No meio de seus cofres, desvelado,
Co'as tampas levantadas, rasas de ouro,
Cevando a vista está no metal louro
Dele o cioso Avarento namorado.
Temendo que lhe venha a ser roubado,
Emprega alma e vida em seu tesouro,
Girando com os olhos, qual besouro,
Zumbindo sem cessar, afervorado.
Fechado nele está, com sete portas,
Com temor de algum fero arrombamento
De astutas invenções, de ideias tortas.
Não emprega em mais nada o pensamento.
Cega ambição de vãs riquezas mortas!
Quão infeliz não és, louco avarento!
Francisco Joaquim Bingre, in 'Sonetos'
Um Estado Desacostumado
Não é impossível assistir a um desvio
anormal no funcionamento latente ou visível das leis da natureza.
Efectivamente, se qualquer um se der ao engenhoso trabalho de interrogar as
diversas fases da sua existência (sem esquecer qualquer delas, porque talvez
fosse essa a que estava destinada a fornecer a prova do que afirmo), não será
sem um certo espanto, que noutras circunstâncias seria cómico, que se recordará
de que em determinado dia, para começar a falar de coisas objectivas, foi
testemunha de qualquer fenómeno que parecia ultrapassar, e positivamente
ultrapassava, as noções conhecidas fornecidas pela observação e pela
experiência, como, por exemplo, as chuvas de sapos, cujo mágico espectáculo não
foi a princípio compreendido pelos sábios.
E de que, noutro dia, para falar em
segundo e último lugar de coisas subjectivas, a sua alma apresentou ao olhar
investigador da psicologia, não vou ao ponto de dizer uma aberração da razão (que,
no entanto, não deixaria de ser curiosa; pelo contrário, ainda o seria mais),
mas, pelo menos, para não me fazer rogado perante certas pessoas frias, que
nunca perdoariam as locubrações flagrantes do meu exagero, um estado
desacostumado, muitas vezes gravíssimo, que significa que o limite concedido
pelo bom-senso à imaginação é, por vezes, apesar do pacto efémero concluído
entre estas duas faculdades, infelizmente ultrapassado pela pressão enérgica da
vontade, mas, quase sempre, também, pela ausência da sua efectiva colaboração:
como prova, vamos a alguns exemplos, cuja oportunidade é fácil de avaliar,
desde que, porém, tomemos por companhia uma atenta moderação. Apresento dois:
as exaltações da cólera e as doenças do orgulho.
Isidore de Lautréamont, in 'Cantos de Maldoror'
Isidore de Lautréamont, in 'Cantos de Maldoror'
Meu corpo assaz tem sido espicaçado
Com buídos punhais, por mão da Morte,
Que arrebatado tem, da minha corte,
Grande rancho de quanto tenho amado.
Não me poupa a cruel no triste estado
Do caduco viver da minha Sorte:
Quando era vigoroso, moço forte,
Suportava com mais valor meu Fado.
Então as minhas ásperas feridas
Não tinham para mim tardias curas,
Porque o Tempo receitas tem, sabidas.
Mas velho e c'o vapor das sepulturas,
Como posso curar as desabridas
Chagas, das minhas novas amarguras?
Francisco Joaquim Bingre, in 'Sonetos'
Com buídos punhais, por mão da Morte,
Que arrebatado tem, da minha corte,
Grande rancho de quanto tenho amado.
Não me poupa a cruel no triste estado
Do caduco viver da minha Sorte:
Quando era vigoroso, moço forte,
Suportava com mais valor meu Fado.
Então as minhas ásperas feridas
Não tinham para mim tardias curas,
Porque o Tempo receitas tem, sabidas.
Mas velho e c'o vapor das sepulturas,
Como posso curar as desabridas
Chagas, das minhas novas amarguras?
Francisco Joaquim Bingre, in 'Sonetos'
Deus, Infinito Ser
Deus, Infinito ser, nunca criado,
Sem princípio, nem fim, na Majestade
Que no trono da Eterna Divindade
Tens o Mundo num dedo dependurado:
Tu estavas em Ti, não foste nado,
O teu Ser era a tua Imensidade,
Tu tiveste por berço a Eternidade,
Tu, sem tempo, em Ti mesmo eras gerado!
