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Quantas Loucuras há num Homem!


Há tantos amores na vida de um homem! Aos quatro anos, ama-se os cavalos, o sol, as flores, as armas que brilham, os uniformes de soldado; aos dez, ama-se a menina que brinca connosco.; aos treze, ama-se uma mulher de colo túrgido, porque me lembro de que o que os adolescentes amam loucamente é um colo de mulher, branco e mate, e como diz Marot:

Tetin refaict plus blanc qu'un oeuf
Tetin de satin blanc tout neuf.

Quase me senti mal quando vi pela primeira vez os seis desnudados de uma mulher. Por fim, aos catorze ou quinze anos, ama-se uma jovem que vem a nossa casa, e que é um pouco mais que uma irmã, menos que uma amante; depois, aos dezasseis anos, ama-se uma outra mulher, até aos vinte e cinco; depois, talvez se ame a mulher com quem casamos. Cinco anos mais tarde, ama-se a dançarina que faz saltar o seu vestido sobre as suas coxas carnudas; por fim, aos trinta e seis, ama-se a deputação, a especulação, as honrarias; aos cinquenta, ama-se o jantar do ministro ou do presidente da câmara; aos sessenta, ama-se a prostituta que nos chama através dos vidros e a quem se lança um olhar de impotência, uma saudade do passado. Não será assim?

Porque eu passei por todos esses amores; não todos, porém, porque não vivi todos os meus anos, e cada ano, na vida de muitos homens, é marcado por uma paixão nova, paixão das mulheres, do jogo, dos cavalos, das botas finas, das bengalas, das lunetas, das carruagens, da posição. Quantas loucuras há num homem! Oh! não há a menor dúvida de que os matizes de um trajo de arlequim não são mais variados do que as loucuras do espírito humano, e ambos chegam ao mesmo resultado: ficarem coçados e fazerem rir durante algum tempo, o público em troca do seu dinheiro, o filósofo em troca da sua ciência.
Gustave Flaubert, in 'Memórias de um Louco'

Ages Impelido por Mil Coisas

Dizes-te livre e todos os dias ages impelido por mil coisas. Vês uma mulher e ama-la, morres de amor por ela; serás livre de acalmar esse sangue que pulsa, de serenar essa cabeça ardente, de refrear esse coração, de aplacar esses ardores que te devoram? Serás livre de pensar? Mil cadeias te retêm, mil aguilhões te impelem, mil entraves te fazem parar. Vês um homem pela primeira vez, há um dos seus traços que te choca, e durante a tua vida sentes aversão por esse homem, que talvez tivesses amado se tivesse o nariz mais pequeno. Tens mau estômago, e és brutal para com aquele que terias acolhido com benevolência. E de todos estes factos derivam, ou neles se encadeiam, também fatalmente, outras séries de factos, de que outros derivam por sua vez.
Gustave Flaubert, in 'Memórias de um Louco'


O Fim da Civilização


Quando se extinguirá esta sociedade corrompida por todas as devassidões, devassidões de espírito, de corpo e de alma? Quando morrer esse vampiro mentiroso e hipócrita a que se chama civilização, haverá sem dúvida alegria sobre a terra; abandonar-se-á o manto real, o ceptro, os diamantes, o palácio em ruínas, a cidade a desmoronar-se, para se ir ao encontro da égua e da loba. 

Depois de ter passado a vida nos palácios e gasto os pés nas lajes das grandes cidades, o homem irá morrer nos bosques. A terra estará ressequida pelos incêncios que a devastaram e coberta pela poeira dos combates; o sopro da desolação que passou sobre os homens terá passado sobre ela e só dará frutos amargos e rosas com espinhos, e as raças extinguir-se-ão no berço, como as plantas fustigadas pelos ventos, que morrem antes de ter florido. 

Porque tudo tem de acabar e a terra, de tanto ser pisada, tem de gastar-se; porque a imensidão deve acabar por cansar-se desse grão de poeira que faz tanto alarido e perturba a majestade do nada. De tanto passar de mãos e de corromper, o outro esgotar-se-á; este vapor de sangue abrandará, o palácio desmoronar-se-á sob o peso das riquezas que oculta, a orgia cessará e nós despertaremos.

Então, quando os homens virem esse vazio, quando se tiver de deixar a vida pela morte, pela morte que come, que tem sempre fome, haverá um riso imenso de desespero. E tudo explodirá para se desmoronar do nada, e o homem virtuoso amaldiçoará a sua virtude e o vício aplaudirá. 

Alguns homens ainda errantes numa terra árida chamar-se-ão; encontrar-se-ão e recuarão horrorizados, aterrorizados consigo próprios, e morrerão. O que será então o homem, ele que já é mais feroz do que os animais ferozes, e mais vil do que os répteis? Adeus para sempre, carros deslumbrantes, fanfarras e famas; adeus, mundo, palácios, mausoléus, volúpias do crime e delícias da corrupção! A pedra cairá de repente, esmagada por si mesma, e a erva crescerá sobre ela. E os palácios, os templos, as pirâmides, as colunas, mausoléu do rei, caixão do pobre, carcaça do cão, tudo isso ficará à mesma altura, sob a relva da terra.
Então, o mar sem diques baterá tranquilamente nas praias e irá banhar as suas ondas na cinza ainda fumegante das cidades; as árvores crescerão, reverdescerão, e não haverá mão que as quebre e as destrua; os rios correrão nos prados floridos, a natureza será livre, sem homem que a oprima, e esta raça será extinta, porque era maldita desde a infância.
Gustave Flaubert, in 'Memória de um Louco'

Onde Será a Terra Prometida?


