Na sociedade é a razão a primeira a ser
vencida. Os mais ajuizados são frequentemente dirigidos pelo mais louco e
extravagante: estuda-se o seu ponto fraco, o seu humor, os seus caprichos;
acomoda-se a ele; evita-se feri-lo; todo o mundo cede a ele: a menor serenidade
que aparece na sua fisionomia basta para lhe atrair elogios; acham-no óptimo
por não ser sempre insuportável. É temido, considerado, obedecido, e às vezes
amado. Só aqueles que tiveram velhos parentes colaterais, ou que os têm ainda,
dos quais se espera herdar, podem dizer o que isso custa.
Jean de La Bruyére,
in "Os Caracteres"
Saber Falar e Calar sapo
É grande miséria não ter bastante
inteligência para falar bem, nem bastante juízo para se calar. Eis o princípio
de toda a impertinência. Dizer de uma coisa, modestamente, que é boa ou que é
má, e as razões por que assim é, requer bom senso e expressão; é um problema. É
mais cómodo pronunciar, em tom decisivo, não importa se prova aquilo que
afirma, que ela é execrável ou que é miraculosa.
Jean de La Bruyére, in "Os Caracteres"
Jean de La Bruyére, in "Os Caracteres"
As Melhores Acções Perdem Efeito Pela Forma Como São Executadas
As melhores acções
se alteram e enfraquecem pela maneira por que são praticadas, e deixam até
duvidar das intenções.
Aquele que protege ou louva a virtude pela virtude, que corrige e reprova o vício por causa do vício, simplesmente, naturalmente, sem nenhum rodeio, sem nenhuma singularidade, sem ostentação, sem afectação: não usa respostas graves e sentenciosas, ainda menos os detalhes picantes e satíricos; não é nunca uma cena que ele representa para o público, é um bom exemplo que dá e um dever que cumpre; não fornece nada às visitas das mulheres, nem ao pavilhão, nem aos jornalistas; não dá a um homem espirituoso matéria para boa anedota. O bem que acaba de fazer é um pouco menos sabido e conhecido pelos outros, na verdade; mas fez esse bem; que é que ele queria mais ?
Jean de La Bruyére, in "Os Caracteres"
Aquele que protege ou louva a virtude pela virtude, que corrige e reprova o vício por causa do vício, simplesmente, naturalmente, sem nenhum rodeio, sem nenhuma singularidade, sem ostentação, sem afectação: não usa respostas graves e sentenciosas, ainda menos os detalhes picantes e satíricos; não é nunca uma cena que ele representa para o público, é um bom exemplo que dá e um dever que cumpre; não fornece nada às visitas das mulheres, nem ao pavilhão, nem aos jornalistas; não dá a um homem espirituoso matéria para boa anedota. O bem que acaba de fazer é um pouco menos sabido e conhecido pelos outros, na verdade; mas fez esse bem; que é que ele queria mais ?
Jean de La Bruyére, in "Os Caracteres"
Ninguém Gosta de Ser Considerado Vaidoso
No seu coração, os homens desejam ser
estimados, mas eles cuidadosamente ocultam esse desejo porque querem passar
por virtuosos e porque o desejo de receber da virtude qualquer vantagem além
dela mesma não seria ser virtuoso, mas amar a estima e o elogio — ou seja, ser
vaidoso. Os homens são muito vaidosos, mas não há nada que eles mais detestem
do que serem considerados vaidosos.
Jean de La Bruyére, in "Os Caracteres"
Jean de La Bruyére, in "Os Caracteres"
Leitura Subjectiva ou Ignorante?
Os tolos lêem um livro e não o entendem; os
espíritos medíocres crêem entendê-lo perfeitamente; os grandes espíritos às
vezes não o entendem por inteiro: acham obscuro o que é obscuro, como acham
claro o que é claro; os espíritos afectados querem achar obscuro o que não o é,
e não entender o que é muito intelegível.
Jean de La Bruyére, in 'Os Caracteres'
Jean de La Bruyére, in 'Os Caracteres'
A Verdadeira Bondade do Homem
A verdadeira bondade do homem só pode
manifestar-se em toda a sua pureza e em toda a sua liberdade com aqueles que
não representam força nenhuma. O verdadeiro teste moral da humanidade (o teste
mais radical, aquele que por se situar a um nível tão profundo nos escapa ao
olhar) são as suas relações com quem se encontra à sua mercê: isto é, com os
animais. E foi aí que se deu o maior fracasso do homem, o desaire fundamental
que está na origem de todos os outros.
