-se
um mestre inda melhor o cunharia
A mão que a seu amigo hesita em dar-se
ele a tomou o que mais firme a guia
para que ao coração secreto amando
ao mundo todo em rimas o vá dando.
Walter Benjamin, in "Sonetos"
como rompendo um demorado açude
na tua voz quis hausto que transmude
todo o cristal dos ímpetos consigo
Neste meu choro enevoado abrigo
pôs-me a palavra o peito em alaúde
que uma doce pergunta tua ajude
no sim furtivo que eu levei comigo
Mas a meu lábio lento em confessar-se
um mestre inda melhor o cunharia
A mão que a seu amigo hesita em dar-se
ele a tomou o que mais firme a guia
para que ao coração secreto amando
ao mundo todo em rimas o vá dando.
Walter Benjamin, in "Sonetos"
A Confiança é o Elo entre a Sociedade e a Amizade
Ainda que a sinceridade e a confiança
estejam relacionadas, são, no entanto, diferentes: a sinceridade consiste em
abrir o coração e em mostrarmo-nos tal como somos por amor da verdade. Odeia o
disfarce e quer reparar as suas faltas, mesmo que para isso seja preciso
diminui-las pelo valor da confissão. Quanto à confiança, esta não nos concede o
mesmo grau de liberdade, as suas regras são mais rigorosas, requer mais
prudência e moderação. Ora, nem sempre estamos livres para obedecer a estes
requisitos. Não somos só nós, no que a ela diz respeito, que estamos
envolvidos, porque os nossos interesses misturam-se quase sempre com os dos
outros. Requer uma enorme justeza para não levar os nossos amigos a
entregarem-se, pelo facto de nós nos termos entregado, como para lhes oferecer
um presente, com a única intenção de aumentar o preço do que nós damos.
(...) Damos a nossa confiança, a maior parte das vezes, por uma questão de vaidade, porque queremos falar, porque queremos conquistar a confiança dos outros, mas também para podermos trocar segredos. Há pessoas que terão razão em acreditar em nós e com as quais não teríamos boa razão de corresponder, mas ficamos quites quando guardamos os seus segredos e quando correspondemos com confidências superficiais. Há outras cuja sinceridade conhecemos, que não têm nada a ver connosco, mas em quem podemos confiar, seja por escolha ou por estima. A estas pessoas não devemos esconder nada do que nos é íntimo, devendo mostrar-lhes verdadeiramente as nossas boas e mesmo as nossas más qualidades, sem exagerarmos nas primeiras e sem diminuirmos as segundas.
La Rochefoucauld ,
in 'Reflexões'
Fica-se sempre satisfeito com o facto de os
outros depositarem confiança em nós porque é um tributo que oferecemos ao nosso
mérito, é um depósito que fazemos à nossa confiança, são, enfim, fianças que
lhes dão algum direito sobre nós, isto é, aceitamos uma certa dependência à
qual nos sujeitamos voluntariamente. Não, não é minha intenção destruir com as
minhas palavras a confiança, que é tão importante entre os homens, uma vez que
é o elo entre a sociedade e a amizade.
(...) Damos a nossa confiança, a maior parte das vezes, por uma questão de vaidade, porque queremos falar, porque queremos conquistar a confiança dos outros, mas também para podermos trocar segredos. Há pessoas que terão razão em acreditar em nós e com as quais não teríamos boa razão de corresponder, mas ficamos quites quando guardamos os seus segredos e quando correspondemos com confidências superficiais. Há outras cuja sinceridade conhecemos, que não têm nada a ver connosco, mas em quem podemos confiar, seja por escolha ou por estima. A estas pessoas não devemos esconder nada do que nos é íntimo, devendo mostrar-lhes verdadeiramente as nossas boas e mesmo as nossas más qualidades, sem exagerarmos nas primeiras e sem diminuirmos as segundas.
