Se te casas, arrependes-te; se não te casa,
arrependes-te também; cases-te ou não te cases, arrependes-te sempre. Ri-te das
loucuras do mundo e irás arrepender-te; chora sobre elas, e arrependes-te
também; ri-te das loucuras do mundo ou chora sobre elas, e de ambas as coisas
te arrependes; quer te rias das loucuras do mundo, quer chores sobre elas irás
sempre arrepender-te. Acredita numa mulher, e irás arrepender-te, não acredites
nela e arrependes-te também; acredites ou não numa mulher, arrependes-te de
ambas as coisas. Enforca-te, e arrependes-te; não te enforques, e na mesma te
arrependes. É esta, meus senhores, a soma e substância de toda a filosofia.
Soren Kierkegaard, in 'Ou/Ou'
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O Efeito do Afastamento no Tempo
O afastamento no tempo engana o sentido do
espírito como o afastamento no espaço provoca o erro dos sentidos. O
contemporâneo não vê a necessidade do que vem a ser, mas, quando há séculos
entre o vir a ser e o observador, então ele vê a necessidade, como aquele que
vê à distância o quadrado como algo redondo.
Soren Kierkegaard, in 'Migalhas Filosóficas'
Soren Kierkegaard, in 'Migalhas Filosóficas'
A Arte da Recordação
A memória é não-mediada, e o que vem em seu
auxílio vem directamente; a recordação é sempre reflectida. É por isso que
recordar é uma arte. Como Temístocles, em vez de lembrar, desejo poder
esquecer; porém, recordar e esquecer não são opostos. Não é fácil a arte de
recordar, porque a recordação, no momento em que é preparada, pode
modificar-se, enquanto a memória se limita a flutuar entre a lembrança certa e
a lembrança errada. Por exemplo, o que é a saudade? É vir à recordação algo que
está na memória. A saudade gera-se simplesmente pelo facto de se estar ausente.
Arte seria conseguir sentir-se saudade sem se estar ausente. Para tanto é
preciso estar-se treinado em matéria de ilusão. Viver numa ilusão, em que o
crepúsculo é contínuo e nunca se faz dia, ou alguém ver-se reflectido numa
ilusão, não é tão difícil como alguém reflectir-se para dentro de uma ilusão e
ser capaz de deixá-la agir sobre si, com todo o poder que é o da ilusão, apesar
de se ter pleno conhecimento disso. A magia de trazer até si o passado não é
tão difícil como a de fazer desaparecer o que está presente em benefício da
recordação. É aqui que reside no fundo a arte da recordação e a reflexão
elevada à segunda potência.
Soren Kierkegaard, in 'In Vino Veritas'
Soren Kierkegaard, in 'In Vino Veritas'
A Inveja é uma Admiração que se Dissimula
A inveja é uma admiração que se dissimula.
O admirador que sente a impossibilidade de ser feliz cedendo à sua admiração,
toma o partido de invejar.
Usa então duma linguagem diferente, segundo a qual o
que no fundo admira deixa de ter importância, não é mais do que patetice
insípida, extravagância. A admiração é um abandono de nós próprios penetrado de
felicidade, a inveja, uma reivindicação infeliz do eu.
Soren Kierkegaard, in "O Desespero Humano"
Soren Kierkegaard, in "O Desespero Humano"
Fidelidade Feminina
Fala-se muito da fidelidade feminina, mas
raras vezes se diz o que convém. Do ponto de vista estritamente estético, ela
paira como um fantasma por sobre o espírito do poeta, que vemos atravessar a
cena em demanda da sua amada, que é também um fantasma preso à espera do amante
- porque quando ele aparece e ela o reconhece, pronto, a estética já não tem
mais que fazer. A infedilidade da mulher, que podemos relacionar directamente
com a fidelidade precedente, parece relevar essencialmente da ordem moral,
visto já que o cíume toca sempre os aspectos de paixão trágica.
Há três casos em que o exame é favorável à mulher: dois mostram a fidelidade, e um a infedilidade. A fidelidade feminina será enorme, excederá tudo quanto a gente possa pensar, enquanto a mulher não tiver a certeza de ser verdadeiramente amada: será muito grande, ainda que nos pareça incompreensível, quando o amante lhe perdoar; no terceiro caso temos a infedilidade.
