Carregando sob o braço um objeto embrulhado no número 223 do Mensageiro da Bolsa, Sacha Smirnoff, filhinho de mamãe, assumiu uma expressão de tristeza e entrou no consultório do doutor Kochelkoff.
— Ah! meu grande jovem! — exclamou o médico. — Como vamos? O que há de novo?
Fechando as pálpebras, Sacha pôs a mão no coração e, comovido, falou:
— Mamãe lhe manda seus cumprimentos, Ivan Nicolaìevitch, e me encarregou de lhe agradecer... Mamãe só tem a mim no mundo, e o senhor me salvou a vida... curando-me de grave enfermidade e... não sabemos como lhe agradecer.
— Ora! O que é isso, meu jovem! — atalhou o médico, realizado. — Não fiz mais do que qualquer um no meu lugar teria feito...
Depois de observar o presente, o médico coçou lentamente a orelha, bufou e suspirou, confuso.
— Sim — murmurou —, é algo realmente magnífico... como diria?... um tanto ou quanto ousado... Não é apenas decotada; é... sei lá, que diabos!
— Mas... por que diz isso?
— Nem a serpente em pessoa poderia inventar alguma coisa de mais indecente. Se eu colocasse esta fantasiazinha na mesa, iria contaminar a casa toda.
— Que modo mais excêntrico tem o senhor de interpretar a arte! — disse Sacha, ofendido. — É um objeto artístico!... Olhe! Que beleza! Que elegância! É de se ficar com a alma inundada de piedade, e com lágrimas a subir aos olhos! Contemplando-se tamanha beleza, nos esquecemos de tudo o que seja da Terra... Veja bem... Que movimentos! Que harmonia! Que expressão!...
— Compreendo muito bem tudo isso, meu caro — interrompeu o médico —, mas acontece que eu sou pai de família. Meus filhos costumam vir aqui. Recebo senhoras...
— É evidente — disse Sacha — que se a gente adotar o ponto de vista do povo, este objeto, altamente artístico, causará uma impressão diferente... Sou o filho único de mamãe... somos pobres, e por isso não podemos lhe recompensar os seus cuidados; e não sabemos o que fazer; embora, apesar de tudo, mamãe e eu... seu filho único... lhe suplicamos de todo o coração que aceite, como penhor de gratidão... esta ninharia que... É um bronze antigo... uma obra rara... de arte.
— Mas não havia necessidade — disse o médico, franzindo as sobrancelhas. — Por que razão?
— Não, eu imploro ao senhor, não recuse! — continuou a murmurar Sacha, desembrulhando de todo o pacote. — Seria uma ofensa, a mamãe e a mim... Trata-se um objeto belíssimo... em bronze antigo. Foi herança de papai, guardada como uma querida lembrança.. Papai comprava bronzes antigos e revendia-os aos colecionadores... Já mamãe e eu não nos ocupamos disso...
Sacha acabou de desembrulhar o objeto e colocou-o solenemente em cima mesa. Era um pequeno candelabro de bronze antigo, de fina feitura. Representava duas figuras femininas em trajes de Eva e em atitudes que não ousaria — nem tenho temperamento para isso — descrever.
As figuras sorriam ostensivamente, dando a impressão de que, não fossem retidas pela obrigação de suster o castiçal, teriam imediatamente fugido do pedestal dançado tal cancã que, amigo leitor, nem é bom imaginar.
— O doutor, claro, está acima destas coisas todas e portanto sua recusa nos daria, a mamãe e a mim, uma enorme frustração. Sou o filho único de mamãe; o senhor me salvou a vida... Damos-lhe de presente o que de mais precioso possuímos, e... só tenho a tristeza de não nos pertencer o par do candelabro!
— Muito agradecido, meu jovem amigo. Fico-lhe muito grato... Minhas recomendações à sua mãe, mas rogo-lhe, o senhor mesmo considere a questão! Meus garotos costumam vir aqui... Aparecem muitas senhoras... Mas deixo-o aqui, já que me parece impossível convencê-lo!
— Ora, não há de que me convencer! — disse Sacha com habilidade. – Coloque o candelabro do lado desta jarra. Que infelicidade não possuir o par!... Bem, vou indo, adeus, doutor.
Depois da saída de Sacha, o doutor observou bastante o candelabro, coço orelha e concluiu:
“Não se pode negar que é magnífico. É uma pena abrir mão dele. Ao mesmo tempo é impossível deixá-lo aqui... Hum... Está criado o problema... Poderia dá-lo de presente a quem?” •
Depois desta reflexão, lembrou-se do advogado Ukhoff, seu amigo íntimo, que gostaria de ter o objeto.
"Às mil maravilhas!", decidiu. "Ukof Ukhoff não aceita receber dinheiro de mim , mas ficará contente com esta lembrança... E assim me livrarei deste incômodo. Além do mais, ele é solteiro e maroto...” •
Rápido, o médico se vestiu, pegou o candelabro e foi até a casa do advogado.
— Bom dia, amigo — disse, ao encontrar Ukhoff em sua morada... — Venho lhe trazer uma recompensa pela amolação... Já que não quer aceitar dinheiro meu, aceitará um pequeno presente... Ei-lo, meu amigo! É um objeto magnífico!
Ao ver o candelabro, o advogado viu-se tomado de inefável encantamento.
— Isso sim é que é obra de arte — disse, rindo às gargalhadas. — Que o diabo carregue os meliantes capazes de sequer imaginar alguma coisa de parecido... É maravilhoso! Onde foi que você encontrou tal preciosidade?
Assim que o entusiasmo se esgotou, o advogado lançou temerosos olhares para o lado da porta e disse:
— No entanto, meu velho amigo, é melhor levar de volta o seu presente. Não posso aceitá-lo...
— Por quê? — quis saber, espantado, o médico.
— Porque... Mamãe vem aqui, meus clientes... e além do mais é constrangedor em relação aos criados...
— Ora, essa é boa!... Você não terá a ousadia de recusá-lo. (E o médico agitou as mãos.) Eu ficaria ofendido!... Trata-se de um objeto de arte... Que movimentos! Que expressão!... Não quero ouvir seus argumentos! Você me deixaria melindrado!
— Se pelo menos tivesse alguma sutileza, ou se estivesse coberta...
O médico, porém, ainda a agitar as mãos e contente por conseguir se desfazer do presente, voltou para o seu consultório.
Sozinho em casa, o advogado pôs-se a examinar o candelabro, apalpou-lhe todas as partes e, da mesma forma que o médico, viu-se tentado a refletir sobre o que deveria fazer com ele.
“É um objeto belíssimo", pensou. "Seria uma pena se desfazer dele; ao mesmo tempo, é inconveniente tê-lo em casa... Melhor seria oferecê-lo a alguém... Já sei, vou levá-lo hoje à noite ao cômico Chachkine. O sacana adora as coisas desse gênero, e hoje é justamente o dia de sua estréia..."
Foi o que fez, tão rápido quanto pensou. À noite o candelabro, lindamente embrulhado, era oferecido ao cômico Chachkine.
A noite toda o camarim do artista foi invadido pelos homens que queriam admirar o presente; a noite toda foi de murmúrios de aprovação e de risadas que mais pareciam relinchos... Quando uma artista se aproximava do camarim e perguntava: "Pode-se entrar?", logo a voz rouca do cômico retumbava:
— Não, não, cara amiga! Estou sem roupa!
Terminado o espetáculo, Chachkine dizia, dando de ombros e abrindo os braços:
— Onde vou colocar tamanha indecência? Moro em casa de família e recebo muitos artistas! E isso não é como fotografia, que a gente pode esconder dentro da gaveta..
— Ora, por que não o vende, senhor? — aconselhou o cabeleireiro, que o ajudava a trocar de roupa. — Tem uma velha aqui no bairro que compra bronze antigo. Vá lá e pergunte pela senhora Smirnoff... Todo mundo a conhece.
O cômico resolveu seguir o conselho...
Dois dias depois, o doutor Kochelkoff meditava sobre os ácidos biliosos, de dedo na testa. Subitamente a porta se abriu e Sacha Smirnoff jogou-se a seu encontro. Sorria exultante, e todo o seu ser transpirava felicidade... Trazia alguma coisa embrulhada em jornal.
— Doutor — disse, ofegante —, imagine só nossa alegria!... Para nossa felicidade, encontramos o par do seu candelabro!... Mamãe está se sentindo tão feliz!... E o senhor me salvou a vida...
E então, tremendo de gratidão, Sacha colocou o candelabro diante dos olhos de Ivan Nicolaievitch. 0 médico quis dizer alguma coisa mas não conseguiu. Perdera o uso da palavra.”
Anton Tchekhov
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Um Caso Médico
"Um telegrama enviado da fábrica dos Lialikov pedia ao professor que viesse o mais depressa possível.A filha da Senhora Lialikov, que devia ser a proprietária da fábrica, estava doente; era tudo o que se podia perceber num longo telegrama mal redigido. Por isso o professor não esteve para se incomodar; contentou-se em enviar, para o substituir, o seu ajudante Koroliov.
Tinha que se descer na terceira estação para lá de Moscovo e andar em seguida, de carro, quatro "verstas". Na estação, esperava o ajudante um carro de três cavalos. O cocheiro tinha um chapéu de penas de pavão e, com voz vibrante, como um soldado, respondia sempre a todas as perguntas: "De modo algum!" ou "Exatamente!".
Era num sábado de tarde. Punha-se o Sol. Da fábrica para a estação vinham grupos de operários que cumprimentavam para o carro onde seguia o médico. Aquele fim de dia, os palacetes senhoriais e as casas de verão, dos dois lados da estrada, os amieiros, a calma impressão que de tudo se exalava, na hora em que, já quase a repousarem, os campos, os bosques e o Sol pareciam preparar-se para descansar e talvez até para rezar ao mesmo tempo que os operários - tudo isto encantava Koroliov.
