Como é que o homem vai viver sem uma
significação para a vida? Donde essa significação? Os sucedâneos dos deuses
atropelam-se tumultuosos, mas duram menos que os deuses, duram menos que um
homem. Imaginei um dia que o homem viria a aceitar a sua condição em plenitude. Só não
imagino esse homem. Porque imaginando-o como me é possível, penso que admitirá
uma transcendência inominável, uma dimensão que supere o imediato da vida. Só
que o pensá-lo não me afecta o sentir. Tenho o enigma mas não a chave que o
desvende. Sei a interrogação, mas não posso convertê-la na pergunta a que se dá
uma resposta. Da integração do homem no mistério do universo o que me fica é a
vertigem. Mas aguento-me aí sem me retirar do abismo nem cair nele.
O curioso é
que são os «racionalistas» quem menos se perturba com a sem-razão de tudo isto.
Porque eles é que deviam saber, mais do que os outros, o porquê e o para quê.
Não querem. O mundo existe-lhes assim mesmo, sem significação. Para mim me
existe também. Mas isso aturde-me. A velhice que se anuncia, anuncia-me a
aceitação e a serenidade. Mas não me anuncia a liquidação do problema. Respiro
mais calmo diante do irritante mistério. Mas estar calmo não é anular o que me
intriga, ou o seu terror: é só anular-lhe o efeito sobre nós. Os imbecis ou os
inocentes é que os ignoram. A expressão final do homem de hoje é o heroísmo.
Porque tudo tende a esmagá-lo de todo o lado. Mas ser herói é ser consciente. E
aguentar, com um mínimo de pulsações por minuto. Referi-me um dia a um
indivíduo condenado à guilhotina e a quem um amigo dizia: «fatiga o teu medo».
Não fatiguei ainda a minha inquietação. Mas fatigá-la é só o que tenho para a
anular.
Vergílio Ferreira, in "Conta-Corrente 2"
Vergílio Ferreira, in "Conta-Corrente 2"
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