Curar o Intelecto
Deve excogitar-se o modo de curar o
intelecto e purificá-lo tanto quanto possível desde o começo, a fim de que
entenda tudo felizmente sem erro e da melhor maneira. Donde se poderá já
deduzir que quero encaminhar todas as ciências para um só fim e escopo, a
saber, chegar à suma perfeição humana de que falamos; e assim tudo o que nas
ciências não nos leva ao nosso fim precisa de ser rejeitado como inútil; isto
é, para usar uma só palavra, todas as nossas acções, assim como os pensamentos,
hão-de ser dirigidos para esse fim. Mas visto que é necessário viver enquanto
cuidamos de o conseguir e nos esforçamos por colocar o intelecto no caminho
recto, somos obrigados antes de tudo a supor como boas algumas regras de vida,
a saber:
I. Falar ao alcance do vulgo e fazer tudo o que não traz nenhum impedimento
para atingirmos o nosso escopo. Com efeito, disso podemos tirar não pequeno
proveito, contanto que nos adaptemos, na medida do possível, à sua capacidade;
acresce que desse modo oferecerão ouvidos prontos para a verdade.
II. Dos prazeres somente gozar quanto basta para a consecução da saúde.
III. Por último, procurar o dinheiro ou outra coisa qualquer só enquanto chega
para o sustento da vida e da saúde, imitando os costumes da sociedade que não se
opõem a nosso fim.
Baruch Espinoza, in 'Tratado da Correcção do Intelecto'
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