Nascido e educado em Moscovo, o médico não conhecia o campo e nunca se tinha interessado pelas fábricas; nunca tinha visitado nenhuma; mas, depois do que tinha lido sobre este assunto, tinha-lhe acontecido estar em casa de proprietários e falar com eles. E, quando via de longe ou de perto uma fábrica, pensava que por fora tudo parecia calmo e pacífico, mas que lá dentro deviam reinar a impenetrável ignorância e o egoísmo obtuso dos proprietários, o trabalho aborrecido e insalubre dos operários, e as intrigas, e o "vodka" e a bicharia...
E agora, à medida que se afastavam do carro com respeito e medo, lia no rosto do operário, nos bonés, no andar, a porcaria, o alcoolismo, o enervamento, o atordoamento em que viviam.
Entrou pelo portão grande da fábrica. Apareceram de ambos os lados as pequenas casas dos operários, figuras de mulher, e, às cancelas da entrada, roupa branca e mantas. O cocheiro, sem segurar os cavalos, gritava: "Cuidado!".
Num pátio grande, sem o mínimo sinal de erva, levantavam-se cinco grandes corpos de edifícios com altas chaminés, afastados uns dos outros, com armazéns e alpendres, tudo mergulhado numa espécie de neblina cinzenta, como uma flor de poeira. Aqui e além, como os oásis no deserto, havia uns jardinzitos enfezados e os telhados verdes e vermelhos das casas da Administração. O cocheiro, sofreando de repente os cavalos, parou diante duma casa que fora há pouco pintada de cinzento. Os lilases do jardim estavam cobertos de poeira, e o pórtico, pintado de amarelo, cheirava fortemente a tinta.
- Faça favor de entrar, Senhor Doutor - disseram vozes de mulher à porta da entrada e no limiar da antecâmara.
Ouviram-se depois suspiros e murmúrios.
- Faça favor de entrar... Estamos à sua espera já há tanto tempo... Foi mesmo uma desgraça. Por aqui, faça favor...
A Senhora Lialikov, já de idade e corpulenta, vestida de seda negra e com mangas à moda, mas, pelo que parecia, simples e pouco instruída, olhava para o doutor com receio, sem se atrever a estender-lhe a mão; não ousava fazê-lo.
Perto dela, encontrava-se uma criatura de cabelos curtos, magra e já nada nova, que trazia uma blusa colorida e usava luneta. Os criados chamavam-lhe Cristina Dmitrievna e Koroliov adivinhou ser a governante.
Como era a única pessoa instruída da casa, tinham-na sem dúvida encarregado de receber o médico, porque logo se apressou a expor, com pormenores de todo inúteis, as causas da doença, mas sem dizer quem estava doente nem de que se tratava. Koroliov e a governante falavam sentados, enquanto a dona da casa esperava, Imóvel, junto da porta. No decurso da conversação, veio Koroliov a saber que a doente era uma rapariga de vinte anos, Lisa, filha única da Senhora Lialikov. Estava enferma há muito tempo e já a tinham tratado vários médicos. Na noite anterior, sentira, desde a tarde, tais palpitações que ninguém em casa tinha dormido; chegara-se a recear que morresse.
- Ela, na verdade, tem sido doentinha desde criança - contava Cristina Dmitrievna com uma voz cantada e limpando ininterruptamente os lábios com a mão. - Os médicos dizem que são nervos, mas ainda em pequena meteram-lhe para dentro os humores frios, e daí é que vem todo o mal, acho eu.
Passaram ao quarto da doente. Já mulher, alta, bem feita, mas feia, parecida com a mãe, com os mesmos olhitos e a parte inferior do rosto larga e exageradamente desenvolvida, despenteada, os cobertores puxados até ao queixo, a rapariga deu de princípio a Koroliov a impressão de uma pobre criatura, enferma, recolhida por piedade. Ninguém acreditaria que fosse a herdeira dos cinco enormes edifícios da fábrica.
- Venho tratar de si - disse Koroliov. - Bom dia, Menina.
Disse o nome e apertou-lhe a mão, mão grande, feia e fria. Ela soergueu-se e, já muito acostumada aos médicos, indiferente à nudez das espáduas e dos braços, deixou-se auscultar.
- Sinto umas palpitações - disse ela. - Toda a noite... foi uma coisa terrível... julguei que morria de medo. Dê-me qualquer coisa, a ver se isto acaba.
- Não tenha receio, vou já receitar.
Koroliov examinou-a e encolheu os ombros.
- O coração está bom - disse ele; - tudo vai bem, está tudo em ordem. Os nervos talvez um pouco abalados... mas é também coisa vulgar. A crise já passou, parece. Deite-se e veja se dorme...
Neste momento trouxeram um candeeiro. A doente piscou os olhos e, de repente, pousando a cabeça nas mãos, pôs-se a chorar.
E a impressão dum ser infeliz e feio desapareceu. Koroliov já não dava pelos olhos pequeninos nem pela parte do rosto anormalmente desenvolvida. Via uma suave expressão de sofrimento, muito comovedora e espiritual, e a rapariga, no conjunto, apareceu-lhe elegante, feminina e simples. E já a queria acalmar, não por medicamentos ou conselhos, mas por uma simples palavra graciosa. A mãe puxou a si a filha e beijou-lhe a testa. E na expressão da face, quanta tristeza, quanto desgosto!
Tinha criado e educado a filha sem se poupar a nada; tinha posto todo o cuidado em lhe mandar ensinar francês, música e dança. Tinha-lhe dado uma dúzia de mestres, tinha chamado os melhores médicos, tomado uma governante - e não compreendia donde vinham aquelas lágrimas e tantos sofrimentos! Não compreendia, atrapalhava-se e tinha uma expressão de culpabilidade; e andava desolada, inquieta, como se tivesse esquecido alguma coisa de muito urgente, como se tivesse tido alguma negligência, como se não tivesse chamado alguém. Quem? Não sabia...
- Lisaunka - disse ela, apertando a filha ao peito -, minha querida, minha pomba, minha filhinha, que tens tu? Diz à mãezinha... Tem pena de mim... Diz...
Ambas choravam amargamente. Koroliov, sentando-se na borda da cama, pegou na mão de Lisa.
- Vamos, não chore mais - disse-lhe ele com um tom de carícia -. Há lá razão para isso... Não há nada no mundo que seja digno dessas lágrimas. Vá, não chore mais. Assim não pode ser...
E pensou:
- Já era tempo de a casar...
- O médico da fábrica dava-lhe brometos - disse a governante - mas notei que só lhe faziam mal. Eu acho que para o coração o bom são umas gotas... ai, esquece-me o nome... Junquilho, hem?
E recomeçou com os seus pormenores. Interrompia Koroliov, impedia-o de falar e lia-se-lhe no rosto o tormento que lhe causava pensar que, sendo a mulher mais instruída da casa, devia falar sem interrupção com o médico - e falar de medicina, claro.
Koroliov estava embaraçado.
- Não acho nada de especial - disse ele à mãe ao sair do quarto. - Como o médico da fábrica tratou sua filha, pode continuar. O tratamento que lhe deu até aqui foi bom; não vejo que seja preciso mudar. Para quê? É uma doença vulgar; não tem nada de grave...
Falava sem pressa e ia calçando as luvas; a Senhora Lialikov olhava-o de lágrimas nos olhos, imóvel.
- Ainda tenho meia hora até o comboio das dez; terei tempo de apanhá-lo, não...?
- O Senhor Doutor não desejaria ficar? - perguntou a mãe, e de novo as lágrimas lhe correram pela cara
Custa-me tanto incomodá-lo; mas, pelo amor de Deus - continuou, a meia voz e voltando-se para a porta -, faça-me esse favor. Só tenho esta filha... Assustou-nos tanto a noite passada... Nem estou ainda em mim... Pelo amor de Deus, não se vá embora!
Koroliov ainda quis dizer que tinha muito que fazer em Moscovo, que a família estava à espera, que lhe era muito difícil passar uma tarde e uma noite fora da clínica; olhou para ela: suspirou e pôs-se a descalçar as luvas, silencioso.
Acenderam todas as velas e todos os candeeiros da sala e da saleta; sentado junto do piano de cauda, Koroliov folheou a música, depois foi contemplar os quadros e os retratos. Os quadros, com suas molduras douradas, eram vistas da Crimeia, um mar encapelado com um barquito, um monge católico com um cálice de licor - tudo pobre, lambido, sem talento... Nos retratos, nenhuma figura bela, interessante: faces largas, olhos espantados. Lialikov, o pai de Lisa, tinha a testa baixa e um ar satisfeito; o uniforme ficava-lhe como uma espécie de saco sobre o corpo grande e vulgar; no peito uma medalha e a insígnia da Cruz Vermelha. Cultura estreita, luxo de ocasião, um luxo que não tinha motivos nem vinha a propósito - como aquele uniforme. O brilho dos soalhos irrita, o lustre também; e pensa-se, nem se sabe porquê, na história do comerciante que ia tomar banho de medalha de honra ao pescoço... Na antecâmara havia murmúrios e alguém ressonava suavemente. De súbito, no pátio, ressoaram uns sons agudos, sacudidos, metálicos, que Koroliov nunca tinha ouvido e não soube explicar. Ecoaram na sua alma dum modo bem desagradável e estranho.
- Acho que não ficava aqui por nada deste mundo - pensou ele.
E tornou a folhear a música.
A governante entrou e chamou a meia voz:
- Senhor Doutor, pode vir jantar...?
Koroliov seguiu-a.
A mesa, grande, estava coberta de aperitivos e de vinhos; mas só havia duas pessoas: ele e Cristina Dmitrievna. Ela bebia madeira, comia depressa e falava contemplando-o pela luneta.
- Os operários estão muito satisfeitos connosco. Todos os invernos dão nesta fábrica espectáculos em que eles próprios representam. Há também, naturalmente, conferências com projecções, uma sala de chá magnífica; e tudo o mais... Têm muita dedicação por nós; quando souberam que a Lisaunka estava pior, mandaram fazer umas rezas. São pouco instruídos mas têm muito bons sentimentos.
- Parece que não há nenhum homem em casa, não?
