O mundo estava em guerra
Ninguém mais se entendia
Canhões de artilharia
Davam tiros sobre a terra
Foi aí que lá na serra
Tudo se modificou
Quando alguém anunciou
Disparado na carreira
nasceu um pé de roseira
Onde a moça mijou!
Onde antes só havia
Desolação e tristeza
Pouco a pouco a natureza
Alegremente sorria
A vegetação crescia
E um riacho se formou
A água tanto aumentou
Que fez uma cachoeira
Nasceu um pé de roseira
Onde a moça mijou!
Acabou-se a tristeza
Ninguém mais ali chorava
Por ali só se falava
Na rosa e sua beleza
Como é linda a natureza
Depois que a rosa brotou
Foi ela quem nos deixou
Essa linda cachoeira
Nasceu um pé de roseira
Onde a moça mijou!
Foi tão grande a emoção
Era tanta alegria
Que todo mundo corria
No meio da multidão
Demontrando gratidão
Todo mundo se abraçou
E alegremente cantou
Repetindo a noite inteira
Nasceu um pé de roseira
Onde a moça mijou!
Foi aí que a velhinha
Que não dava mais no couro
Achou que era desaforo
O mistério da mocinha
Pegou sua bengalinha
E para a serra rumou
Quando ela se acocorou
Foi aquela cachoeira
Matou o pé de roseira
Onde a moça mijou!
Vídeo:
Mestre Ambrósio - A ROSEIRA (Onde a moça mijou) - Luiz Oliveira e Waldemar Oliveira.
Álbum: Mestre Ambrósio - Rec Beat Discos.
Ano de 1996. https://www.youtube.com/user/lucianohortencio
Estive alegre e relaxada demais. Perco-me tanto quando bebo da alegria
doce de viver. Perco-me, como se o estado hipnótico da concentração
cobrasse em mim sua moradia, tão constante. Como se mesmo quando não
escrevo, também devesse cada segundo de vida ao passo da palavra. E às
vezes a palavra apenas se parece a uma tristeza cansada de gritar.
Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados,
Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo.
Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos
Num só momento, difuso, profuso, completo e longínquo.
Beijo na boca todas as prostitutas,
Beijo sobre os olhos todos os souteneurs.
A minha passividade jaz aos pés de todos os assassinos
E a minha capa à espanhola esconde a retirada a todos os ladrões.
Tudo é a razão de ser da minha vida.
Cometi todos os crimes,
Vivi dentro de todos os crimes.
Eu próprio fui, não um nem o outro no vicio,
Mas o próprio vício-pessoa praticado entre eles
E dessas são as horas mais arco-de-triunfo da minha vida...
Multipliquei-me, para me sentir,
Para me sentir, precisei sentir tudo.
Transbordei, não fiz senão extravasar-me.
Despi-me, entreguei-me
E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente.
Os braços de todos os atletas apertaram-me subitamente feminino,
E eu só de pensar nisso desmaiei entre músculos supostos.
Foram dados na minha boca os beijos de todos os encontros,
Acenaram no meu coração os lenços de todas as despedidas.
Todos os chamamentos obscenos de gesto e olhares
Batem-me em cheio em todo o corpo com sede nos centros sexuais.
Fui todos os ascetas, todos postos-de-parte, todos os como que esquecidos.
E todos os pederastas - absolutamente todos (não faltou nenhum).
Rendez-vous a vermelho e negro no fundo-inferno da minha alma!
Freddie, eu chamava-te Baby, porque tu eras louro, branco e eu amava-te.
Quantas imperatrizes por reinar e princesas destronadas tu foste para mim!
Mary, com quem eu lia Burns em dias tristes como sentir-se viver.
Ah Mary, mal tu sabes quantos casais honestos, quantas famílias felizes,
Viveram em ti os meus olhos e o meu braço cingido e a minha consciência incerta.
A sua vida pacata, as suas casas suburbanas com jardim,
Os seus half-holidays inesperados...
Mary, eu sou infeliz...
Freddie, eu sou infeliz...
Oh, vós todos, todos vós, casuais, demorados,
Quantas vezes tereis pensado em pensar em mim, sem que o fizesses.
Ah, quão pouco eu fui no que sois, quão pouco, quão pouco.
(Trecho da Passagem das Horas, de Fernando Pessoa “Álvaro de Campos”).
Saí de casa como de costume para trabalhar. Dia frio, porém, belo!
