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O próximo candidato

"Ainda jovem (mas já viúva) disfarça, com o desplante de uma cocotte, o grande e belo sorriso que Da Vinci consideraria ingênuo. É um belo sorriso que lhe banha a costa ocidental do rosto e abre uma covinha a nordeste. Tudo nela reflete o louco desejo de vir a ser viúva mais vezes. Consegui-lo-á porque, mulheres destas, persistentes e argutas, fazem amiúde da pertinácia uma fonte de inesgotáveis receitas.

Junto dela, enlevado e quase tímido, o próximo candidato. É um homem normal, o que é difícil afirmar de alguém que está vestido. Quando fala é como se procurasse as palavras num grande bolso cheio de dentes.

— Tem um lindo gato, minha senhora.

A jovem viúva retifica:

— Não é bem gato. Pertence à família dos Félidas.

O próximo candidato rebusca na memória.

— Félidas? Desconheço. Estou, aliás, como sabe, há dois dias na cidade. Mas seja como for, o gato passa ótimamente por gato.

— Mas não é. O paladar é totalmente diferente. O gato é mais doce.

— Sim, — concorda o homem, disposto de antemão a concordar com tudo — sobremaneira o siamês. Já o angorá é meio seco. E o persa, bruto. Diz então a senhora que não é gato?

A jovem viúva abana negativamente a cabecinha.

— Posso garantir-lhe. Foi o meu defunto que o trouxe da Índia.

— Antes de morrer, presumo.

— Bom. Nessa altura ainda não falecera. Mas já estava morto. Dormi quatro anos com um morto.

— Devia ter sido horrível.

Após dizer isso, e desvanecido com o animal, o próximo candidato reforça a idéia engatilhada:

— Pois em qualquer lado que o visse, afirmaria: eis aqui um estupendo, um formidável gato. No entanto, a senhora está certa: o gato é mais doce. Mesmo bastante mais doce do que o cão. A não ser o bull-dog. Gosta?

— Só com muito picante.

Após essa confissão, a juvem viúva enrubece ligeiramente, mantendo-se quieta e direita ao canto do sofá forrado de sarapilheira com frívolas flores campesinas estampadas.

— Não é então um gato?

Movimentos oscilatórios negativos da bela cabeça.

— Não, é tigre. Tigre de Bengala.

— Eis, pois, como eu gosto dos tigres: de Benegala. Já tive um, famélico e velho. Uma fraca figura. Um tigre de província.

A jovem viúva solta uma curta gargalhadinha, que já não fica mal seis meses após o óbito.

— E alimenta-se com prodigalidade, este seu tigre que imita tão bem um gato?

A airosa cabecinha mexe-se para cima e para baixo — um curioso sino de ouro, silencioso mas retumbante. E logo:

— Um tanto esquisito nas ementas, mas quando gosta, como que é um prazer observá-lo. A última coisa que comeu com muito agrado foi meu marido.

— Ah, sim?

— Sim.

— E de uma só vez?

— Oh, não. Pedaço a pedaço. Há ainda um bom naco no congelador.

O candidato ao amor da jovem viúva sorri num crescendo de enlevo e inquire com ar científico:

— Duro de roer, talvez, o ex-marido da senhora?

— Um pouco. Mas o meu tigre tem uma bela dentadura natural que faz inveja à opinião dos médicos de todo o mundo. Quer experimentar?

— Que prazer...

A jovem viúva chama o tigre, como quem chama um bichano. O animal aproxima-se do homem.

— Um verdadeiro gato de mansidão — diz, estendendo a destra até à boca do tigre. — Pronto, já me papou dois dedos. Que rapidez.

A jovem viúva finge-se comovida. O homem, afoito, determina:

— Vou dar-lhe os outros três dedos, para não ficar com a mão defeituosa. — Tira o anel. — Poderia partir um molar... Que limpeza! — e num rasgo de carinho: — Agora que fiquei sem mão, é altura de lhe pedir a sua.

A jovem viúva faz-se de um escarlate de reposteiro de veludo e simula segurar um peito que está longe de cair com medíocres números de fantasia. Muda o fio da conversa:

— Quer ver como ele é obediente?

