Florbela Espanca, in "Correspondência (1920)"
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Amar não é Ser Egoísta
Tenho a certeza que tu és o meu maior
amigo, o mais dedicado, o melhor de todos. Como eu o vi hoje bem! Como tu és
leal e bom! Tão diferente de todos os outros homens que para te pagar o que no
futuro hei-de dever-te, será pequena a minha vida inteira, mesmo que ela seja
imensa. Os outros, amando as mulheres, são como os gatos que quando acariciam,
é a eles que acariciam. Amar não é ser egoísta, é tantas, tantas vezes o
sacrifício de nós próprios! A dedicação de todos os instantes, um interesse sem
cálculo, uns cuidados que em pequeninas coisas se revelam e o pensamento
constante de fazer a felicidade de quem se ama.
Florbela Espanca, in "Correspondência (1920)"
Florbela Espanca, in "Correspondência (1920)"
A Única Coisa que Desculpa o Casamento é o Amor
Na carta que lhe escrevi dava-lhe, como me
tinha pedido, a minha opinião sobre o casamento. É a seguinte: acho o casamento
uma coisa revoltante! E isto por uma única razão mas que para mim é tudo, para
mim e para aquelas mulheres que não são apenas fêmeas, para todas as delicadas,
para todas as que têm pudor, espírito e consciência. Essa razão é a posse, essa
suprema e grande lei da Natureza que, no entanto, revolta tudo quanto eu tenho
de delicado e bom no íntimo da minha alma.
Ganha-se um amigo muitas vezes, é certo; um
amigo que às vezes é o nosso supremo amparo, mas em compensação quantas
revoltas, quantas mágoas, quantas desilusões! Quantas!... A minha querida faz
bem, faz muito bem em não se querer sujeitar ao mercado, à venda. Eu casei e
casei por amor. É a única coisa que desculpa, no meu entender, o casamento,
porque do contrário, quando nele apenas entram o interesse e a ambição, revolta-me
e indigna-me.
Florbela Espanca, in "Correspondência (1916)
Florbela Espanca, in "Correspondência (1916)
O Dom Milagroso de um Grande Amor
Na vida de toda a gente há braçados
floridos dessas tolices sem importância. Só a raros eleitos é dado o milagroso
dom de um grande amor. Eu teria muita pena que o destino não me trouxesse esse
grande amor que foi o meu grande sonho pela vida fora. Devo agradecer ao
destino o favor de ter ouvido a minha voz. Pôr finalmente, no meu caminho, a
linda alma nova, ardente e carinhosa que é todo o meu amparo, toda a minha
riqueza, toda a minha felicidade neste mundo. A morte pode vir quando quiser:
trago as mãos cheias de rosas e o coração em festa: posso partir contente.
Florbela Espanca, in "Correspondência (1930)"
Florbela Espanca, in "Correspondência (1930)"
O Sucesso para um Grande Amor
Estou contente porque a minha querida não
tem ainda o afecto exclusivo e único que há-de sentir um dia por um homem,
apesar de todas as suas teorias que há-de ver voar, voar para tão longe
ainda!... E no entanto, elas são tão verdadeiras! Ainda assim, minha querida
Júlia, uma das coisas melhores da nossa vida de tão prosaico século, é o amor,
o grande e discutido amor, o nosso encanto e o nosso mistério; as nossas
pétalas de rosa e a nossa coroa de espinhos. O amor único, doce e sentimental
da nossa alma de portugueses, o amor de que fala Júlio Dantas, «uma ternura
casta, uma ternura sã» de que «o peito que o sente é um sacrário estrelado»,
como diz Junqueiro; o amor que é a razão única da vida que se vive e da alma
que se tem; a paixão delicada que dá beijos ao luar e alma a tudo, desde o
olhar ao sorriso, — é ainda uma coisa nobre, bela e digna! Digna de si, do seu
sentir, do seu grande coração, ao mesmo tempo violento e calmo. Esse amor que
«em sendo triste, canta, e em sendo alegre, chora», esse amor há-de senti-lo um
dia, e embora morto, perfumar-lhe-á a alma até à morte, num perfume de saudade
que jamais o tempo levará!
No entanto, o casamento é brutal, como a posse é sempre brutal, sempre! O melhor beijo, o beijo mais doce, aquele que se não esquece nunca, é aquele que nunca se deu, disse-o um dia um poeta, e eu creio. Só para as mulheres, as tais mulheres mais animais que espirituais, é que o casamento não é a desilusão de sempre, — mas então nós? Se ganhamos um grande amigo, o que nós sofremos muitas vezes! A revolta de tudo quanto há de delicado em nós, e que se ofende e se indigna com as afrontas que são afinal uma grande lei da Natureza! E não há homem, por superior que seja, que compreenda esta revolta e que a desculpe! Em tudo eu penso exactamente o mesmo que a minha querida Júlia; não há nada, tanto para os homens como para a mulher, que valha a liberdade tanto alma como de pensamento.
É o casamento um grilhão de flores e risos? De acordo, mas é
sempre um grilhão. Ria, pois, e cante com a sua bela alegria, ame doidamente
alguém, mas nunca abdique nem uma só das suas graças, nem uma só das suas
ideias que lhe fazem vincar a fronte às vezes com uma pequenina ruga de
capricho e insolência, que fica tão bem às mulheres bonitas; não ajoelhe
nunca, porque está nisso o nosso grande mal, o nosso profundíssimo erro; nós
invertemos muitas vezes os papéis, e em proveito deles, e depois as
consequências são muitas vezes as paixões que devastam uma vida inteira por
criaturas que se dignam dar, por último, como humilde mortalha, um olhar de
compaixão! O melhor de todos os homens não vale um fanatismo, creia-me, e
embora a nossa alma, com essa ânsia de amor, de ternura que canta sempre em
nós, se lhes dedique completamente, que eles o não saibam nunca, que não
suspeitem sequer!... Abdicando um grau da nossa realeza, teremos de descer
sempre, sempre, até ao fim. Não é verdade isto?
Florbela Espanca, in "Correspondência (1916)"
Florbela Espanca, in "Correspondência (1916)"
Amar Intensamente
De que vale no mundo ser-se inteligente,
ser-se artista, ser-se alguém, quando a felicidade é tão simples! Ela existe
mais nos seres claros, simples, compreensíveis e por isso a tua noiva de
dantes, vale talvez bem mais que a tua noiva de agora, apesar dos versos e de
tudo o mais. Ela não seria exigente, eu sou-o muitíssimo. Preciso de toda a
vida, de toda a alma, de todos os pensamentos do homem que me tiver. Preciso
que ele viva mais da minha vida que da vida dele.
Preciso que ele me compreenda, que me
adivinhe. A não ser assim, sou criatura para esquecer com a maior das friezas,
das crueldades. Eu tenho já feito sofrer tanto! Tenho sido tão má! Tenho feito
mal sem me importar porque quando não gosto, sou como as estátuas que são de
mármore e não sentem.
Florbela Espanca, in "Correspondência (1920)"
Florbela Espanca, in "Correspondência (1920)"
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