Triste época a nossa! Para que oceano correrá esta torrente de iniquidades? Para onde vamos nós, numa noite tão profunda? Os que querem tactear este mundo doente retiram-se depressa, aterrorizados com a corrupção que se agita nas suas entranhas. 

Quando Roma se sentiu agonizar, tinha pelo menos uma esperança, entrevia por detrás da mortalha a Cruz radiosa, brilhando sobre a eternidade. Essa religião durou dois mil anos, mas agora começa a esgotar-se, já não basta, troçam dela; e as suas igrejas caem em ruínas, os seus cemitérios transbordam de mortos. 

E nós, que religião teremos nós? Sermos tão velhos como somos, e caminharmos ainda no deserto, como os Hebreus que fugiam do Egipto.
Onde será a Terra prometida?
Tentámos tudo e renegámos tudo, sem esperança; e depois uma estranha ambição invadiu-nos a alma e a humanidade, há uma inquietação imensa que nos rói, há um vazio na nossa multidão; sentimos à nossa volta um frio de sepulcro.

A humanidade começou a mexer em máquinas, e ao ver o ouro que nelas brilhava, exclamou: «É Deus!» E come esse Deus. Há - e é porque tudo acabou, adeus! adeus! - vinho antes da morte! Cada um se precipita para onde o seu instinto o impele, o mundo formiga como os insectos sobre um cadáver, os poetas passam sem terem tempo para esculpir os seus pensamentos, mal os lançam nas folhas, as folhas voam; tudo brilha e ecoa nesta mascarada, sob as suas realezas de um dia e os seus ceptros de cartão; o ouro rola, o vinho jorra, a devastidão fria ergue o vestido e bamboleia-se... horror! horror! 

E depois, há sobre tudo isso um véu de que cada um tira a sua parte, para se esconder o mais possível. 

Escárnio! horror! horror!
Gustave Flaubert, in 'Memória de um Louco'

A Lenda de S. Julião Hospitaleiro

(Trecho)
O pai e a mãe de Julião moravam num castelo no meio de um bosque, na encosta de uma colina. As quatro torres dos ângulos, tinham os tectos pontiagudos, revestidas de chapas de chumbo, e a base das muralhas apoiavam-se sobre blocos de rocha, que desciam abruptamente até ao fundo dos fossos. As calçadas do pátio estavam limpas como o lajeamento de uma igreja. As goteiras figuravam dragões de boca aberta, jorrando água das chuvas para as cisternas; em todos os peitoris das janelas encontrava-se um vaso de plantas, quer fossem basiliscos ou heliotropos (1).
Uma segunda cerca feita de estacaria, rodeava um pomar de árvores de fruto, seguido de um parque onde nos canteiros as flores desenhavam monogramas; depois um fresco túnel de ramaria e um terreiro de jogo da malha que servia de divertimento aos pagens. Do outro lado encontravam-se o canil, as cavalariças, a padaria, o lagar e os celeiros. Uma pastagem de relva verde rodeava-os, enquadrando-os numa espessa sebe de espinhos.

Vivia-se em paz, de modo que nem era preciso fechar a grade de segurança; os fossos estavam cheios de água, as andorinhas faziam o seu ninho nas frestas das ameias, e o archeiro que todo o dia passeava ao longo das muralhas, quando o calor apertava, recolhia-se à sua torrinha e adormecia placidamente. No interior, as ferragens reluziam, as tapeçarias protegiam os quartos do frio, os armários regurgitavam de roupa branca, os tonéis cheios de vinho empilhavam-se nos celeiros, as arcas de carvalho vergavam sob o peso dos sacos de dinheiro. Viam-se na sala de armas entre estandartes e cabeças de animais selvagens, armas de todos os tempos e nações, fundas dos Amalecitas, dardos dos Garamantes (2), alfanges sarracenos e cotas de malha dos Normandos. O maior espeto da cozinha podia voltejar um boi.

A capela era sumptuosa como um oratório de um rei. Havia mesmo num compartimento afastado, uma sala de banhos quentes, como as usadas pelos romanos mas o bom senhor não a utilizava, julgando ser um hábito de idólatras.

Sempre envergando uma pelica de pele de raposa, passeava pela casa, fazia a justiça dos seus vassalos, acalmava as questões entre os vizinhos. Durante o inverno olhava os flocos da neve que caía, ou gostava de ouvir ler histórias. Logo que vinham os primeiros dias bons, montava na mula, indo ao longo dos caminhos sobranceiros aos trigais que reverdesciam, falando com campónios, dando conselhos.

Após muitas aventuras arranjara para esposa uma menina de alta linhagem. Era muito branca, um pouco altiva e sisuda. Os seus cónicos chapéus roçavam nas bandeiras das portas; a cauda do seu vestido arrastava-se três passos atrás de si. A vida da sua casa era regulada como num mosteiro; cada manhã distribuía o trabalho às suas criadas, vigiava as compotas e os unguentos, fiava à roca ou bordava toalhas de altar. E à força de rogar a Deus, acabou por ter um filho. Houve grande alegria, e para a comemorar, um festim que durou três dias e quatro noites, com iluminação de archotes, e música de harpa sob um docel de romarias.

