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O Seu Nome I


Ella não sabe a luz suave e pura
Que derrama n'uma alma acostumada
A não vêr nunca a luz da madrugada
Vir raiando senão com amargura!

Não sabe a avidez com que a procura
Ver esta vista, de chorar cançada,
A ella... unica nuvem prateada,
Unica estrella d'esta noite escura!

E mil annos que leve a Providencia
A dar-me este degredo por cumprido,
Por acabada já tão longa ausencia,

Ainda n'esse instante appetecido
Será meu pensamento essa existencia...
E o seu nome, o meu ultimo gemido

II

       Oh! o seu nome
       Como eu o digo
       E me consola!
       Nem uma esmola
       Dada ao mendigo
       Morto de fome!

       N'um mar de dôres
       A mãe que afaga
       Fiel retrato
       De amante ingrato,
       Unica paga
       Dos seus amores...

       Que rota e nua,
       Tremulos passos,
       Só mostra á gente
       A innocente
       Que traz nos braços
       De rua em rua;

       Visto que o laço
       Que a prende á vida
       E só aquella
       Candida estrella
       Que achou cahida
       No seu regaço;

       (Não que lhe importe
       A ella nada...
       Que tudo escusa;
       E até accusa
       De descuidada
       Comsigo a morte!)

       Mão bemfazeja
       Se por ventura
       Encontra um dia,
       Com que alegria,
       Com que ternura,
       Ella a não beija!...

       Mas com mais quanto
       Amor te escrevo,
       Soletro e leio
       Nome de enleio!
       Nome de enlevo!
       Nome de encanto!

III

Como a agua d'um lago—toda um nivel,
Vae de circulo em circulo ondeando,
Se a andorinha a roça ao ir voando
Atraz d'algum insecto imperceptivel;

E quebrado esse espelho em mil pedaços
(Que a imagem do céo desapparece)
Em circulos concentricos parece
Tornarem-se a formar novos espaços...

Ou como d'entre as notas ineffaveis
Dos canticos do céo—todo harmonia—
Mal sôa o dôce nome de Maria,
Pasmam as multidões innumeraveis;

E de onda em onda cada vez mais larga,
De brisa em brisa cada vez mais pura,
O nome d'essa excelsa creatura
Por todo aquelle immenso mar se alarga;

E tudo quanto cerca o trono eterno
Áquella dôce voz desprende o canto,
Formando um côro universal, em quanto
Reina silencio no profundo inferno...

Assim, n'esta paixão que me devora,
Se aos labios essas syllabas me assomam,
As negras sombras da minha alma tomam
Gradualmente o explendor da aurora!

Toda a idéa má recua um passo,
Aplanam-se os dominios do futuro,
E do crystal mais transparente e puro
Se me arqueia a abobada do espaço!

Desdobra-se o passado á luz do dia,
Em valle ameno, aos olhos da memoria;
E eu acho não ser perfida, illusoria,
A fé que eu punha em certa luz que eu via...

Vejo que aquelle informe e negro monte,
Que me tapava a mim o fim da vida,
Não era mais que a natural subida
Para se dominar vasto horizonte!...

Esse horizonte és tu, pombinha brava!
Tu, cujo peito que aliás encerra
O que ha de bello e grande em céo e terra,
Só com duas conchinhas se tapava...

Mas em quanto não chego áquella altura
D'onde se avista a terra promettida,
Irei cantando, distrahindo a vida
Com essa invocação suave e pura...

Invocação de nome tão suave
Como esse olhar!... que eu, só de vêr, suspiro!
Mas... que invoco em silencio... como admiro
A luz da lua, e o olhar da ave!...

IV

       E se algum dia
       Deres abrigo
       Ao desgraçado
       Pobre mendigo
       Expatriado,
       Morto de fome,
       Dize comtigo:
       «Mais consolado
       Se elle sentia
       Lendo o meu nome!»
João de Deus, in 'Ramo de Flores'

Não Sei o que Ha de Vago


Não sei o que ha de vago,
Incoercivel, puro,
No vôo em que divago
Á tua busca, amor!
No vôo em que procuro
O balsamo, o aroma,
Que, se uma fórma toma,
É de impalpavel flôr!