(Não é o peito, senhores, é o tigre!)

— Estou vendo — suspira —, estou vendo. — Obediente e firme.

(Talvez ele agora se não referisse ao tigre!)

— É um animal que não come nada sem autorização. Repare... Agora, o queridinho não toca neste senhor.
O tigre lambe uma pata e fica muito quieto.

Um autêntico gato.

— O queridinho, agora, pode comer uma orelha a este senhor.

O tigre soergue-se, por segundos. Parece deliciar-se numa carícia vaga.

— Colossal. Mesmo pela base. Permite que lhe dê a outra?


— Por quem é. Ele adora orelhas. Já no que diz respeito a narizes, é um niquento. Detesta-os.

— Um autêntico gato.

— Que não arranha ninguém, aliás.

— Pode afirmá-lo, minha senhora. Levou-me ambas as orelhas sem uma única arranhadela. Este animal num circo...

— O meu marido fez a experiência. Mas o tigre comia os domadores e os espectadores gordos das primeiras filas. É um desses animaizinhos predestinados a atuar em família.

— Um autêntico gato.

— É pena andar um pouco triste — murmura a jovem viúva. — Morreu-lhe a fêmea, há poucos dias. Alivia agora o seu luto de fera. Ainda ontem comeu um mulato que veio aí para soldar um cano.

O futuro candidato solta uma longa exclamação, perguntando respeitosamente:

— E quais são os pratos favoritos deste tigre que parece mesmo um gato?

A jovem viúva baixa a voz e sopra junto das ex-orelhas do seu atual pretendente:

— Perna de padeiro, às segundas. Mão de cobrador, às terças. Braço de carteiro, às quartas. Pé de vendedor ambulante, às quintas. Às sextas, dia de peixe, nem peixe nem carne, adora mastigar políticos.

— Das direitas?

— De qualquer lado.

— E ao sábado e ao domingo? — o homem quer saber tudo, como se fosse casar com o tigre.
E ela, acessível nas explicações:

— Aos sábados e domingos, é vegetariano. Só come jardineiro ao natural e hortelão com salada russa.

— Um perfeito cavalheiro, este animal — confessa respeitoso o futuro candidato. — E as pessoas cá do prédio? Ninguém reclama por a senhora ter um tigre de Bengala em casa?

— Ah, sim. Às vezes vêm aí, batem à porta e a criada abre. Se é de manhã, o tigre toma o seu pequeno almoço de vizinho do segundo esquerdo. Se é à tarde, o tigre toma o seu lanche de vizinha do primeiro direito.

— E à noite, ao jantar?

— Já não há reclamações.

— Não? Por quê?

— Porque já não há vizinhos.

O tigre dá uma marradinha no colo da dona. A jovem viúva suspira profundamente como se lesse o "Kama Soutra".

— Um autêntico gatinho — diz o futuro candidato.

— Cuidado — aconselha a viúva. — A sua cabeça está muito perto da boca do tigre.

— Não tem importância — exclama o futuro candidato. — Trata-se de um autêntico ga...”
Santos Fernando

Fogo no coração

"O fumo, aristocraticamente, azul, mas falso como certos sangues, deu lugar a grossos rolos de partículas em suspensão, uma trave caiu, o lustre desfez-se e as línguas de fogo, que são as mais viperinas, e as gengivas de lume, rubras e descarnadas, tragavam os móveis e as tapeçarias.

— Quem é este belo jovem com capacete de oiro? — perguntou a velha senhora, reclinada no sofá.

Sacudindo algumas faúlhas da libré, o mordomo esclareceu:

— Este belo jovem com capacete de oiro é um bombeiro, "milady".

— Pois devia ter chegado mais cedo — suspirou a velha senhora.

— Quinze minutos antes do palacete começar a arder — completou o mordomo.

— Trinta anos mais cedo, antes do fim da idade de amar — retificou a velha senhora, com um sorriso repleto de implicações.

— Não é habito chegarmos antes dos incêndios — refletiu o bombeiro.

— Preconceitos, horas de serviço e burocracias — resmungou o mordomo.