Comeram-se as mais raras iguarias, galinhas tão gordas como carneiros; e entre os divertimentos surgiu um anão de dentro de um bolo; as escudelas não paravam, e como a alegria aumentava sempre, até se bebeu por trompas de marfim e elmos.

A jovem mãe não assistiu a estas festas. Ficara no leito tranquilamente. Uma noite, acordou assustada, e viu envolvida por um raio de luar que entrava pela janela, uma sombra que se movia. Era um ancião vestido com um borel, apertando a cintura com um rosário, de alforge ao ombro enfim toda a aparência de um ermita. Aproximou-se da sua cabeceira e murmurou-lhe sem descerrar os lábios:

- Alegra-te ó mãe, o teu filho será um santo!
Ia para acreditar, mas escorregando sobre o raio de luar, ele ergueu-se docemente no ar e depois desapareceu. Os ecos do banquete soaram mais forte. Ela escutava a voz dos anjos, e a sua cabeça recaiu no travesseiro sob o qual se escondia um osso de mártir dentro do seu escrínio de rubis.
No dia seguinte todos os criados interrogados declararam que nenhum havia visto o ermita. Sonho ou realidade, aquilo seria certamente uma comunicação do céu; mas nada revelou, pois não queria que a acusassem de orgulhosa.

Os convivas partiram pelos alvores da madrugada, e, o pai de Julião encontrava-se de parte de fora da poterna (3) onde tinha vindo acompanhar os convidados, quando subitamente um mendigo se apresentou na sua frente, surgindo do nevoeiro. Era um Boémio, de barba encaracolada, pulseiras nos braços e olhos vivos. De repente, como que inspirado, pronunciou estas palavras:

- Ah, o teu filho! Muito vivo e muitas glórias! Muito feliz! A família de um imperador!

Logo que se dobrou para apanhar a esmola, perdeu-se nos campos, desaparecendo. O castelão olhou em redor, chamando-o. Nada. O vento sibilava, a bruma da manhã envolvia-o. Atribuiu esta visão à fadiga do seu cérebro, por ter dormido pouco.

- Se eu falar rir-se-ão de mim - pensou.
Todavia os esplendores destinados ao seu filho, maravilharam-no, se bem que a promessa não fosse clara e duvidasse mesmo de a ter ouvido.
Os esposos calaram-se com o seu segredo. Os dois dedicavam ao menino igual amor, e acreditando que ele estava marcado por Deus rodeavam-no de cuidados infinitos. Por de cima do seu berço que era forrado de penas e do mais fino tecido, uma lamparina em forma de pomba bruxuleava continuadamente.

Três amas o embalavam, e bem apertado nos cueiros, a face rosada, os olhos azuis, com o seu fatinho de seda bordado a oiro e a prata, e a touca debruada a pérolas, assemelhava-se a um Menino Jesus. Os dentes nasceram-lhe sem que tivesse chorado uma só vez.

Quando tinha sete anos, a mãe ensinou-lhe a cantar. Para lhe dar coragem o pai montou-o num fogoso cavalo. O menino sorriu de contentamento e não tardou em saber tudo o que dizia respeito a um mestre de cavalaria. Um velho monge, muito sabedor, ensinou-lhe a santa escritura, a numeração dos árabes, o latim, e a fazer no pergaminho pequenas pinturas. Trabalhavam juntamente no alto de um torreão afim de fugirem ao barulho.

Terminada a lição, invariavelmente desciam ao jardim onde passeavam vagarosamente estudando as flores. Algumas vezes avistavam caminhando na distância do vale uma fila de animais de carga, conduzidos por um peão vestido à oriental. O castelão que o havia reconhecido como um comerciante mandava ao seu encontro um escudeiro.

O estrangeiro, ganhando confiança, desviava-se do seu caminho, e introduzido na portaria, retirava dos seus cofres as peças de veludo e de seda, jóias e perfumes, coisas singulares de um uso desconhecido; por fim o bom homem ia-se embora depois de boa venda, sem ter sofrido qualquer espécie de violência. Doutras vezes, era um grupo de peregrinos que batia à porta. Os seus fatos encharcados secavam diante da lareira, e, quando estavam refeitos, contavam das suas viagens, do balanço dos barcos sobre as ondas do mar, das caminhadas nas areias escaldantes, da ferocidade dos pagãos, das cavernas da Síria, do Palheiro e do Santo Sepulcro. Depois, ofereciam ao jovem senhor conchas (4) tiradas das suas capas. De outras vezes o castelão recebia velhos companheiros de armas.

Enquanto bebiam, falavam das suas guerras, assaltos a fortalezas com o auxílio de máquinas e de ferimentos extraordinários. Julião, que os escutava, soltava gritos, e o pai não duvidava que ele viria a ser, sem dúvida alguma, um conquistador. Mas uma tarde ao sair do Angelus, quando passava por entre mendigos inclinados, abrindo a bolsa, com muita modéstia e um ar nobre, a mãe ficou absolutamente segura que a sua futura carreira seria a eclesiástica. O seu lugar na capela era ao lado dos pais, e por muito longos que fossem os ofícios, permanecia de joelhos no seu lugar, o gorro por terra e as mãos juntas.