Sigo em direção à Avenida Paulista — coração econômico da cidade de São
Paulo. Em suas calçadas, cruzo com um mar de pessoas desesperadas,
correndo — de um lado para o outro — para não chegarem atrasadas ao
serviço. Caminhando, tenho o hábito de observar o que está a minha
volta. Nesse dia (em especial) tive uma surpresa ao olhar para uma das
esquinas que cruzam com a famosa avenida. Um homem de meia idade, uma
mulher com pouco mais de 30 anos e uma criança de no máximo 10 anos
estavam dentro de um espaço construído com caixas de papelão. Seu
formato tinha a aparência de uma casa de brinquedo, contudo, era maior.
Fiquei impressionado com tal arquitetura! Entretanto, impressionado
fiquei quando li um cartaz posto em sua entrada. Seus dizeres: “Amor ñ
falta”.
Cheguei ao trabalho, concentrei — ao menos tentei! Mas não conseguia
tirar do pensamento a casa de papelão, tampouco, a frase em sua entrada.
Cumpri meu horário e retornei para casa. Como de praxe, liguei a
televisão e tentei assistir alguma coisa que valesse a pena, porém, nada
me deu entusiasmo. Ao desligar a TV, me deparo com um porta-retratos
cuja foto está a minha família — alegria estampada em cada olhar.
Lembro-me deste dia: estávamos em uma “casa real”, de concreto,
comemorando o aniversário de 80 anos do meu avô. No mesmo instante, dois
pensamentos surgiram: família é fonte de prosperidade e porta-retratos
eternizam famílias felizes!
De fato, compreendo que família é a base, o esteio, o sustento que
nos transformam em seres melhores. Todavia — depois do cartaz na fachada
da casa de papelão — tudo ficou vago. Consigo escrever, demonstrar,
parafrasear, copiar e colar tudo de belo que há na palavra família, mas
uma dúvida ainda paira: Será mesmo que porta-retratos eternizam famílias
felizes? A resposta é não. Claro que não! Momentos não são definidos
por imagens, fotografias.
Imagens captam, sim, nossos semblantes, porém
nossa alma jamais. Hoje, infelizmente, há uma inversão de valores.
Preferimos dar amor às imagens, preferimos curtidas (a cada foto que
postamos) a um abraço verdadeiro ou um momento a sós com as pessoas
reais que vivem em nosso lar, em nossa realidade.
Procuro família imperfeita para chamar de minha! Em segundos, um
comercial de uma famosa empresa de telecomunicações me vem à memória.
Seu slogan: “Rótulos não vão me definir. Quem me define sou eu”.
Adaptando a sua mensagem, extraio um precioso conceito: famílias de
verdade não precisam de rótulos para serem felizes! Ou seja, a família
perfeita é criada por pessoas imperfeitas. Não importa a sua composição
ou origem; famílias nascem de lugares onde o amor e respeito fazem a sua
morada definitiva.
“Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada.
Ninguém podia entrar nela, não. Porque na casa não tinha chão (…) Mas
era feita com muito esmero!” Engraçado, olho para diversos lares e vejo o
contrário. Vejo casas com teto, casas com chão, casas com camas, casas
com aquecedores, casas com porta-retratos, enfim, casas com tudo. Tudo e
nada dividem o mesmo espaço. Psiu, preste atenção! O tudo, aqui, nunca
vai ser constituído por essências materialistas. Que fique bem claro:
esse tudo é nada! Volto-me para a casinha de papelão e sua frase de
boas-vindas, esqueço-me dos rótulos; carrego, a partir de agora, o
seguinte dilema: “Na minha casa, na minha família, pode faltar tudo,
mas, o essencial, jamais faltará: amor!”
Quem sabe esperar o bem que deseja não toma
a decisão de se desesperar se ele não chega; aquele que, pelo contrário, deseja
uma coisa com grande impaciência, põe nisso demasiado de si mesmo para que o
sucesso seja recompensa suficiente. Há pessoas que querem tão ardente e
determinantemente certa coisa, que por medo de perdê-la, não esquecem nada do
que é preciso fazer para perdê-la. As coisas mais desejadas não acontecem; ou
se acontecem, não é no tempo nem nas circunstâncias em que teriam causado
extraordinário prazer. Jean de La Bruyére,
in "Os Caracteres"
Há pessoas que falam um momento antes de
pensar; há outras que prestam fraca atenção ao que dizem, e com as quais
sofremos, na conversação, todo o trabalho que a sua inteligência tem; estão
como amassados de frases e jeitos de expressão, concertados nos gestos e em
toda a sua atitude.