Tu és um fogo que arde sem matéria,
Tu és perpétua luz, que não desmaia
Fulgindo, sem cessar, na sala etérea!
Tu és um mar de amor, que não tem praia,
Trovão assustador da esfera aérea,
Rei dum Reino Imortal, que não tem raia!...
Francisco Joaquim Bingre, in 'Sonetos'
Sem princípio, nem fim, na Majestade
Que no trono da Eterna Divindade
Tens o Mundo num dedo dependurado:
Tu estavas em Ti, não foste nado,
O teu Ser era a tua Imensidade,
Tu tiveste por berço a Eternidade,
Tu, sem tempo, em Ti mesmo eras gerado!
Tu és um fogo que arde sem matéria,
Tu és perpétua luz, que não desmaia
Fulgindo, sem cessar, na sala etérea!
Tu és um mar de amor, que não tem praia,
Trovão assustador da esfera aérea,
Rei dum Reino Imortal, que não tem raia!...
Francisco Joaquim Bingre, in 'Sonetos'
Homens Exageradamente Subtis
Os homens exageradamente subtis raro são
grandes homens, e as suas pesquisas são, na maior parte dos casos, tão inúteis
como requintadas. Afastam-se cada vez mais da vida prática, de que se deveriam
aproximar.
As pessoas que quiserem ir mais longe podem fazê-lo, mas sem pensarem que fazem algo de grande, porque se tudo resultar, nada mais encontrarão, no fim de contas, do que aquilo que o homem razoável sabia há muito.
Assim como os mestres de dança ou de esgrima não começam por ensinar
a anatomia dos braços e das pernas, também uma filosofia sã e utilizável deve
partir de muito mais alto do que todas as suas especulações. «Deve pôr-se o pé
assim para se não cair» e «é necessário acreditar nisto pois seria absurdo não
acreditar», constituem bases muito boas.
As pessoas que quiserem ir mais longe podem fazê-lo, mas sem pensarem que fazem algo de grande, porque se tudo resultar, nada mais encontrarão, no fim de contas, do que aquilo que o homem razoável sabia há muito.
O homem que faz uma nova demonstração do
décimo segundo teorema de Euclides merece ser chamado engenhoso, mas nem por
isso contribuirá mais para o alargamento das fronteiras da ciência do que se
não tivesse feito tal invenção. Mas nunca, por certo, chegareis a convencer o
céptico, porque que argumento deste mundo será capaz de convencer um homem
capaz de acreditar em absurdidades? E alguém que quer ser convencido merecerá
ser refutado? Até mesmo os maiores disputadores se não batem com o primeiro que
os provoca.
Georg Lichtenberg, in 'Aforismos'
Georg Lichtenberg, in 'Aforismos'
A Imagem Divina
Compaixão, Pena, Paz & Amor,
Todos lhes rezam no seu sofrimento;
E a estas virtudes de tanto fulgor
Entregam o seu agradecimento.
Compaixão, Pena, Paz & Amor
É Deus, nosso pai adorado,
Compaixão, Pena, Paz & Amor
É o Homem, seu filho amado.
Tem Compaixão humano coração,
E tem a Pena uma face humana,
Amor, a forma divina de eleição
E a Paz, o traje que irmana.
Todo o homem, em todo o clima,
Que, com dor, reza como é capaz,
Reza à forma humana divina,
Amor, Compaixão, Pena & Paz.
A humana forma amar é um dever,
Para os ateus, os turcos, os judeus;
Compaixão, Amor & Pena, haja onde houver,
Também é lá que encontrareis Deus.
William Blake, in "Canções da Inocência"
Todos lhes rezam no seu sofrimento;
E a estas virtudes de tanto fulgor
Entregam o seu agradecimento.
Compaixão, Pena, Paz & Amor
É Deus, nosso pai adorado,
Compaixão, Pena, Paz & Amor
É o Homem, seu filho amado.
Tem Compaixão humano coração,
E tem a Pena uma face humana,
Amor, a forma divina de eleição
E a Paz, o traje que irmana.
