O fim do mundo

“...Isto pode ter acabado mas não sou tão parvo que vá chorar à tua frente. Pelo contrário: apareço-te com um sorriso como se não fosse nada,sento-me à mesa, ponho o guardanapo ao pescoço por causa dos salpicos na camisa (a minha mãe, coitada, que já vê mal, vê-se grega com as nódoas)digo
- Boa noite Manuela
e como a sopa até ao fim, a falar disto e daquilo, sem dar a entender que estou triste, que tenho um nó na garganta, que sinto a minha vida em cacos porque juro-te que não sou tão parvo que vá chorar à tua frente. Tu levantas-te, tiras-me a colher, pões o meu prato em cima do teu, trazes o arroz de coelho da cozinha e eu a abrir uma garrafa de cerveja que às vezes sempre ajuda um bocadinho a dissolver a tristeza e o nó na garganta e enquanto me sirvo do arroz fico à espera que me fales do Carlos.
No fundo pode ser que a culpa seja minha por adiar constantemente o casamento contigo, vir aqui às segundas e as quintas e ir-me embora à uma da manhã com a desculpa de que a velhota precisa da minha ajuda, que com a idade deixa a porta aberta e se esquece do gás, que sou filho único e só me tem a mim quando a verdade é que os compromissos me assustam, me assusta a idéia de quereres ter crianças (não tenho jeito nenhum para crianças) e com tantas desculpas e tantos adiamentos era mais que certo que acabavas por te cansar e se não fosse o Carlos era outro, o Carlos pelo menos é um rapaz sossegado, gosta de ti, a mãe dele é quinze anos mais nova do que a minha e tem uma saúde de ferro e uma mulher não pode passar a vida inteira à espera que um fulano se decida, passar a maior parte das noites sem companhia a ver vídeos na televisão, uma mulher precisa de companhia, de conversar, de um homem para tomar conta e eu não sirvo para isso, Manuela, levo o serão a olhar para o relógio com receio de perder o barco, despeço-me à pressa com um beijo na testa, telefono de fugida do emprego até que na semana passada me avisaste
- Preciso imenso de falar contigo
e eu entendi que me querias explicar que o Carlos estava disposto a dar-te o que eu nunca te dei, que não ligava com o teu feitio ficares sozinha, ires sozinha à praia, ires sozinha ao cinema, agüentar as anginas sem ninguém ao pé, oiço a minha voz
- O coelho está óptimo
farto de saber que não era isso que tu querias ouvir, farto de saber que o que querias ouvir era
-Eu caso-me contigo esquece o Carlos
mas não consigo, não sou capaz, gosto de ti e no entanto não me vejo, percebes, a viver contigo, o amor é uma coisa tão esquisita Manuela, garanto-te que tenho amor por ti, garanto--te que adorava pegar-te na mão
- Eu caso-me contigo esquece o Carlos
e as palavras não saem, tu à espera e as palavras não saem, tu a garantires-me em silencio
- Se ficares quero lá saber do Carlos
e tudo o que sou capaz, que idiotice, e elogiar-te o coelho em lugar de te elogiar a ti, te pegar na mão, te jurar
-Amo-te
porque te amo, porque não conheço quem faça macrame tão bem, quem tenha a casa tão limpa, a roupa tão asseada, nem um grão de pó na mobília, não conheço quem me trate como tu me tratas, acho que o Carlos tem uma sorte danada, acho que vou sentir a tua falta a doer-me cá dentro e todavia não sou tão parvo que vá chorar à tua frente, falo contigo como se não fosse nada, enfio o guardanapo na argola, levanto-me, abotoou o casaco e
tu
- Preciso imenso de falar contigo
eu, que não sou tão parvo que vá chorar à tua frente, a agarrar a maçaneta da porta
- Amanhã amanhã
sabendo perfeitamente que não vou vir amanhã, que não vou vir nunca mais, que se viesse encontrava a mesa posta e o Carlos sentado no meu lugar a comer o meu arroz de coelho e a propor-te
- Vamos tratar da papelada no Registro
sabendo perfeitamente que daqui a dois ou três meses vou espreitar ao jardim da Gulbenkian, e lá estarão vocês e os padrinhos a tirarem fotografias junto à estatua, junto ao lago, e pode ser que me vejas, Manuela, que me distingas no meio dos arbustos, pode ser que olhes para mim como agora olhas
- Preciso imenso de falar contigo
só que não dirás nada porque é tarde, não podes passar o resto da vida aires sozinha à praia, ao cinema, a agüentar as anginas sem ninguém ao pé, talvez me acenes, talvez eu te acene e apanhe logo o autocarro porque a velhota necessita de mim, com a idade deixa a porta aberta e esquece-se do gás, ao entrar a minha mãe, preocupada
-Vens pálido Jorginho
eu muito depressa
- Não é nada mãe
e sento-me no quintal das traseiras até ser noite e sem chorar, claro, não sou tão parvo que comece a chorar, que mariquice chorar, eu não choro, não penses que choro, não choro, sento-me no quintal das traseiras até ser noite a dar milho às galinhas, a dar milho às
galinhas, a dar milho às galinhas.”
Lobo Antunes

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