Milan Kundera, in "A Insustentável Leveza do Ser"
Milan Kundera, in "A Insustentável Leveza do Ser"
O Pobre Diabo Face à Guerra
Se tivessem contado ao diabo, que sempre
teve uma enorme paixão pela guerra, que um dia haveria homens para quem a
continuação desta representa um interesse comercial, que eles nem se dão ao
trabalho de disfarçar e cujo produto ainda os ajuda a ocupar um lugar de
destaque na sociedade, ele teria dito para irem contar isso à avó dele. Mas
depois, quando se tivesse convencido do facto, o inferno teria ficado abrasado
de vergonha e ele não teria outro remédio senão reconhecer que toda a vida fora
um pobre diabo!
Karl Kraus, in 'O Archote'
Karl Kraus, in 'O Archote'
Somos Sempre Mais Que a Soma das Nossas Ideias
Há muitos que partilham das minhas ideias.
Eu é que não as partilho com eles. Se alguém perfilha todas as minhas ideias,
isso não quer dizer necessariamente que a adição resulte num todo. Mesmo que eu
próprio não tivesse nenhuma das minhas ideias, ainda seria mais do que um outro
que perfilha todas as minhas ideias.
Karl Kraus, in "O Archote"
Karl Kraus, in "O Archote"
Concordar mas Sempre em Desacordo
A maioria das pessoas só se convencem de
ter razão depois que outras pessoas concordam com elas. Mas alguns de nós não
achamos nada mais perturbador do que as nossas próprias palavras ditas por
outros.
Walter Kaufmann, in 'Crítica da Religião e da Filosofia'
Walter Kaufmann, in 'Crítica da Religião e da Filosofia'
És Um HOMEM, Se...
Se és capaz de conservar o teu bom senso e
a calma,
Quando os outros os perdem, e te acusam disso,
Se és capaz de confiar em ti, quando te ti duvidam
E, no entanto, perdoares que duvidem,
Se és capaz de esperar, sem perderes a esperança
E não caluniares os que te caluniam,
Se és capaz de sonhar, sem que o sonho te domine,
E pensar, sem reduzir o pensamento a vício,
Se és capaz de enfrentar o Triunfo e o Desastre,
Sem fazer distinção entre estes dois impostores,
Se és capaz de ouvir a verdade que disseste,
Transformada por canalhas em armadilhas aos tolos,
Se és capaz de ver destruído o ideal da vida inteira
E construí-lo outra vez com ferramentas gastas,
Se és capaz de arriscar todos os teus haveres
Num lance corajoso, alheio ao resultado,
E perder e começar de novo o teu caminho,
Sem que ouça um suspiro quem seguir ao teu lado,
Se és capaz de forçar os teus músculos e nervos
E fazê-los servir se já quase não servem,
Sustentando-te a ti, quando nada em ti resta,
A não ser a vontade que diz: Enfrenta!
Se és capaz de falar ao povo e ficar digno
Ou de passear com reis conservando-te o mesmo,
Se não pode abalar-te amigo ou inimigo
E não sofrem decepção os que contam contigo,
Se podes preencher todo minuto que passa
Com sessenta segundos de tarefa acertada,
Se assim fores, meu filho, a Terra será tua,
Será teu tudo que nela existe
E não receies que te o tomem,
Mas (ainda melhor que tudo isto)
Se assim fores, serás um HOMEM.
Rudyard Kipling
Quando os outros os perdem, e te acusam disso,
Se és capaz de confiar em ti, quando te ti duvidam
E, no entanto, perdoares que duvidem,
Se és capaz de esperar, sem perderes a esperança
E não caluniares os que te caluniam,
Se és capaz de sonhar, sem que o sonho te domine,
E pensar, sem reduzir o pensamento a vício,
Se és capaz de enfrentar o Triunfo e o Desastre,
Sem fazer distinção entre estes dois impostores,
Se és capaz de ouvir a verdade que disseste,
Transformada por canalhas em armadilhas aos tolos,
Se és capaz de ver destruído o ideal da vida inteira
E construí-lo outra vez com ferramentas gastas,
Se és capaz de arriscar todos os teus haveres
Num lance corajoso, alheio ao resultado,
E perder e começar de novo o teu caminho,
Sem que ouça um suspiro quem seguir ao teu lado,
Se és capaz de forçar os teus músculos e nervos
E fazê-los servir se já quase não servem,
Sustentando-te a ti, quando nada em ti resta,
A não ser a vontade que diz: Enfrenta!
Se és capaz de falar ao povo e ficar digno
Ou de passear com reis conservando-te o mesmo,
Se não pode abalar-te amigo ou inimigo
E não sofrem decepção os que contam contigo,
Se podes preencher todo minuto que passa
Com sessenta segundos de tarefa acertada,
Se assim fores, meu filho, a Terra será tua,
Será teu tudo que nela existe
E não receies que te o tomem,
Mas (ainda melhor que tudo isto)
Se assim fores, serás um HOMEM.