Um dia durante a missa, avistou, erguendo a cabeça, um ratito saindo de um buraco da parede. Saltitava no primeiro degrau do altar, e após duas ou três voltas, regressou ao ponto de partida. No domingo seguinte o pensamento de o tornar a ver preocupou-o. Voltou, e cada domingo verificava como ele era importuno, tomou-se de rancor e resolveu matá-lo. Fechou a porta e semeou os degraus com migalhas de um bolo, colocando-se diante do buraco com uma vara na mão. Ao fim de algum tempo um focinhito rosáceo surgiu, depois o corpo. Desfechou um golpe rápido e ficou estupefacto perante o pequeno corpo que deixara de mexer. Uma gota de sangue manchava a laje. Limpou-a rapidamente com a manga, atirou fora o rato e não disse nada a ninguém.

Todas as espécies de passarinhos vinham debicar nas sementes do jardim. Pensou em meter grãos no côncavo de uma cana. Quando ouvia um chilreio numa árvore aproximava-se silenciosamente, erguia a cana e assoprava; e as avezinhas assustadas choviam em seu redor, de tal modo, que ele não podia deixar de rir da sua malícia.

Uma manhã ao afastar a cortina, viu pousado no parapeito da janela, um belo pombo que se espanejava ao sol. Julião agachou-se para o observar; a parede neste lugar tinha uma brecha, enfiou os dedos, apanhou uma pedra, rodou o braço e abateu a ave que caiu no fosso. Precipitou-se em direcção a este, arranhando-se nas silvas, farejando mais lesto que um cachorro. O pombo de asas quebradas, palpitava, suspenso aos ramos de um arbusto.
A resistência da sua vida irritou a criança. Pôs-se a estrangulá-lo e as convulsões do animalzinho faziam palpitar o seu coração envolvendo-o numa volúpia selvagem e tumultuosa. Ao último esticão sentiu-se desfalecer.
À noite, enquanto ceavam, o pai declarou que com a idade de Julião já aprendera a arte de caçar; e foi buscar um velho caderno de apontamentos, contendo perguntas e respostas sobre todas as espécies de caça. Mais tarde um mestre demonstrou ao menino a arte de adestrar cães, de ensinar falcões, de colocar ratoeiras e de reconhecer o veado pelos seus excrementos, a raposa pelas suas pistas, o lobo pelas pegadas, a melhor maneira de discernir os seus trilhos, o modo de o abater e de localizar os seus refúgios; quais eram os ventos mais propícios, enumerando os gritos, e as regras de como devem ser distribuídas aos cães as entranhas dos animais abatidos.

Quando Julião recitou para o pai todas estas normas, este apressou-se em lhe arranjar uma matilha. Nela se distinguiam vinte e quatro galgos africanos, mais rápidos do que gazelas, difíceis de conduzir; dezassete casais de cães da Bretanha, vermelhos, malhados de branco, infalíveis na caça, largos de peito e muito uivadores. Para o ataque ao javali e pistas perigosas, possuía "griffons" (5) peludos como ursos. Os mastins da Tartaria mais altos do que burros, de espinha larga e jarrete direito, eram os destinados à caça grossa. As capas negras dos fraldiqueiros luziam como cetim; os latidos dos "talbots" tapavam todos os outros. Num pátio à parte, rosnavam puxando as trelas e dardejando olhares, oito cães Álamos (6), animais formidáveis e tão ferozes que não tinham medo dos leões. Todos comiam pão de trigo e bebiam em bebedouros de pedra. Tinham nomes sonoros.

A falconaria talvez fosse superior à matilha; o bom senhor, à força de dinheiro, comprara Terçôs do Cáucaso, Sacres da Babilónia, gerifalcos da Alemanha, "falções-peregrinos" capturados nas falésias das praias dos mares frios, em distantes países.

Viviam em barracões cobertos de colmo, e, presos por ordem de alturas aos poleiros, tinham na sua frente um canteiro de relva, onde de quando em quando poisavam a fim de desentorpecer. As bolsas (7), os anzóis, as ratoeiras (8), enfim todos os apetrechos foram feitos. Frequentemente saíam a campo os "cães passarinheiros" que caíam bem depressa sobre as presas. Então os palafroneiros avançavam passo a passo, estendendo com cuidado sobre os seus corpos impassíveis uma larga rede. Um batedor obrigava-os a ladrar; as codornizes esvoaçavam, e as senhoras dos arredores convidadas com seus maridos, as crianças, as camareiras, toda a gente, procurava apanhá-las o que conseguia facilmente. Outras vezes para fazer sair as lebres, batiam tambores; as raposas desembocavam dos fossos como balas, iludindo algum lobo que lhes aparecesse pela frente.

Mas Julião não prestava atenção a estes cómodos divertimentos; gostava mais de caçar longe das gentes, com o seu cavalo e o falcão. Acompanhava-o quase sempre um grande Tártaro (9) de Scythie, branco como a neve. No seu carapuço de coiro flutuava um penacho, os guizos de oiro ressoavam nas patas azuis; e ele mantinha-se firme no braço do dono enquanto o cavalo galopava e os campos se desdobravam na sua frente. Julião, desapertava a correia soltando-o em seguida, e o falcão cortava atrevidamente o espaço como uma flecha. Depois podiam-se ver duas silhuetas diferentes confundindo-se e desaparecendo nas alturas azuis. O falcão não tardava a descer segurando no bico qualquer pássaro e voltava a pousar no guante, com as asas ainda frementes.