Todo o homem, em todo o clima,
Que, com dor, reza como é capaz,
Reza à forma humana divina,
Amor, Compaixão, Pena & Paz.
A humana forma amar é um dever,
Para os ateus, os turcos, os judeus;
Compaixão, Amor & Pena, haja onde houver,
Também é lá que encontrareis Deus.
William Blake, in "Canções da Inocência"
O Jardim do Amor
O Jardim do Amor fui visitar,
E vi então o que jamais notara:
Lá bem no meio estava uma Capela,
Onde eu no prado correra e brincara.
E os portões desta Capela não abriam,
E "Não farás" sobre a porta escrito estava;
E voltei-me então para o Jardim do Amor
Lá onde toda a doce flor se dava;
E os túmulos enchiam todo o campo,
E eram esteias funerárias as flores;
E Padres de preto, em seu passeio secreto,
Atando com pavores minhas alegrias & amores.
William Blake, in "Canções da Experiência"
E vi então o que jamais notara:
Lá bem no meio estava uma Capela,
Onde eu no prado correra e brincara.
E os portões desta Capela não abriam,
E "Não farás" sobre a porta escrito estava;
E voltei-me então para o Jardim do Amor
Lá onde toda a doce flor se dava;
E os túmulos enchiam todo o campo,
E eram esteias funerárias as flores;
E Padres de preto, em seu passeio secreto,
Atando com pavores minhas alegrias & amores.
William Blake, in "Canções da Experiência"
Os Melhores Momentos do Amor
Nos transportes do amor, na conversa com a
amada, nos favores que recebes dela, até nos mais extremos, vais mais em busca
da felicidade do que à tentação de provar isso de que o teu coração agitado
sente uma grande falta, um não-sei-quê de menos do que ele esperava, um desejo
de algo, mesmo de muito mais. Os melhores momentos do amor são aqueles de uma
tranquila e doce melancolia em que choras e não sabes porquê, e te resignas
quase na quietude a um infortúnio que desconheces. Nessa quietude, a tua alma está
quase cumulada, e quase sente o gosto da felicidade. Assim como no amor, que é
o estado da alma mais rico de prazeres e ilusões, a melhor parte, a via mais
correcta para o prazer e para uma sombra de felicidade é a dor.
(...) Quando um homem concebe o amor, o
mundo inteiro se dissipa aos seus olhos, ele não vê nada além do ser amado,
está no meio da multidão, das conversas, em plena solidão, abstraído, fazendo
os gestos que lhe inspira esse pensamento sempre imóvel e muito poderoso, sem se
preocupar com a surpresa nem com o desprezo alheios, ele se esquece de tudo e
tudo lhe parece tedioso sem esse único pensamento, essa única visão. Nunca tive
a experiência de um pensamento que solta a alma com tanto poder de todas as
coisas que a circundam quanto o amor, e quero dizer que na ausência do ser
amado, na presença de quem não se pode dizer o que acontece, com excepção, por
vezes, do grande medo, que a rigor poderia ser-lhe comparado.
Giacomo Leopardi, in 'Pensamentos Diversos'
Giacomo Leopardi, in 'Pensamentos Diversos'
Amor Sem Fruto, Amor Sem Esperança
Amor sem fruto, amor sem esperança
É mais nobre, mais puro,
Que o que, domando a ríspida esquivança,
Jaz dos agrados nas prisões seguro.
Meu leal coração, constante e forte,
Vendo a teu lado acesos,
Flérida ingrata, os ódios, os desprezos,
O rigor, a tristeza, a raiva, a morte,
Forjando contra mim, por ordem tua,
Mil setas venenosas,
Em prémio destas lágrimas saudosas,
Inda assim continua
A abrasar-se em teus olhos... Vis amantes,
Corações inconstantes,
De sórdidas paixões envenenados,
Vós, a cujos ardores,
A cujos desbocados
Infames apetites
A Virtude, a Razão não põe limites,
Suspirai por ilícitos favores,
Cevai-vos em torpíssimos desejos,
Tratai, tratai de louco um amor casto,
Que eu nos grilhões que arrasto;
Tão limpos como o Sol, darei mil beijos.