Soren Kierkegaard, in 'O Banquete' (Discurso de Constantino)
Há três casos em que o exame é favorável à mulher: dois mostram a fidelidade, e um a infedilidade. A fidelidade feminina será enorme, excederá tudo quanto a gente possa pensar, enquanto a mulher não tiver a certeza de ser verdadeiramente amada: será muito grande, ainda que nos pareça incompreensível, quando o amante lhe perdoar; no terceiro caso temos a infedilidade.
Soren Kierkegaard, in 'O Banquete' (Discurso de Constantino)
O Tédio é a Raiz de Todo o Mal
Não admira, pois, que o mundo vá de mal a
pior e que os males aumentem cada vez mais, à medida que aumenta o tédio, e o
tédio é a raiz de todo o mal. A história deste pode acompanhar-se desde os
primórdios do mundo. Os deuses estavam entediados, pelo que criaram o homem.
Adão estava entediado por estar sozinho, e por isso foi criada Eva. Assim o
tédio entrou no mundo e aumentou na proporção do aumento da população.
Adão
aborrecia-se sozinho, depois Adão e Eva aborreceram-se juntos, depois Adão e
Eva e Caim e Abel aborreceram-se en famille; depois a população do mundo
aumentou e os povos aborreceram-se en masse. Para se divertirem congeminaram a
ideia de construir uma torre tão alta que chegasse ao céu. Esta ideia, por sua
vez, é tão aborrecida como a torre era alta, e constitui uma prova terrível de
como o tédio se tornou dominante.
Soren Kierkegaard, in 'Ou/Ou'
Soren Kierkegaard, in 'Ou/Ou'
O Egoísmo da Espécie
Os amantes querem pertencer um ao outro, e
para toda a eternidade. Exprimem-se de maneira assaz curiosa quando se abraçam
num instante de profunda intimidade para gozarem assim do máximo prazer e da
mais alta felicidade que o amor lhes pode dar. Mas o prazer é egoísta. Não há
dúvida que do prazer dos amantes não se pode dizer que seja egoísta, porque é
recíproco; mas o prazer que ambos sentem na união é absolutamente egoísta, se
for verdade que nesse abraço já se confundem num só e mesmo ser. Mas estão
enganados; porque, no mesmo instante, a espécie triunfa sobre os indivíduos;
domina-os, rebaixa-os, ao seu serviço.
Nada há que seja cómico na metade de uma maçã; cómico seria tomar por maçã inteira a metade de uma maçã; não há contradição no primeiro caso, há apenas no segundo. Se tomarmos a sério o dito de que a mulher é a metade do ser humano, a mulher não nos parecerá cómica na estranha situação do amor. O homem, pelo contrário, que goza de consideração social porque é um ser completo, torna-se cómico quando de repente se deita a correr em busca da mulher e prova assim que não deixara de ser apenas metade do ser humano. Quanto mais reflectimos tanto mais nos parecerá divertida a situação; porque se o homem é realmente um todo, na situação de amante deixa de o ser, ou então forma com a mulher muito mais do que uma unidade. Não estranhemos pois que os deuses se divirtam, e que principalmente se divirtam à custa do homem. Quando os amantes, como dois pombinhos, voam pelos céus em núpcias deliciosas, podemos acreditar que eles querem unir-se, ser uma só unidade, já que dizem querer viver um para o outro pelos tempos sem fim. Mas - é curioso -, em lugar de viverem um para o outro, vivem, sem que disso suspeitem, apenas para a espécie.
Soren Kierkegaard, in 'O Banquete' (Discurso do Mancebo, sem experiência no amor)
Julgo isto muito mais ridículo do que a
situação considerada cómica por Aristófanes. Porque o cómico desta bipartição
reside em ser contraditória, o que Aristófanes não salientou suficientemente.
Quem vê um homem, crê ver um ser inteiro e independente, um indivíduo, o que
toda a gente admite até que observe que, apoderado pelo amor, ele não passa de
uma metade que corre à procura da outra metade.
Nada há que seja cómico na metade de uma maçã; cómico seria tomar por maçã inteira a metade de uma maçã; não há contradição no primeiro caso, há apenas no segundo. Se tomarmos a sério o dito de que a mulher é a metade do ser humano, a mulher não nos parecerá cómica na estranha situação do amor. O homem, pelo contrário, que goza de consideração social porque é um ser completo, torna-se cómico quando de repente se deita a correr em busca da mulher e prova assim que não deixara de ser apenas metade do ser humano. Quanto mais reflectimos tanto mais nos parecerá divertida a situação; porque se o homem é realmente um todo, na situação de amante deixa de o ser, ou então forma com a mulher muito mais do que uma unidade. Não estranhemos pois que os deuses se divirtam, e que principalmente se divirtam à custa do homem. Quando os amantes, como dois pombinhos, voam pelos céus em núpcias deliciosas, podemos acreditar que eles querem unir-se, ser uma só unidade, já que dizem querer viver um para o outro pelos tempos sem fim. Mas - é curioso -, em lugar de viverem um para o outro, vivem, sem que disso suspeitem, apenas para a espécie.