Oh como te eu aspiro
Na ventania agreste!
Oh como te eu admiro
Nas solidões do mar!
Quando o azul celeste
Descança n'essas agoas
Bem como n'estas magoas
Descança o teu olhar!

Que placida harmonia
Então a pouco e pouco
Me eleva a fantasia
A novas regiões!
Dando-me ao uivo rouco
Do mar, n'essas cavernas,
O timbre das mais ternas
E pias orações!

Parece todo o mundo
Só um immenso templo!
O mar já não tem fundo
E não tem fundo o céo!
E, em tudo, o que contemplo,
O que diviso em tudo,
És tu!... esse olhar mudo!...
O mundo... és tu... e eu!...
João de Deus, in 'Ramo de Flores'

Sêde de Amor I


Vi-te uma vez e (novo
Extranho caso foi!)
Por entre tanto povo...
Tanta mulher... Suppõe

Que mãe estremecida
Via o seu filho andar
Sobre muralha erguida,
Onde o fizesse ir dar

Aquelle remoinho,
Aquella inquietação
D'um pobre innocentinho
Ainda sem razão!

E ora estendendo os braços...
Ora apertando as mãos...
Vendo-lhe o gesto, os passos,
Quantos esforços vãos,

O triste na cimalha
Faz por voltar atraz...
Sem vêr como lhe valha!
A vêr o que elle faz!

Pallida, exhausta, muda,
Os olhos uns tições,
Com que, a tremer, lhe estuda
As mesmas pulsações...

(Porque não é mais fundo
O mar no equador,
Nem é todo este mundo
Maior do que esse amor!

Mais vasto, largo e extenso
Todo esse céo tambem
Do que o amor immenso
D'um coração de mãe!)

Assim, n'essa agonia...
N'essa intima avidez...
É que entre os mais te eu ia
Seguindo d'essa vez!

Porque te adoro!... a ponto,
Que ainda hoje, crê!
Escuto e oiço e conto
Os grãos de arêa até,

Que tu, mulher! andando
Fazias estalar
Já mesmo longe e... quando
Deixei de te avistar!

II

   Os olhos são
   D'uma expressão!
   Que linda bôca!
   O pé nem toca,
   De leve, o chão!

   Aquelle pé
   De leve até
   Nem se elle sente!
   E sente a gente
   Não sei o que é...

   E a graça, o ar,
   D'aquelle a andar!
   Que véla passa
   Com tanta graça
   Á flôr do mar!

   Os olhos vêr
   Um só volver
   De olhar tão dôce,
   Que mais não fosse...
   Era morrer!

   Os dentes sãos
   E tão irmãos
   E tão luzentes!
   Que bellos dentes!
   Que lindas mãos!

III

Estrella, nuvem, ave,
Perfume, aragem, flôr!
Consola-me! distilla,
Da languida pupilla,
O balsamo suave
De um desditoso amor!
Estrella, nuvem, ave,
Perfume, aragem, flôr!

A flôr, de que és imagem,
A flôr, de que és irmã,
Sacia-se, e desata
O seu collar de prata
Aos beijos da aragem,
Aos risos da manhã!...
A flôr, de que és imagem,
A flôr, de que és irmã!

A perola que encerra
A flôr, é sua? Não.
O pranto que a amima,
Cahiu-lhe lá de cima
Para cahir na terra,
Para cahir no chão!
A perola que encerra
A flôr, é sua? Não!

Tu já mataste a sêde,
Mata-me a sêde a mim!
Se em nuvem piedosa
Te refrescaste, rosa!
Tambem em ti eu hei de
Refrigerar-me!... sim!
Tu já mataste a sêde,
Mata-me a sêde a mim!