Julião caçava deste modo a garça real, o milhafre, a gralha, e o abutre. Gostava de soprar a trompa, seguir os seus cães, que corriam nas vertentes da colina, saltando ribeiros, subindo em direcção ao bosque, e quando o veado mordido começava a gemer, abatia-o de súbito, abandonando-o à fúria dos cães que o devoravam abocando a carne ainda quente. Nos dias de nevoeiro enfronhava-se nos pântanos para esperas aos gansos, lontras e patos bravos.

Naquele dia três escudeiros desde a aurora, que se encontravam no fim da escadaria e o velho monge debruçando-se na sua mansarda fazia grandes sinais chamando-o, mas Julião não regressava. Era sempre assim. Quer fosse com as ardências do sol, com a chuva, com a tempestade, bebendo com as mãos em concha a água dos ribeiros, comendo frutos selvagens enquanto galopava, e se estava fatigado repousando à sombra de um carvalho só voltava pelo escurecer, coberto de sangue e de lodo, com espinhos no cabelo e cheirando a animais ferozes. Imaginava-se como eles. Quando a mãe o acarinhava, aceitava friamente as suas carícias como se estivesse sonhando, ausente.

Matava ursos a golpes de faca, touros com o machado, javalis com o venábulo (10), e mesmo uma vez, nada mais tendo do que um bordão, defendeu-se contra os lobos que estavam devorando cadáveres ao pé de um cadafalso.

Uma manhã de inverno partiu antes de nascer o sol, bem equipado, uma balista (11) ao ombro e um punhado de flechas no arção da sela. O seu ginete dinamarquês seguido de dois podengos, estremecia o terreno. Gotas de geada perolavam a sua capa, uma brisa violenta soprava.
Parte do horizonte clareou, na brancura do crepúsculo, avistou coelhos saltitando perto das suas tocas. Os dois podengos lépidos, atiraram-se a eles, aqui e ali despedaçando-lhes com violência os lombos. Seguidamente entrou num bosque. Num ramo, um galo do campo encolhido pelo frio, dormia com a cabeça sob a asa. Julião com um golpe de espada decepou-lhe as patas, e sem se demorar continuou o seu caminho.
Gustave Flaubert

Uma Alma Simples

(Techo)
Teve, como qualquer outra, a sua história de amor. O pai, um pedreiro, morrera tendo caído de um andaime. Depois morreu a mãe, as irmãs dispersaram-se, um quinteiro recolheu-a e empregou-a, ainda de pequenina, a guardar as vacas no campo.

Tiritava sob os farrapos, bebia a água dos charcos, estendida de bruços, no chão. Foi sovada a propósito de tudo e de nada e, finalmente, expulsa por causa de um roubo de trinta soldos que não cometera. Entrou para outra quinta e serviu como encarregada da criação. Porque agradava aos patrões, as suas camaradas invejavam-na.

Numa noite do mês de Agosto (tinha então dezoito anos) os patrões levaram-na a uma festa em Colleville. Ficou aturdida, estupefacta com o alarido dos tocadores, as luzes nas árvores, a variedade de trajes, as rendas, as cruzes de ouro, a multidão que se movia.

Conservava-se recatadamente afastada quando um rapaz, de aspecto rico e que fumava o seu cachimbo, apoiando os cotovelos sobre a lança de um pequeno carro, veio convidá-la para dançar.

Pagou-lhe cidra, café, bolo folhado, deu-lhe um lenço de seda e, julgando que ela compreendia as suas intenções, ofereceu-se para a acompanhar a casa. Num campo de aveia atirou-a, brutalmente, ao chão. Ela teve medo e começou a gritar. Ele afastou-se.

Numa outra tarde, na estrada de Beaumont, ao ultrapassar um grande carro cheio de feno que avançava, lentamente, reconheceu Teodoro. Este veio ter com ela pedindo que lhe perdoasse, pois "a culpa tinha sido da bebida". Não soube que responder e teve vontade de fugir. Depois ele falou sobre as colheitas e pessoas importantes da comuna e, visto que seu pai tinha trocado Colleville pela quinta de Ecots, eis a razão porque eram vizinhos. "Ah! " - disse ela. Ele acrescentou que desejavam casa-lo. Mas não tinha pressa, pois esperava encontrar mulher a seu gosto. Felicidade baixou a cabeça. Ele perguntou-lhe se pensava em casar. Ela retorquiu, rindo-se, que não era bonito gracejar com coisas tão sérias. "Mas não! Juro-te que falo a sério", e, com o braço esquerdo, apertou-lhe a cintura. Caminhava, assim, apoiada nele. Retardaram o passo. O vento soprava brando, as estrelas brilhavam e a enorme carripana de feno oscilava na sua frente. Os quatro cavalos, arrastando os passos, levantavam nuvens de poeira. Depois, sem governo, voltaram à direita. Ele abraçou-a uma vez mais. Ela desapareceu na sombra.
Na semana seguinte Teodoro conseguiu encontrar-se várias vezes com Felicidade, sob uma árvore isolada, ao fundo das capoeiras, por detrás de um muro. Não era inocente como as meninas recatadas - os animais haviam-na instruído; mas a razão e o instinto da honra impediram-na de cair. Esta resistência exasperou o amor de Teodoro ainda que, para satisfaze-lo, (ou talvez sinceramente) lhe haja proposto casamento. Ela hesitou em acreditar. Todavia ele fez grandes promessas.

