É tolice afligirmo-nos com a espera da morte, visto ser ela uma coisa que não faz mal, uma vez chegada. Por conseguinte, o mais pavoroso de todos os males, a morte, nada significa para nós, pois enquanto vivemos a morte não existe. E quando a morte veio, já não existimos nós. A morte não existe, portanto, nem para os vivos nem para os mortos, pois para uns ela não é, e pois os outros não são mais.
(...) Deve, em terceiro lugar, compreender-se que, de entre os desejos, uns são naturais e os outros vãos e que, de entre os naturais, uns são necessários e os outros somente naturais. Finalmente, de entre os desejos necessários, uns são necessários à felicidade, outros à tranquilidade do corpo e outros à própria vida. Uma teoria verídica dos desejos ajustará os desejos e a aversão à saúde do corpo e à ataraxia da alma, pois é esse o escopo de uma vida feliz, e todas as nossas acções têm por fim evitar ao mesmo tempo o sofrimento e a inquietação.
Quando o conseguimos, todas as tempestades
da alma se desfazem, não tendo já o ser vivo de dirigir-se para alguma coisa
que não possui, nem buscar outra coisa que possa completar a felicidade da alma
e do corpo. Porque nós buscamos o prazer somente quando a sua ausência causa
sofrimento. Quando não sofremos, não sabemos que fazer do prazer. E por isso
dizemos que o prazer é o começo e o fim de uma vida venturosa. O prazer é, na
verdade, considerado por nós como o primeiro dos bens naturais, é ele que nos
leva a aceitar ou a rejeitar as coisas, a ele vamos parar, tomando a
sensibilidade como critério do bem. Ora, pois que o prazer é o primeiro dos
bens naturais, segue-se que não aceitamos o primeiro prazer que vem, mas em
certos casos desdenhamos numerosos prazeres quando têm por efeito um tormento
maior. Por outro lado, há numerosos sofrimentos que reputamos preferíveis aos
prazeres, quando nos trazem um maior prazer. Todo o prazer, na medida em que se
conforma com a nossa natureza, é portanto um bem, mas nem todo o prazer é
entretanto necessariamente apetecível. Do mesmo modo, se toda a dor é um mal,
nem toda é necessariamente de evitar. Daqui procede que é por uma sábia
consideração das vantagens e dissabores que traz que cada prazer deve ser
apreciado. Na verdade, em certos casos, tratamos o bem como um mal e, noutros,
o mal como um bem.
Depender apenas de si mesmo é, em nossa opinião, grande bem, mas não se segue, por isso, que devamos sempre contentar-nos com pouco. Simplesmente, quando a abundância nos falece, devemos ser capazes de contentar-nos com pouco, pois estamos persuadidos de que fruem melhor a riqueza aqueles que menos carecem dela e que tudo que é natural se alcança facilmente, enquanto é difícil obter o que o não é. As iguarias mais simples dão tanto prazer como a mesa mais ricamente servida, quando está ausente o tormento que a carência determina, e o pão e a água causam o mais vivo prazer quando os tomamos após longa privação. O hábito da vida simples e modesta é portanto boa maneira de cuidar da saúde e torna, além disso, o homem corajoso para suportar as tarefas que deve necessariamente realizar na vida. Permite-lhe ainda, eventualmente, apreciar melhor a vida opulenta e endurece-o contra os reveses da fortuna. Por conseguinte, quando dizemos que o prazer é o soberano bem, não falamos dos prazeres dos debochados, nem dos gozos sensuais, como pretendem alguns ignorantes que nos combatem e desfiguram o nosso pensamento. Falamos da ausência de sofrimento físico e da ausência da perturbação moral.
Porque não são nem as bebidas e os banquetes contínuos, nem o prazer do trato com as mulheres, nem o júbilo que dão o peixe e a carne com que se enchem as mesas sumptuosas que ocasionam uma vida feliz, mas hábitos racionais e sóbrios, uma razão buscando incessantemente causas legítimas de escolha ou de aversão e rejeitando as opiniões susceptíveis de trazerem à alma a maior perturbação.
O princípio de tudo isto e, ao mesmo tempo, o maior bem é, portanto, a prudência. Devemos reputá-la superior à própria filosofia, pois que ela é a fonte de todas as virtudes que nos ensinam que não se alcança a vida feliz sem a prudência, a honestidade e a justiça e que a prudência, a honestidade e a justiça não podem obter-se sem o prazer.
As virtudes, efectivamente, provêm de uma vida feliz, a qual, por sua vez, é inseparável das virtudes.
Epicuro, in "Carta a Meneceu"
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