- Nenhum. Piotre Nikanorytch morreu há ano e meio e ficámos sozinhas. Vivemos as três, no Verão aqui, no Inverno em Moscovo. Já estou nesta casa há onze anos. É como se estivesse em minha casa.
Serviram esturjão, croquetes de frango e uma compota. Os vinhos eram caros, vinhos de França.
- Faça favor, Senhor Doutor... Não faça cerimónias... Coma - dizia Cristina Dmitrievna comendo e limpando a boca à mão (via-se que estava realmente à vontade). Faça favor de comer.
Depois do jantar, levou o médico a um quarto onde lhe tinham preparado uma cama. Mas não tinha sono; o quarto era quentíssimo e cheirava a tintas; vestiu o sobretudo e saiu.
Fora, havia fresco. Já havia um prenúncio de alvorada e, no ar húmido, desenhavam-se os cinco edifícios, com as chaminés, os barracões e os armazéns. Como era domingo, não se trabalhava; as janelas estavam escuras e só duas, num dos edifícios onde ainda estava aceso um forno, pareciam incendiadas; de quando em quando, saía lume pela chaminé, de mistura com o fumo. Ao longe, para lá do pátio, coaxavam rãs e um rouxinol cantava.
Ao olhar os casarões da fábrica e as barracas dos operários, Koroliov voltou aos seus pensamentos do costume. Tinham-se instituído espectáculos para os operários, projecções, médicos privativos, toda a espécie de melhoramentos: mas os operários que ele vira de tarde, na estrada, em nada diferiam dos que tinha visto na sua infância, quando não havia para eles nem espectáculos, nem melhoramentos.
Era médico e tinha sido obrigado a fazer uma ideia exacta das doenças crónicas, cuja causa inicial é incompreensível e incurável; considerava do mesmo modo as fábricas como um equívoco cujas causas são também obscuras e inelutáveis. Todos os melhoramentos da sorte dos operários não lhe apareciam, claro, como supérfluos, mas comparava-os ao tratamento das doenças incuráveis.
- Há certamente um engano nesta coisa toda... - pensou olhando as janelas purpúreas. Mil e quinhentos ou dois mil operários trabalham sem descanso, num ambiente insalubre, para fabricarem péssima chita. Vivem na fome e só de tempos a tempos a taberna os liberta do pesadelo. Uma centena de pessoas vigia-lhes o trabalho e a vida destes contramestres passa-se a aplicar multas, a proferir injúrias e a cometer injustiças. E só duas ou três pessoas, chamadas patrões, aproveitam com os lucros, apesar de não trabalharem e de terem desprezo pela chita ordinária. Mas que lucros! E de que maneira os aproveitam! A Lialikov e a filha são umas infelizes e mete pena vê-las. Só a solteirona, a estúpida Cristina Dmitrievna vive à vontade! E trabalha-se numa fábrica destas, com cinco oficinas, e vende-se má chita nos mercados do Oriente, para que uma Cristina Dmitrievna possa comer esturjão e beber madeira.
De repente, repetiram-se os sons estranhos que Koroliov tinha notado antes do jantar. Perto de um dos edifícios, alguém batia numa placa metálica e logo amortecia a ressonância, de modo que os sons eram breves, ásperos, mal definidos, qualquer coisa como "dê... dê.. dê...". Depois, meio minuto de silêncio. E, perto do outro edifício, outros sons sacudidos, mas mais baixos, graves: "dran... dran... dran...". Repetiram-nos onze vezes. Eram, evidentemente, os guardas a darem as onze horas. Junto do terceiro edifício, ouviu-se: "jak... jak... jak...". A mesma coisa diante de cada um dos edifícios, depois por detrás das barracas e às portas.
Parecia que, na calma da noite, os sons eram produzidos por um monstro de olhos de púrpura: o próprio Diabo, que era aqui o senhor de patrões e de operários e que a uns e outros enganava.
Koroliov saiu para os campos.
- Quem está aí? - gritaram-lhe, com voz grosseira.
- Exactamente como numa prisão - pensou ele.
E não respondeu nada.
Fora, ouviam-se melhor os rouxinóis e as rãs. Sentia-se o cheiro da noite de Maio. Da estação vinham ruídos de comboios; para outro lado, cantavam galos sonolentos; contudo, a noite estava calma: a natureza dormia pacificamente.
No campo, não longe da fábrica, erguia-se o esqueleto duma casa de toros; ao lado, encontravam-se materiais de construção. Koroliov sentou-se numas tábuas e continuou a pensar.
- Só a governante vive aqui a seu gosto e a fábrica trabalha para a satisfazer. Mas é apenas uma aparência; é uma personagem imaginária: o patrão para quem tudo se faz aqui é o Diabo.
E pensava no Diabo em que não acreditava. E voltava-se para as duas janelas que o lume iluminava.
Parecia-lhe que, por estes olhos de púrpura, o próprio Diabo o olhava: numa palavra, a força desconhecida que estabeleceu as relações entre os fracos e os fortes, o erro grosseiro que nada agora pode emendar. É necessário que o forte impeça o fraco de viver: tal é a lei da natureza. Mas isto não é compreensível e não entra facilmente no espírito senão à luz dum artigo de jornal ou dum manual. No tumultuar da vida quotidiana e no entrelaçar de todos os nadas de que se entretecem as relações humanas, não parece uma lei; é um absurdo lógico, no qual o forte e o fraco são vítimas das suas relações mútuas e se submetem involuntariamente a uma força condutora desconhecida, que reside fora da vida e é estranha ao homem.
Assim pensava Koroliov, sentado sobre as tábuas, invadido pouco a pouco pela impressão de que essa força desconhecida e misteriosa estava realmente perto dele e o contemplava.
Entretanto, o céu a leste empalidecia; os minutos precipitavam-se. Os cinco edifícios da fábrica e as chaminés tinham, sobre o fundo cinzento da madrugada, nessa hora em que não se via alma viva, em que tudo parecia morto, - os edifícios e as chaminés tinham um aspecto especial, diferente do de dia. Esquecia-se por completo que houvesse lá dentro motores a vapor, electricidade e telefones; mais depressa se pensava nas habitações lacustres e na cidade de pedra; sentia-se a presença de uma força grosseira, inconsciente...
E de novo se ouviu:
- Dê... dê... dê... dê...
Doze vezes.
Depois o silêncio - meio minuto de silêncio -, e, na outra extremidade do pátio:
- Dran... dran... dran...
- É bem desagradável, esta coisa... - pensou Koroliov.
E logo ouviu, num terceiro lugar:
- Jak... jak... jak...
O ruído era sacudido, áspero, exactamente como se estivesse aborrecido.
- Jak... jak...
Para dar a meia-noite foram precisos quatro minutos.
Depois, silêncio completo. E, de novo, a impressão de que tudo estava morto à volta.
Koroliov, depois de estar ainda algum tempo sentado, voltou para casa.
Mas ficou ainda muito tempo sem se deitar.
Nos quartos vizinhos conversava-se. Ouvia-se o perpassar de pantufas e de pés descalços.
- Será uma crise? - pensou o médico.
Saiu para ir ver a doente. No quarto havia lá muita claridade; na parede da sala tremia um fraco raio de sol, através do nevoeiro da manhã. A porta estava aberta e Lisa sentara-se numa poltrona perto do leito, de roupão, envolta num xale e com os cabelos caídos. Os estores das janelas estavam corridos.
- Como se sente? - perguntou-lhe Koroliov.
- Obrigada...
Tomou-lhe o pulso, depois arranjou-lhe os cabelos que tinha sobre a testa.
- Não dorme? Está um tempo limpo, é a Primavera... Lá fora cantam os rouxinóis, e a Menina fica aí sentada, às escuras, a pensar não se sabe em quê...
Ela escutava-o e olhava-o. Tinha uns olhos tristes, inteligentes e via-se que queria dizer qualquer coisa.
- Isto dá-lhe muitas vezes? - perguntou ele.
Ela mexeu os lábios e respondeu:
- Muitas vezes... Quase todas as noites me sinto mal.
Neste momento, os guardas, no pátio, começaram a dar as duas horas. Ouviu-se: "Dê... dê..." Lisa teve um sobressalto.
- Estes sons incomodam-na? - perguntou o médico.
- Não sei... - respondeu ela, reflectindo - . . aqui tudo me incomoda, tudo me aborrece. Sinto compaixão na sua voz; pareceu-me desde o primeiro minuto, não sei porquê, que consigo podia falar de tudo...
- Fale, faça favor.
- Vou dar-lhe a minha opinião. Parece-me que não estou doente, mas atormento-me e tenho medo porque isto tem que ser assim e não pode ser de outra maneira. O ser mais saudável não pode deixar de inquietar-se quando um bandido lhe ronda a porta. Têm todos os cuidados comigo - continuou baixando os olhos e sorrindo timidamente. Estou muito reconhecida e não contesto a utilidade da medicina; mas desejaria falar, não com um médico, mas com alguém que estivesse perto do meu espírito: um amigo que me compreendesse e me demonstrasse que tenho ou não tenho razão.
- Não tem amigos?
- Sinto-me só... Tenho minha mãe e gosto dela. Mas sinto-me só. Calhou assim a minha vida... Quem está só lê muito, mas fala pouco e ouve pouco também; a vida é-lhe misteriosa. É-se místico e vê-se o Diabo onde ele não está; a Tamara de Lermontov era só e via o Demônio.
- Lê muito?
- Muito. Tenho todo o tempo livre, de manhã à noite. De dia leio, à noite tenho a cabeça vazia; em lugar de ideias, passam-me vagas sombras...
- Vê qualquer coisa de noite? - perguntou Koroliov.
- Não... mas sinto.
Sorriu de novo e levantou os olhos para o médico. O seu olhar era cheio de melancolia e cheio de inteligência. Pareceu a Koroliov que Lisa tinha confiança nele, lhe queria falar sinceramente e tinha pensamentos semelhantes aos seus. Mas ela calara-se e esperava talvez que ele falasse.