Depressa confessou algo aborrecido: os pais, no ano transacto, haviam-no feito substituir no serviço militar por um outro homem a quem pagaram para esse efeito. Mas, de um dia para o outro, poderiam vir buscá-lo. A ideia de servir o exército amedrontava-o.

Esta cobardia foi para Felicidade uma prova de ternura. A sua por ele duplicou. Escapava-se, de noite e, quando se encontravam, Teodoro torturava-a com os seus receios e as suas instâncias.

Por fim disse-lhe que iria à Prefeitura colher informações e trá-las-ia, no domingo seguinte, entre as onze horas e a meia-noite.

No momento aprazado correu para o noivo. Em seu lugar encontrou um dos amigos. Este fez-lhe saber que não deviam encontrar-se mais.
Para conseguir fugir ao alistamento militar, Teodoro casara-se com uma velha muito rica, a senhora Lehoussais, de Toucques.
Sentiu uma amargura imensa. Atirou-se ao chão, gritou, invocou Deus e, sozinha, chorou até ao nascer do sol. Em seguida voltou à quinta e participou que saía. No fim do mês, feitas as contas, enrolou toda a sua bagagem num lenço e dirigiu-se a Pont-l'Evêque.

Em frente da estalagem encontrou uma viúva que, precisamente, procurava uma cozinheira. A rapariga pouco sabia mas parecia ter tão boa vontade e tão poucas exigências que a senhora Aubain acabou por dizer:

- "Está bem, aceito-a"!

Felicidade um quarto de hora depois estava na nova casa. A princípio viveu numa espécie de receio que lhe causavam "o género da casa" e a "recordação do senhor", dominando tudo.

Paulo e Virgínia, aquele de sete anos de idade, e esta de quatro anos, pareciam-lhe feitos de uma matéria preciosa. Andava com eles às cavalitas e a senhora Aubain proibiu-a de os beijar, de minuto a minuto, o que a martirizou.

Todavia sentia-se feliz. A doçura do ambiente eclipsara a sua tristeza.
Às quintas-feiras apareciam as costumadas visitas para a partida do boston. Felicidade preparava, de antemão, as cartas e os aquecedores. Chegavam, justamente, às oito horas da noite e saiam antes das onze badaladas.
Às segundas-feiras, pela manhã, o ferro velho, que morava na rua, estendia no chão a sucata. Pouco a pouco a cidade enchia-se de um ruído de vozes a que se misturavam os relinchos dos cavalos, o balar dos cordeiros, o grunhir dos porcos e a trepidação seca dos carros na calçada.

Perto do meio-dia, quando o mercado atingia o auge, aparecia, à entrada da porta da senhora Aubain, um velho camponês, desempenado, boné lançado para a nuca, nariz recurvo e que era, nem mais nem menos, Robelin, o quinteiro de Geffosses. Pouco tempo depois vinha Liébard, o quinteiro de Toucques, pequeno, avermelhado, obeso, vestindo de cinzento o calçando polainas altas de couro, armadas de esporas. Ambos ofereciam à sua proprietária frangos e queijos.

Felicidade, invariavelmente, frustrava as suas intenções manhosas e eles saíam cheios de consideração por ela.

De tempos a tempos a senhora Aubain recebia a visita do marquês de Grémanville, seu tio, arruinado por causa do jogo e que vivia em Falaise, no último pedaço das suas imensas terras de outrora.

Chegava sempre à hora do almoço, com um cão de água muito feio que, com as patas, sujava os móveis. Apesar dos esforços para parecer elegante, chegando a tirar o chapéu sempre que dizia "meu falecido pai" todavia, cedendo ao hábito, bebia cálix após cálix, larachando sempre. Felicidade despedia-o:

- "O senhor ainda tem muito que fazer, senhor de Grémanville! Até outro dia". E fechava a porta.

Abria-a com prazer ao senhor Bourais, antigo procurador. A gravata branca, a calvície, o peitilho da camisa, a ampla sobrecasaca castanha, a sua maneira de gesticular, descrevendo círculos no ar quando fazia cálculos, todo este conjunto produzia nela perturbação semelhante àquela que em nós provoca a presença de qualquer homem extraordinário.

Administrava as propriedades da senhora e, por isso, fechava-se com ela durante horas no escritório do "senhor", receava sempre comprometer-se, respeitava intimamente a magistratura e tinha pretensão a latinista.
Para instruir de forma agradável as crianças ofereceu-lhes urna geografia com gravuras. Representavam diferentes curiosidades do mundo, tais como antropófagos coroados de penas, um macaco roubando uma menina, os beduínos no deserto, uma baleia ao ser arpoada, etc.

Paulo explicou estes desenhos a Felicidade. Foi esta, precisamente, toda a sua educação literária. A das crianças era ministrada por Guyot, um pobre diabo empregado na Câmara, famoso pela sua boa caligrafia e que amolava o canivete nas botas.