É para que me orvalhes
Que te orvalhou o céo!
O liquido que veio
Aljofarar-te o seio
Bem é tambem que o espalhes
No chão... o chão sou eu!
É para que me orvalhes,
Que te orvalhou o céo!
João de Deus, in 'Ramo de Flores'

Mãe e Filho


Primícias do meu amor!
Meu filhinho do meu seio
Tenro fruto que à luz veio
Como à luz da aurora a flor!

Na tua face inocente,
De teu pai a face beijo,
E em teus olhos, filho, vejo
Como Deus é providente;

Via em lâmina dourada
O meu rosto todo o dia,
E a minha alma não havia
De a ver nunca retratada?

Quando o pai me unia à face
E em seus braços me apertava,
Pomba ou anjo nos faltava
Que ambos juntos abraçasse!

Felizmente Deus que o centro
Vê da Terra e vê do abismo,
Que bem sabe no que eu cismo,
Na minha alma um altar viu dentro:

Mas com lâmpada sem brilho,
Sem o deus a que era feito...
Bafeja-me um dia o peito,
E eis feito o meu gosto, filho!

Como em lágrimas se espalma
Dor íntima e se esvaece
De alma o resto quem pudesse
Vazar todo na tua alma!

Mas em ti minha alma habita!
Mas teu riso a vida furta...
Mas que importa! (morte curta!)
Se um teu beijo ressuscita!
João de Deus, in 'Campo de Flores'

Primeiro Amor


Ó Mãe... de minha mãe!
Explica-me o segredo
Que eu mesmo a Deus sem medo
Não ia confessar:
Aquele seu olhar
Persegue-me, e receio,
Pressinto no meu seio
Ergue-se-me outro altar!

Eu em o vendo aspiro
Um ar mais puro, e tremo...
Não sei que abismo temo
Ou que inefável bem...
Oh! e como eu suspiro
Em êxtase o seu nome!...
Que enigma me consome,
Ó Mãe de minha mãe!
João de Deus, in 'Campo de Flores'

Enlevo

Não brilha o sol,
Nem póde a lua
Brilhar na sua
Presença d'ella!..
Nenhuma estrella
Brilha deante
Da minha amante,
Da minha amada!

A madrugada
Quanto não perde!
O campo verde
Quanto esmorece!
Quanto parece
A voz da ave
Menos suave
Que a sua falla!

A flôr exhala
Menos perfume
Do que é costume
O seu cabello!
Que basta vêl-o,
Prende-se a gente!
Prende-se e sente
Gosto ineffavel!

Que riso affavel
Aquelle riso!
Que paraíso
Aquella bôca!
Penetra, toca,
Enche de inveja
Um ar que seja
Da sua graça!

Onde ella passa,
Onde ella chega,
Quem lhe não prega
Olhos avaros!
Ha dotes raros,
Rara doçura
N'aquella pura
Casta existencia!

Oh! que innocencia
Que ella respira!
A alma aspira
Não sei que aroma
Mal nos assoma
Ao longe aquella
Pallida estrella,
Que rege o mundo!...

Nunca do fundo
Do oceano
Foi braço humano
Colher tão linda
Perola ainda,
Como a formosa
Candida rosa
Que eu amo tanto!

Não sei de santo
Que ha no seu gesto!
No ar modesto
D'aquelle todo...
N'aquelle modo...
Que tudo esquece,
E nos parece
Estar no céo!
João de Deus, in 'Ramo de Flores'

O Dinheiro

O dinheiro é tão bonito,
Tão bonito, o maganão!
Tem tanta graça, o maldito,
Tem tanto chiste, o ladrão!
O falar, fala de um modo...
Todo ele, aquele todo...
E elas acham-no tão guapo!
Velhinha ou moça que veja,
Por mais esquiva que seja,
                            Tlim!
                            Papo.

E a cegueira da justiça
Como ele a tira num ai!
Sem lhe tocar com a pinça;
E só dizer-lhe: «Aí vai...»
Operação melindrosa,
Que não é lá qualquer coisa;
Catarata, tome conta!
Pois não faz mais do que isto,
Diz-me um juiz que o tem visto:
                            Tlim!
                            Pronta.

