Quão bem aventurado e quão ditoso
O sábio é, que parco passa a vida
Medindo, alegre, a entrada co'a saída
Do Mundo vão, sem medo do invejoso!
Quem c'o pouco que tem vive gostoso,
Cos desejos não tem sôfrega lida.
Como subir não quer, nunca a caída
Teme, do vão Faetonte desejoso.
Se tem sede, não vai em grossos rios
Beber, sôfrego, a farto nas correntes,
Porque teme cair em seus baixios.
Pequena fonte vai buscar, prudente,
Onde bebe, seguro dos bravios
Enrolados cachões da altiva enchente.
Francisco Joaquim Bingre, in 'Sonetos'
A Fúria Mais Fatal e Mais Medonha
Das Fúrias infernais foi sempre a Inveja
No mundo a mais fatal e a mais medonha,
Pois faz dos bens dos outros a peçonha
Com que a si mesma se envenena e peja.
Com ira e com furor, raivosa, arqueja,
Com vinganças, traições, com ódios sonha.
Onde quer que se encoste e os olhos ponha,
Tragar as ditas dos mortais deseja.
Mãe dos males fatais à Sociedade,
Vidas, honras destrói, cismas fomenta,
Nutrindo n'alma as serpes da Maldade.
O próprio coração que come a alenta,
Vive afogada em ondas de ansiedade,
Da frenética raiva se alimenta.
Francisco Joaquim Bingre, in 'Sonetos'
No mundo a mais fatal e a mais medonha,
Pois faz dos bens dos outros a peçonha
Com que a si mesma se envenena e peja.
Com ira e com furor, raivosa, arqueja,
Com vinganças, traições, com ódios sonha.
Onde quer que se encoste e os olhos ponha,
Tragar as ditas dos mortais deseja.
Mãe dos males fatais à Sociedade,
Vidas, honras destrói, cismas fomenta,
Nutrindo n'alma as serpes da Maldade.
O próprio coração que come a alenta,
Vive afogada em ondas de ansiedade,
Da frenética raiva se alimenta.
Francisco Joaquim Bingre, in 'Sonetos'
Em Busca do Outro
Não é à toa que entendo os que buscam
caminho. Como busquei arduamente o meu! E como hoje busco com sofreguidão e
aspereza o meu melhor modo de ser, o meu atalho, já que não ouso mais falar em caminho. Eu que tinha
querido.
O Caminho, com letra maiúscula, hoje me
agarro ferozmente à procura de um modo de andar, de um passo certo. Mas o
atalho com sombras refrescantes e reflexo de luz entre as árvores, o atalho
onde eu seja finalmente eu, isso não encontrei.
Mas sei de uma coisa: meu caminho não sou
eu, é outro, é os outros. Quando eu puder sentir plenamente o outro estarei
salva e pensarei: eis o meu porto de chegada.
Clarice Lispector, in Crónicas no 'Jornal do Brasil (1968)'
Clarice Lispector, in Crónicas no 'Jornal do Brasil (1968)'
A Inocência
Caminhando no mundo vai segura
A Inocência, com grave firme passo.
Sem temor de cair no infame laço
Que arma a traidora mão, a mão perjura.
Como não obra mal, nem mal procura
Para os seus semelhantes, corre o espaço
Sem lança, sem arnês, sem peito de aço,
Armada só de consciência pura.
Pois que ofensa não faz, não teme ofensa
E por isso passeia, satisfeita,
Sem as feras temer na selva densa.
Traições, ódios, vinganças não espreita.
Certa no bem que faz, só nele pensa:
Quem remorsos não tem, mal não suspeita.
Francisco Joaquim Bingre, in 'Sonetos'
A Inocência, com grave firme passo.
Sem temor de cair no infame laço
Que arma a traidora mão, a mão perjura.
Como não obra mal, nem mal procura
Para os seus semelhantes, corre o espaço
Sem lança, sem arnês, sem peito de aço,
Armada só de consciência pura.
Pois que ofensa não faz, não teme ofensa
E por isso passeia, satisfeita,
Sem as feras temer na selva densa.
Traições, ódios, vinganças não espreita.
Certa no bem que faz, só nele pensa:
Quem remorsos não tem, mal não suspeita.
Francisco Joaquim Bingre, in 'Sonetos'
Nenhum Mortal no Mundo Satisfeito
Nenhum mortal no mundo satisfeito
Com sua Sorte está, nunca é contente,
Pois de mil desatinos enche a mente
Sem que possa gozar um bem perfeito.
O soldado deseja o canto estreito
Da cela do ermitão, com ânsia ardente:
Este, da guerra, o estrépito fremente
Deseja, sem razão, ao ócio afeito.