E sabia bem o que tinha a dizer-lhe. Era evidente que se tornava necessário que ela abandonasse o mais depressa possível os cinco edifícios da fábrica e o seu milhão, se acaso o tinha, e deixasse aquele Diabo que de noite a olhava. Era igualmente claro para Koroliov que ela também o pensava e que esperava que lho dissesse alguém em quem ela tivesse confiança.
Mas o médico não sabia por onde começar... Como havia de ser?... É difícil perguntar aos condenados por que razão os condenaram; e é também aborrecido perguntar aos ricos por que motivo têm necessidade de tanto dinheiro; por que fazem tão mau uso da sua riqueza, por que não a deixam, mesmo quando vêem que aí reside a sua infelicidade... E se se começa a falar disto a conversação é geralmente embaraçada e longa.
- Como hei-de dizê-lo? - pensava Koroliov. - E será preciso?
E disse o que queria, não directamente, mas com uns desvios:
- A Menina está descontente da sua situação de proprietária de fábrica e de herdeira rica; não acredita nos seus direitos e não dorme. É seguramente melhor do que se estivesse satisfeita e dormisse profundamente pensando que tudo vai bem. A sua insónia é respeitável e, seja o que for, é bom sinal. Com seus pais seria impossível uma conversa semelhante àquela que hoje temos aqui. De noite, não conversavam, dormiam profundamente; mas nós, os desta geração, dormimos mal. Preguiçamos, falamos muito, e consideramos continuamente se temos ou não temos razão. Para os nossos filhos e para os nossos netos já essa questão estará resolvida. Verão mais claro do que nós. Dentro de cinquenta anos, a vida será bela; é pena que não possamos viver até lá. Devia ser bem interessante...
- Que farão então os nossos filhos e os nossos netos? - perguntou Lisa.
- Não sei... Talvez deixem tudo e partam...
- Para onde?
- Para onde? Mas para onde quiserem - disse Koroliov a rir-se. - Há poucos lugares para onde possa ir um homem bom e inteligente?
Olhou para o relógio.
- Já nasceu o Sol. É tempo que durma. Dispa-se e repouse à vontade. Tenho muito prazer em a ter conhecido - disse-lhe ele, apertando-lhe a mão. - É interessante e simpática. Boa noite!
Voltou para o quarto e deitou-se.
No dia seguinte de manhã, quando trouxeram o carro, toda a gente veio acompanhar o médico à porta. Lisa, de vestido branco como num dia de festa, tinha uma flor nos cabelos. Pálida, lânguida, contemplava Koroliov, como de noite, com ar triste e inteligente. Sorria e falava sempre com a mesma expressão de lhe querer dizer alguma coisa de particular, de grave, alguma coisa que fosse só para ele. Ouviram-se as cotovias cantar, os sinos tocavam. As janelas da fábrica brilhavam alegremente. Ao atravessar o pátio e enquanto o conduziam à estação, Koroliov já não pensava nos operários nem nas habitações lacustres, nem no Diabo. Pensava no tempo, já talvez próximo, em que a vida seria tão luminosa e alegre como essa manhã calma de Maio. E pensava em como era agradável, em semelhante manhã de Primavera, viajar num bom carro, com os seus três cavalos, e aquecer-se ao sol.”
Anton Tchekhov
A Condecoração
“Após a cerimónia, nem sequer foi servida uma simples merenda. Os recém-casados beberam uma taça de champanhe, mudaram de fato e dirigiram-se à estação. Nem baile de casamento, nem banquete, nem música; e agora lá partiam para uma viagem de mais de duzentas verstas.Muitos dos presentes aprovaram esta ausência de formalidades. Com efeito, para Modeste Alexeivitch, que ocupava na sociedade um lugar de destaque e já não era jovem, uma boda ruidosamente festejada estaria pouco indicada. Além disso, um homem de cinquenta e dois anos, que desposara uma rapariga de dezoito, decerto se enfadaria com a música. Dizia-se ainda que o noivo, homem de princípios, organizara esta peregrinação a um convento para fazer ver à sua jovem esposa que ele, não só no casamento, como em todos os actos da sua vida, dava o primeiro lugar à religião e à moral.
Acompanharam os noivos à estação. Colegas e parentes, todos exibiam uma taça de champanhe para, à partida do comboio, gritarem um "hurra".
O pai da noiva, Piotre Leonntievitch, com o uniforme de professor, de chapéu alto, muito pálido e já embriagado, estava constantemente a erguer-se nos bicos dos pés, à porta da carruagem, com a sua taça na mão, e dizia à filha, numa voz suplicante:
- Anazinha, Anita, escuta! Só uma palavra!
Ana inclinou-se para o pai, que lhe segredou qualquer coisa que ela não entendeu, soprando-lhe o seu hálito avinhado para a cara. Entretanto, com os olhos brilhantes de lágrimas e a voz entrecortada, fazia-lhe o sinal-da-cruz na cara, no peito e nas mãos.
Pétia e Andrioucha, estudantes do liceu e irmãos de Ana, puxavam o pai pelas abas do fraque, dizendo um pouco envergonhados:
- Basta, paizinho. Deixe-a lá.
Quando o comboio abalou, Ana viu o pai, que titubeava, correndo ao longo da carruagem, a entornar a taça; de expressão infeliz mas bondosa, gritava num tom de lamento: "Hurra"!
Os noivos ficaram finalmente sós. Modeste Alexeivitch examinou o compartimento, arrumou a bagagem na rede e, sentando-se na frente dela, sorriu-lhe.
Era um homem de estatura mediana, bastante gordo, anafado, de longas patilhas, mas não tinha bigode. O queixo, redondo, bem barbeado, de contornos nítidos, lembrava um tacão de sapato. O que de mais característico havia na sua cara era sem dúvida a ausência do bigode. Os lábios nus iam confundir-se-lhe pouco a pouco com as faces que, gordas e tremebundas, pareciam geleia.
Tinha um porte correcto, movimentos lentos e maneiras untuosas.
- Não posso de deixar de lhe contar uma coisa - disse ele, sorrindo. - Há cerca de cinco anos, quando Kossorotov foi condecorado com a Cruz de Sant'ana, que se usa pendurada no pescoço, e apresentou os seus agradecimentos a Sua Excelência (1), este disse-lhe: "Você, a partir de agora, passa a ter três Anas, uma na lapela e duas no pescoço". Devo esclarecer que, nessa altura, a mulher de Kossorotov, volúvel e provocante, chamada Ana, se tinha reconciliado com o marido. Espero que, quando chegar a minha vez de receber a medalha de segunda-classe, Sua Excelência não tenha de me dizer a mesma coisa.
Os olhos dele sorriram-lhe e Ana sorriu também, comovendo-se ante a ideia de que aquele homem, de lábios grossos, a pudesse em qualquer altura beijar, sem que lhe fosse possível evitá-lo.
Os melífluos movimentos do seu corpo roliço assustavam-na e provocavam-lhe uma sensação de nojo. Modeste Alexeivitch ergueu-se lentamente, tirou a condecoração, despiu o fraque e o colete e pôs-se de roupão.
- Ora bem! - disse-lhe, sentando-se ao seu lado.
Ana recordou-se naquele instante do martírio que fora a cerimónia do seu casamento. Dir-se-ia que tanto o padre como os convidados e todas as pessoas presentes na igreja a olhavam com compaixão e se interrogavam acerca do motivo que levara uma rapariga nova e simpática a casar-se com homem tão pouco interessante. A parte da manhã desse mesmo dia tinha-a passado numa espécie de encantamento, por ver que tudo corria de forma maravilhosa. Mas, durante a cerimónia e agora ali, na carruagem, sentia-se culpada e ridícula.
Casara com um homem rico, mas ela não tinha dinheiro. O seu vestido de noiva fora comprado a crédito e quando, há pouco, o pai e os irmãos a haviam acompanhado, compreendera imediatamente que lhes não restava sequer um vintém. Jantariam naquele dia? E no seguinte? Parecia-lhe que, sem ela, morreriam de fome, voltando a atormentá-los a mesma angústia que todos haviam sentido após o enterro da mãe.
"Oh! como sou desgraçada! - pensava. - Que mal fiz eu para merecer isto?"
Com a falta de jeito de um homem grave, pouco habituado a tratar com mulheres, Modeste Alexeivitch abraçava-a pela cintura e dava-lhe pancadinhas no ombro; ela, entretanto, só pensava na falta de dinheiro, na mãe e na morte desta.
Depois de a mãe morrer, o pai, professor de desenho e caligrafia, começou a beber. A miséria bateu-lhes à porta. Os irmãos ficaram sem ter que calçar. Piotre Leonntievitch era constantemente intimado a comparecer perante o juiz de paz e até o oficial de diligências lhes acabara por penhorar os móveis... Que vergonha!...
Ana tinha de aturar as bebedeiras do pai, de coser as meias dos irmãos, de ir à praça. Quando lhe gabavam a beleza, a juventude e as maneiras delicadas, parecia-lhe que toda a gente reparava também no seu chapéu ordinário e nas esmurradelas das botas disfarçadas com tinta.
Para ela as noites eram de pranto. Torturava-a a ideia obcecante de que o pai, por causa do vício, não tardaria a ser expulso do liceu, e depois, não resistindo à decadência, acabaria por morrer como a mãe.
Foi então que as amigas mais íntimas, apiedadas da sua triste sorte, se empenharam em procurar-lhe um bom marido. E não tardou que descobrissem Modeste Alexeivitch, que não era novo nem bonito, mas no entanto rico. "Tem cinco mil rublos no banco", diziam-lhe as amigas, "e um património que se está valorizando. É um homem de princípios, muito bem visto por Sua Excelência. Não lhe custará nada interceder junto do governador ou mesmo do curador para que o seu pai não seja despedido."