Peçonhenta aliança,
Vergonhoso prazer, de vós não curo;
De ti, sim, porque és puro,
Amor sem fruto, amor sem esperança.
Bocage, in 'Excerto de Flérida - Idílio Pastoral'
É mais nobre, mais puro,
Que o que, domando a ríspida esquivança,
Jaz dos agrados nas prisões seguro.
Meu leal coração, constante e forte,
Vendo a teu lado acesos,
Flérida ingrata, os ódios, os desprezos,
O rigor, a tristeza, a raiva, a morte,
Forjando contra mim, por ordem tua,
Mil setas venenosas,
Em prémio destas lágrimas saudosas,
Inda assim continua
A abrasar-se em teus olhos... Vis amantes,
Corações inconstantes,
De sórdidas paixões envenenados,
Vós, a cujos ardores,
A cujos desbocados
Infames apetites
A Virtude, a Razão não põe limites,
Suspirai por ilícitos favores,
Cevai-vos em torpíssimos desejos,
Tratai, tratai de louco um amor casto,
Que eu nos grilhões que arrasto;
Tão limpos como o Sol, darei mil beijos.
Peçonhenta aliança,
Vergonhoso prazer, de vós não curo;
De ti, sim, porque és puro,
Amor sem fruto, amor sem esperança.
Bocage, in 'Excerto de Flérida - Idílio Pastoral'
O Absoluto do Ser
- Deus não é bom?
- Não, para falar com propriedade, Deus não é bom: é. Bom, mau, são pobres palavras que se aplicam a um conjunto de regras respeitantes a alguns pormenores da nossa vida material. Porque é que Deus seria limitado pelas nossas pobres palavras e valores? Não, Deus não é bom. É mais do que isso.
- Mas então, Deus não tem necessidade...
- E até mesmo para lá de toda a expressão. Se quiser, eu sou Deus. Não há dúvida a sustentar, pergunta a fazer. Você existe. Portanto é Deus. Você não pode existir de outro modo. Se você não fosse Deus, não existiria.
- Um panteísmo, de certa maneira?
- Não, porque não se trata de louvar Deus em todas as coisas. Deus é exterior, e se eu lhe dizia que você é Deus, que eu sou Deus, não era para lhe dar a ideia que, segundo eu, Deus é uma espécie de corpo no interior do qual nós vivemos. Não, eu queria apenas insinuar uma espécie de analogia entre as duas palavras da frase, agir no ser determinando-o, por Deus. Sendo o Ser de certa maneira uma dimensão própria, tão relativa mas tão real como o tempo e o espaço. E Deus sendo o absoluto desta dimensão, como o infinito é o absoluto do espaço, e o eterno o absoluto do tempo. De facto, o absoluto do Ser é também o absoluto do espaço e o absoluto do tempo. Eis porque Deus é neste ponto inimaginável para os pobres espíritos dos homens.
J.-M. G. Le Clézio, in 'A Febre'
- Não, para falar com propriedade, Deus não é bom: é. Bom, mau, são pobres palavras que se aplicam a um conjunto de regras respeitantes a alguns pormenores da nossa vida material. Porque é que Deus seria limitado pelas nossas pobres palavras e valores? Não, Deus não é bom. É mais do que isso.
É a
forma mais rica, mais completa, mais poderosa do ser, de qualquer maneira.
Torna concreta a abstracção mesmo da forma do ser. E penso que o «envisagement»
do ser não podia ser possível se Deus não lhe tivesse dado anteriormente o seu
estado. Deus é a criação. É pois um princípio inextinguível, não orientado, a
própria vida. Lembrem-se das palavras: «Eu sou Aquele que sou». Nenhuma outra
palavra humana compreendeu e relatou melhor a forma divina. Intemporal, não,
nem sequer intemporal e infinita. O princípio. O facto de que há qualquer coisa
no lugar onde não havia nada.
- Mas então, Deus não tem necessidade...