O rico, redobrados bens deseja;
O pobre, de quimeras se sustenta;
No coração humano reina a Inveja.
Pobre, rico, fidalgo se alimenta
De insaciáveis desejos que lhe peja
Sua Sorte fatal, que os não contenta.
Francisco Joaquim Bingre, in 'Sonetos'
Com sua Sorte está, nunca é contente,
Pois de mil desatinos enche a mente
Sem que possa gozar um bem perfeito.
O soldado deseja o canto estreito
Da cela do ermitão, com ânsia ardente:
Este, da guerra, o estrépito fremente
Deseja, sem razão, ao ócio afeito.
O rico, redobrados bens deseja;
O pobre, de quimeras se sustenta;
No coração humano reina a Inveja.
Pobre, rico, fidalgo se alimenta
De insaciáveis desejos que lhe peja
Sua Sorte fatal, que os não contenta.
Francisco Joaquim Bingre, in 'Sonetos'
Respeito Muito o Homem que Chora
Há um tipo de choro bom e há outro ruim. O
ruim é aquele em que as lágrimas correm sem parar e, no entanto, não dão
alívio. Só esgotam e exaurem. Uma amiga perguntou-me, então, se não seria esse
choro como o de uma criança com a angústia da fome. Era. Quando se está perto
desse tipo de choro, é melhor procurar conter--se: não vai adiantar. É melhor
tentar fazer-se de forte, e enfrentar. É difícil, mas ainda menos do que ir-se
tornando exangue a ponto de empalidecer.
Mas nem sempre é necessário tornar-se forte.
Homem chorar comove. Ele, o lutador, reconheceu sua luta às vezes inútil. Respeito muito o homem que chora. Eu já vi homem chorar.
Clarice Lispector, in Crónicas no 'Jornal do Brasil (1967)'
Mas nem sempre é necessário tornar-se forte.
Temos que respeitar a nossa fraqueza.
Então, são lágrimas suaves, de uma tristeza legítima à qual temos direito. Elas
correm devagar e quando passam pelos lábios sente-se aquele gosto salgado,
límpido, produto de nossa dor mais profunda.
Homem chorar comove. Ele, o lutador, reconheceu sua luta às vezes inútil. Respeito muito o homem que chora. Eu já vi homem chorar.
Clarice Lispector, in Crónicas no 'Jornal do Brasil (1967)'
Volúvel do Homem Foi Sempre a Vontade
Sobre as asas do Tempo, que não cansa,
Nossos gostos se vão, nossas paixões
Os projectos, sistemas e opiniões
Cos tempos que se mudam tem mudança.
Não pode haver no mundo segurança
Entre o vário montão de inclinações,
Pois sujeita a Vontade a mil baldões
No variável moto não descansa.
Nas nossas quatro épocas da idade
Temos mudanças mil: nossa fraqueza
Sujeita está, do Tempo, à variedade.
Na inconstância jamais houve firmeza:
Volúvel do homem foi sempre a vontade,
Por defeito comum da Natureza.
Francisco Joaquim Bingre, in 'Sonetos'
Nossos gostos se vão, nossas paixões
Os projectos, sistemas e opiniões
Cos tempos que se mudam tem mudança.
Não pode haver no mundo segurança
Entre o vário montão de inclinações,
Pois sujeita a Vontade a mil baldões
No variável moto não descansa.
Nas nossas quatro épocas da idade
Temos mudanças mil: nossa fraqueza
Sujeita está, do Tempo, à variedade.
Na inconstância jamais houve firmeza:
Volúvel do homem foi sempre a vontade,
Por defeito comum da Natureza.
Francisco Joaquim Bingre, in 'Sonetos'
Podes, ó Tempo, Entrar: Eu Te Convido sapo
Podes, ó Tempo, entrar: eu te convido
A ser hóspede meu, que eu nunca faço
Distinção quando és bom ou mau, pois passo
Os meus dias, de ti nunca esquecido.
Ou me batas à porta, enfurecido,
Envolto em furacões, com torvo braço,
Ou entres brandamente, passo a passo,
Cum sorriso na boca apetecido:
Ou me sejas contrário, ou venturoso,
Eu me acomodo a ti e a pouco custo,
Se visitar-me vens, tempestuoso.
Às tuas intenções sempre me ajusto.
Tu, a quem pensa, és sempre proveitoso:
Feliz quem te ama sem pavor nem susto.
Francisco Joaquim Bingre, in 'Sonetos'
A ser hóspede meu, que eu nunca faço
Distinção quando és bom ou mau, pois passo
Os meus dias, de ti nunca esquecido.