— Só apareceremos — insistiu o bombeiro — quando nos chamam. Há tipos que podem chegar em qualquer altura porque vendem em todas as épocas. O bombeiro só vem quando tocam a sineta.

O mordomo deu algumas palmadas na orla do reposteiro lambido pelas chamas. E a velha senhora protestou:

— O bombeiro devia vir mais vezes. Como o leiteiro e o vendedor de detergentes.

— Os bombeiros, minha senhora, não podem andar por aí com uma malinha e uma mangueira a correr de casa em casa — manifestou o bombeiro, delicadamente. E noutro tom: — Estou a ver os voluntários a oferecer fogos a preços módicos. Arda agora e pague depois. Incêndios por catálogo, como se faz com as urnas e as flores dos mortos.

A velha senhora teve um pequeno gesto de contrariedade.

— Primeiro, venderiam o incêndio; depois o processo de o extinguirem. Tal como uma farmácia ligada a uma agência funerária.

— Poderiam telefonar de vez em quando — intrometeu-se o mordomo — a perguntar se há fogo. Que há muitos que não são por encomenda. Não é verdade, "milady"?

— Podiam telefonar a perguntar se há fogo, se já houve ou se está para haver — completou a velha senhora.

O bombeiro lança uma olhadela rápida às chamas que invadem o salão. Os tetos crepitam. Pensa: "eis um fogo simples mas bastante espetacular". E diz:

— O sótão já lá vai.

— Por que motivo — inquiriu a velha senhora — os incêndios começam sempre por cima?
O bombeiro consulta um questionário com capa de amianto, e articula:

— Para baixo todos os santos ajudam. Deve ser por isso. Mas também há eventualidades em que os incêndios principiam pelos pisos inferiores ou pelos do centro.

— Caprichos! — exclamou a velha senhora — Cá no palacete é a primeira vez que há uma fumarada destas. Só têm este gênero de fumo?

— O fumo na é deles, "milady" — explica o mordomo, dando grandes palmadas nas costas do bombeiro, que estavam a arder.

— Nós não fornecemos fumo. O próprio fogo em si é sempre fornecido pelos clientes — garante o bombeiro, que gosta de pôr as coisas no devido pé.

— Seja como for — insistiu a velha senhora — é um fumo horrível. Mal vejo o seu capacete de oiro. Traz sempre esse capacete de oiro aos incêndios?

O bombeiro nega com a cabeça.

— Só o trago aos incêndios das casas ricas. Às outras, vamos em cabelo.

— Nessa ordem de idéias — a velha senhora esmiuçava tudo — vocês devem ter trajos adequados para cada gênero de fogo.

E o bombeiro, de piquete à réplica muito rápida:

— Já temos ido de fraque a incêndios de gala. E salvo muito boa dama, de chapéu alto e asas de grilo.
A velha senhora soltou um suspiro demasiado longo para o seu velho fôlego. Vendo as chamas muito próximas do sofá, o bombeiro pede:

— Um copo de água, por favor.

— Fresca ou natural? — interessou—se o mordomo.

— Tanto faz — replicou o bombeiro.

O mordomo saiu pela única porta ainda não atingida e, ao regressar com o copo de água, informou a velha senhora de que o cozinheiro chinês estava devidamente assado ao pé do fogão.

Indiferente, a velha senhora, que se interessava por outros fatos mais saborosos, inquiriu:

— E você veio sozinho a este meu fogo?

E o bombeiro:

— Tenho os camaradas, lá em baixo, com o material.

— Ah, traz material — entusiasmou-se o mordomo.

— É mais seguro — explicou o bombeiro —. Uma escada, por exemplo, faz sempre arranjo.

— Não seria mais útil elevador? — pergunta a velha senhora.

— Talvez — condescende o bombeiro. — O mais prático, porém, é pegar nas pessoas e atira-las pela janela.

— E têm uma rede na rua? — interroga o mordomo.

— Não vale a pena. Nunca se acerta na rede. O chão é suficientemente rijo para suportar o peso de qualquer corpo — justifica o bombeiro.

E a velha senhora afirma:

— Os vossos métodos são muito perfeitos. Vê-se que a corporação é modelar.

— Chegamos a apagar fogos com chá — diz o bombeiro.