Era a Memória Ardente a Inclinar-se
Era a memória ardente a inclinar-se
à giesta do tempo por frescura
mas o que em seu espelho se figura
vê que está só e a mesma dor foi dar-se
noite e dia e silente de amargura
uma saudade em febre o viu queimar-se
até vir por um "sim" a consolar-se
e do perdão mudo hino lhe assegura
levando imagens e sinais de vez
O olhar liberto penetrou no assento
do alto luto onde da palidez
dos invernos se erguia outro rebento
de cálices que embalam as sementes
dando ao nome louvado descendentes.
Walter Benjamin, in "Sonetos"
à giesta do tempo por frescura
mas o que em seu espelho se figura
vê que está só e a mesma dor foi dar-se
noite e dia e silente de amargura
uma saudade em febre o viu queimar-se
até vir por um "sim" a consolar-se
e do perdão mudo hino lhe assegura
levando imagens e sinais de vez
O olhar liberto penetrou no assento
do alto luto onde da palidez
dos invernos se erguia outro rebento
de cálices que embalam as sementes
dando ao nome louvado descendentes.
Walter Benjamin, in "Sonetos"
O Amor e a Vida
O amor é uma imagem da nossa vida. Tanto o
primeiro como a segunda estão sujeitos às mesmas revoluções e mudanças. A sua
juventude é resplandecente, alegre e cheia de esperanças porque somos felizes
por ser jovens tal como somos felizes por amar. Este agradabilíssimo estado
leva-nos a procurar outros bens muito sólidos. Não nos contentamos nessa fase
da vida com o facto de susbsistirmos, queremos progredir, ocupamo-nos com os
meios para nos aperfeiçoarmos e para assegurar a nossa boa sorte. Procuramos a
protecção dos ministros, mostrando-nos solícitos e não aguentamos que outrem
queira o mesmo que temos em
vista. Este estímulo cumula-nos de mil trabalhos e esforços
que logo se apagam quando alcançamos o desejado. Todas as nossas paixões ficam
então satisfeitas e nem por sombras podemos imaginar que a nossa felicidade tenha
fim.
No entanto, esta felicidade raramente dura
muito e fatiga-se da graça da novidade. Para possuirmos o que desejámos não
paramos de desejar mais e mais. Habituamo-nos ao que temos, mas os mesmos
haveres não conservam o seu preço, como nem sempre nos tocam do mesmo modo.
Mudamos imperceptivelmente sem disso nos apercebermos. O que já adquirimos
torna-se parte de nós mesmos e sofreríamos muito com a sua perda, mas já não
somos sensíveis ao prazer de conservar o adquirido. A alegria já não é viva, procuramos
noutro lado que não naquele que tanto desejámos. Esta inconstância involuntária
acontece com o tempo que, sem querermos, não perdoa: mexe no nosso amor e na
nossa vida. Apaga sub-repticiamente dia-a-dia algo da nossa juventude e da
nossa alegria, destruindo os nossos maiores encantos. Tornamo-nos mais
circunspectos e juntamos negócios às paixões. O amor já não subsiste por si
mesmo, indo alimentar-se de ajudas exteriores. Este estádio do amor corresponde
àquela idade em que começamos a ver por onde devemos acabar com ele, mas não
temos a força para acabar directamente. No declínio, no amor como no da vida,
ninguém quer resolver-se a evitar a maneira de prevenir os desgostos que ainda
estão por vir; ainda se vive para aceitar os males futuros, mas não para os
rpazeres.
Os ciúmes, a desconfiança, o medo de nos tornarmos maçadores e o medo
que nos abandonem são males ligados à velhice do amor, tal como as doenças se
agarram à demasiado longa duração da vida. Nesta idade, sentimo-nos viver,
porque sentimos que estamos doentes, como só sabemos que estamos apaixonados
quando sentimos as penas do amor. Só se sai do adormecimento das relações
demasiado longas pelo enfado e pelo desgosto de ainda nos vermos agarrados.
Enfim, de todas as decrepitudes, a do amor é a mais insuportável.
La Rochefoucauld, in 'Reflexões'
La Rochefoucauld, in 'Reflexões'
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