Ou me batas à porta, enfurecido,
Envolto em furacões, com torvo braço,
Ou entres brandamente, passo a passo,
Cum sorriso na boca apetecido:
Ou me sejas contrário, ou venturoso,
Eu me acomodo a ti e a pouco custo,
Se visitar-me vens, tempestuoso.
Às tuas intenções sempre me ajusto.
Tu, a quem pensa, és sempre proveitoso:
Feliz quem te ama sem pavor nem susto.
Francisco Joaquim Bingre, in 'Sonetos'
A Vossa Carta Commove
A vossa carta commove,
Mas, não vos posso acompanhar.
Deixae-me viver em penas;
- Vou soffrendo e vou sorrindo,
O meu destino é chorar!
Sim, é certo; - quem eu amo
Zomba e ri do meu amôr...
- Que hei-de eu fazer? - Resignar-me,
Gentillissimo Senhor!
Depois, quanto mais sabemos,
Parece que mais erramos:
- Antes soffrer os males que nos cercam
Do que ir em busca de outros que ignoramos.
António Botto, in 'Canções'
Mas, não vos posso acompanhar.
Deixae-me viver em penas;
- Vou soffrendo e vou sorrindo,
O meu destino é chorar!
Sim, é certo; - quem eu amo
Zomba e ri do meu amôr...
- Que hei-de eu fazer? - Resignar-me,
Gentillissimo Senhor!
Depois, quanto mais sabemos,
Parece que mais erramos:
- Antes soffrer os males que nos cercam
Do que ir em busca de outros que ignoramos.
António Botto, in 'Canções'
O Mundo Só se Dá para os Simples
Minha gula pelo mundo: eu quis comer o
mundo e a fome com que nasci pelo leite — esta fome quis se estender pelo mundo
e o mundo não se queria comível. Ele se queria comível sim — mas para isso
exigia que eu fosse comê-lo com a humildade com que ele se dava. Mas fome
violenta é exigente e orgulhosa. E quando se vai com orgulho e exigência o
mundo se transmuta em duro aos dentes e à alma. O mundo só se dá para os
simples e eu fui comê-lo com o meu poder e já com esta cólera que hoje me
resume. E quando o pão se virou em pedra e ouro aos meus dentes eu fingi por
orgulho que não doía eu pensava que fingir força era o caminho nobre de um
homem e o caminho da própria força. Eu pensava que a força é o material de que
o mundo é feito e era com o mesmo material que eu iria a ele.
E depois foi quando
o amor pelo mundo me tomou: e isso já não era a fome pequena, era a fome
ampliada. Era a grande alegria de viver — e eu pensava que esta sim, é livre.
Mas como foi que transformei sem nem sentir a alegria de viver na grande
luxúria de estar vivo? No entanto no começo era apenas bom e não era pecado.
Era um amor pelo mundo quando o céu e a terra são de madrugada, e os olhos
ainda sabem ser tenros. Mas eis que minha natureza de repente me assassinava, e
já não era uma doçura de amor pelo mundo: era uma avidez de luxúria pelo mundo.
E o mundo de novo se retraiu e a isso chamei de traição. A luxúria de estar
vivo me espantava na minha insónia sem eu entender que a noite do mundo e a
noite do viver são tão doces que até se dorme.
Clarice Lispector, in Crónicas no 'Jornal do Brasil (1971)'
Clarice Lispector, in Crónicas no 'Jornal do Brasil (1971)'
Quanto é Melhor Calar, que Ser Ouvido
Silêncio divinal, eu te respeito!
Tu, meu Numen serás, serás meu guia
Se até 'qui, insensato, errei a via
De Harpócrates, quebrando o são preceito,
Hoje à vista do mal que tenho feito,
Em ser palreira pega em demasia,
Abraçarei a sã Filosofia
Pitagórica escola de proveito.
Tenho visto que males tem nascido
Pelo muito falar: tenho sondado
Quanto é melhor calar, que ser ouvido.
Minha língua vai ter férreo cadeado.
Eu a quero enfrear, arrependido
De tanto sem proveito ter falado.
Francisco Joaquim Bingre, in 'Sonetos'
Tu, meu Numen serás, serás meu guia
Se até 'qui, insensato, errei a via
De Harpócrates, quebrando o são preceito,
Hoje à vista do mal que tenho feito,
Em ser palreira pega em demasia,
Abraçarei a sã Filosofia
Pitagórica escola de proveito.
Tenho visto que males tem nascido
Pelo muito falar: tenho sondado
Quanto é melhor calar, que ser ouvido.
Minha língua vai ter férreo cadeado.
Eu a quero enfrear, arrependido
De tanto sem proveito ter falado.