— Com chá? — admira-se o mordomo.

— Sim, em residências da alta — explica o bombeiro.

Era a vez da velha senhora interrogar.

— E aqui, como vão fazer?

— Aqui, é deixar arder.

Uma cabeça assomou à janela.

— É o meu camarada — apresentou o bombeiro.

— Que entre. Tomem uma taça de champanhe — oferece a velha senhora.

— Há uma chamada telefônica para ti — anuncia o camarada.

Enquanto o bombeiro se preparava para partir, as chamas atingiram a parte mais rica do salão. As lâmpadas dos lustres davam pequenos estalidos, os móveis crepitavam, as telas do século dezoito ardiam e as tintas iam escorrendo pelas paredes. Um relógio deu as suas últimas horas mortais. O cuco saiu pela derradeira vez e ficou frito.

— Como cai o fogo? — interessou-se o camarada.

— Vai indo, ripostou o bombeiro.

— Que calor! — soprou a velha senhora.

— Em junho é sempre assim, "milady" — considerou o mordomo.

O camarada, que tinha alma de antiquário, ao ver uma cantoneira cheia de retorcidos retorcer-se ainda mais repetia:

— Que lástima... Que lástima...

— Que pena... — murmurou então a velha senhora, ao ouvido chamuscado do belo jovem com capacete de oiro. — Que pena você não ter chegado trinta anos atrás, quando o meu peito se inflamava deveras e o meu coração ainda podia arder...”
Santos Fernando

A árvore dos sexos

"— Sabes fazer as coisas como devem ser feitas? perguntou a professora, ainda tímida e ruborizada, mas já mais afoita.

Fechara a porta devagar. O rapaz, um brutamontes na aparência, só tinha por si a força revigoradora da natureza. A cara de alarve abonava pouco, com aquelas sobrancelhas bovinas e os orifícios do nariz abertos e dilatados, como se farejasse a distância. Mas era robusto e jovem, e a professora, que até aí se mantivera intacta, dir-se-ia perturbada ao último extremo só ao adivinhar a biloba. Como se as raízes lhe envolvessem o corpo, lhe cocegassem as partes mais íntimas.

— Já estou habituado — orgulhou-se o rapaz. "Sempre será menos burro do que foi a aprender a ler", pensou ela. Com vinte e sete anos, encontrou-se na fase crítica de quem não agüenta mais. E daí talvez agüentasse, não fosse aquele grande desejo que sentira ao apanhar o fruto e ao manuseá-lo. Toda a potencialidade efervescente de vida e prazer havia-se então solto do pequenino sexo. Aquecera-lhe as mãos, e sentira um calor estranho a percorrer-lhe as pernas, um formigueiro como dantes sentia, após andar ao frio quatro quilômetros, de casa até à escola. Ignorante, esmagou o fruto por cima do vestido e os seus dedos ficaram úmidos e viscosos. No dia seguinte provou o fruto. E o desejo aumentou mais ainda. Um desejo diferente dos outros, que lhe secava a garganta e lhe oprimia o peito. Do conjunto de sensações até aí ignoradas, sobressaía o apelo visceral que vence todos os medos. Mal dormiu essa noite, às voltas na cama. Ouvia a chuva, os gemidos do vento, que ela se perguntava se seriam idênticos aos do amor. Tentou ler. Mas as linhas entrecruzavam-se como os fios elétricos vistos do trem. Adormeceu muito tarde, recordando algumas palavras de Mantegazza, que dizia que o pudor é belo, é necessário e humano, mas que devia também ser uma sebe para defender o amor, sem contudo impedir a entrada. Isto é: uma sebe que, picando as mãos, nunca constituísse uma fortaleza impossível de tomar.

Não sendo de uma beleza fora do comum, a professora era, todavia, uma mulher bem fornida e bonita, que já por várias vezes despertara em Dom Inocêncio instintos nada edificantes. Soubera até aí defender-se e, mais importante ainda, ser capaz de se manter sem atacar, suportando uma existência pouco emotiva, alheada que estava dos grandes centros onde tudo sucede sem preparação e sem cálculos. Estivera um dia à beira de um casamento de circunstância, mas tudo ficou por essa beira, e até os beijos que se trocam, temerosos mas violentos, nesses prenúncios de delírio, dera-os e recebera ela à superfície, sem aquela força e profundeza que enrola as línguas frementes na volta para uma etapa final.