Soren Kierkegaard, in 'O Banquete' (Discurso do Mancebo, sem experiência no amor)
História e Tempo são Sempre Contingentes
Querer predizer o futuro (profetizar) e querer
ouvir a necessidade do passado são uma única e mesma coisa, e é apenas um
problema de gosto se determinada geração acha uma coisa mais plausível que a
outra.
(...) O distanciamento no tempo engana o sentido do espírito tal como o afastamento no espaço provoca o erro dos sentidos. O contemporâneo não vê a necessidade do que vem a ser, mas, quando há séculos entre o vir a ser e o observador, este vê então a necessidade, tal como aquele que vê à distância o quadradrado como redondo.
(...) Tudo o que é histórico é contingente, pois justamente pelo facto de acontecer, de se tornar histórico, recebe o seu momento de contingência, pois a contingência é precisamente o único factor de tudo o que vem a ser.
Soren Kierkegaard, in 'Migalhas Filosóficas'
(...) O distanciamento no tempo engana o sentido do espírito tal como o afastamento no espaço provoca o erro dos sentidos. O contemporâneo não vê a necessidade do que vem a ser, mas, quando há séculos entre o vir a ser e o observador, este vê então a necessidade, tal como aquele que vê à distância o quadradrado como redondo.
(...) Tudo o que é histórico é contingente, pois justamente pelo facto de acontecer, de se tornar histórico, recebe o seu momento de contingência, pois a contingência é precisamente o único factor de tudo o que vem a ser.
Soren Kierkegaard, in 'Migalhas Filosóficas'
Lembrar ou Recordar
A recordação não tem apenas que ser exacta;
tem que ser também feliz; é preciso que o aroma do vivido esteja preservado,
antes de selar-se a garrafa da recordação. Tal como a uva não deve ser pisada
em qualquer altura, tal como o tempo que faz no momento de esmagá-la tem grande
influência no vinho, também o que foi vivido não está em qualquer momento ou em
qualquer circunstância pronto para ser recordado ou pronto para dar entrada na
interioridade da recordação.
Recordar não é de modo algum o mesmo que lembrar. Por exemplo, alguém pode lembrar-se muito bem de um acontecimento, até ao mais ínfimo pormenor, sem contudo dele ter propriamente recordação. A memória é apenas uma condição transitória. Por intermédio da memória o vivido apresenta-se à consagração da recordação.
A infância, pelo contrário, possui em grau elevado a memória e a facilidade de apreensão, mas não tem o dom da recordação. Em vez de dizer-se «a idade não esquece o que a juventude aprende», poder-se-ia talvez dizer: «o que a criança retém na memória, recorda-se o ancião». Os óculos do velho são feitos para ver ao perto. Se na juventude é preciso usar óculos, as lentes servem para ver ao longe, pois que à juventude falta a força da recordação, que consiste em afastar, em pôr à distância. Mas a recordação feliz da velhice tanto quanto a feliz capacidade de apreensão da criança são dom da natureza, uma graça que concede a sua preferência aos dois períodos mais desprotegidos da vida, que contudo, em certo sentido, são também os mais felizes. Mas é também por isso que a recordação, tal como a memória, é por vezes apenas detentora de casualidades.
Soren Kierkegaard, in 'In Vino Veritas'
Recordar não é de modo algum o mesmo que lembrar. Por exemplo, alguém pode lembrar-se muito bem de um acontecimento, até ao mais ínfimo pormenor, sem contudo dele ter propriamente recordação. A memória é apenas uma condição transitória. Por intermédio da memória o vivido apresenta-se à consagração da recordação.
A diferença é reconhecível logo nas
diferentes idades da vida. O ancião perde a memória, que aliás é a primeira
capacidade a perder-se. Contudo, o ancião tem em si algo de poético; de acordo
com a representação popular ele é profeta, é divinamente inspirado. A
recordação é afinal também a sua melhor força, a sua consolação: consola-o com
esse alcance da visão poética.