Francisco Joaquim Bingre, in 'Sonetos'
Estado de Graça
Quem já conheceu o estado de graça
reconhecerá o que vou dizer. Não me refiro à inspiração, que é uma graça
especial que tantas vezes acontece aos que lidam com arte. O estado de graça de
que falo não é usado para nada. É como se viesse apenas para que se soubesse
que realmente se existe. Nesse estado, além da tranquila felicidade que se
irradia de pessoas e coisas, há uma lucidez que só chamo de leve porque na
graça tudo é tão, tão leve. E uma lucidez de quem não adivinha mais: sem
esforço, sabe. Apenas isto: sabe. Não perguntem o quê, porque só posso
responder do mesmo modo infantil: sem esforço, sabe-se.
E há uma bem-aventurança física que a nada se compara. O corpo se transforma num dom. E se sente que é um dom porque se está experimentando, numa fonte direta, a dádiva indubitável de existir materialmente.
No estado de graça vê-se às vezes a profunda beleza, antes inatingível, de outra pessoa. Tudo, aliás, ganha uma espécie de nimbo que não é imaginário: vem do esplendor da irradiação quase matemática das coisas e das pessoas. Passa-se a sentir que tudo o que existe — pessoa ou coisa — respira e exala uma espécie de finíssimo resplendor de energia. A verdade do mundo é impalpável.
Clarice Lispector, in Crónicas no 'Jornal do Brasil (1968)'
E há uma bem-aventurança física que a nada se compara. O corpo se transforma num dom. E se sente que é um dom porque se está experimentando, numa fonte direta, a dádiva indubitável de existir materialmente.
No estado de graça vê-se às vezes a profunda beleza, antes inatingível, de outra pessoa. Tudo, aliás, ganha uma espécie de nimbo que não é imaginário: vem do esplendor da irradiação quase matemática das coisas e das pessoas. Passa-se a sentir que tudo o que existe — pessoa ou coisa — respira e exala uma espécie de finíssimo resplendor de energia. A verdade do mundo é impalpável.
Clarice Lispector, in Crónicas no 'Jornal do Brasil (1968)'
O Tempo Gastador de Mil Idades
O Tempo gastador de mil idades,
Que na décima esfera vive e mora,
Não descansa co'a Fúria tragadora,
De exercitar, feroz, suas crueldades.
Ele destrói as ínclitas cidades,
As egípcias pirâmides devora:
Sua dentada fouce assoladora,
Rompe forças viris, destrói beldades.
O bronze, o ouro, o rígido diamante,
A sua mão pesada amolga e gasta
Levando tudo ao nada, em giro errante.
Como trovão feroz rugindo arrasta,
Quanto cobre na Terra o sol radiante,
Só da Virtude com temor se afasta.
Francisco Joaquim Bingre, in 'Sonetos'
Que na décima esfera vive e mora,
Não descansa co'a Fúria tragadora,
De exercitar, feroz, suas crueldades.
Ele destrói as ínclitas cidades,
As egípcias pirâmides devora:
Sua dentada fouce assoladora,
Rompe forças viris, destrói beldades.
O bronze, o ouro, o rígido diamante,
A sua mão pesada amolga e gasta
Levando tudo ao nada, em giro errante.
Como trovão feroz rugindo arrasta,
Quanto cobre na Terra o sol radiante,
Só da Virtude com temor se afasta.
Francisco Joaquim Bingre, in 'Sonetos'
Cegos como as Peças de Ouro Reluzentes
A Fama, a Glória, as Armas, a Nobreza,
A Ciência, o Poder e tudo quanto
Em honra e distinção, de canto a canto,
Encerra deste mundo a vã Grandeza,
A Pluto, cego deus, com vil baixeza
Adoram de joelhos, como a santo:
Pois só o deus do reino atroz do espanto
Pode ser rei e Numen da riqueza.
Do dossel do seu trono estão pendentes
C'roas, mitras, lauréis, brazões, tiaras,
Que o cego deus reparte às cegas gentes.
Tudo of'rendar-lhe vai nas torpes aras,
Cegos co'as peças de ouro reluzentes,
A Honra, a Liberdade, as vidas caras.
Francisco Joaquim Bingre, in 'Sonetos'
A Ciência, o Poder e tudo quanto
Em honra e distinção, de canto a canto,
Encerra deste mundo a vã Grandeza,
A Pluto, cego deus, com vil baixeza
Adoram de joelhos, como a santo:
Pois só o deus do reino atroz do espanto
Pode ser rei e Numen da riqueza.
Do dossel do seu trono estão pendentes
C'roas, mitras, lauréis, brazões, tiaras,
Que o cego deus reparte às cegas gentes.
Tudo of'rendar-lhe vai nas torpes aras,
Cegos co'as peças de ouro reluzentes,
A Honra, a Liberdade, as vidas caras.
Francisco Joaquim Bingre, in 'Sonetos'
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