- E até mesmo para lá de toda a expressão. Se quiser, eu sou Deus. Não há dúvida a sustentar, pergunta a fazer. Você existe. Portanto é Deus. Você não pode existir de outro modo. Se você não fosse Deus, não existiria.
- Um panteísmo, de certa maneira?
- Não, porque não se trata de louvar Deus em todas as coisas. Deus é exterior, e se eu lhe dizia que você é Deus, que eu sou Deus, não era para lhe dar a ideia que, segundo eu, Deus é uma espécie de corpo no interior do qual nós vivemos. Não, eu queria apenas insinuar uma espécie de analogia entre as duas palavras da frase, agir no ser determinando-o, por Deus. Sendo o Ser de certa maneira uma dimensão própria, tão relativa mas tão real como o tempo e o espaço. E Deus sendo o absoluto desta dimensão, como o infinito é o absoluto do espaço, e o eterno o absoluto do tempo. De facto, o absoluto do Ser é também o absoluto do espaço e o absoluto do tempo. Eis porque Deus é neste ponto inimaginável para os pobres espíritos dos homens.
J.-M. G. Le Clézio, in 'A Febre'
Londres
Vagueio por estas ruas violadas,
Do violado Tamisa ao derredor,
E noto em todas as faces encontradas
Sinais de fraqueza e sinais de dor.
Em toda a revolta do Homem que chora,
Na Criança que grita o pavor que sente,
Em todas as vozes na proibição da hora,
Escuto o som das algemas da mente.
Dos Limpa-chaminés o choro triste
As negras Igrejas atormenta;
E do pobre Soldado o suspiro que persiste
Escorre em sangue p'los Palácios que sustenta.
Mas nas ruas da noite aquilo que ouço mais
É da jovem Prostituta o seu fadário,
Maldiz do tenro Filho os tristes ais,
E do Matrimónio insulta o carro funerário.
William Blake, in "Canções da Experiência"
Tradução de Hélio Osvaldo Alves
Do violado Tamisa ao derredor,
E noto em todas as faces encontradas
Sinais de fraqueza e sinais de dor.
Em toda a revolta do Homem que chora,
Na Criança que grita o pavor que sente,
Em todas as vozes na proibição da hora,
Escuto o som das algemas da mente.
Dos Limpa-chaminés o choro triste
As negras Igrejas atormenta;
E do pobre Soldado o suspiro que persiste
Escorre em sangue p'los Palácios que sustenta.
Mas nas ruas da noite aquilo que ouço mais
É da jovem Prostituta o seu fadário,
Maldiz do tenro Filho os tristes ais,
E do Matrimónio insulta o carro funerário.
William Blake, in "Canções da Experiência"
Tradução de Hélio Osvaldo Alves
A Humana Súmula
A Piedade deixaria de existir
Se não fizéssemos nós os Pobres de pedir;
E a Compaixão também acabaria
Se a todos, como nós, feliz chegasse o dia.
E a paz se alcança com mútuo terror,
Até crescer o egoísmo do amor:
A Crueldade tece então a sua rede,
E lança seu isco, cuidadosa, adrede.
Senta-se depois com temores sagrados,
E de lágrimas os chãos ficam regados;
A raiz da Humildade ali então se gera
Debaixo do seu pé, atenta, espera.
Em breve sobre a cabeça se lhe estende
A sombra daquele Mistério que ofende;
É aí que Verme e Mosca se sustentam
Do Mistério que ambos acalentam.
E o fruto que gera é o do Engano
Doce ao comer e tão malsano;
E o Corvo o seu ninho ali o faz
No mais espesso da sombra que lhe apraz.
Todos os Deuses, quer da terra quer do mar,
P'la Natureza esta Árvore foram procurar;
Mas foi em vão esta procura insana,
Esta Árvore cresce só na Mente Humana.
William Blake, in "Canções da Experiência"
Tradução de Hélio Osvaldo Alves
Se não fizéssemos nós os Pobres de pedir;
E a Compaixão também acabaria
Se a todos, como nós, feliz chegasse o dia.
E a paz se alcança com mútuo terror,
Até crescer o egoísmo do amor:
A Crueldade tece então a sua rede,
E lança seu isco, cuidadosa, adrede.