Nessas espécies de exames
Que a gente faz em rapaz,
São milagres aos enxames
O que aquele demo faz!
Sem saber nem patavina
De gramática latina,
Quer-se um rapaz dali fora?
Vai ele com tais falinhas,
Tais gaifonas, tais coisinhas...
                            Tlim!
                            Ora...

Aquela fisionomia
É lábia que o demo tem!
Mas numa secretaria
Aí é que é vê-lo bem!
Quando ele de grande gala,
Entra o ministro na sala,
Aproveita a ocasião:
«Conhece este amigo antigo?»
— Oh, meu tão antigo amigo!
                            (Tlim!)
                            Pois não!
João de Deus, in 'Campo de Flores'

Sol do Meu Dia


Se eu fosse nuvem tinha imensa mágoa
Não te servindo de asas maternais
Que te pudessem abrigar da água
            Que chovesse das mais!

E sendo eu onda, tinha mágoa suma
Não te podendo a ti, mulher, levar
De praia em praia sobre a alva espuma,
            Sem nunca te molhar!

E sendo aragem eu, que pela face
Te roçasse de rijo alguma vez
Que o Senhor com mais força respirasse...
            Que mágoa imensa... Vês?

E a luz do teu olhar que me não luza
Um rápido momento a mim sequer,
Como a águia no ar, que passa e cruza
            A terra sem na ver!

Mas que me importa a mim! Se me esmagasses
Um dia aos pés o coração a mim,
As vozes que lhe ouviras, se escutasses,
            Era o teu nome... sim;

O teu nome gemido docemente,
Com toda a fé de um mártir em Jesus.
Se acaso já em Cristo pôs um crente
            A fé que eu em ti pus!

A fé, mais o amor! Porque ele expira
Sem que a ninguém lhe estale o coração;
E eu, se essa luz dos olhos me fugira,
            Sobrevivia? Não.

Assim como em ti vivo, morreria
Também contigo, se uma vez (que horror!)
Te visse pôr, ó Sol!... Sol do meu dia!
            Astro do meu amor!
João de Deus, in 'Campo de Flores'

Beijo


Beijo na face
Pede-se e dá-se:
             Dá?
Que custa um beijo?
Não tenha pejo:
             Vá!

Um beijo é culpa,
Que se desculpa:
             Dá?
A borboleta
Beija a violeta:
             Vá!

Um beijo é graça,
Que a mais não passa:
             Dá?
Teme que a tente?
É inocente...
             Vá!

Guardo segredo,
Não tenha medo...
             Vê?
Dê-me um beijinho,
Dê de mansinho,
             Dê!

*

Como ele é doce!
Como ele trouxe,
             Flor,
Paz a meu seio!
Saciar-me veio,
             Amor!

Saciar-me? louco...
Um é tão pouco,
             Flor!
Deixa, concede
Que eu mate a sede,
             Amor!

Talvez te leve
O vento em breve,
             Flor!
A vida foge,
A vida é hoje,
             Amor!

Guardo segredo,
Não tenhas medo
             Pois!
Um mais na face,
E a mais não passe!
             Dois...

*

Oh! dois? piedade!
Coisas tão boas...
             Vês?
Quantas pessoas
Tem a Trindade?
             Três!

Três é a conta
Certinho, e justa...
             Vês?
E que te custa?
Não sejas tonta!
             Três!

Três, sim: não cuides
Que te desgraças:
             Vês?
Três são as Graças,
Três as Virtudes;
             Três.

As folhas santas
Que o lírio fecham,
             Vês?
E não o deixam
Manchar, são... quantas?
             Três!
João de Deus, in 'Campo de Flores'

Espera!


Uivaria de amor a féra bruta
Que pela grenha te sentisse a mão!
E eu não sou féra, pomba! Espera! Escuta!
       Eu tenho coração!

Não é mais preto o ébano que as tranças
Que adornam o teu collo seductor!
Ai não me fujas, pomba! que me canças!
       Não fujas, meu amor!

A mim nasceu-me o sol, rompeu-me o dia
Da noite escura d'olhos taes, mulher!
Não me apagues a luz que me alumia
       Senão quando eu morrer!