Atraíra-o à escola, a pretexto de um pequeno serviço. A sala da aula estava mergulhada numa semipenumbra, com as carteiras desalinhadas e vazias. Junto ao quadro, via-se um velho divã que ela, alguns minutos antes, trouxera da arrecadação. (Vencido esse transe, a ponte estava lançada.) Por menos experiência que se tenha há sempre uma noção exata de posições mais cômodas. E se a verticalidade assenta bem em certos atos, noutros a horizontalidade traz benefícios respeitáveis. A professora conhecia o mar mas jamais havia mergulhado.

Em breve, porém, nadava de bruços, deixando-se afogar nas dores de uma asfixia breve, sem lutas desnecessárias ou o esbracejar dos inaptos, com algumas palavras soltas e queixumes confusos que se perdem na violência de um exercício que sempre se praticou com os mesmos riscos e idênticas vantagens. A princípio nervoso e apressado, o matulão soube, não obstante, comportar-se como um gentleman, não lhe rasgando as roupas e executando tudo tão certinho que a professora, antes de exalar o último suspiro de prazer, pensou que nesse instante era ela a aluna e ele o professor. Resfolegava como uma máquina, mas atuava como um homem que sabe de mecânica, mexendo onde deve ser, friccionando, premindo, aliviando, carregando, oleando, exercendo a atividade do operário que não tem pressas de acabar o serviço.

Por cima do quadro, havia representadas em pequenos cartões as sete cenas alusivas aos pecados mortais. "Soberba não é", pensaria ela, de olhos semicerrados. "Contento-me com um pedaço de felicidade. Sem arrogância. Avareza, também não: estou a gastar tudo o que tenho de mim. Não se trata de luxúria, porque à sensualidade deve opor-se um ato necessário. Tampouco há ira, pois estou calma, cada vez mais calma. Nem inveja. Pelo contrário, neste momento gostaria que todas as mulheres não realizadas pudessem estar assim como eu, numa sala de aula, onde cheira ainda às crianças e pairam ainda as suas gargalhadas. Não há gula, mas sim, e apenas, aquela dose de prazer que deve caber a cada uma. Nem preguiça, já que o meu desejo é de movimento, percorrer distâncias sem sair, porém, do mesmo lugar."

E como não havia nada disso, entregou-se com noventa partes de corpo e dez de alma à fome violenta e retraída do rapaz, que já não era bruto, nem alarve, mas o homem que cumpre uma missão e que ele pela terceira vez cumpria, cada vez com maior consciência profissional.

A chuva batia nos vidros. Caíra a noite. A professora tinha aquelas lágrimas nos olhos que se têm quando se passa no exame. Afagou os cabelos revoltos do rapaz e desceu lentamente a mão trêmula até ao diploma.”
Santos Fernando

O elétrico

“Com a mão de fora, o velhinho apanhava as folhas das árvores. Via nas faixas de rodagem camufladas com as folhas das árvores e dava grandes gargalhadas, como se o outono fosse dele. Sentados no mesmo banco, o rapaz e o velhinho eram os únicos passageiros do carro elétrico. Todos os outros bancos, incluindo os laterais, e ambas as plataformas, estavam ocupados por hirtos e silenciosos ramos de flores.

— O senhor tem sorte — disse o rapaz ao velhinho. — Conseguiu o melhor lugar. Um dia, quando casar, como afirmou Saroyan, nunca mais apanhará o lugar da janela.

O velhinho piscou um olho malicioso, de bom vidro alemão de antes do III Reich.

— Hei de manter-me solteiro para aproveitar e gozar uma senilidade tranqüila. Não me quero privar nem das janelas, nem do amor.

— Viaja há muito tempo neste carro?

— Oh, sim. Desde o tempo em que os "elétricos" falavam.