Quando o tempo estava bom partiam cedo para a quinta de Geffosses. O pátio ficava numa encosta e a casa no meio dele; ao longe, o mar aparecia como uma mancha cinzenta.

Felicidade retirava do cabaz fatias de carne fria e almoçavam numa casa contígua à vacaria. Eram os últimos vestígios de uma casa de recreio, agora desaparecida. O papel das paredes, às tiras, tremia com as correntes de ar. A senhora Aubain inclinava a fronte repleta de recordações; as crianças não se atreviam a falar.

- "Brinquem"! ordenava. Elas desapareciam. Paulo subia ao celeiro, apanhava pássaros, fazia ricochetes na água ou batia com um pau nas enormes pipas que ressoavam como tambores.

Virgínia dava comida aos coelhos, apanhava miosótis e, na rapidez da corrida, deixava ver as calcinhas bordadas.

Uma tarde de outono voltaram através das pastagens. A lua, no seu primeiro quarto, iluminava uma parte do céu e a neblina flutuava como um manto sobre as sinuosidades de Toucques.

Bois, deitados no meio da relva, olhavam tranquilamente as quatro pessoas que passavam. Na terceira pastagem alguns ergueram-se na frente deles, olhando em volta.

- "Não tenham medo" - disse Felicidade e, murmurando uma espécie de lamento, acariciou o lombo do que lhe ficava mais perto: ele voltou-se, os outros imitaram-no. Mas quando atravessavam a pastagem seguinte ouviram um formidável mugido. Era um touro que o nevoeiro ocultava. Avançou para as duas mulheres. A senhora Aubain ia correr.

- "Não, não, mais devagar". - Apesar disso apressaram o passo e ouviam atrás um sopro ruidoso que se aproximava. Os cascos, como martelos, batiam a erva do prado. Ei-lo que galopa agora. Felicidade voltou-se e com ambas as maus arrancava pedaços de relva que ia atirando para os olhos.
O touro baixava o focinho, sacudia os cornos, tremia de furor, mugindo horrivelmente.

A senhora Aubain, ao fundo da passagem, procurava, desvairada, transpor o alto muro. Felicidade recuava sempre diante do touro, lançando-lhe continuadamente os pedaços de relva com terra agarrada, que o cegavam, gritando:

- "Despachai-vos! Despachai-vos !"
A senhora Aubain desceu o fosso e pousou Virgínia, Paulo fez várias tentativas para subir o talude, mas caía. Por fim conseguiu-o à força de coragem.

O touro encurralou Felicidade numa vedação. A sua baba salpicava-lhe já a cara. Um segundo mais e estripava-a. Teve tempo de se escapar por entre dois varões e o corpulento animal, surpreendido, parou.

Durante muitos anos, este acontecimento foi motivo de conversa em Pont-l'Evêque. Felicidade não se mostrou orgulhosa com o facto nem pensou que tivesse feito algo de heróico.

Virgínia ocupava-a, exclusivamente, porque teve, em consequência do susto, uma doença nervosa e o Dr. Poupart aconselhou banhos de mar em Trouville. Nesse tempo não eram frequentados. A senhora Aubain colheu informações e fez preparativos para uma longa viagem.
A bagagem seguiu, de véspera, no carro de Liébard.

No dia seguinte trouxe este dois cavalos, um com sela para mulher, munida de um espaldar de veludo. Na garupa do segundo, uma manta enrolada formava uma espécie de cadeira. A senhora Aubain tomou lugar atrás de Liébard. Felicidade encarregou-se de Virgínia e Paulo escarrapachou-se no burro do senhor Lechaptois, emprestado sob condição de terem com ele o maior cuidado.

A estrada era tão má que, para percorrem oito quilómetros, gastaram duas horas. Os cavalos afundavam-se na lama, fazendo, para sair dela, bruscos movimentos de ancas. Umas vezes tropeçavam no rodado vincado na estrada. Outras, era preciso saltar.

O jumento de Liébard, em certas alturas, parava bruscamente. Cheio de paciência o dono esperava que recomeçasse a andar. Falava a respeito dos proprietários das terras que ladeavam o caminho, juntando às histórias reflexões de ordem moral. Assim, no meio de Toucques, ao passar sob uma janela cercada por uma trepadeira disse, encolhendo os ombros: - "aqui está uma, a senhora Lehoussais que, em vez de ter casado com um rapaz novo..." Felicidade não ouviu o resto. Os cavalos trotavam, o burro galopava. Enfiaram por um atalho, contornando uma barreira; apareceram dois rapazes e desceram mesmo à porta da estrebaria.

A tia Liébard, ao ver a patroa prodigalizou-lhe demonstrações de alegria. Serviu-lhes um almoço composto de costela de vaca, tripas, morcela, frango de fricassé, cidra espumante, uma torta de compotas e brunhos em aguardente, acompanhando tudo isto de mesuras e gentilezas para com a senhora Aubain que parecia de "óptima saúde", a menina, agora "magnífica" e o menino Paulo, singularmente "crescido", sem esquecer seus falecidos avós que os Liébard tinham conhecido, pois estavam ao serviço da família desde há muitas gerações.

