- Quantas pessoas ao todo moram no seu budoar?
- Citando minha sogra como pessoa, dezoito – disse o camponês.
- E cabeças de gado, quantas tem? - indagou o eremita enquanto tirava o batom dos lábios.
- Três bois, uma vaca, seis cabritos, um burro, uma égua, uma mula, quatro porcos. Contando tudo isso como gado e não contando minha sogra como tal: dezessete cabeças.
- Põe tudo dentro da casa e volte para nova consulta daqui a um mês – disse o eremita ao camponês, que assim fez, sem pensar mais uma vez.
Claro que sua vida se transformou num inferno: ao cheiro da sogra juntou-se o dor da vaca, ao gemido de mulher juntou-se o grunhido de porco, ao empurrão da tia juntou-se o coice do cavalo. De modo que, antes do prazo aprazado, o eremita foi de novo procurado para resolver o piorado. Mas o eremita, sem se perturbar, disse apenas, enquanto experimentava um brinco de esmeraldas:
- Agora põe todos os animais pra fora de casa que você vai se sentir num paraíso.
O camponês, percebendo imediatamente a tremenda sabedoria do eremita, correu para casa, abriu a porta, pôs toda família na rua e foi feliz para sempre vivendo em absoluta promiscuidade com os animais.
MORAL: Até um poeta campestre pode melhorar um mestre.”
Millôr Fernandes
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