As ruas solitárias e envolvidas por um rastro de fumo azulado tinham amanhecido cobertas da minúscula flor do miosótis. Trepadeiras gigantes revestiam os prédios. Bisbilhoteiros cachos de buganvílias debruçavam-se das varandas. Nas paragens, nervosos girassóis e rosas petulantes aguardavam em bicha o seu transporte popular. E as folhas iam caindo com tal precisão que formavam grandes livros alinhados pelas avenidas. Às vezes, um sopro de vento vindo das montanhas virava-lhes as páginas vegetais até aos capítulos mais empolgantes. O mês de novembro escorria como azeite com um grau de acidez. O sol, aquecido em lume brando, empapava a cidade.

— E que fazia o senhor antigamente, antes de viajar de carro elétrico? — perguntou o rapaz.

Tinham chegado à praça da Tulipa Negra. A estátua da tulipa erguia-se majestosa e isolada no centro da rotunda. Nas esplanadas, aproveitando o verão de São Martinho, os goivos e os gerânios que faziam parte da tripulação de um barco surto no rio, os malvaíscos da Alfândega, os cóleos da estiva e as margaridas dos escritórios das redondezas, aproveitando a hora do almoço, bebiam grandes copos de água. Dois amores-perfeitos beijavam-se junto à estátua, enquanto pequenos narcisos, de uma escola primária, ouviam atentamente as explicações de uma jovem papoila aberta em vermelho à sua erudição.

— Antes de viajar de carro elétrico — respondeu, por fim, o velhinho — era industrial. Fabricava bolas de sabão. Uma ciência que vinha então de pais para filhos. Aparentemente fácil, como transformar o ouro em cobre. Mergulha-se um canudo na água do sabão e depois soprava-se. Assim... — o velhinho encheu as bochechas. — Da minha fábrica saíam por dia, para os cincos cantos do mundo, as mais vistosas bolas de sabão produzidas no país. O céu da cidade era um deslumbramento de balões coloridos, transparentes, diáfanos. Enquanto espetavam o nariz no ar, os homens não metiam o nariz nos problemas dos outros. E as mulheres tinham uns olhos mais belos por os abrirem desmedidamente à fantasia policrômica do espaço. Durante à noite havia milhares de luas que se precipitavam com suaves estampidos pelas chaminés das casas e vinhas aureolar nos jardins a cabeça dos notívagos, dos vagabundos e dos namorados.

— E ganhava muito dinheiro com isso, senhor?

— Oh, não — suspirou o velhinho. — Os poetas não ganham dinheiro. Um dia tive que fechar a fábrica. Os poetas não ganham dinheiro. Já nem me fiavam o sabão. Tentei ainda, numa água furtada, produzir bolas mais econômicas. Mas não há ersatz (1) para a beleza. As bolas saiam defeituosas; bicudas, quadradas, pálidas, efêmeras. Subiam apenas à altura da cabeça dos homens, excessivamente baixo. As bolas já não tinham vida, nem transportavam no colorido a mensagem de uma cidade de meninos. Nem saltitavam nos telhados, nem entravam pelas janelas, nem rebolavam nas camas, nos tapetes de relva, no empedrado, nos caracóis dos petizes. E a multidão ria das minhas bolas. E eu pensei que a cidade já não merecia as minhas bolas de sabão. Os poetas não ganham dinheiro.

O "elétrico" deteve-se subitamente. Cóleos, begônias e lobélias tombaram para diante.

— Mas ainda tenho uma das primeiras, das autênticas.

O rapaz viu o velhinho tirar do bolso um frasco e um tubo de plástico, e soprar através do tubo.

Uma rutilante bola de sabão ficou momentaneamente suspensa no ar. Mais pequena, uma lágrima do velhinho tombou do olho de vidro alemão de antes do III Reich.

Então o rapaz disse, em voz baixa:

— Bem, avô, é altura de acabarmos com esta farsa.

E com um movimento, rebentou a bola de sabão. Como se tivesse rebentado um enorme caleidoscópio. A campainha tocou, puxada energicamente pelo condutor.

O velhinho sorriu a sua tristeza murcha e fechou a janela, enregelado. O "elétrico" pôs-se em marcha, as flores desapareceram, e os passageiros, empurrando-se, começaram todos a falar ao mesmo tempo.”
Santos Fernando