Estava Ana totalmente entregue a estas recordações quando foi despertada pelo som de música e pelo ruído de vozes que entravam, pela janela. O comboio parara numa pequena estação. Destacavam-se as notas alegres de um acordeão e de um violino barato. E, por detrás dos altos choupos, das bétulas e das casas de verão banhadas pela luz da Lua, soavam os acordes de uma banda militar. Tudo indicava tratar-se de um baile. Na plataforma passeavam os habitantes da terra e das redondezas, atraídos pelo bom ar que ali se respirava. Também se encontrava presente Artynov, um homem alto, forte, muito semelhante a um arménio, de olhos salientes, o dono da colónia de verão. Este usava uma camisa aberta no peito, botas altas com esporas, e uma capa negra, presa nos ombros, que arrastava pelo chão como uma cauda. Seguiam-no dois galgos que farejavam a terra com os longos focinhos.
Nos olhos de Ana ainda brilhavam as lágrimas, mas agora já não pensava na mãe, no dinheiro, no marido. Apertava as mãos dos estudantes e oficiais seus conhecidos, que riam alegremente e falavam muito depressa.
- Boa noite! Como está?
Saiu da carruagem banhada pelo luar, e pôs-se de maneira a que todos a vissem, admirassem o seu elegante vestido, o chapéu novo.
- Porque estamos aqui parados? - perguntou ela.
- É um entroncamento. Tem de se esperar pelo rápido.
Dando-se conta de que Artynov não lhe tirava os olhos de cima, numa atitude de conquistador, piscou provocantemente os olhos, pôs-se a falar muito alto em francês. Talvez porque lhe agradasse o som da sua própria voz, o ritmo da música, a lua reflectir-se na lagoa, o facto de Artynov, esse Don Juan, a fixar com insistência ou ainda por ver toda a gente satisfeita, a verdade é que sentiu uma alegria repentina. Quando o comboio retomou a marcha, os oficiais saudaram-na em continência. Ana voltou para o seu compartimento, a trautear uma polca, imitando a orquestra invisível atrás das árvores; sentia-se muito tranquila, como se, naquela paragem, lhe tivessem assegurado que, apesar de tudo, iria ser feliz.
Os noivos passaram dois dias no mosteiro e depois voltaram para a cidade. Ocupavam uma casa do Estado. Enquanto o marido ia para o escritório, Ana tocava piano, chorava de tédio, ou deitava-se no sofá, lendo romances ou folheando figurinos.
Ao jantar, Modeste Alexeivitch comia com apetite, falava de política, de promoções, de transferências, de gratificações, e declarava que era preciso trabalhar, pois a vida de família não é um prazer mas sim um dever; que os kopecks se transformavam em rublos e que, acima de tudo, estava a religião e a moral. Erguendo a faca como uma espada, afirmava:
- Toda a gente deve ter a noção dos seus deveres.
Ana escutava-o e temia-o. Não conseguia comer e, geralmente, acabava por se levantar da mesa, cheia de fome.
Depois do jantar, Modeste Alexeivitch dormia a sesta e ressonava muito alto. A mulher ia visitar a família.
O pai e os irmãos recebiam-na de uma maneira estranha como se, antes da sua chegada, tivessem estado a falar dela, censurando-a por se haver casado unicamente por interesse com um homem velho que não amava. Desgostava-os e humilhava-os o seu vestido roçagante, as pulseiras e o seu ar de grande senhora. Nem sequer sabiam do que lhe falar, embora no íntimo lhe quisessem muito e não se tivessem ainda habituado a jantar sem ela. Ana sentava-se à mesa e comia com eles pão de centeio e batatas fritas em banha de carneiro que cheirava a sebo. Piotre Leonntievitch, com as mãos trémulas, pegava na garrafinha de vodca, enchia um copo que bebia de um trago. Depois um segundo e um terceiro. Pétia e Andrioucha, pálidos e magros, de olhos famintos, tiravam a garrafa da mesa e diziam:
- Basta, paizinho!... Já chega...
Ana, igualmente alarmada, suplicava-lhe que não bebesse mais, mas ele, dando grandes punhadas na mesa, gritava:
- Não admito a ninguém que me vigie! Seus fedelhos! Uma garota! Hei-de pô-los a todos na rua!
Mas a sua voz, na qual transparecia a bondade e a fraqueza, não amedrontava ninguém. Normalmente, depois do jantar, costumava arranjar-se com esmero. Pálido, de queixo bem escanhoado, esticava o pescoço magro e permanecia meia hora a olhar-se ao espelho. Penteava-se, retorcia os bigodes pretos, perfumava-se, dava o nó na gravata, calçava as luvas, punha a cartola e ia dar explicações.
Nos dias feriados ficava em casa. Pintava a óleo ou tocava harmónio-flauta. O instrumento silvava e gemia, mas ele, que tentava a todo o custo extrair dele acordes e sons harmoniosos, ao ver os seus esforços baldados, chamava os filhos e dizia-lhes:
- Marotos! Patifes! Desafinaram-me o instrumento!
Todas as tardes o marido de Ana jogava as cartas com os colegas que moravam sob o mesmo telhado que ele, no prédio do Estado. Ao serão reuniam-se as esposas dos funcionários, todas elas muito feias, vestidas com mau gosto, e grosseiras como mulheres a dias. Começava então um desfile de intrigas tão pouco bonitas e ordinárias como elas.
Por vezes, Modeste Alexeivitch ia ao teatro com a mulher. Nos intervalos não a deixava um momento sequer sozinha. Levantava-se, dava-lhe o braço e passeavam assim nos corredores do salão. Ao cumprimentar alguém, segredava-lhe: "É conselheiro do Estado... Frequenta a casa de Sua Excelência..." Ou então: "É capitalista... Vive em casa própria..." Quando passavam pelo bufete, apetecia a Ana comer qualquer coisa. Gostava imenso de chocolate e de doce de maçã, mas não tinha dinheiro, e envergonhava-se de o pedir ao marido. Este pegava numa pêra, apalpava-a, inquirindo, hesitante:
- Quanto custa?
- Vinte e cinco kopecks.
- Não, de maneira nenhuma.
Tornava a pôr a pêra no lugar; mas, sentindo-se mal por não comprar nada, pedia água de Seltz e bebia o sifão todo, até as lágrimas lhe virem aos olhos. Ana, nestes momentos, odiava-o profundamente.
Outras vezes, muito corado, dizia-lhe a toda a pressa:
- Olha, cumprimenta essa senhora.
- Mas eu não a conheço.
- Não importa. É a esposa de um director de ministério. Já te disse que a cumprimentasses - insistia ele. - Não te vai cair a cabeça por causa disso.
Ana saudava, fazendo uma vénia, e de facto a cabeça não lhe caía. Mas isto amargurava-a. Fazia tudo o que o marido queria e irritava-se consigo mesma, pensando que se deixara enganar como uma parva. Só casara com ele por dinheiro, mas hoje tinha bem menos do que em solteira. Antigamente o pai dava-lhe de quando em quando vinte kopecks, mas agora, não tinha nem um vintém. Tirar dinheiro às escondidas ou pedi-lo ao pai, isso não podia, tinha medo. Toda ela tremia diante do marido. Havia muito que receava no íntimo este homem. Durante a infância, a força que mais temia, tal como uma espécie de nuvem negra que avança sobre nós ou uma locomotiva prestes a esmagar-nos, era o reitor do liceu. Agora, Sua Excelência, de quem se falava um pouco a medo, atemorizava-a da mesma forma. Haviam outrora existido para ela outras forças menos poderosas: os professores, de lábios cerrados, severos, inexoráveis. Mas receava sobretudo Modeste Alexeivitch, homem de princípios, que até chegava a ter semelhanças com o reitor do liceu. Todas estas forças se confundiam na imaginação de Ana numa só, como se fora um enorme urso branco que pretendesse aniquilar os fracos e os culpados como seu pai. Receava dizer alguma coisa fora de propósito e sorria contrafeita, mostrando uma alegria fictícia quando o marido a acariciava brutalmente ou a abraçava, metendo-lhe nojo.
Só uma vez o pai de Ana se atreveu a pedir a Modeste Alexeivitch cinquenta rublos emprestados para pagar uma dívida muito incómoda. Quanto lhe custou isto, porém!
- Sim, senhor. Empresto-lhe os cinquenta rublos - respondeu o genro, depois de reflectir. - Mas desde já o previno de que, se entretanto não deixar de beber, nunca mais o ajudarei. Para um homem que serve o Estado essa fraqueza é uma vergonha. Não posso deixar de, a propósito, lhe recordar a seguinte verdade: a embriaguez tem perdido muitas pessoas que, caso tivessem sabido dominar-se, poderiam, com o tempo, vir a ocupar lugares importantes.
A isto seguiu-se um longo cortejo de palavras, admoestações sublinhadas com muitos "na medida em que"... "em consequência do que acabo de lhe dizer"..., "em face da situação". E o pobre Piotre Leonntievitch escutava-o suportando esta humilhação, e sentia uma forte vontade de beber um gole.
Os irmãos de Ana, que a iam visitar de sapatos rotos e calças cheias de buracos, tinham de ouvir esses discursos cheios de moralidade.
- Todos nós - dizia-lhes Modeste Alexeivitch - devemos cumprir os nossos deveres.
Não dava dinheiro a ninguém mas, em compensação, enchia a mulher de anéis, pulseiras e alfinetes, dizendo-lhe sempre que era muito bom ter estas coisas para uma ocasião de necessidade. E, para se certificar de que as jóias não tinham desaparecido, passava revista de quando em quando à cómoda de Ana.
II
Entretanto, chegou o Inverno. Muito antes do Natal, a gazeta da terra anunciou que no dia 29 de Dezembro, no salão nobre da Assembleia, teria lugar o baile do ano. Todas as noites, depois de jogar as cartas, Modeste Alexeivitch falava em voz baixa com os colegas e olhava para Ana. Caminhava em largas passadas pelo aposento, muito pensativo. Por fim, certa noite, já bastante tarde, parou de repente diante dela e disse-lhe:
- Ouve, tens de mandar fazer um vestido de baile. Entendeste? Mas recomendo-te que te aconselhes com a Maria Grigorievna e a Natália Kouzminichna.
E deu-lhe cem rublos.