O espírito da conversação consiste muito menos em mostrar muito espírito que em
fazer com que os outros o achem: quem sai de uma palestra contente consigo
mesmo e com o seu espírito, sai perfeitamente contente com o orador. Os homens
não gostam de admirar; querem agradar: procuram menos ser instruídos, e mesmo
satisfeitos, que serem apreciados e aplaudidos; e o prazer mais delicado que há
é o de causar o dos outros. Jean de La Bruyére,
in "Os Caracteres"
É a ignorância profunda que inspira o tom
dogmático. Aquele que nada sabe pensa ensinar aos outros o que acaba de
aprender; aquele que sabe muito mal chega a pensar que o que diz possa ser
ignorado, e fala com maior indiferença. As maiores coisas só precisam de ser
ditas de forma simples; elas estragam-se com a ênfase: é preciso dizer
nobremente as pequenas; elas só se sustentam pela expressão, pelo tom e pela
maneira. Jean de La Bruyére,
in "Os Caracteres"
Há certas pessoas de certo estofo ou
carácter com as quais nunca nos devemos meter, das quais não nos devemos
queixar senão o menos que pudermos, contra as quais não é permitido termos
razão.
Entre duas pessoas que tiveram uma violenta discussão, na qual uma tem razão e
a outra não, o que a maior parte das pessoas que assistiram à discussão nunca
deixam de fazer, para se dispensarem de julgar, ou por temperamento que sempre
me pareceu deslocado, é condenar os dois: lição importante, motivo urgente e
indispensável para fugir a oriente quando o tolo está no ocidente, a fim de
evitar dividir com ele o mesmo agravo. Jean de La Bruyére,
in "Os Caracteres"
Na sociedade é a razão a primeira a ser
vencida. Os mais ajuizados são frequentemente dirigidos pelo mais louco e
extravagante: estuda-se o seu ponto fraco, o seu humor, os seus caprichos;
acomoda-se a ele; evita-se feri-lo; todo o mundo cede a ele: a menor serenidade
que aparece na sua fisionomia basta para lhe atrair elogios; acham-no óptimo
por não ser sempre insuportável. É temido, considerado, obedecido, e às vezes
amado. Só aqueles que tiveram velhos parentes colaterais, ou que os têm ainda,
dos quais se espera herdar, podem dizer o que isso custa. Jean de La Bruyére,
in "Os Caracteres"
É grande miséria não ter bastante
inteligência para falar bem, nem bastante juízo para se calar. Eis o princípio
de toda a impertinência. Dizer de uma coisa, modestamente, que é boa ou que é
má, e as razões por que assim é, requer bom senso e expressão; é um problema. É
mais cómodo pronunciar, em tom decisivo, não importa se prova aquilo que
afirma, que ela é execrável ou que é miraculosa. Jean de La Bruyére,
in "Os Caracteres"
As melhores acções
se alteram e enfraquecem pela maneira por que são praticadas, e deixam até
duvidar das intenções.
Aquele que protege ou louva a virtude pela virtude, que
corrige e reprova o vício por causa do vício, simplesmente, naturalmente, sem
nenhum rodeio, sem nenhuma singularidade, sem ostentação, sem afectação: não
usa respostas graves e sentenciosas, ainda menos os detalhes picantes e satíricos;
não é nunca uma cena que ele representa para o público, é um bom exemplo que dá
e um dever que cumpre; não fornece nada às visitas das mulheres, nem ao
pavilhão, nem aos jornalistas; não dá a um homem espirituoso matéria para boa
anedota. O bem que acaba de fazer é um pouco menos sabido e conhecido pelos
outros, na verdade; mas fez esse bem; que é que ele queria mais ? Jean de La Bruyére,
in "Os Caracteres"
No seu coração, os homens desejam ser
estimados, mas eles cuidadosamente ocultam esse desejo porque querem passar
por virtuosos e porque o desejo de receber da virtude qualquer vantagem além
dela mesma não seria ser virtuoso, mas amar a estima e o elogio — ou seja, ser
vaidoso. Os homens são muito vaidosos, mas não há nada que eles mais detestem
do que serem considerados vaidosos. Jean de La Bruyére,
in "Os Caracteres"