Rudyard Kipling
A Soma e Substância de Toda a Filosofia
Se te casas, arrependes-te; se não te casa,
arrependes-te também; cases-te ou não te cases, arrependes-te sempre. Ri-te das
loucuras do mundo e irás arrepender-te; chora sobre elas, e arrependes-te
também; ri-te das loucuras do mundo ou chora sobre elas, e de ambas as coisas
te arrependes; quer te rias das loucuras do mundo, quer chores sobre elas irás
sempre arrepender-te. Acredita numa mulher, e irás arrepender-te, não acredites
nela e arrependes-te também; acredites ou não numa mulher, arrependes-te de
ambas as coisas. Enforca-te, e arrependes-te; não te enforques, e na mesma te
arrependes. É esta, meus senhores, a soma e substância de toda a filosofia.
Soren Kierkegaard, in 'Ou/Ou'
Soren Kierkegaard, in 'Ou/Ou'
Saber Avaliar a Novidade sapo
A ideia de que somente é belo o que é novo
e jovem envenena as nossas relações com o passado e com o nosso próprio futuro.
Impede-nos de compreender as nossas raízes e as maiores obras da nossa cultura
e das outras culturas. Faz-nos também recear o que está à nossa frente e leva
muita gente a fugir à realidade.
Walter Kaufmann, in 'O Tempo é um Artista'
Walter Kaufmann, in 'O Tempo é um Artista'
Obsessão sapo
Dentro de mim canta, intenso,
Um cantar que não é meu:
Cantar que ficou suspenso,
Cantar que já se perdeu.
Onde teria eu ouvido
Esta voz cantar assim?
Já lhe perdi o sentido:
Cantar que passa perdido,
Que não é meu estando em mim.
Depois, sonâmbulo, sonho:
Um sonho lento, tristonho,
De nuvens a esfiapar...
E, novamente, no sonho
Passa de novo o cantar...
Sobre um lago, onde em sossego
As águas olham o céu,
Roça a asa de um morcego...
E ao longe o cantar morreu.
Onde teria eu ouvido
Esta voz cantar assim?
Já lhe perdi o sentido...
E este cenário partido
Volta a voltar, repetido,
E o cantar recanta em mim.
Francisco Bugalho, in "Margens"
Um cantar que não é meu:
Cantar que ficou suspenso,
Cantar que já se perdeu.
Onde teria eu ouvido
Esta voz cantar assim?
Já lhe perdi o sentido:
Cantar que passa perdido,
Que não é meu estando em mim.
Depois, sonâmbulo, sonho:
Um sonho lento, tristonho,
De nuvens a esfiapar...
E, novamente, no sonho
Passa de novo o cantar...
Sobre um lago, onde em sossego
As águas olham o céu,
Roça a asa de um morcego...
E ao longe o cantar morreu.
Onde teria eu ouvido
Esta voz cantar assim?
Já lhe perdi o sentido...
E este cenário partido
Volta a voltar, repetido,
E o cantar recanta em mim.
Francisco Bugalho, in "Margens"
Casa Abandonada sapo
Minha saudade não larga
Certa casa abandonada.
E sinto, na boca, amarga,
Essa lágrima chorada
Quando a deixei...
Caía, de leve, a tarde...
E, olhando para trás, vi
Aquela porta fechada.
Nesse momento, senti
Pesar-me a fatalidade
De toda a Vida passada.
Arde
Ainda, nos meus olhos,
A luz do sol que brilhava
Na janela.
Era uma luz amarela;
Uma luz de fim da tarde
Que ainda trago nos olhos...
Ficava ali,
Por detrás da porta verde,
Tudo o que a vida nos perde,
Enquanto nos vai gastando...
E triste e só me parti;
Quem sabe que outros Destinos,
Dolorosos ou divinos,
Procurando...
Francisco Bugalho, in "Margens"
Certa casa abandonada.
E sinto, na boca, amarga,
Essa lágrima chorada
Quando a deixei...
Caía, de leve, a tarde...
E, olhando para trás, vi
Aquela porta fechada.
Nesse momento, senti
Pesar-me a fatalidade
De toda a Vida passada.
Arde
Ainda, nos meus olhos,
A luz do sol que brilhava
Na janela.
Era uma luz amarela;
Uma luz de fim da tarde
Que ainda trago nos olhos...
Ficava ali,
Por detrás da porta verde,
Tudo o que a vida nos perde,
Enquanto nos vai gastando...
E triste e só me parti;
Quem sabe que outros Destinos,
Dolorosos ou divinos,
Procurando...
Francisco Bugalho, in "Margens"
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