Ana guardou o dinheiro, mas não recorreu ao conselho de ninguém. Apenas conversou com o pai, tentando imaginar de que maneira sua mãe, se fosse viva, iria vestida a este baile. Ela era uma senhora de bom gosto que andava sempre no rigor da moda. Ocupava-se sempre muito da filha, escolhendo para ela os modelos mais recentes e enfeitando-a como a uma boneca. Até lhe mandara ensinar francês, dançar com perfeição a mazurca (tinha sido, antes do casamento, durante cinco anos, dama de companhia). Hoje, Ana, tal como a mãe, sabia transformar um vestido velho num vestido novo, limpar as luvas com benzina, alugar jóias, e ainda, como ela também, semicerrar os olhos, ciciar as palavras, assumir atitudes bonitas, ficar, quando era preciso, excitada, ou então parecer triste e misteriosa. Do pai herdara as pupilas e os cabelos negros, o nervosismo e a distinção das maneiras.
Quando, meia hora antes do baile, Modeste Alexeivitch entrou no quarto dela em mangas de camisa, para, diante do espelho, pendurar a condecoração ao pescoço, ficou maravilhado com a beleza e o esplendor do seu vaporoso vestido. Disse-lhe com muita satisfação, não lhe regateando elogios:
- Ah! Que linda mulher eu tenho, Anita! Que mulher!
E continuou em tom grave:
- Tenho feito a tua felicidade; agora é a tua vez de fazeres a minha. Peço-te que te apresentes à mulher de Sua Excelência. Pelo amor de Deus! Através dela eu posso conseguir o lugar de chefe dos referendários.
Saíram para o baile. Eis o clube da Nobreza, a entrada e o respectivo porteiro. O vestíbulo cheio de cabides, casacos de pele, criados numa roda-viva, senhoras muito decotadas protegendo-se, com os leques, das correntes de ar. Havia um cheiro a gás. Quando, subindo a grande escadaria, pelo braço do marido, Ana ouviu a música e se avistou de corpo inteiro reflectida no espelho, iluminada por mil luzes, a alegria despertou no seu coração. Experimentava novamente aquela sensação de felicidade que tivera certa noite enluarada na pequena estação de caminho de ferro. Avançava, altiva, segura de si, não como uma rapariga, mas como uma autêntica mulher. E, maquinalmente, assumiu a atitude da mãe. Pela primeira vez na vida sentia-se rica e feliz. Agora, a presença do marido já não a perturbava. O instinto fez-lhe compreender que a companhia de um marido já de certa idade não a inferiorizava; pelo contrário, conferia-lhe um interesse muito do agrado dos homens. No salão já soava a orquestra e o baile tinha começado. Vendo-se fora de casa, banhada pela luz, pelas cores, pelo barulho e pela música, Ana lançou um olhar pelo salão e pensou: "Ah, como é belo!" E, de súbito, distinguiu na multidão todos os seus conhecidos, todos a quem antes havia encontrado em festas e passeios, oficiais, professores, advogados, funcionários, Sua Excelência, Artynov e as senhoras da alta sociedade, muito enfeitadas, decotadas, belas e feias, que ocupavam já os seus lugares nas barracas e tômbolas da festa de caridade, para começarem a venda a favor dos pobres. Um oficial muito alto (conhecera-o na rua Vieille-de-Kiev, quando andava no liceu, e de cujo nome não se recordava) surgiu como que do chão e convidou-a para uma valsa. Separou-se do marido e em breve lhe pareceu que vogava num barco à vela, em plena tempestade, e que Piotre Alexeivitch estava a mil léguas dali, na outra margem. Dançava, com entusiasmo, valsas, polcas, quadrilhas, passando de uns braços para outros, embriagada pela música, pelo barulho, falando ora em russo, ora em francês. Causou sensação entre os homens, nem outra coisa seria de esperar. Sufocava de emoção, apertava nervosamente o leque entre os dedos, ardia de sede. O pai, metido numa casaca amarrotada que cheirava a benzina, aproximou-se dela trazendo-lhe um gelado num prato.
- Estás encantadora esta noite - disse-lhe, fitando-a com entusiasmo. - Nunca lamentei tanto como hoje o teres-te casado tão cedo... Porque fizeste isso? Sei que foi por nossa causa, mas... - Com as mãos trémulas tirou do bolso um pacotinho de notas e disse: - Recebi hoje isto de umas lições; peço-te que pagues a minha dívida a teu marido.
Ela devolveu-lhe o prato e deixou-se arrastar por alguém que a convidara. Por cima do ombro do cavalheiro, viu o pai que, enlaçando uma senhora, deslizava pelo salão.
"Como é delicado quando não bebe!", pensou.
Dançou a mazurca com o mesmo oficial alto. Grave e solene, este movia-se pesadamente, cheio de importância, saracoteando os ombros e o peito, quase não marcando o compasso, sem vontade nenhuma de dançar, enquanto ela, pelo contrário, girava à sua volta, provocando-o com a sua beleza, com o seu colo nu. Os olhos brilhavam-lhe de malícia, os movimentos eram sensuais, mas ele, cada vez mais indiferente, estendia-lhe as mãos condescendentemente, como um rei.
- Bravo! Bravo!... - ouvia-se bradar entre a assistência.
Mas, pouco a pouco, o corpulento oficial foi perdendo a indolência. Animou-se e, cheio de entusiasmo, deixou-se dominar pelo encanto, ao passo que ela, agora, só mexia os ombros, olhando-o maliciosamente como se fosse rainha e ele seu escravo. Parecia-lhe que toda a sala os fitava e invejava. Logo que o enorme oficial agradeceu, a multidão afastou-se de súbito, assumindo os homens uma atitude marcial... Sua Excelência, de casaca, com duas condecorações, avançava para Ana. Sim, Sua Excelência, que já a havia fixado demoradamente, avançava para ela a sorrir-lhe com afecto, mexendo os lábios, o que sempre fazia ao ver mulheres bonitas.
- Muito prazer, muito prazer... - disse-lhe ele. - O seu marido merece ser preso por nos haver privado tanto tempo de tão raro tesouro. Venho da parte de minha mulher - prosseguiu, dando-lhe o braço. - E preciso que nos ajude... Sim, garanto... Tem que se conceder um prémio à sua beleza... como fazem os americanos... Sim... os americanos... Minha mulher espera-a com impaciência.
Acompanhou-a a uma barraca, onde já estava uma senhora de idade, cuja mandíbula inferior era tão saliente, que dir-se-ia ter na boca uma enorme pedra.
- Venha ajudar-nos - disse-lhe a senhora com uma voz cantante - todas as mulheres bonitas colaboram nesta festa de caridade; a senhora é a única que assim não faz. Porque é que não quer colaborar connosco?
Ela foi-se embora e Ana ocupou o seu lugar, atrás do samovar e das taças de prata. A venda tornou-se imediatamente rendosa. Ana não pedia menos de um rublo por cada chávena de café de chá. Obrigou o grande oficial a beber três. Artynov, o ricaço, de olhos à flor do rosto, que sofria de asma, aproximou-se da barraca. Já não vestia aquele estranho fato com que Ana o vira na primeira vez, mas trazia, como toda a gente, casaca. Sem despregar os olhos da vendedora, pediu-lhe uma taça de champanhe, pela qual pagou cem rublos. Depois bebeu uma chávena de chá e tornou a pagar com outros cem. Fazia tudo isto calado, pois a asma impedia-o de articular nem que fosse uma palavra. Ana atraía os compradores, cobrava-lhes o dinheiro, e estava plenamente convencida de que os seus sorrisos e olhares só proporcionavam prazer a toda a gente. Convenceu-se de que nascera para aquela vida agitada, onde tudo é fausto, ruído, risos, danças e admiradores. Os seus antigos receios perante aquela força que avançava, ameaçando esmagá-la, pareciam-lhe agora ridículos. Não temia ninguém e apenas lamentava que sua mãe ali não estivesse, para partilhar com ela os seus êxitos.
Piotre Leonntievitch, já pálido, mas ainda firme nas pernas, aproximou-se da barraca e pediu-lhe um copo de conhaque. Ana perturbou-se, com receio de ele dizer alguma tolice (sentia vergonha de ter um pai tão pobre e tão vulgar). Mas ele bebeu, tirou da algibeira uma nota de dez rublos, deu-lha e afastou-se solenemente, em silêncio. Momentos depois, Ana viu o pai rodeado de senhoras. Já não estava em completo equilíbrio e gritava alguma coisa com grande susto do seu par. E a filha lembrou-se de que, certa tarde, havia três anos, num baile, já a cambalear como agora, também começara a gritar em voz alta. E a cena findara com a intervenção de um polícia que o conduzira a casa, obrigando-o a deitar-se. No dia seguinte o reitor ameaçou-o com a expulsão. Como lhe era desagradável esta lembrança!
Quando os samovares se apagaram e as benfeitoras, fatigadas, foram entregar o lucro das vendas à senhora que parecia ter um calhau na boca, Artynov ofereceu o braço a Ana e conduziu-a à sala onde foi servida uma ceia a todos os participantes da venda de caridade. Embora não estivessem ali mais de vinte pessoas, a ceia decorreu num ambiente muito animado. Sua Excelência fez o seguinte brinde: "Nesta linda sala de jantar temos de beber em honra dos refeitórios populares, aos quais se destina a receita de hoje." O general de bigodes propôs-se beber: "Pela força perante a qual se curva até própria artilharia". E todos se levantaram para brindar com as senhoras. Estava tudo muito animado.
Quando acompanharam Ana a casa era dia e as cozinheiras já se dirigiam para a praça. Muito contente, embriagada e plena de novas sensações, despiu-se, atirou-se para cima da cama e adormeceu imediatamente...
Pelas duas de tarde foi acordada pela criada de quarto que lhe anunciou a visita de Artynov. Vestiu-se num instante e foi para a sala. Pouco depois de Artynov, chegou Sua Excelência para vir agradecer a tão gentil vendedeira. Beijou-lhe a mão, fitou-a com um olhar adocicado e, mexendo os lábios como se mastigasse, pediu-lhe licença para voltar. Depois retirou-se. Ana permaneceu no meio do salão, surpreendida e encantada, não podendo acreditar que tão extraordinária mudança na sua vida se tivesse operado com tal rapidez.