A infância, pelo contrário, possui em grau elevado a memória e a facilidade de apreensão, mas não tem o dom da recordação. Em vez de dizer-se «a idade não esquece o que a juventude aprende», poder-se-ia talvez dizer: «o que a criança retém na memória, recorda-se o ancião». Os óculos do velho são feitos para ver ao perto. Se na juventude é preciso usar óculos, as lentes servem para ver ao longe, pois que à juventude falta a força da recordação, que consiste em afastar, em pôr à distância. Mas a recordação feliz da velhice tanto quanto a feliz capacidade de apreensão da criança são dom da natureza, uma graça que concede a sua preferência aos dois períodos mais desprotegidos da vida, que contudo, em certo sentido, são também os mais felizes. Mas é também por isso que a recordação, tal como a memória, é por vezes apenas detentora de casualidades.
Soren Kierkegaard, in 'In Vino Veritas'
Nada Pior que o Mal-Entendido
Uma bagatela, como se sabe, leva uma vida
depreciada e desprezada - depois, vinga-se; porque o mal-entendido, sobretudo
quando toma uma forma violenta e má, radica naturalmente numa bagatela; senão,
não haveria mal-entendido, mas essencialmente discórdia.
O que caracteriza o mal-entendido é o seguinte: aquilo que para um é importante, é insignificante para o outro, mas no sentido de que, no fundo, as duas pessoas estão separadas por uma bagatela; estão desunidas no seu mal-entendido porque não arranjaram tempo para começarem a entender-se.
Pois, no fundo de todo o «desacordo real», há um acordo: «o mal-entendido» sem fundamento reside na falta de compreensão prévia sem a qual acordo e desacordo são, um e outro, um mal-entendido. Este pode, pois, desaparecer e transformar-se em desacordo real; porque se duas pessoas estão em desacordo real não há aí um mal-entendido, estão precisamente em desacordo real porque se compreendem mutuamente.
Soren Kierkegaard, in 'Ponto de Vista Explicativo da Minha Obra de Escritor'
O que caracteriza o mal-entendido é o seguinte: aquilo que para um é importante, é insignificante para o outro, mas no sentido de que, no fundo, as duas pessoas estão separadas por uma bagatela; estão desunidas no seu mal-entendido porque não arranjaram tempo para começarem a entender-se.
Pois, no fundo de todo o «desacordo real», há um acordo: «o mal-entendido» sem fundamento reside na falta de compreensão prévia sem a qual acordo e desacordo são, um e outro, um mal-entendido. Este pode, pois, desaparecer e transformar-se em desacordo real; porque se duas pessoas estão em desacordo real não há aí um mal-entendido, estão precisamente em desacordo real porque se compreendem mutuamente.
Soren Kierkegaard, in 'Ponto de Vista Explicativo da Minha Obra de Escritor'
Nenhum Amor é Menos Ridículo que Outro
Temos, pois, que ao amor corresponde o
amável, e que este é inexplicável. Concebe-se a coisa, mas dela não se pode dar
razão; assim também é que de maneira incompreensível o amor se apodera da sua
presa. Se, de tempos a tempos, os homens caíssem por terra e morressem
subitamente, ou entrassem em convulsões violentas mas inexplicáveis, quem é que
não sofreria a angústia? No entanto, é assim que o amor intervém na vida, com a
diferença de que ninguém receia por isso, visto que os amantes encaram tal
acontecimento como se esperassem a suprema felicidade. Ninguém receia por isso,
toda a gente ri afinal, porque o trágico e o cómico estão em perpétua
correspondência. Conversais hoje com um homem; parece-vos que ele se encontra
em estado normal; mas amanhã ouvi-lo-eis falar uma linguagem metafórica,
vê-lo-eis exprimir-se com gestos muito singulares: é sabido, está apaixonado.
Se o amor tivesse por expressão equivalente «amar qualquer pessoa, a primeira
que se encontra», compreender-se-ia a impossibilidade de apresentar melhor
definição; mas já que a fórmula é muito diferente, «amar uma só pessoa, a única
no mundo», parece que tal acto de diferenciação deve provir de motivos
profundos.
Sim, deve necessariamente implicar uma dialética de razões, e quem não as quisesse ouvir ou não as quisesse expor, ganharia mais em desculpar-se com a inoportuna extensão do discurso do que em alegar a falência total de explicações.
Sim, deve necessariamente implicar uma dialética de razões, e quem não as quisesse ouvir ou não as quisesse expor, ganharia mais em desculpar-se com a inoportuna extensão do discurso do que em alegar a falência total de explicações.