Eu não te peço a ti que as mãos de neve,
Os dedos afusados d'essas mãos,
Me toquem estas minhas nem de leve...
       Seriam rogos vãos!

Não te peço que os labios nacarados
Me deixem esses dentes alvejar,
Trocando, n'um sorriso, os meus cuidados
       Em extasis sem par!

Mas uivando de amor a bruta féra
Que pela grenha te sentisse a mão,
Eu não sou féra, pomba! escuta, espera!
       Eu tenho coração!
João de Deus, in 'Ramo de Flores'

Perdão!


Seria o beijo
Que te pedi,
Dize, a razão
(outra não vejo)
Por que perdi
Tanta afeição?
Fiz mal, confesso;
Mas esse excesso,
Se o cometi,
Foi por paixão,
Sim, por amor
De quem?... de ti!

Tu pensas, flor,
Que a mulher basta
Que seja casta,
Unicamente?
Não basta tal:
Cumpre ser boa,
Ser indulgente.
Fiz-te algum mal?
Pois bem: perdoa!

É tão suave
Ao coração
Mesmo o perdão
De ofensa grave!
Se o alcançasse,
Se o conseguisse,
Quisera então
Beijar-te a mão,
Beijar-te a face...
Beijar? que disse!
(Que indiscrição...)
Perdão! perdão!
João de Deus, in 'Campo de Flores'

Melancolia


Oh dôce luz! oh lua!
Que luz suave a tua,
E como se insinua
Em alma que fluctua
De engano em desengano!
   Oh creação sublime!
A tua luz reprime
As tentações do crime,
E á dôr que nos opprime
Abres-lhe um oceano!

É esse céo um lago,
E tu, reflexo vago
D'um sol, como o que eu trago
No seio, onde o afago,
No seio, onde o aperto?
   Oh luz orphã do dia!
Que mystica harmonia
Ha n'essa luz tão fria,
E a sombra que me guia
N'este areal deserto!

Embora as nuvens trajem
De dia outra roupagem,
O sol, de que és imagem,
Não tem essa linguagem
Que encanta, que namora!
   Fita-te a gente, estuda,
(Sem mêdo que se illuda)
Essa linguagem muda...
O teu olhar ajuda...
E a gente sente e chora!

Ah! sempre que descrevas
A orbita que levas,
Confia-me o que escrevas
De quanto vês nas trevas,
Que a luz do sol encobre!
   As victimas, que escutas,
De traças mais astutas
Que as d'essas féras brutas...
E as lastimas, as luctas
Da orphã e do pobre!
João de Deus, in 'Ramo de Flores'

Desânimo

Que mimos me confortam? 

Que doce luz me acena? 
Eu tenho muita pena 
De ter nascido até! 

Quizera antes ao pé 
D'uma arvore frondosa 
Ter já em cima a lousa 
E descançar emfim! 

Alli, nem tu de mim 
De certo te lembravas, 
Nem estas feras bravas 
Me iriam assaltar! 

Alli, teria um ar 
Mais puro e respiravel, 
E a paz imperturbavel 
De quem, emfim, morreu! 

D'alli, veria o céo 
Ora sereno e puro, 
Ora toldado e escuro... 
Ainda assim melhor, 

Que este areal de amor 
Onde ando ao desamparo, 
Onde a ninguem sou caro 
E nem, a mim, ninguem! 

Alli passára eu bem 
A noite derradeira 
Á sombra hospitaleira 
Que mais ninguem me dá! 

Tu mesma, que não ha 
Quem eu mais queira e ame, 
Quem a minha alma inflamme 
De mais ardente amor, 

Os ais da minha dôr 
A ti o que te importam? 
Teus olhos nem supportam 
A minha vista ao pé! 

Que mimos me confortam? 
Que dôce luz me acena? 
Eu tenho muita pena 
De ter nascido até! 
João de Deus, in 'Ramo de Flores'

Adeus Tranças Cor de Ouro


Adeus tranças cor de ouro,
Adeus peito cor de neve!
Adeus cofre onde estar deve
Escondido o meu tesouro!