Precisamente nesta altura entrou o marido. Modeste Alexeivitch usava agora para com a mulher a mesma expressão adocicada e respeitosa que ela se acostumara a ver-lhe apenas diante dos poderosos e dos nobres. Então, segura de que dali em diante tudo lhe seria permitido e perdoado, disse-lhe num rasgo de entusiasmo, com desprezo e indignação, destacando bem cada sílaba:
- Fora daqui, imbecil!
A partir deste momento Ana não voltou a ter um dia livre. Começou a tomar parte em todos os passeios, em todos os piqueniques e em todos os espectáculos. Voltava sempre para casa já de madrugada, deitava-se no meio do salão e depois contava a toda a gente que só dormia coberta de flores.
Para esta vida era-lhe necessário muito dinheiro, mas, como já não temia o marido, dispunha da fortuna dele como se esta lhe pertencesse. Não lhe pedia nem exigia nada. Mandava-lhe simplesmente as facturas, ou bilhetes deste género: "Entrega cem rublos ao portador" ou "paga imediatamente cem rublos".
Pela Páscoa, Modeste Alexeivitch foi agraciado com a medalha de Sant'ana, de segunda classe. Ao agradecer a Sua Excelência, o governador pousou o jornal de lado e disse-lhe, afundando-se na poltrona:
- Quer dizer que agora o senhor tem três Anas: uma na lapela e duas ao pescoço.
Modeste Alexeivitch pôs os dedos na boca para conter o riso e disse:
- Resta-nos esperar a vinda ao mundo de um pequeno Vladimir. Será demasiada ousadia atrever-me a pedir que Vossa Excelência seja o seu padrinho?
Ele queria referir-se à Ordem de Vladimir, de quarta classe, e já imaginava como iria contar a toda a gente este jogo de palavras tão hábil e arrojado. Quis acrescentar ainda mais algum dito espirituoso, mas Sua Excelência, fazendo-lhe um ligeiro aceno de cabeça, enfronhou-se novamente na leitura do jornal.
Ana continuava a passear-se de troika, ia à caça com Artynov, representava peças em um acto, ceava fora de casa e visitava os seus cada vez com menos frequência. Estes, agora, jantavam sós. Piotre Leonntievitch bebia mais do que nunca. O dinheiro faltava e o harmónio-flauta fora vendido para pagar uma dívida. Os filhos proibiam-no de sair sozinho de casa e tinham de o amparar para que não se estatelasse no chão.
Quando, certo dia, passeavam na rua Vieille-de-Kiev, cruzaram-se com Ana num carro puxado a dois cavalos, com um criado ao lado e Artynov a fazer de cocheiro. Piotre Leonntievitch tirou o chapéu, preparando-se para gritar alguma coisa, mas Pétia e Andrioucha seguraram-no pelos braços, e pedindo-lhe num tom suplicante:
- Não deve fazer isso, paizinho!... Basta, paizinho...
Notas:
1 Quer dizer, o seu chefe, que tinha o posto de general.”
Anton Tchekhov
A Aposta
“Era uma escura noite de Outono. O velho banqueiro passeava de um lado para outro no seu gabinete, recordando a festa que dera quinze anos atrás, também no Outono. Nela se haviam reunido muitas pessoas de espírito, entre as quais figurava grande número de sábios e jornalistas, que haviam travado entre si conversas bastante interessantes. Um dos assuntos discutidos fora a pena de morte, contra a qual a maioria dos convidados se manifestara, considerando-a obsoleta, indigna de povos cristãos e imoral. Segundo alguns, tal castigo devia ser substituído, em todos os países, pela prisão perpétua.- Meus senhores - declara o banqueiro -, não concordo com a vossa opinião. Nunca sofri nenhuma das duas penas; no entanto, se é licito emitir um juízo a priori, considero a pena de morte mais moral e humana do que a prisão perpétua. A execução acaba com o condenado de uma vez só, ao passo que a cadeia o vai matando lentamente. Qual dos dois carrascos é mais humano: o que dá a morte em segundos, ou aquele que arranca a vida pouco a pouco, gastando anos na sua tarefa?
- Ambas as coisas são igualmente imorais - observou um dos convidados -, porque uma e outra têm o mesmo objectivo em vista: o aniquilamento da vida. O Estado não é Deus. Não lhe assiste o direito de destruir aquilo que não poderia devolver, se assim o desejasse.
Achava-se entre eles um jovem estudante de direito, de cerca de vinte e cinco anos, o qual, ao ser-lhe pedida a opinião, afirmara:
- A pena de morte e a prisão perpétua são igualmente imorais. Se, porém, me dessem a escolher, optaria, sem dúvida, pela segunda. Mais vale viver seja em que circunstâncias for do que não viver de forma alguma.
Sucedera-se acalorada discussão. O banqueiro, então ainda jovem e nervoso, perdera de súbito a calma, batera com o punho na mesa e, dirigindo-se ao estudante, exclamara:
- É falso! Aposto dois milhões em como o senhor não aguentaria cinco anos encerrado num cárcere.
- Se fala a sério - respondeu o jovem -, aposto que sou capaz de aguentar uma pena de prisão, não de cinco, mas de quinze anos.
- Quinze anos! Pois seja. Meus senhores, aposto dois milhões!
- De acordo. O senhor afasta dois milhões e eu a minha liberdade - replicou o estudante.
E assim se fez a absurda e insensata aposta. O banqueiro, homem habituado a satisfazer todos os caprichos e inconstante, a esse tempo senhor de uma fortuna que ascendia a muitos milhões, mostrara-se deveras entusiasmado. Durante a ceia, dissera ao jovem estudante, em tom de gracejo:
- Pense bem, antes que seja demasiado tarde. Para mim dois milhões constituem uma insignificância, enquanto o senhor se arrisca a perder três ou quatro dos melhores anos da sua vida. Digo três ou quatro, pois sei que não aguentará mais tempo. Não se esqueça também meu pobre amigo, de que a prisão voluntária é mais difícil de suportar que a forçada. A ideia de que pode, em qualquer momento, recuperar a liberdade, envenenar-lhe-á a vida no cárcere. Tenho pena de si.
Agora, o banqueiro, recordando tudo aquilo enquanto passeava de um lado para o outro no seu gabinete, perguntava a si próprio:
"Por que fiz essa aposta? Que utilidade pode advir do facto de este rapaz perder quinze anos da sua existência e eu atirar fora dois milhões? Provará isto que a pena de morte é melhor ou pior que a prisão perpétua? Não e não! É uma tolice, uma insensatez! Pela minha parte, não passou do simples capricho de um homem a nadar na abundância; quanto a esse jovem moveu-o simplesmente a cupidez."
Em seguida recordou o que acontecera após a referida festa. Ficara então resolvido que o jovem devia conservar-se preso, sob a mais estreita vigilância, num pavilhão existente no jardim do banqueiro.
Durante quinze anos, não lhe seria permitido transpor o limiar da porta do seu cárcere, ver quem quer que fosse, ouvir vozes humanas, receber cartas ou jornais. Podia no entanto, se assim o desejasse, dispor de um instrumento musical, ler livros, escrever cartas, beber vinho e fumar. De harmonia com o contrato, estava autorizado a comunicar, embora apenas em silêncio, com o mundo exterior, através de uma janelita aberta com esse fim. De tudo aquilo que necessitasse - livros, música, vinho - podia receber qualquer quantidade, atirando a requisição pela referida janela. No pacto não fora esquecido o mínimo pormenor susceptível de tornar a prisão absolutamente solitária, e o estudante teria de permanecer ali quinze anos completos, a contar do meio-dia de 14 de Novembro de 1870 a igual hora do mesmo dia e mês de 1885. A simples tentativa por parte do preso, para violar as condições impostas no documento, embora faltassem apenas só dois minutos para expirar o prazo, desobrigava o banqueiro do pagamento dos dois milhões.
Durante o primeiro ano passado no cárcere, o estudante, a julgar pelas suas breves notas, sofreu horrivelmente com a solidão e o tédio. Dia e noite vinha do pavilhão o som do piano. Recusava o vinho e o tabaco. "O vinho - escrevia - excita o desejo, e o desejo constitui o principal inimigo de um prisioneiro; além disso, não há coisa mais aborrecida do que beber bom vinho quando se está desacompanhado." O tabaco, dizia, viciava-lhe o ar do quarto.
Durante o primeiro ano, os livros enviados ao jovem encarcerado eram, principalmente, do género ligeiro: romances com complicadas intrigas amorosas, novelas policiais, contos fantásticos, comédias, etc...
No segundo ano, deixou de ouvir-se a música no pavilhão, e nos bilhetes que arremessava pela janela o prisioneiro só pedia obras de autores clássicos. No quinto voltaram a soar as notas do piano, e o jovem requisitou vinho.
Aqueles que o vigiavam pela janela diziam que passou todo esse ano a comer, a beber, estendido na cama. Bocejava com frequência e falava consigo próprio em tom irritado. Não lia. Às vezes, de noite, sentava-se a escrever. Ocupava-se nesta tarefa durante longo tempo, e de manhã rasgava tudo o que escrevera. Ouviram-no chorar em várias ocasiões.
Na segunda metade do sexto ano, o prisioneiro dedicou-se, afincadamente, ao estudo de línguas, filosofia e história. Atirou-se a estas matérias com tal avidez, que o banqueiro mal tinha tempo de lhe adquirir os livros de que necessitava. No espaço de quatro anos foram comprados, a seu pedido, cerca de seiscentos volumes. Foi nesse período de fome de leitura que o banqueiro recebeu dele a seguinte carta:
Meu querido carcereiro:
Escrevo-lhe estas linhas em seis línguas. Dê-as a ler a pessoas entendidas na matéria. Se não encontrar nelas qualquer falta, peço-lhe que mande disparar um tiro no jardim. Pela detonação ficarei a saber que não foram baldados os meus esforços. Os génios de todos os séculos e de todos os países exprimem-se em idiomas diferentes, mas neles arde a mesma chama. Oh! Se soubesse a celestial felicidade que experimento agora que posso compreende-los!
