Triste época a nossa! Para que oceano
correrá esta torrente de iniquidades? Para onde vamos nós, numa noite tão
profunda? Os que querem tactear este mundo doente retiram-se depressa,
aterrorizados com a corrupção que se agita nas suas entranhas.
Quando Roma se sentiu agonizar, tinha pelo menos uma esperança, entrevia por detrás da mortalha a Cruz radiosa, brilhando sobre a eternidade. Essa religião durou dois mil anos, mas agora começa a esgotar-se, já não basta, troçam dela; e as suas igrejas caem em ruínas, os seus cemitérios transbordam de mortos.
E nós, que religião teremos nós? Sermos tão velhos como somos, e caminharmos ainda no deserto, como os Hebreus que fugiam do Egipto.
Onde será a Terra prometida?
Tentámos tudo e renegámos tudo, sem esperança; e depois uma estranha ambição invadiu-nos a alma e a humanidade, há uma inquietação imensa que nos rói, há um vazio na nossa multidão; sentimos à nossa volta um frio de sepulcro.
A humanidade começou a mexer em máquinas, e
ao ver o ouro que nelas brilhava, exclamou: «É Deus!» E come esse Deus. Há - e
é porque tudo acabou, adeus! adeus! - vinho antes da morte! Cada um se
precipita para onde o seu instinto o impele, o mundo formiga como os insectos
sobre um cadáver, os poetas passam sem terem tempo para esculpir os seus
pensamentos, mal os lançam nas folhas, as folhas voam; tudo brilha e ecoa nesta
mascarada, sob as suas realezas de um dia e os seus ceptros de cartão; o ouro rola,
o vinho jorra, a devastidão fria ergue o vestido e bamboleia-se... horror!
horror!
E depois, há sobre tudo isso um véu de que cada um tira a sua parte, para se esconder o mais possível.
Escárnio! horror! horror!
Gustave Flaubert, in 'Memória de um Louco'
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