Adeus bonina, adeus lírio
Do meu exílio de abrolhos!
Adeus, ó luz dos meus olhos
E meu tão doce martírio!

Adeus meu amor-perfeito,
Adeus tesouro escondido,
E de guardado, perdido
No mais íntimo do peito.

Desfeito sonho dourado,
Nuvem desfeita de incenso
Em quem dormindo só penso,
Em quem só penso acordado!

Visão, sim, mas visão linda,
Sonho meu desvanecido!
Meu paraíso perdido
Que de longe adoro ainda!

Nuvem que ao sopro da aragem
Voou nas asas de prata,
Mas no lago que a retrata
Deixou esculpida a imagem!

Rosa de amor desfolhada
Que n'alma deixou o aroma,
Como o deixa na redoma
Fina essência evaporada!

Gota de orvalho que o vento
Levou do cálix das flores,
Curto abril dos meus amores,
Primavera de um momento!

Adeus Sol, que me alumia
Pelas ondas do oceano
Desta vida, deste engano,
Deste sonho de um só dia!

No mesmo arbusto onde o ninho
Teceu a ave inocente,
Se volta a quadra inclemente,
Acha abrigo o passarinho;

Mas eu nesta soledade
Quando em meus sonhos te estreito
Rosto a rosto, peito a peito,
Acordo e acho a saudade!

Adeus pois morte! adeus vida!
Adeus infortúnio e sorte!
Adeus estrela-do-norte!
Adeus bússola perdida!
João de Deus, in 'Campo de Flores'

Saudade


Tu és o cálix;
Eu, o orvalho!
Se me não vales,
Eu o que valho?

Eu se em ti caio
E me acolheste
Torno-me um raio
De luz celeste!

Tu és o collo
Onde me embalo,
E acho consolo,
Mimo e regalo:

A folha curva
Que se aljofara,
Não d'agoa turva,
Mas d'agoa clara!

Quando me passa
Essa existencia,
Que é toda graça,
Toda innocencia,

Além da raia
D'este horizonte—
Sem uma faia,
Sem uma fonte;

O passarinho
Não se consome
Mais no seu ninho
De frio e fome,

Se ella se ausenta,
A boa amiga,
Ah! que o sustenta
E que o abriga!

Sinto umas magoas
Que se confundem
Com as que as agoas
Do mar infundem!

E quem um dia
Passou os mares
É que avalia
Esses pezares!

Só quem lá anda
Sem achar onde
Sequer expanda
A dôr que esconde;

Longe do berço,
Morrendo á mingoa,
Paiz diverso...
Diversa lingoa...

Esse é que sabe
O meu tormento,
Mal se me acabe
Aquelle alento!

Ah, nuvem branca
Ah, nuvem d'oiro!
Ninguem me estanca
Amargo choro;

E assim que passes
Mesmo de largo...
Vê n'estas faces
Se ha pranto amargo.

Tu és o norte
Que me desvias
De ir dar á morte
Todos os dias;

A larga fita
Que d'alto monte
Cerca e limita
O horizonte!

Tu és a praia
Que eu sollicito!
Tu és a raia
D'este infinito!

Se ha uma gruta
Onde me esconda
Á força bruta
Que traz a onda;

Á força immensa
D'esta corrente
D'alma que pensa,
Alma que sente;

Se ha uma véla,
Se ha uma aragem,
Se ha uma estrella,
N'esta viagem...

É quem eu amo,
A quem adoro!
E por quem chamo!
E por quem choro!
João de Deus, in 'Ramo de Flores'

Amor Não vês como eu sigo


Teus passos, não vês?
O cão do mendigo
Não é mais amigo
Do dono talvez!

Ao pé de uma fonte
No fundo de um vale,
No alto de um monte
Do vasto horizonte,
Sem ti estou mal!

Sem ti, olho e canso
De olhar, e que vi?
Os olhos que lanço,
Acharem descanso,
Só acham em ti!