O desejo do jovem foi satisfeito. O banqueiro mandou disparar dois tiros no jardim.
Mais tarde, ao cabo do décimo ano de cárcere, o prisioneiro permanecia sentado, imóvel, diante da mesa, lendo apenas o Evangelho. O banqueiro achava muito estranho que um homem que durante quatro anos decora seiscentos volumes eruditos gastasse quase um ano na leitura de um livro pouco volumoso e fácil de compreender. Ao Evangelho seguiram-se a história das religiões e a Teologia.
Durante os dois últimos anos de reclusão, o estudante leu muitíssimo, servindo-lhe qualquer género, indistintamente. Tão depressa se agarrava às ciências naturais, como se voltava para Byron ou Shakespeare. Às vezes enviava um bilhete em que pedia, ao mesmo tempo, um livro de química, outro de medicina, um romance e um tratado filosófico ou biológico. Reparando nos géneros de leitura a que se entregava, dir-se-ia tratar-se de um náufrago que, nadando no mar, entre os restos de um navio, desejoso de salvar a sua vida, se agarrava, freneticamente, às tábuas que se lhe deparavam.
II
Ao recordar tudo aquilo, o velho banqueiro pensava:
"Amanhã, ao meio-dia, é posto em liberdade. De acordo com o contrato, terei de pagar-lhe dois milhões. Se assim fizer, tudo estará perdido para mim. Ficarei completamente arruinado..."
Quinze anos antes o banqueiro possuía um número incontável de milhões, enquanto agora receava perguntar a si próprio o que seria mais elevado: se o montante da sua fortuna, se o das dívidas. O jogo na Bolsa, as especulações arriscadas e uma veemência de carácter, que não conseguira nunca dominar, nem mesmo na velhice, haviam, pouco a pouco, levado os seus negócios à decadência; o homem rico e orgulhoso, sem apreensões, seguro da sua pessoa, tornara-se um banqueiro de segunda ordem, que temia cada subida ou baixa registada no mercado.
"Maldita aposta! - murmurava o velho, levando as mãos à cabeça num gesto de desespero. - Porque não morreu esse homem? Tem quarenta anos apenas. Vai levar-me tudo o que me resta, casará, gozará a vida, jogará na Bolsa... enquanto eu terei de o contemplar com inveja como um mendigo, e ouvir-lhe todos os dias as mesmas palavras: "É ao senhor que devo a minha felicidade, permita-me que o ajude". Não, é demasiado. A única coisa capaz de me salvar da falência e da vergonha seria a morte desse homem."
O relógio acabava de bater as três. O banqueiro pôs-se à escuta. Naquela casa todos dormiam; apenas se ouvia do outro lado da janela o rumor das árvores cobertas de gelo, agitadas pelo vento. Procurando não fazer o mínimo ruído, o velho tirou do cofre-forte a chave da porta que não fora aberta nos últimos quinze anos, vestiu o sobretudo e saiu. O jardim estava escuro e gelado. Chovia. Um vento húmido e cortante gemia, não deixando às árvores um instante de repouso. Por mais que se esforçasse, o banqueiro não conseguia distinguir o solo, nem as brancas estátuas, nem o pavilhão, nem as árvores. Ao aproximar-se do local onde se erguia o cárcere do estudante, chamou duas vezes pelo guarda, não tendo obtido resposta. O homem, evidentemente, abrigara-se do mau tempo, e naquele instante estava a dormitar em qualquer canto da cozinha ou da estufa.
"Se eu tiver coragem de executar o meu intento - pensou o ancião -, as suspeitas recairão, em primeiro lugar, sobre o guarda."
Tacteando, encontrou os degraus e a porta; entrou no vestíbulo do pavilhão. Em seguida, enfiou por um estreito corredor e acendeu um fósforo. Não havia ali vivalma. Apenas se lhe deparou uma cama por fazer e, ao canto, a sombra de um fogão de ferro fundido. Os selos da porta dos aposentos do prisioneiro achavam-se intactos.
Quando o fósforo se extinguiu, o banqueiro, a tremer de impaciência, espreitou pela janelita
No quarto brilhava a débil luz de uma vela. O prisioneiro, de que só se viam as costas, o cabelo e as mãos, estava sentado ao pé da mesa. Sobre esta, as duas cadeiras e o tapete havia livros abertos.
Decorreram cinco minutos sem que o ocupante daquele quarto esboçasse um movimento. Em quinze anos de prisão aprendera a conservar-se sentado em perfeita imobilidade. O banqueiro bateu com os dedos na janela, mas nem assim o prisioneiro se mexeu. Arrancou, então, os selos da porta e meteu a chave na fechadura. Esta, coberta de ferrugem, deixou ouvir um gemido rouco, e a porta rangeu. O ancião esperava escutar imediatamente um grito de espanto e o som de passos, mas três minutos se passaram e lá dentro tudo continuou tão calmo como antes. O banqueiro resolveu entrar.
Diante da mesa achava-se sentado um homem diferente dos vulgares seres humanos. Era um esqueleto recoberto de pêlo, com longo cabelo encaracolado, semelhante ao de uma mulher, e de barba desgrenhada. O rosto ostentava uma tonalidade amarela, com certo matiz terroso; tinha as faces encovadas, as costas compridas e estreitas; e a mão, sobre a qual descansava a cabeça, estava coberta de cabelo. Era tão magra e diáfana, que contemplá-la até causava pena. A sua comprida cabeleira começara já a encanecer, e ninguém acreditaria que aquele rosto senil, emaciado, pertencesse a um homem de quarenta e cinco anos apenas. Em cima da mesa, diante da sua cabeça inclinada, via-se uma folha de papel, na qual havia algo escrito em letra miudinha.
"Pobre homem! - pensou o banqueiro. - Está a dormir e, provavelmente, a sonhar com milhões! Bastar-me-á pegar neste ser semimorto, atirá-lo para cima da cama, apertá-lo um pouco com o travesseiro... e nem o mais minucioso exame descobrirá qualquer sinal de morte violenta. Antes, porém, leiamos o que ele escreveu."
O ancião pegou na folha de papel que estava sobre a mesa e leu:
Amanhã, ao meio-dia em ponto, recuperarei a minha liberdade e o direito de conviver com as outras pessoas. Antes de deixar este quarto e rever o Sol, julgo, contudo, necessário dirigir-vos algumas palavras. Com a minha consciência limpa e perante Deus que me vê, afirmo o meu desprezo pela liberdade, a vida, a saúde e tudo quanto nos vossos livros se chama bens do mundo.
Durante quinze anos estudei atentamente a vida terrena. Verdade é que eu não via nem a terra nem os homens, mas, através dos vossos livros, bebia aromático vinho, entoava cânticos, perseguia, nas florestas, veados e javalis, amava mulheres... E beldades vaporosas como nuvens, criadas pela magia do génio dos vossos poetas, visitavam-me de noite e murmuravam-me contos maravilhosos que me embriagavam os sentidos. Nos vossos livros eu escalava os cumes do Elbruz e do Monte Branco, donde avistava, de manhã, o sol a nascer e, à tarde, a inundar o céu, o oceano e as cristas das montanhas com o seu ouro carmesim. Via dali, por cima de mim, brilharem os relâmpagos, rasgando as nuvens; contemplava florestas verdes, campos, rios, lagos, cidades; ouvia o cântico das sereias e o toque das flautas pastoris; e sentia as asas de belos demónios que voavam na minha direcção para me falarem de Deus... Graças aos vossos livros despenhava-me em abismos sem fundo, obrava milagres, incendiava cidades, pregava novas religiões, conquistava reinos inteiros...
Os vossos livros deram-me a sabedoria. Tudo quanto o infatigável pensamento humano criou durante séculos acha-se comprimido numa pequena bola dentro do meu cérebro. Sou mais inteligente que todos vós, bem o sei.
E desprezo os vossos livros, desprezo todos os bens e a sabedoria deste mundo. Tudo é fútil, efémero, quimérico e enganoso, como uma miragem. Embora sejais orgulhosos, sábios e belos, a morte há-de apagar-vos da face da terra como os ratos dos campos, e a vossa descendência, a vossa história, a imortalidade dos vossos génios desaparecerão, gelados ou consumidos pelo fogo, juntamente com o globo terrestre.
Sois insensatos e seguis caminho errado. Tomais a mentira pela verdade e a fealdade pela beleza. Espantar-vos-íeis se vísseis, de súbito, as macieiras e as laranjeiras produzir rãs e lagartos, em lugar de frutos, e se as rosas começassem a exalar cheiro a suor de cavalo. Pois igual espanto eu sinto ao verificar que trocais o céu pela terra. Não quero compreender-vos.
Para vos demonstrar o meu desprezo por tudo aquilo que constitui a razão da vossa vida, recuso os dois milhões com os quais sonhei em tempos como se fossem o paraíso, mas de que agora desdenho. Para me privar do direito à sua posse sairei daqui cinco horas antes do prazo estipulado, violando assim o contrato.
Terminada a leitura, o banqueiro repôs a folha em cima da mesa, beijou a cabeça daquele estranho homem, desatou a chorar e saiu do pavilhão. Nunca, em qualquer outra ocasião, nem mesmo após as suas maiores perdas na Bolsa, ele experimentara tamanho desprezo por si próprio como agora. De volta a casa atirou-se para cima da cama, mas durante largo tempo a excitação e as lágrimas não lhe permitiram adormecer...
Na manhã seguinte, os guardas acorreram muito pálidos e comunicaram ao banqueiro que tinham visto o homem do pavilhão saltar da janela para o jardim, dirigir-se para o portão e depois desaparecer. O velho, acompanhado pelos criados, encaminhou-se logo para o que fora o cárcere do estudante e verificou a sua fuga. A fim de evitar comentários inúteis, pegou na folha do papel que continha a renúncia do prisioneiro e, quando chegou a casa, fechou-a no cofre-forte.”
Anton Tchekhov
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