A quinta tinha, como eles, um aspecto vetusto. As vigas do tecto estavam carunchosas, as paredes negras do fumo, os vidros das janelas cinzentos de poeira.

Sobre um aparador de castanho via-se toda a espécie de utensílios: canjirões, pratos, escudelas de estanho, armadilhas, tesouras de tosquiar carneiros. Uma enorme seringa fez rir as crianças.

Todas as árvores dos três quintais tinham cogumelos na base ou camadas de visco nos ramos. O vento derrubara várias delas; renasceram e vergavam, agora, sob o peso dos frutos.

Os tectos de palha, semelhantes a veludo castanho e de espessuras diferentes, resistiam às mais fortes borrascas. Entretanto a cocheira caía, em ruínas. A senhora Aubain dizia que tomaria providências e mandou que aparelhassem os animais.

Demoraram meia hora a chegar a Trouville.

A pequena caravana apeou-se para atravessar os Ecores; tratava-se de uma falésia a prumo sobre os barcos. E, três minutos mais tarde, ao fundo do cais entraram no pátio do "Cordeiro de ouro", casa da tia David.

Virgínia, poucos dias depois, sentiu-se menos fraca, resultado da mudança de ares e da acção dos banhos. Tomava-os em camisa, à falta de fato de banho e a criada vestia-a na cabana do guarda da alfândega. Todos os banhistas, aliás, faziam o mesmo. À tarde iam com o burro para lá das rochas negras, para as bandas de hennequeville. O atalho, a princípio, subia por entre terrenos cobertos de relva, como um prado, depois atingia o planalto, onde alternavam as pastagens e os campos de lavoura.

Ladeavam-no moutas de espinheiros de entre os quais se elevavam, altaneiros, os azevinhos. Aqui e além uma grande árvore desenhava no ar azul ziguezagues, com os seus ramos. Quase sempre repousavam num prado, tendo Deauville à esquerda, o Havre à direita e, em frente, o mar. Este, liso como um espelho, brilhava com o sol e de tal maneira brando que se ouvia apenas o seu murmúrio. Pardais ocultos pipiavam e a abóbada imensa do céu cobria tudo isto.

A senhora Aubain, sentada, costurava. Virgínia, perto dela, entrançava juncos. Felicidade sachava as flores de alfazema. Paulo, aborrecido, queria partir. Outras vezes, tendo atravessado de barco para Toucques, procuravam conchas. A maré baixa deixava a descoberto ouriços do mar e medusas; e as crianças corriam para os flocos de espuma que o vento arrastava. As ondas adormecidas, caindo sobre a areia, desdobravam-se, ao longo da praia; esta estendia-se a perder de vista mas do lado da terra, tinha por limite as dunas do "Marais", larga pradaria, em forma de hipódromo.

Quando voltavam, Trouville, ao fundo na encosta da colina, aumentava de tamanho, a cada passo e, com as casas desiguais, parecia espalhar-se numa desordem alegre.

Nos dias mais quentes não saiam do quarto. A deslumbrante clareza de fora chapeava barras de luz entre as travessas das gelosias. Nenhum ruído na povoação. Em baixo ninguém nos passeios. Este silêncio generalizado aumentava a tranquilidade das coisas.

Ao longe os martelos dos calafates batiam as quilhas das embarcações e uma brisa pesada trazia o cheiro do alcatrão.

O principal divertimento era constituído pelo regresso dos barcos. Desde que ultrapassavam as balizas começavam a bordejar. As velas desciam para dois terços dos mastros e, com a mezena inchada como um balão, avançavam, deslizavam por entre o marulhar das vagas, até ao meio do porto, onde a âncora imediatamente caía. Depois os barcos colocavam-se em frente do cais. Os marujos lançavam por cima do costado dos barcos, peixes ainda vivos, a saltar. Uma fila de carros esperava e as mulheres, com lenços de algodão esforçavam-se por segurar os cabazes e abraçar os seus maridos.
Uma delas, um dia, foi ter com Felicidade que, pouco depois, entrou no quarto, toda satisfeita: tinha encontrado uma irmã.

Anastácia Barette, mulher de Leroux, apareceu com um bebé ao colo, outro pela mão direita e, à esquerda, um outro vestido de marujo, de punhos na anca e gorro enterrado até às orelhas.

Ao fim de um quarto de hora a senhora Aubain despediu-a.
Encontravam-nos sempre nas proximidades da cozinha ou quando passeavam. O marido não aparecia.

Felicidade tomou-lhes afeição. Comprou-lhes uma manta, camisas, um fogão; evidentemente eles exploravam-na.

Esta fraqueza de Felicidade irritava os nervos da senhora Aubain, que, além disso, não gostava das familiaridades do sobrinho porque ele tuteava seu filho. E, como Virgínia tossia e a estação já não era boa, voltaram para Pont-l'Evêque.

O senhor Bourais ajudou-a a escolher um colégio. O de Caen passava por ser o melhor Paulo foi pois para lá e portou-se bem à despedida, foi mesmo valente, satisfeito por ir viver para uma casa onde passava a ter camaradas.

A senhora Aubain, conformou-se com o afastamento do filho, porque era indispensável. Virgínia pensou nele pouco. Felicidade lamentava-se com alarido. Mas uma ocupação veio distraí-la: a partir do Natal levava todos os dias a menina à catequese.
Gustave Flaubert