A Prova da Existência de Deus
Não será um empreendimento excêntrico
pretender extrair dos actos de Napoleão a prova da sua existência? Porque, se é
verdade que a sua existência explica os seus actos, os seus actos não podem
provar a sua existência, a menos que esta tenha já sido implicitamente posta na
palavra sua. Além disso, na medida em que Napoleão não é senão um indivíduo, não existe
entre os seus actos e ele relação absoluta tal que nenhum outro indivíduo seria
capaz das mesmas acções: é talvez essa a razão que me impede de concluir dos
actos para a existência. Com efeito, se digo que os actos são de Napoleão,
então a prova é supérflua, pois que já me referi a ela; mas se ignoro o nome do
seu autor, como provar pelos próprios actos que eles são efectivamente de
Napoleão? Não posso ultrapassar a afirmação, inteiramente abstracta, de que
procedem de um grande general, etc.
Pelo contrário, entre Deus e os seus actos
existe uma relação absoluta, porque Deus não é um nome, mas um conceito, e é
talvez por isso que a sua essentia involvit existentiam. Assim, os actos de
Deus só Deus pode praticá-los; muito bem; mas quais são então os actos de Deus?
De actos imediatos, a partir dos quais possa provar a sua existência, não vejo
o menor vestígio, a menos que admita que a acção da sua sabedoria da natureza,
da sua bondade ou da sua sabedoria na Providência entre pelos olhos dentro.
Mas, com isto, não abro eu a porta, pelo contrário, a tentações terríveis,
tentações tais que não é possível superá-las a todas? Não, de tal ordem de
considerações não consigo tirar verdadeiramente a prova da existência de Deus,
e, mesmo que o tentasse, jamais conseguiria levá-lo a termo, enquanto me veria
forçado a viver sempre em suspenso, com o receio de que me sucedesse de repente
alguma coisa tão terrível como a perda das minhas pequenas provas.
Soren Kierkegaard, in "Mitos Filosóficos"
Soren Kierkegaard, in "Mitos Filosóficos"
Um Herói não se Declara
Aquele que se expõe à morte deve estar à
altura de incutir à sua época a força da exasperação. Se, pois, vejo um homem
até então completamente desconhecido dos seus contemporâneos aparecer afirmando
que está pronto a sacrificar a sua vida e a enfrentar a morte, muito
tranquilamente então (...) eu demitiria este profeta. Nunca um tal homem
chegaria ao ponto de ser condenado à morte pela sua época, ainda que, por outro
lado, tivesse realmente a coragem de morrer e a isso estivesse disposto.
Ele
não conhece o segredo; pensa evidentemente que os seus contemporâneos, os mais
fortes, se encarregarão da execução, quando ele deveria ser de tal modo
superior ao seu tempo que não o deixasse, permanecendo ele próprio passivo,
cumprir sozinho o seu trabalho de tal modo superior que não lho indicasse mas
livremente o constrangesse a sair-se bem dele. Os juízes costumam deixar dormir
a pena capital quando um infeliz desgostado com a vida deseja a morte, e tal é
também a sabedoria desta geração: que prazer teria ele em ter feito perecer
este herói!
Soren Kierkegaard, in 'Um Homem Tem o Direito de se Deixar Condenar à Morte pela Verdade?'
Soren Kierkegaard, in 'Um Homem Tem o Direito de se Deixar Condenar à Morte pela Verdade?'
A Arte da Recordação
A memória é não-mediada, e o que vem em seu
auxílio vem directamente; a recordação é sempre reflectida. É por isso que
recordar é uma arte. Como Temístocles, em vez de lembrar, desejo poder
esquecer; porém, recordar e esquecer não são opostos. Não é fácil a arte de
recordar, porque a recordação, no momento em que é preparada, pode
modificar-se, enquanto a memória se limita a flutuar entre a lembrança certa e
a lembrança errada. Por exemplo, o que é a saudade? É vir à recordação algo que
está na memória. A saudade gera-se simplesmente pelo facto de se estar ausente.
Arte seria conseguir sentir-se saudade sem se estar ausente. Para tanto é
preciso estar-se treinado em matéria de ilusão. Viver numa ilusão, em que o
crepúsculo é contínuo e nunca se faz dia, ou alguém ver-se reflectido numa
ilusão, não é tão difícil como alguém reflectir-se para dentro de uma ilusão e
ser capaz de deixá-la agir sobre si, com todo o poder que é o da ilusão, apesar
de se ter pleno conhecimento disso. A magia de trazer até si o passado não é
tão difícil como a de fazer desaparecer o que está presente em benefício da
recordação. É aqui que reside no fundo a arte da recordação e a reflexão
elevada à segunda potência.