Os ventos que empolam
A face do mar,
E as ondas que rolam
Na praia, consolam
Tamanho pesar?

As formas estranhas
De nuvens que vão
Roçando as montanhas
Em ondas tamanhas
Distraem-me? Não!

A pomba que abraça
No ar o seu par,
E a nuvem que passa,
Não tem essa graça
Que tens a andar!

Parece o pezinho,
De lindo que é,
Ligeiro e levinho
O de um passarinho
Voando de pé!

O rosto, há em torno
Da pálida oval,

Daquele contorno
Tão puro, o adorno
Da auréola imortal!

Não sei que luz vaga,
Mas íntima luz,
Que nunca se apaga,
Me inunda, me alaga,
Se os olhos lhe pus!

Eu amo-te, e sigo
Teus passos, bem vês!
O cão do mendigo
Não é mais amigo
Do dono talvez!
João de Deus, in 'Campo de Flores'

Paixão


Supõe que de uma praia, rocha ou monte,
Com essa vista embaciada e turva
Que dá aos olhos entranhável dor,
Tinhas podido ver transpor a curva
Pouco a pouco do líquido horizonte
A barca saudosa que levasse
Aquele a quem primeiro uniste a face
                E o teu primeiro amor!

Depois, que toda mágoa e saudade,
Da mesma rocha ou alcantil deserto,
Olhando avidamente para o mar...
Vias na solitária imensidade
Vagas ficções de um pensamento incerto
Surgir das ondas, desfazer-se em espuma,
Não alvejando nunca vela alguma...
                E sempre a suspirar!

Até que à luz de uma intuição sublime
De alma arrancavas o gemido extremo
De saudade, desespero e dor!...
Pois é assim que eu sofro, assim que eu gemo,
Que nuvem negra o coração me oprime,
Nuvem de mágoa, nuvem de ciúme,
Em te não vendo à hora do costume...
                Meu anjo e meu amor!
João de Deus, in 'Campo de Flores'

Adeus


A ti, que em astros desenhei nos céos,
A ti, que em nuvens desenhei nos ares,
A ti, que em ondas desenhei nos mares,
A ti, bom anjo! o derradeiro adeus!

Parto! Se um dia (que é possivel flôr!)
Vires ao longe negrejar um vulto,
Sou eu que aos olhos d'esta gente occulto
O nosso immenso desgraçado amor.

Talvez as féras ao ouvir meus ais,
As brutas selvas, as montanhas brutas,
Concavas rochas, solitarias grutas,
Mais se condoam, se commovam mais!

E lá d'aquellas solidões se aqui
Chegar gemido que uma pedra estala,
Que um cedro vibra, que um carvalho abala,
Sou eu que o solto por amor de ti...

De ti! que em folha que varrer o ar,
Em rama, em sombra que bandeie a aragem,
De fito sempre n'essa cara imagem
Verei, sorrindo, sentirei passar!

De ti, que em astros desenhei nos céos!
De ti, que em nuvens desenhei nos ares!
De ti, que em ondas desenhei nos mares,
E a quem envio o derradeiro adeus!
João de Deus, in 'Ramo de Flores'

N'um Album


É esta vida um mar; e n'este mar
Qual é o astro que nos alumia?
Que norte, estrella ou bussola nos guia?
Um olhar de mulher! um terno olhar!
João de Deus, in 'Ramo de Flores'

Anseio


Oh, quem me dera embalado
Nesse berço vaporoso,
Nuvens do céu azulado...
Onde os meus olhos repouso
Já de tanto olhar cansado!

De tanto olhar à procura
De um bem que o fosse deveras;
De uma paz, de uma ventura
Dessas venturas sinceras,
Se as pode haver sem mistura.

Mas há, sem dúvida: creio
Neste desejo entranhável!
Há-de haver um rosto, um seio
De amor e gozo inefável
Donde mesmo este amor veio!

Este amor que a vós me prende,
Nuvens do céu azulado!
E a vós, lâmpadas que acende
Depois do Sol apagado
Quem... de Quem tudo depende!
João de Deus, in 'Campo de Flores'