Senta-se depois com temores sagrados,
E de lágrimas os chãos ficam regados;
A raiz da Humildade ali então se gera
Debaixo do seu pé, atenta, espera.
Em breve sobre a cabeça se lhe estende
A sombra daquele Mistério que ofende;
É aí que Verme e Mosca se sustentam
Do Mistério que ambos acalentam.
E o fruto que gera é o do Engano
Doce ao comer e tão malsano;
E o Corvo o seu ninho ali o faz
No mais espesso da sombra que lhe apraz.
Todos os Deuses, quer da terra quer do mar,
P'la Natureza esta Árvore foram procurar;
Mas foi em vão esta procura insana,
Esta Árvore cresce só na Mente Humana.
William Blake, in "Canções da Experiência"
Tradução de Hélio Osvaldo Alves
Uma Imagem Divina
A Crueldade tem Humano Coração,
E tem a Intolerância Humano Rosto;
O Terror a Divina Humana Forma,
O Secretismo Humano Traje posto.
O Humano Traje é Ferro forjado,
A Humana Forma, Forja incendiada,
O Humano Rosto, Fornalha bem selada,
Humano Coração, Abismo seu Esfaimado.
William Blake, in "Canções da Experiência"
Tradução de Hélio Osvaldo Alves
E tem a Intolerância Humano Rosto;
O Terror a Divina Humana Forma,
O Secretismo Humano Traje posto.
O Humano Traje é Ferro forjado,
A Humana Forma, Forja incendiada,
O Humano Rosto, Fornalha bem selada,
Humano Coração, Abismo seu Esfaimado.
William Blake, in "Canções da Experiência"
Tradução de Hélio Osvaldo Alves
Não há Civilização sem Constrangimento
Toda a civilização traduz constrangimento e
sujeição. Aprendendo, sob a rigorosa lei das primeiras obrigações sociais, a
dominar um pouco as suas impulsões, o primitivo desprendeu-se da animalidade
pura e chegou à barbárie. Forçado a refrear-se mais, ele elevou-se até à
civilização. Esta só se mantém enquanto persiste o domínio do homem sobre si
mesmo.
Semelhante sujeição exige um esforço em todos os instantes. Seria quase impossível se os hábitos, que a educação pode fixar, não acabassem por o facilitar, tornando-o inconsciente.
Suficientemente desenvolvida, a disciplina interna pode chegar assim a substituir a disciplina externa; mas, quando não se soube criar uma, cumpre resignar-se a suportar a outra. Recusar uma e outra é retroceder aos tempos de barbárie. Os sentimentos conduzem-nos sempre, mas nenhuma sociedade pode subsistir sem que os membros aprendam a mantê-los nos limites abaixo dos quais começam a anarquia e a decadência.
Os sentimentos refreados pelas necessidades sociais, que codificam as leis, não são por essa razão destruídos. Libertadas das suas peias, as impulsões naturais primitivas reaparecem sempre. Explicam-se assim as violências que acompanham as revoluções. O civilizado retrocede à barbárie.
Gustave Le Bon, in "As Opiniões e as Crenças"
Semelhante sujeição exige um esforço em todos os instantes. Seria quase impossível se os hábitos, que a educação pode fixar, não acabassem por o facilitar, tornando-o inconsciente.
Suficientemente desenvolvida, a disciplina interna pode chegar assim a substituir a disciplina externa; mas, quando não se soube criar uma, cumpre resignar-se a suportar a outra. Recusar uma e outra é retroceder aos tempos de barbárie. Os sentimentos conduzem-nos sempre, mas nenhuma sociedade pode subsistir sem que os membros aprendam a mantê-los nos limites abaixo dos quais começam a anarquia e a decadência.
Os sentimentos refreados pelas necessidades sociais, que codificam as leis, não são por essa razão destruídos. Libertadas das suas peias, as impulsões naturais primitivas reaparecem sempre. Explicam-se assim as violências que acompanham as revoluções. O civilizado retrocede à barbárie.
Gustave Le Bon, in "As Opiniões e as Crenças"
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