Soren Kierkegaard, in 'In Vino Veritas'
Soren Kierkegaard, in 'In Vino Veritas'
Memória vs Recordação - As Armas da Juventude e da Velhice
Recordar-se não é o mesmo que lembrar-se;
não são de maneira nenhuma idênticos. A gente pode muito bem lembrar-se de um
evento, rememorá-lo com todos os pormenores, sem por isso dele ter a
recordação. A memória não é mais do que uma condição transitória da recordação:
ela permite ao vivido que se apresente para consagrar a recordação. Esta
distinção torna-se manifesta ao exame das diversas idades da vida. O velho
perde a memória, que geralmente é de todas as faculdades a primeira a
desaparecer. No entanto, o velho tem algo de poeta; a imaginação popular vê no
velho um profeta, animado pelo espírito divino. Mas a recordação é a sua melhor
força, a consolação que os sustenta, porque lhe dá a visão distante, a visão de
poeta. Ao invés, o moço possui a memória em alto grau, usa dela com facilidade,
mas falta-lhe o mínimo dom de se recordar. Em vez de dizer: «aprendido na mocidade,
conservado na velhice», poderíamos propor: «memória na mocidade, recordação na
velhice». Os óculos dos velhos são graduados para ver ao perto; mas o moço que
tem de usar óculos, usa-os para ver ao longe; porque lhe falta o poder da
recordação, que tem por efeito afastar, distanciar.
O Irracional no Amor
Se é ridículo beijar uma mulher feia,
também é ridículo dar um beijo a uma beleza. A presunção de que amando de uma
certa maneira se tem o direito de rir do vizinho que tem outra maneira de amar,
não vale mais do que a arrogância de certo meio social. Tal soberba não põe
ninguém ao abrigo do cómico universal, porque todos os homens se encontram na
impossibilidade de explicar a praxe a que se submetem, a qual pretende ter um
alcance universal, pretende significar que os amantes querem pertencer um ao
outro por toda a eternidade, e, o que mais divertido é, pretende também
convencê-los de que hão-de cumprir fielmente o juramento.
Que um homem rico, muito bem sentado na sua
poltrona, acene com a cabeça, ou volte a cara para a direita e para a esquerda,
ou bata fortemente com um pé no chão, e que, uma vez perguntado pela razão de
tais actos, me responda: «não sei; apeteceu-me de repente; foi um movimento
involuntário», compreendo isso muito bem. Mas se ele me respondesse o que
costumam responder os amantes, quando lhes pedem que expliquem os seus gestos e
as suas atitudes, se me dissesse que em tais actos consistia a sua maior
felicidade, como é que eu poderia impedir-me de ver o ridículo de tal
explicação - tal como o exemplo que há pouco dei; se bem que diferente, é certo
-, enquanto tal homem não se resolvesse a pôr termo à minha hilaridade,
confessando que esses gestos não tinham significação alguma. Num repente, com
efeito, a contradição, que é a base do cómico, desaparece; porque não há nada
ridículo em que uma coisa destituída de sentido seja reconhecida como tal, mas
é grotesco atribuir-lhe um alcance universal. Em relação ao involuntário, a
contradição reaparece: não é possível admitir o involuntário num ente racional
e livre.
Soren Kierkegaard, in "O Banquete" (Discurso do Mancebo, sem experiência no amor)
Soren Kierkegaard, in "O Banquete" (Discurso do Mancebo, sem experiência no amor)
A Grandiosidade do Homem Depende da Mulher
A Grandiosidade do Homem Depende da Mulher,
mas Só Enquanto não a Possui... O homem deve à mulher tudo quanto fez de belo,
de insigne, de espantoso, porque da mulher recebeu o entusiasmo; ela é o ser
que exalta. Quantos moços imberbes, tocadores de flauta, não celebraram já o
tema? E quantas pastoras ingénuas não o ouviram também? Confesso a verdade
quando digo que a minha alma está isenta de inveja e cheia de gratidão para com
Deus; antes quero ser homem pobre de qualidades, mas homem, do que mulher -
grandeza imensurável, que encontra a sua felicidade na ilusão. Vale mais ser
uma realidade, que ao menos possui uma significação precisa, do que ser uma
abstracção susceptível de todas as interpretações.
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